quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ronaldo Lima Lins: A resistência cubana e a simpatia do mundo

Mais de 180 nações na ONU (precisamente, 187) se posicionaram em solidariedade a Cuba. Poucos eram os que suportavam as novas formas de esmagamento de sua população, decretadas por Washington. Trata-se talvez da mais longa história de opressão internacional desencadeada contra um regime, com consequências desastrosas para a economia local. E, no entanto, a ilha resiste. Como um psicopata que se esforça em esmagar sua vítima, a Casa Branca reinventa medidas punitivas como se brandisse um chicote contra um cavalo cansado. Por consequência, a comunidade internacional reage, desta vez não para obedecer, mas para contestar e fazer contrabalançar, através de redes de solidariedade, o que a tenacidade cubana afirma ser impossível de aguentar. Sem comida e sem petróleo, anuncia-se uma paralisia total.

O sadismo já desencadeado contra outras nações, entre as quais Rússia, Irã e Venezuela, enquanto plano bem-sucedido, por sorte, apresenta sinais de esgotamento. Um império, por mais forte que seja, necessita da aquiescência dos outros para despertar respeitabilidade. Desta feita, é como se a opinião mundial se declarasse fatigada de se manter de braços cruzados contra a injustiça e despertasse da letargia, pronta para reagir. Os 187 países da ONU, com seu “basta!”, se manifestam dispostos a socorrer as autoridades de Havana com ajuda humanitária, sem esquecer, é claro, da exportação de energia para mover dispositivos econômicos e sociais. Cada vez mais, os Estados Unidos se veem sozinhos, como monarcas de si mesmos, sentindo que a coroa enferruja. Aliás, é preciso dizer que, numa comparação, apesar da crise, cubanos se colocam melhor do que norte-americanos, estes povoando bairros e cidades com desabrigados e moradores de rua, desprovidos de socorro. Na ilha, há muito a miséria já não mostra a cara. Pobreza, sim. Miséria, não.

Os milionários que, em nome dos republicanos, com Marco Rubio e Donald Trump à frente, devem se espantar por ver que, por uma vez, dignidade não se vende. Outrora havia o carisma de Fidel Castro mostrando como agir para defender as conquistas da Revolução, na época do Batista, quando se deixou para trás a fase da prostituição e dos cassinos. Mas as lições se infiltraram no comportamento do povo e agora, nem acenando com o golpe baixo das riquezas subalternas, como se dinheiro caísse do céu, sem concessões, alteram-se as disposições da maioria.

Cabe lembrar que força militar constitui, naturalmente, uma vantagem. Mas não é tudo. Países às vezes se mostram como indivíduos. A partir de um limite, nada os dobra. A farsa da “invasão” da Venezuela (e o sequestro do casal Maduro), sem os desdobramentos necessários de dominação da estrutura interna, porque faltou coragem, soa como intimidação pela metade. O chavismo persiste. E negociações se revelam imprescindíveis a cada passo... A humanidade sabe se comportar quando sente que chegou ao limite. Grandes impérios caíram assim. Quem sabe estamos diante de mais um.

¨      Cuba, a Espanha do século XXI. Por Gabriel Cohn

As atitudes do discípulo menor do senhor Adolf Hitler, com direito a reivindicação análoga à Grande Alemanha (Grossdeutschland) nazista no esgar maníaco da Grande América-MAGA, o senhor Donald Trump, vêm alisando o caminho de tendência atual de fundamental importância. Trata-se da experiência de pesadelo configurada na repetição passo a passo nos primeiros 30 anos do século XXI do período correspondente no século passado.

Que ninguém se iluda: no ritmo atual teremos no final desta década situação análoga à da Europa em 1939, após as tentativas de apaziguar Hitler em Munique no ano anterior. O imbróglio geopolítico é no mínimo comparável e o potencial destrutivo é incomparavelmente maior, com uma Europa que mais parece a sua problemática área balcânica da fase inicial do século passado, uma projeção oriental em plena expansão e os Estados Unidos em fase neocolonial maníaca (com bem menos racionalidade do que a obsessão nazista por “espaço vital”).

