quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Heitor Scalambrini Costa: Por que o Brasil não precisa da energia nuclear

Os defensores da energia nuclear para a produção de energia elétrica sempre tiveram um discurso moldado às circunstâncias e às suas conveniências. Antes do acidente nuclear de Fukushima, em um dos países mais desenvolvidos nas ciências e tecnologia, os argumentos utilizados eram de uma soberba e arrogância sobre a infalibilidade da tecnologia nuclear. Chegavam a afirmar que era impossível ocorrer um acidente nestas usinas (risco zero!), tal o desenvolvimento tecnológico alcançado. Bastou o fatídico 11 de março de 2011 para desmoronar a pregação messiânica pró-deus-tecnologia nuclear.

Com a crise climática e o crescimento das fontes renováveis de energia na matriz elétrica mundial, o discurso voltou-se ao alto custo da energia solar e eólica, e o papel de “salvação” do nuclear na mitigação do aquecimento global, como uma fonte de energia de baixa emissão de carbono. Afirmam descaradamente que não existe emissão de gases de efeito estufa no ciclo do combustível nuclear, portanto é uma fonte “limpa”, e assim a nucleoeletricidade seria uma componente crucial no enfrentamento das mudanças climáticas.

Nem a eletricidade nuclear é “limpa”; caso fosse, não geraria “lixo”, nem mais barata que a gerada pelo Sol e ventos, ao contrário, chegando a ser de quatro a seis vezes mais cara. Mais uma vez, o poderoso lobby nuclear perdeu o discurso. Mas a insistência é permanente, pois os negócios neste setor envolvem bilhões, com cada usina de 1.000 MW custando em torno de 5 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, é reconhecido que obras de grande complexidade, como usinas nucleares, raramente respeitam cronograma e previsões orçamentárias, e que o custo final costuma ser, em média, três vezes maior do que previsto inicialmente.

Atualmente, o discurso da hora do setor nuclear é apontar a “fragilidade” da geração de fontes renováveis (solar, eólica), pela sua irregularidade devido à ausência de Sol e ventos, o que não garantiria a estabilidade do sistema elétrico. A intermitência energética justificaria a necessidade da fonte nuclear?

Quem defende usinas nucleares afirma que o principal papel desta tecnologia é a estabilidade que aporta para o sistema elétrico, tratando-se de uma fonte firme, não intermitente. Pelo fato de uma usina nuclear poder operar quase o tempo todo, constituiria uma fonte de “carga de base” (baseload) necessária para a estabilidade da rede elétrica, pois complementaria a geração solar e eólica, que variam conforme as condições climáticas.

Todavia, para lidar com a intermitência de fontes renováveis, várias alternativas existem sem que haja a necessidade da nucleoeletricidade que é cara, perigosa e suja. Dentre as tecnologias existentes inclui sistemas híbridos, combinando diferentes fontes e armazenamento para compensar a falta de energia, à noite ou em dias sem vento; o armazenamento do excesso de energia gerada com baterias, hidrogênio e armazenamento térmico; fontes despacháveis podendo ser ativadas sob demanda, com térmicas a biomassa, hidrelétricas; redes inteligentes no gerenciamento da oferta e demanda de energia de forma mais eficiente, melhoria na infraestrutura das redes de transmissão para que a energia gerada em um local possa ser transportada para onde é necessária, aumentando a flexibilidade do sistema; e soluções com inteligência artificial para previsão de geração e demanda, otimização do despacho de energia e gestão de mercados, garantindo um fornecimento contínuo e estável.

Do ponto de vista tecnológico, não faltam alternativas para atender às características intrínsecas das fontes renováveis, como a intermitência.  O que falta são escolhas corajosas, que levem em conta a participação social e a transparência, contra as ações de lobbies poderosos que defendem interesses de grupos econômicos contrários aos da população, e que influenciam nas decisões de políticas públicas do setor energético.

O que tem favorecido o discurso da intermitência, e assim da necessidade da geração nuclear, é que mesmo tendo disponibilidade de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), uma entidade privada, tem limitado, e até cortado parte da energia produzida por fontes renováveis, principalmente porque a expansão da rede de transmissão e a demanda não acompanharam o ritmo de instalação de novos parques de geração, que crescem a taxas mais aceleradas, incentivados pelo grande potencial destas fontes, do baixo custo da energia gerada, e das condições favoráveis de financiamento e benefícios fiscais. Ou seja, temos energia, mas não temos linhas de transmissão para seu aproveitamento pelo sistema elétrico nacional.

A redução ou corte intencional de energia, denominado de “curtailment”, tem acontecido com frequência no Nordeste, maior produtor de energia elétrica a partir do Sol e dos ventos, por razões elétricas, como a capacidade limitada de transmissão, ou razões energéticas, com excesso de oferta em relação à demanda. Por exemplo, em junho de 2025, no Nordeste, os cortes na geração de projetos de grande porte — solar e eólico — não injetados na rede, determinados pela ONS, atingiram o valor de 27,3% do total produzido, sendo 19,6% por razões energéticas. No ano de 2025, estimativas apontam que o “curtailment” atingiu cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada no país.

Este desperdício ocorre pela falta de planejamento estratégico. É privilegiada a oferta descolada da demanda, além de atrasos na conexão de projetos à rede. A desnecessária demora em adotar o armazenamento por baterias, a integração de fato de múltiplas fontes renováveis (solar, eólica, biomassa, etc.) reduzindo a dependência de uma única fonte e aumentando a resiliência, e o uso de outras possibilidades tecnológicas, seriam as condições para evitar o desperdício. Também a definição de diretrizes claras nos marcos legais, sem a presença e interferência perniciosa dos lobbies, que, ao defender interesses corporativos, acabam prejudicando interesses da população.

Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. Os exemplos da China, que detém cerca de 34% da capacidade global de energia renovável, da União Europeia que atualmente produz mais eletricidade com renováveis que com outras formas de energia, e do Brasil com mais de 80% da matriz elétrica com a participação do Sol, dos ventos e da água, constituindo a espinha dorsal da matriz elétrica; mostram claramente que as fontes renováveis em um contexto de colapso ambiental podem garantir a segurança e sustentabilidade energética, desde que a diversificação e complementaridade andem juntas.

Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira, a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

•        Armas, carbono e mistério: o segredo militar que põe em risco o clima do mundo. Por Isabel Seta

Tiro, porrada, bomba – e emissão de carbono. Com veículos blindados, aviões de combate e navios de guerra, transporte de tropas e toda uma cadeia de produção de armamentos, a guerra deixa um rastro de horror também para o clima.

Não bastasse devastar vidas e ecossistemas, ao consumir grandes quantidades de energia, a atividade militar também emite grandes volumes dos gases responsáveis pela crise climática que assola o planeta. Se fossem um país, as forças armadas seriam o quarto maior emissor do mundo, com mais emissões do que o Brasil, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia, segundo estimativa das organizações Cientistas por Responsabilidade Global e Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente.

<><> Por que isso importa?

•        Com mais de trinta conflitos envolvendo forças militares nacionais pelo mundo e emissões de 2,75 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente, a caixa-preta do impacto ambiental das ações de guerra precisa ser aberta, para que custos humano e ambiental influenciem decisões políticas que muitas vezes os ignoram.

Ainda assim, quando firmaram os acordos globais para frear o aquecimento global, os países optaram por deixar essas emissões de fora de qualquer controle ou contabilização – e a pegada de carbono militar segue sendo quase um mistério.

“Isso é profundamente preocupante. As forças armadas do mundo contribuem mais [para o aquecimento global] do que o continente africano inteiro”, diz a britânica Ellie Kinney, do Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente. “Porém nós ainda não estamos vendo compromissos abrangentes para a redução dessas emissões, e a contribuição militar para as emissões globais continua ausente das negociações climáticas internacionais”.

Kinney cita as ameaças do presidente americano Donald Trump contra a Groenlândia, rica em minerais estratégicos para a indústria de defesa e para o setor de energia limpa, a agressão dele contra a Venezuela, país com a maior reserva de petróleo do mundo, e os ataques russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia. “Ainda assim, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os estados da União Europeia (UE) estão intensificando seus gastos militares, o que pode causar até US$ 298 bilhões de danos climáticos por ano”, afirma ela.

Enquanto os países em desenvolvimento seguem cobrando que os países mais industrializados honrem seus compromissos de financiamento climático, os 32 países da Otan se comprometeram a investir 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa. Já o plano de “rearmamento” europeu prevê mobilizar mais de 800 bilhões de euros [cerca de R$ 5 trilhões] até 2030.

<><> Efeito dominó que só cresce

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as nações com mais recursos econômicos gastam 30 vezes mais em atividades militares do que investem em países vulneráveis. Um relatório de setembro do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apontou que cerca de 15% do total dos gastos militares em 2024 seriam suficientes para financiar as medidas de adaptação à crise climática necessárias nos países em desenvolvimento. Enquanto isso, a ONG Oil Change International estima que US$ 5 trilhões [R$ 26 trilhões] poderiam ser levantados a partir de uma taxa no comércio de armas entre países ricos.

Principal fonte de pressão por mais gastos militares, Donald Trump quer elevar em 60% o orçamento em defesa dos EUA dos atuais US$ 901 bilhões previstos para 2026 para US$ 1,5 trilhão em 2027, o equivalente a R$ 7,9 trilhões.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa para Paz Internacional de Estocolmo mostrou que, em 2024, ano em que foram registrados conflitos em 36 países, o gasto militar cresceu em todas as regiões do mundo. Apenas Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia somaram juntos 60% de um total de US$ 2,7 trilhões [R$ 14,1 trilhões] investidos no setor – o maior valor desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Além de sugar recursos que poderiam estar indo para outras frentes, cada dólar investido nas forças armadas significa mais emissões militares de carbono, o que contribui para o cenário de tempestades, secas e incêndios cada vez mais intensos e frequentes. Cada US$ 100 bilhões de aumento em gastos militares implica na emissão adicional de 32 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, de acordo com relatório da ONG Cientistas por Responsabilidade Global de setembro de 2025, que revisou uma série de pesquisas sobre essa relação.

<><> Menos paz, mais gastos militares

Os países gastam mais com suas forças armadas. Segundo o Instituto de Pesquisa para Paz Internacional de Estocolmo, em 2024, o investimento foi de US$ 2,7 trilhões, o equivalente a R$ 14 trilhões, o maior valor desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Quer saber a quanto esse número equivale?

Mais dinheiro investido em forças armadas pode implicar em mais treinamentos e missões (como a da Otan no Ártico), alistamento de mais indivíduos, maior consumo de combustível para veículos de transporte, mais uso de energia nas bases militares e maior demanda para as indústrias bélica e de infraestrutura. Cada consequência do investimento, por sua vez, provoca mais emissões de gases do efeito estufa.

“O relatório recente da ONU projeta que o gasto militar global vai aumentar de US$ 2,7 trilhões em 2024 para algo entre US$ 4,4 e US$ 6,6 trilhões em 2035. Como as emissões de carbono tendem a crescer com o aumento do gasto, ainda que essa relação seja complexa, isso deve levar a um aumento imenso na pegada de carbono militar”, afirma o pesquisador Stuart Parkinson, especialista em ciência da mudança do clima e diretor-executivo da Cientistas por Responsabilidade Global.

<><> Caixa de Pandora moderna

A incapacidade dos países de cortar suas emissões deve elevar, já nos próximos anos, a temperatura média da Terra para além da meta mais ambiciosa estabelecida no principal tratado global contra a crise climática, o Acordo de Paris, que definiu que os países precisam agir para evitar um aquecimento maior do que 1,5ºC na comparação com a temperatura global antes dos processos de industrialização. “Considerando as dificuldades de reduzir emissões militares e de conflitos, isso implica que as metas de cortes das emissões civis precisam ser ainda mais fortes”, diz Parkinson.

Pelo Acordo de Paris, os países precisam estabelecer metas para reduzir suas emissões e informar o quanto emitem. A contabilização das emissões militares, porém, é voluntária – um pequeno avanço diante do acordo anterior, o Protocolo de Kyoto, que graças ao lobby americano, excluiu totalmente essas emissões.

Em 2025, apenas seis países informaram dados desagregados de suas emissões militares: Alemanha, Hungria, Noruega, Eslováquia, Bulgária e Ciprus, conforme levantamento do projeto Military Emissions Gap, do Observatório sobre Conflito e Meio Ambiente.

Outras potências militares ou não informaram nenhum dado (caso de EUA, Rússia, China, Japão, Polônia e Turquia) ou apresentaram números agregados (como Reino Unido e França), o que dificulta uma análise mais precisa.

Na prática, isso significa que praticamente não há dados disponíveis sobre o assunto. A maioria das Forças Armadas não mapeia as emissões das cadeias de suprimentos. Além disso, há pouco investimento em pesquisa para desenvolver metodologias para contabilizar as emissões em conflitos.

“O maior problema com as estimativas oficiais de emissões militares é que elas não incluem as emissões das cadeias produtivas. Segundo a nossa pesquisa, isso pode significar que o total de emissões é cinco vezes maior do que as emissões diretas”, explica Parkinson.

Ainda que faltem metodologias científicas revisadas e acordadas para medir as emissões em conflitos, alguns pesquisadores trabalharam para estimá-las na Guerra na Ucrânia e na Guerra em Gaza.

Maior conflito armado na Europa desde a 2ª Guerra Mundial, a invasão russa na Ucrânia já produziu 237 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente (medida usada para padronizar as emissões) ao longo dos primeiros três anos de conflito. O volume é comparável às emissões anuais de países desenvolvidos como Bélgica e Áustria.

Pesquisadores estimaram que um terço dessas emissões foi causada pela guerra, com consumo de combustíveis, uso de munições, mísseis e explosivos, construção de fortificações e trincheiras, além da destruição de equipamentos. A reconstrução da infraestrutura destruída responde por outro terço, enquanto outros 21% teriam sido decorrentes de incêndios florestais, muitos iniciados por bombardeios.

Uma fonte de emissão mais surpreendente (9% do total) é aviação comercial, obrigada a alterar várias rotas por conta do fechamento do espaço aéreo da Ucrânia e da Rússia, que proibiu companhias aéreas de 16 países. As mudanças de rotas aumentaram a duração dos voos e, portanto, o consumo de combustível. Segundo a pesquisa, antes da guerra, um voo de Tóquio até Londres levava quase 12h, passando pela Rússia. Agora, o mesmo voo precisa passar pelo Canadá, com quase 15h de duração.

Em Gaza, onde 67 mil palestinos já foram mortos por Israel, os primeiros 15 meses de guerra resultaram em 1,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente pelo uso de artilharia, bombas e mísseis e pelo gasto de combustível com deslocamento de tropas, segundo pesquisa de universidades britânicas. Ao se considerar as emissões das reconstruções, após cerca de 92% dos imóveis residenciais e cem hospitais serem destruídos, o volume salta para 32 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente – superior às emissões anuais de 102 países.

“O jeito mais rápido de reduzir as emissões das guerras e das forças armadas é diminuir o tamanho e a atividade militar – e o jeito mais rápido de fazer isso é pela construção da paz, controle de armas e desarmamento – mas isso vai exigir ações corajosas de líderes políticos”, conclui Parkinson.

Houve tentativas. Há alguns anos, países europeus deram passos tímidos em direção a uma maior transparência das emissões militares. Em 2023, o Parlamento Europeu defendeu que os países do continente incluam as emissões militares em suas metas nacionais de redução. No mesmo ano, a Otan publicou uma metodologia para mapear e analisar suas emissões. “Não tem como chegarmos à neutralidade de carbono sem reduzir também as emissões do setor militar”, chegou a dizer o então secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

O ano era 2023, mas era outro mundo. Desde então, após a eleição de Trump, não apenas os gastos militares cresceram, mas também as ameaças e os conflitos em nível global. Mas, para mudar o estado de guerra já instaurado, especialistas como Parkinson e Kinney só apontam uma saída: pressão social.

 

Fonte: Outras Palavras/Agencia Pública

 

 

Nenhum comentário: