Maira
Escardovelli: Banco Master - BC modernizou produtos, mas não atualizou
regulação, apontam especialistas
“O BC
[Banco Central] fazia sentido do jeito em que está há 62 anos atrás”, quando
foi criado. Essa é a avaliação de Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da
Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos
(ABBC) no que se refere à regulação da autoridade monetária máxima do Brasil.
“Estão
modernizando os produtos, mas não estão modernizando a regulação. Tem uma parte
super moderna, de sistema de pagamentos, mas o crédito: 181 milhões de cidadãos
estão negativados”, afirma.
Para o
economista, esse é um dos gargalos na atuação do BC que permitiu a liquidação
extrajudicial do Banco Master, decretada em novembro de 2025, se transformar na
crise atual e ter um forte impacto no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Desde
o início do caso, oito companhias ligadas ao banco já foram liquidadas. Neste
mês, durante a quarta-feira de cinzas (18), foi a vez do Banco Pleno S.A, que
era controlado pelo ex-CEO e ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master, Augusto
Ferreira Lima.
Segundo
Hudson Bessa, sócio da HB Escola de Negócios e professor da ESPM-SP, a crise do
Master revela falhas nas próprias normas da regulação. “O problema é tão grande
que não dá para a gente achar que as regras estavam boas. Existiam brechas que
foram encontradas. A discussão que a gente tem no Master é: por que demorou
tanto?”, analisa.
“O BC
tinha que ter atuado mais rápido. Há anos você já tinha indicadores no balanço
[financeiro do banco Master] de que poderia haver problemas, e ele não atuou”,
ressalta Troster. O Banco Master captava recursos com a garantia do FGC e
aplicava em títulos de baixa liquidez, vendendo taxas de retornos de depósito
acima dos preços praticados pelo mercado, como 120% e 140% do CDI (Certificado
de Depósito Interbancário).
A crise
do Master já é considerada a maior em relação ao impacto no Fundo Garantidor de
Crédito (FGC), apesar de outras instituições também já terem deixado um rombo
milionário no país, como o banco Santos em 2005 e o Bamerindus em 1997. Segundo
o FGC, que garante a cobertura de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, cerca de 800
mil credores do Banco Master poderão ser ressarcidos, totalizando o montante de
R$ 40,6 bilhões a serem pagos pelo fundo.
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Por que isso importa?
• Fundo Garantidor de Crédito (FGC) pode
perder mais de R$ 50 bilhões com crise em cascata causada pelo banco Master.
• Instituição privada formada pelos bancos
brasileiros, o FGC tem o objetivo de proteger investidores e prevenir que
crises atinjam o Sistema Financeiro Nacional.
Foi em
2019, quando Roberto Campos Neto era presidente, que o Banco Central começou a
implementar a sua agenda de inovação, que deu origem ao Pix, ao Open Banking e
a uma ampliação na competitividade no mercado a partir do acesso a novos
produtos de investimento no país.
Reconhecida
como positiva por economistas por ter, também, aumentado a concorrência e a
bancarização no Brasil a partir da consolidação das fintechs, a agenda, por
outro lado, foi na contramão de regulações restritivas geralmente adotadas no
país.
“Ela
foi para o outro lado, que é o lado mais liberal. Deixa o problema andar, deixa
o problema acontecer e depois a gente resolve. Mas, neste caso, o problema de
você ter uma abordagem mais liberal é que você precisa punir”, avalia Bessa.
“Quando
você tem uma lista mais restrita de produtos [de investimento], você não
precisa se preocupar muito com punição, você já breca no início. Mas, quando eu
vou na abordagem mais liberal, muitas vezes só consigo ver o problema quando
ele já cresceu. E se não punir, cria um incentivo para as pessoas fazerem
coisas erradas em série”, completa o professor da ESPM-SP.
Bessa,
no entanto, pondera que existe “um custo” em criar um sistema de controles e
verificações mais rígido, específico para situações de fraudes e uso de má-fé.
“Esse nível de custo vai tornar, por exemplo, um empréstimo muito mais caro?
Vai reduzir a oferta de produtos de captação? Vou ter taxa de juros mais alta
no empréstimo? Vai inviabilizar empresas menores de entrarem no mercado
competindo?”, indaga.
O
professor afirma, ainda, que, normalmente, “a regulação é feita para pegar
problemas na operação”. “Quando você fala de um bandido, de fraude, […] é
difícil a regulação pegar. O sujeito com a intenção de fraudar, já olha os
controles antes (…) para enganar o regulador. É outro desafio”, argumenta.
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Responsabilidades são difusas no caso Master
Na
avaliação de Troster, também é importante lembrar que as responsabilidades pelo
caso Master são “difusas” e não podem ser atribuídas apenas à regulação do BC.
Para o ex-dirigente da Febraban, outras instituições também falharam no caso,
como a Agência Pública já apontou anteriormente. Ele salienta que ao lado da
Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Banco Central é um dos principais
supervisores do mercado financeiro no Brasil.
“Faltou
um supervisor, que poderia ter sido a CVM também. O que acontece é que a
estrutura regulatória brasileira é para outro sistema financeiro, que não tinha
o que se tem agora”, explica Troster.
Professor
de derivativos, gestão de riscos financeiros e de produtos bancários no Insper,
Alexandre Jorge Chaia argumenta que a falha pode ter ocorrido devido ao tamanho
do mercado versus o potencial de fiscalização do órgão regulador. Ele cita como
exemplo os diversos fundos criados pela REAG Investimentos, liquidada pelo BC
em janeiro deste ano, um “pedacinho” de um universo que movimenta trilhões de
reais.
“Nós
estamos falando de um órgão regulador com uma quantidade limitada de
funcionários para um universo de R$ 10,5 trilhões de reais e milhões de pessoas
operando instrumentos cada vez mais complexos”, analisa Chaia. “Tem pouca gente
para regular, então você tem que investir mais em tecnologia, em inteligência
artificial, em verificação, em conformidade, criar regras mais objetivas de
verificação. Isso é um processo”, conclui.
• Um contrato caviar: nunca vi, nunca li e
só ouço falar. Por Denise Assis
Ao
pedir o arquivamento das informações que recebeu da Polícia Federal sobre o
então ministro relator do processo do Banco Master, o ministro Fachin foi
coerente. Houve uma reunião de três horas (12/02) em que por unanimidade
ministros da Suprema Corte elaboraram uma nota empenhando credibilidade ao
ministro Dias Toffoli, sob ameaça de suspeição. Em não sendo enquadrado em
suspeição, depreende-se que a maioria acreditou não haver motivos nas 200
páginas entregues ao presidente do STF, Edson Fachin, que fossem substanciais a
ponto de afastar o ministro, que saiu do processo por seus próprios pés. Então,
não restava outra posição ao presidente da Corte se não acompanhar a maioria,
certo?
A
reunião teve a participação de dois ministros online. Ou seja, até hoje há no
ar a pergunta: quem vazou uma conversa fechada? Ora, minha gente, menos
ingenuidade. Numa época em que tudo é gravado, principalmente se há a
participação online, vamos parar de teorias conspiratórias, não é mesmo?
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Com o
seu gesto de arquivamento, o presidente do STF procurou tirar de cima da Corte
os holofotes que a mídia tradicional mirou para lá. Principalmente depois de
reinaugurada a fase de "vazamentos" contínuos, rápidos, com endereço
certo, pela dupla de jornalistas que publicou o aumento vertiginoso dos
proventos da advogada Viviane Barci de Moraes. Segundo a dupla, Barci que é
casada com o ministro Alexandre de Moraes e sócia de um escritório com os
filhos, teria passado da casa dos 20 milhões para algo em torno de 79 milhões
em apenas um ano.
E mais:
a PF teria encontrado um contrato do escritório de advocacia da esposa do
ministro Moraes, com o Banco Master, que totalizava R$ 129 milhões. O montante
seria pago em 36 meses, a partir do início de 2024. Ou seja, o banco pagaria
por mês R$ 3,6 milhões ao escritório Barci de Moraes Advogados. Tudo isso,
vindo à tona a partir de "fontes", protegidas pelos jornalistas, com
base no artigo 5º da Constituição, que concede aos profissionais dessa
categoria, a prerrogativa de preservar suas fontes.
Aqui, é
preciso fazer uma pausa. O contrato, segundo as notícias, teria sido encontrado
no celular do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante as investigações da
Polícia Federal. Como o diretor da PF, Andrei Rodrigues, entregou pessoalmente
200 páginas de informações sobre Dias Toffoli colhidas no fluxo das
investigações, ao ministro Fachin, que preside a Corte, prevaleceu a instigante
insinuação de que teria sido ele a vazar a informação sobre o tal contrato de
Viviane Barci com o Master.
E há
quem tenha argumentos convincentes para isso, depois que funcionários da
Receita Federal foram pegos bisbilhotando a vida da enteada do ministro Gilmar
Mendes e a declaração de rendimentos de Viviane. "Certamente foi a PF,
porque a Fazenda não possui cópia de contratos!", rebatem.
Não se
cogita que investigadores da PF possam ter comentado a existência do esboço do
contrato que, a rigor, não chegou a ser concluído, e até exibido o esboço que
os próprios donos da notícia disseram "não estar assinado". (Daí não
poder ser publicado? Por que seria uma prova capenga?).
Outra
pausa. O artigo 5º da Constituição garante o sigilo das fontes, mas não proíbe
a divulgação do que foi apurado a partir delas. Então, cabe aqui a pergunta:
por que o documento não foi exibido em nenhuma publicação? Outra pergunta: por
que houve necessidade de se apurar o rendimento da doutora Barci, por
funcionários da Receita? Que interesse tinham esses funcionários nos
rendimentos da advogada?
Há
cerca de uma semana, a coluna de Andreza Matais, do site Metrópoles, apurou que
"as investigações indicam que o acesso sem autorização aos dados de
Viviane Barci de Moraes teria sido feito por um servidor do Serpro (empresa de
tecnologia do governo federal) cedido à Receita."
A não
publicação do contrato – e como disse acima, não haveria nenhuma restrição a
isso, do ponto de vista jornalístico –, deu início a uma pressão enorme sobre a
existência do documento. Revirar a declaração de rendas da Dra. Barci
permitiria a comprovação de que, sim, seus rendimentos, oficialmente, foram
acrescidos de alguns milhões. Bingo!
Sem o
contrato físico era preciso comprovar de forma irrefutável que houve, sim,
aumento no patrimônio da Doutora. Em sendo assim, todos estariam salvos, menos
o diretor da Polícia Federal. Sobre esse, pairando ou não dúvidas quanto à
autoria dos vazamentos, pouco ou nada influiria no fluxo natural do processo.
Tanto é, que desde que assumiu a função de novo relator, o ministro André
Mendonça o quis bem distante das apurações. Quer dizer, melhor que as suspeitas
dos vazamentos se voltem para ele, do que não haja "saída" para todo
o imbróglio que paira sobre o tal contrato.
Agora
temos uma história para "fazer sentido". O contrato foi encontrado no
celular do Vorcaro, foi teoricamente vazado com a "conivência da PF",
as informações são "verdadeiras", e tanto é assim que foram checadas
pela Receita Federal, onde seria possível provar que houve "aumento de
rendimentos" na renda da Doutora Viviane Barci, se os bisbilhoteiros não
tivessem sido pegos em pleno voo. (Contém ironia). Antes de finalizar, quero
deixar aqui um lembrete: há crimes referentes à liquidação do Banco Master, a
serem apurados do Oiapoque ao Chuí, bem distantes do Supremo Tribunal Federal.
Vai ficar por isso mesmo?
¨
Pimenta demonstra a cronologia do esquema do BolsoMaster.
Por Oliveiros Marques
Na CPMI
do INSS, o deputado Paulo Pimenta fez uma intervenção que chamou atenção não
pelo tom acusatório, mas pela forma como organizou, em sequência cronológica,
as relações políticas, institucionais e empresariais que ajudam a compreender a
trajetória do Banco Master - instituição que nasceu como Banco Máxima e que, ao
longo dos anos do governo Bolsonaro, passou a ocupar espaço relevante no
mercado financeiro nacional.
O
centro da fala do parlamentar gaúcho foi a apresentação de documentos,
registros e conexões que mostram como diferentes personagens do cenário
político e econômico se cruzam ao longo dessa história. Não se trata de afirmar
a existência de crimes, mas de demonstrar que as relações existiram, foram
documentadas e compõem um quadro político que merece atenção. Caberá ao
relatório final da CPI indicar ao Ministério Público os eventuais crimes
identificados.
Segundo
a linha do tempo apresentada, o crescimento do banco ocorreu em paralelo a
decisões e movimentos institucionais durante o governo Bolsonaro. Pimenta
destacou a atuação de figuras estratégicas, como o então presidente do Banco
Central, Campos Neto, e ministros da Previdência - entre eles Onyx Lorenzoni -
que, dentro de suas atribuições, integraram um ambiente regulatório e político
no qual teria sido facilitada a expansão dos negócios do banco.
A
cronologia ganha ainda mais peso ao alcançar o campo político-eleitoral.
Fabiano Zettel, pastor da Igreja Lagoinha de Nikolas Ferreira e cunhado de
Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, aparece como um dos maiores
doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022,
reforçando a proximidade entre relações pessoais, financeiras e articulações
políticas.
Outro
eixo da exposição envolve operações financeiras com precatórios, uso de fundos
de pensão de governos estaduais e prefeituras e aquisição de ativos de alto
risco - os chamados papéis podres - elementos que, segundo o deputado, ajudam a
explicar a estratégia de crescimento da instituição. Nesse contexto, a
possibilidade de aquisição do Banco Master pelo BRB foi citada como um
movimento que levanta questionamentos políticos e econômicos sobre os
interesses em jogo.
A fala
também chamou atenção para a presença de ex-integrantes do governo Bolsonaro em
posições ligadas ao banco ou ao seu entorno. Ex-ministros e figuras próximas ao
núcleo do poder aparecem, segundo os documentos apresentados, conectados ao
grupo econômico em diferentes níveis. Entre os nomes citados estão Flávia Péres
e Ibaneis Rocha, além de personagens que circularam pela chamada “cozinha do
Palácio” e que hoje mantêm vínculos diretivos, pessoais e empresariais com
sócios ligados ao banco.
Ao
organizar esses fatos em sequência, Pimenta mostra que a história do Banco
Master não pode ser analisada apenas sob a ótica financeira. Para ele,
compreender o caso exige observar como política, financiamento eleitoral,
relações pessoais e decisões institucionais se entrelaçam ao longo do tempo.
A força
da apresentação está justamente nessa reconstrução cronológica das conexões -
não como sentença, mas como narrativa sustentada por documentos e registros que
indicam a existência de uma rede de relações econômicas e políticas reais,
concretas e relevantes, que devem, sim, ser investigadas a fundo.
Talvez
aí resida o grande alívio de setores da direita por Vorcaro ter sido permitido
não depor na CPI.
Fonte:
Agência Pública/Brasil 247

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