A expansão agressiva nazista na Europa há um século não ganhou impulso no vácuo. Foi precedida por um teste decisivo da capacidade de resistência internacional, em condições históricas especialmente expressivas. Deu-se ela há exatos 90 anos, quando a República espanhola de 1936 atraiu sobre si a fúria fascista com seu agente, o general Francisco Franco, como operador do eixo Alemanha-Itália.

A Espanha representava na segunda metade da década de 1930 a cabal síntese dos dilemas que atravessavam as sociedades europeias desde a primeira guerra mundial de 1914-1918 (ou, como se veria depois, desde a primeira etapa da guerra de trinta anos de 1914-1945). Cortada de alto a baixo pelo conflito entre as forças ultrarreacionárias no poder e os movimentos populares e autonomistas centrados na Catalunha e no País Basco, ela, junto com Portugal, pagava o preço do arrogante desprezo europeu por aquelas sombras de eminência histórica passada.

O historiador britânico Gerald Brennan encontrou uma expressão clara ao falar no “labirinto espanhol”. O que antes era um caminho sem saída nacional hoje parece ter-se convertido em armadilha em escala planetária, com uma superpotência (que a Alemanha nunca foi) em fase de desagregação e incapaz de sequer gerar objetivos nacionais claros no seu centro.

A península ibérica era em 1936 o território perfeito como campo de provas para o avanço bélico da extrema direita no poder na Alemanha e na Itália, a começar pelo teste de armamentos como os aeronáuticos da Legião Condor, que se imortalizou na destruição da pequena e pacífica Guernica (Condor, sim, como a organização de extermínio dos regimes de ultradireita argentinos, chilenos e brasileiros pouco mais de três décadas depois).

Não se tratava de uma guerra de destruição nacional, era muito mais o uso oportunista de uma plataforma disponível para a preparação de avanços belicosos sem limite. Desde que, e esse era o ponto, não encontrasse oposição armada convincente.

Não encontrou. O que fez o governo da Frente Popular com tintura socialista na fronteiriça França? Nenhum passo de solidariedade, para dizer o mínimo, com o resto da Europa igualmente calada, exceto na intervenção cautelosa, mas real com base no movimento comunista, da União Soviética.

O que ficou de luminoso naquele período foi a valorosa valentia combativa da oposição popular no interior da Espanha e o movimento, único em seu alcance e amplitude, de solidariedade até o sacrifício das Brigadas Internacionais, com uma adesão voluntária que incluiu numerosos brasileiros como Mario Pedrosa, a título de exemplo.

Há quem sustente, de modo plausível, que nos encontramos hoje diante de uma sequência de testes desse tipo, com o morticínio em Gaza desempenhando o papel exemplar para outras agressões em cadeia, caso essa logre seu repugnante êxito.

Desafio análogo se apresenta neste momento, com Donald Trump ameaçando a literal sobrevivência do povo cubano e arreganhando os dentes para quem ousar qualquer oposição, por ora só encontrando resposta efetiva no valoroso México, o mesmo que em 1936 vivia a mais consistente revolução nacional na América Latina.

Especialmente atingidos pela provocação, além é claro dos vizinhos mais próximos, são os países nucleares da associação internacional independente BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com o Brasil envolvido mais do que como mero destaque na sigla.

No Brasil as ações mais fortes de apoio a Cuba vêm do interior da sociedade para além do Estado nacional, como o MST e os petroleiros. Isso é vital, mas insuficiente. Ameaças à integridade de nações e, no caso extremo como presenciamos agora, quando populações inteiras são postas como alvo de agressão letal, só podem ser contidas com ações decididas e rápidas no plano internacional, antes que o complexo industrial-militar ao Norte se arreganhe demais.

Do contrário, o conflito bélico que com razão se busca evitar corre o risco de se concretizar, como há um século em circunstâncias semelhantes. Não vivemos a melhor hora para se confiar na racionalidade de governantes e representantes, em Washington ou em Miami.

Cabe ao povo a solidariedade a Cuba e a cobrança aos governantes que o representam. Espanha republicana sim, Cuba independente sim, fascismo nunca mais, com ou sem Adolf ou Donald. De Lula, