Raúl
Zibechi: O levante indígena contra a privatização de rios no Brasil
Dia
23/02, completou 30 dias do acampamento de cerca de 600 pessoas de 14 povos
indígenas da Amazônia em frente ao porto da Cargill, em Santarém. Elas exigem
que o governo Lula revogue o Decreto 12.600, que prevê a dragagem do rio e a
transformação das águas do Rio Tapajós em uma hidrovia privatizada para o
transporte de soja e outros grãos.
Embora
o governo tenha recuado, dias atrás, no tocante à dragagem, mantém a
privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins como parte do Programa
Nacional de Desestatização, o que significa que a gestão e a manutenção dessas
hidrovias, que totalizam 280 km somente no Tapajós, serão transferidas para
grandes empresas multinacionais vinculadas ao agronegócio. Isto implica a
construção de novos portos privados, transformando o rio em um corredor
fluvial, sem a consulta aos povos que vivem no e com o rio.
As
monoculturas de soja e milho estão destruindo a Amazônia, desmatando a floresta
e envenenando as águas e o meio ambiente com o uso excessivo de agrotóxicos. É
simplesmente estarrecedor o que está acontecendo com um dos principais
afluentes da Amazônia, o Tapajós: trens com até 35 barcaças transportam grãos
para a China e a Europa. Foram construídos ou estão em projetos 41 portos sobre
o rio por onde, no ano passado, circularam mais de 15 milhões de toneladas.
A
poluição por mercúrio, proveniente da mineração legal e ilegal, e a remoção do
leito do rio são os maiores desafios para os povos. Segundo Rafael Zilio, ao
conceber um rio como uma mera “hidrovia”, “o Estado e as grandes corporações
dos setores de mineração e agronegócio perpetuam a devastação ambiental na
Amazônia”.
No
último mês, a estrada para o aeroporto e o próprio aeroporto de Santarém foram
bloqueados por algumas horas. Silvia Adoue recorda que “os munduruku não
esperaram a demarcação de seu território pelo Estado”; como povo, procederam
com a “autodemarcação em aliança com as comunidades de pescadores”, o que
demonstra a capacidade de “articulação entre povos com perspectivas de mundo
diferentes”.
Esta é
uma breve e incompleta síntese de uma resistência pela vida que há muitos anos
está de pé. Penso que podemos tirar algumas conclusões desta luta notável.
A
primeira é que ocorre sob um governo progressista, sendo Guilherme Boulos o
secretário da Presidência e Sonia Guajajara a ministra dos Povos Indígenas,
ambos do “radical” Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Quem acredita que
eles podem fazer algo diferente do que o grande capital deseja está muito
enganado. São os melhores representantes das ambições das multinacionais,
diante do vergonhoso silêncio do movimento sindical e do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cujo principal objetivo é a reeleição de
Lula.
A
segunda é que o capitalismo pretende, e está implementando, a privatização
completa da natureza para acumular cada vez mais capital. Transformar os
grandes rios amazônicos em hidrovias repletas de infraestruturas é a garantia
de sua destruição e do aniquilamento dos povos que habitam suas margens.
A
acumulação de capital não tem limites, exceto pelo que os povos e movimentos
podem fazer para detê-la. Enquanto os de cima, da esquerda ou da direita, e até
mesmo os “radicais” abonam o agronegócio, levantam um discurso “correto” em que
se permitem mentir e até alegar que apoiam as reivindicações dos povos
indígenas. O próprio Boulos havia se comprometido a realizar consultas antes do
início das obras, questão que nunca cumpriu.
A luta
é muito desigual. A Cargill fatura 154 bilhões de dólares por ano e conta com o
apoio do Estado e do governo brasileiro, enquanto os povos são relativamente
pequenos (os munduruku são 13.000 pessoas) e só contam com o apoio de outros
povos semelhantes, como ficou evidente nesses dias.
A
terceira se relaciona com a decisão de defender a vida e a dignidade dos povos.
O relatório da Sumaúma destaca que esses povos estão na “linha de frente da
resistência ao agrocapitalismo global”. Embora sejam poucos, estão decididos e
firmes e não retrocederão. Uma mulher munduruku disse: “Os brancos veem o rio
como uma mercadoria; para nós, é vida”. É exatamente o que os povos indígenas
em todo o mundo vêm dizendo, do Wallmapu à Mesoamérica.
Essa
resistência na adversidade deveria ser uma fonte de aprendizado para todos e
todas. Uma vez que sabemos que nem a direita e nem a esquerda farão algo para
salvar a humanidade da catástrofe, é a vez dos povos que estão colocando o
corpo, e o sangue, para defender a vida e a natureza
• A erosão dos direitos fundamentais e a
resistência nos territórios. Por Cláudia Pereira
Ao
questionarmos quais direitos fundamentais estão sob ameaça no chão brasileiro
hoje, a resposta se torna em outra pergunta: por qual eixo devemos começar a
elencar estes retrocessos? As frentes de ataques são múltiplas e começam pela
insegurança jurídica. O Estado, muitas vezes, é o primeiro agente de violência
ao promover a morosidade na regularização dos territórios. Esse vácuo
institucional abre caminho para a violência física, perseguições, assassinatos
e uma impunidade crônica que dizemos aqui que se parece ser a regra, não a
exceção.
Nesse
cenário, o Brasil assiste a um embate desigual. De um lado, o projeto de
expansão predatória do agronegócio, a grilagem de terras, os grandes projetos
capitalistas de energias renováveis e a exploração desenfreada dos bens
naturais. De outro, a resistência de povos e comunidades que seguem defendendo
seus modos de vida e o direito originário à terra. A ausência de uma política
efetiva de Reforma Agrária e a desvalorização histórica dos povos e comunidades
tradicionais “esquecem” essas populações a uma invisibilidade social e
política, aprofundando o quadro de violência.
Para os
povos das florestas, do campo e das águas, o direito ao território não é apenas
uma questão de propriedade; é o alicerce para a vida, a alimentação e a
cultura. Ailton Krenak, em seu livro Futuro Ancestral, nos convida a refletir
sobre a necessidade de mergulhar profundamente na terra para recriar mundos
possíveis. A resistência que vemos hoje nos territórios e comunidades de todo
país é a tradução exata dessa premissa. O paradoxo é cruel: os guardiões da
biodiversidade são justamente aqueles sitiados por um modelo de desenvolvimento
que os exclui. Tal cenário já não é alheio a ninguém, especialmente para quem
detém o poder: todos sabem, mas fingem ignorar o óbvio.
A
violência se manifesta de forma direta e cotidiana: incêndios em quilombos,
assassinatos de jovens indígenas e o asfixiamento de comunidades por projetos
de infraestrutura que avançam com a omissão do poder público. É o que
testemunhei em estados como Maranhão e Minas Gerais, nos últimos três anos
reportando notícias sobre os povos. Essa dor precisa ser sentida pela
sociedade. Ao pautar notícias através de uma comunicação sociotransformadora,
percebo que a sociedade precisa “sentir no corpo” o que significa o medo de
quem não pode ir trabalhar na sua roça ou na pesca, fazer sua colheita, devido
às ameaças e a mira das milícias rurais. É preciso compreender o impacto de
viver sob o ruído constante de turbinas eólicas que alteram o silêncio dos
ventos, do mar, dos ritos sagrados e degradam o ecossistema.
É neste
contexto que surge, então, a “Transição Energética“, que na prática tem se
revelado uma transação energética. Sob o pretexto da crise climática, projetos
de energias renováveis, hidrogênio verde e as eólicas avançam sobre terras
ancestrais ignorando os impactos socioambientais, como ocorre na comunidade
quilombola do Cumbe, no Ceará. A negação de direitos é diária: no Maranhão,
águas são envenenadas por agrotóxicos; em Minas, pescadores são encurralados
por projetos ditos “sustentáveis”. Na região amazônica, a estiagem severa já
acontece pelo segundo ano consecutivo comprometendo a subsistência básica,
evidenciando que a negação de direitos é diária e multifacetada.
A
agressão aos territórios se estende, inevitavelmente, às águas. A água é
sagrada. Para os povos e comunidades tradicionais, o valor da água transcende,
mas hoje está sob ameaça direta: quando não é a contaminação por agrotóxicos e
mercúrio que mata os peixes e adoece as comunidades, é a privatização que
ameaça a vida dos rios, como se vê o que está acontecendo no Rio Tapajós. Na
Amazônia, rios são convertidos em hidrovias por meio de dragagens realizadas
sem qualquer consulta prévia às populações locais, ignorando tratados
internacionais. O absurdo é institucionalizado quando estados utilizam decretos
para burlar leis federais, facilitando a privatização não apenas da terra, mas
dos recursos hídricos, transformando um bem comum em mercadoria.
Apesar
do cerco, o grito de resistência não silencia, ecoa. Lideranças utilizam
espaços internacionais para denunciar governos que negam direitos enquanto
abrem espaços para destruidores. Diante da violação da Convenção 169 da OIT, a
resposta tem sido a organização coletiva, como a Teia dos Povos e Comunidades
Tradicionais do Maranhão, que tece saberes em busca da autonomia e o Bem Viver.
Neste
2026, ano eleitoral, é urgente que esse grito ensurdecedor alcance alguns
ouvidos e transforme em consciência política. A escolha de nossos
representantes para o Congresso Nacional não é apenas um ato isolado na urna; é
uma escolha que impacta diretamente a soberania popular e a proteção da nossa
democracia. Iniciativas como a campanha “Eu voto pela Amazônia” reforçam que
votar com responsabilidade é lutar pela dignidade de quem vive no campo e na
cidade.
O apoio
de organizações como a Articulação das Pastorais do Campo (APC) é fundamental
para documentar conflitos e oferecer suporte jurídico. Espaços como o Curso de
Especialização em Direito Agrário permitem que a juventude e as lideranças
tradicionais aprofundem o debate sobre a proteção de vidas ameaçadas e a
partilha equitativa da terra. Além disso, como cristãos, é fundamental refletir
que, sob a luz da Doutrina Social da Igreja e das críticas do Papa Francisco ao
capitalismo neoliberal, o nosso dever é combater a ‘cultura do descarte’ — um
modelo onde a lógica do lucro se sobrepõe sistematicamente à vida humana.
Os
povos se fortalecem pelo anúncio da esperança plantada na terra sagrada. O
fortalecimento das redes transforma o cotidiano em vigília constante, onde a
música e a arte, o tambor de crioula, o bumba meu boi, o fandango caiçara e o
maracatu, são ferramentas de defesa. A proteção dos povos é a proteção do
futuro. A justiça climática deve caminhar de mãos dadas com a democracia.
A
proteção dos povos é a proteção do futuro. Como bem afirmou a Irmã Jane Dwyer,
de Anapu, em entrevista durante a COP30: “a verdadeira mudança vem de baixo, de
quem vive junto a essa realidade”. Enquanto o cenário global debate créditos de
carbono, falsas soluções, os povos lutam pelo direito de permanecer, existir e
resistir em seus territórios sagrados. Sobre a pergunta de quais direitos
fundamentais estão mais ameaçados hoje, a resposta é definitiva: a VIDA está
ameaçada.
É
preciso coragem para seguir tecendo o esperançar por meio das articulações com
os povos organizados. Nesse processo, a comunicação, que também promove
incidência política se une à arte, à cultura e à música. Penso que tudo isso é
luta política: são as nossas ferramentas fundamentais de defesa e
sobrevivência.
• Depois da COP, continuamos nós. Por Tainá Rionegro
A COP
passou.
Desmontaram
as estruturas, recolheram os crachás, as autoridades foram embora.
Mas
aqui ninguém foi embora.
O rio
continuou correndo, mesmo ameaçado por barragem.
Imagina
você, querem nos barrar logo no território da cabanagem!
As
mulheres continuaram organizando futuros mandatos, reunião, roça, escola,
assembleia.
A crise
climática não acabou quando a conferência acabou. Para nós, nunca foi evento.
Sempre foi sobre proteger a vida na Amazônia e do mundo.
Perguntei
a Vall Munduruku depois de um encontro de fortalecimento de mulheres amazônidas
conduzido por mulheres amazônidas, quais “resultados”, “acordos históricos”,
“metas” são necessárias para sairmos bem da COP?
Ela me
disse vários, mas a resposta que realmente me fez refletir, foi:
—
Engraçado, né? Parece que eles estão começando agora uma conversa que a gente
vive há séculos.
Fiquei
pensando nisso.
“Para o
mundo, debate climático é plenária, acordo, reunião.
Para
nós, é território de comunhão”.
Perguntei
como ela imaginava que teria sido se aquela conferência tivesse realmente a
nossa cara.
Ela não
falou de palco, nem de auditório. Falou de acolhimento.
— Eu
começava com um grande ritual. Um puxirum. Todo mundo junto. Pra mostrar que a
Amazônia não é só floresta. É povo.
A
palavra puxirum ficou ecoando, porque é isso que os povos de verdade, gente
como a gente, sabe fazer: juntar gente, falar e festejar com gente.
Enquanto
eles organizam mesas de negociação, a gente organiza mutirão e estratégias
igualmente complexas de vida.
Enquanto
eles produzem relatórios, a gente vive o cuidado. [e produzimos alguns
relatórios também]
“A
gente queria mostrar rostos, vozes, corpos vivos.Mostrar que aqui tem gente
atuando todo dia para enfrentar a crise climática, não em tese, mas na
prática”, Vall me explicou seu sonho de uma COP construída verdadeiramente por
nós.
Mitigação,
eles chamam.
“A
gente chama de proteger a nascente, de barrar garimpo, de dizer não à
mineração, de vigiar o território.Toda vez que a comunidade impede uma invasão,
o clima agradece”.
Mas
isso não entra nas planilhas.
— E o
pior, Vall continuou: quem mais sofre é quem menos causa.
Somos
as primeiras a sentir o impacto.
Mas não
somos nós que provocamos o colapso.
Quem
provoca tem nome, empresa, lucro.
Tem
ganância.
Tem
esse velho modelo que olha pra terra como recurso, não como vida.
Enquanto
isso, nossos modos de existir seguem sendo tratados como “alternativa”.
Alternativa
nada, são solução, sempre foram.
Falamos
muito das mulheres.
Porque,
no fim das contas, somos nós que seguramos as pontas do mundo.
Nosso
jeito de fazer política nasce do cuidado, e cuidado também é estratégia
climática.
Só que
ninguém gosta de chamar assim, porque cuidado não vira lucro, não vira crédito
de carbono, não vira negócio.
Mas
vira vida e vida é o que está em jogo.
A COP
passou, mas nós continuamos aqui… ainda bem!
Fonte:
IHU/Le Monde/Tapajós de Fato

Nenhum comentário:
Postar um comentário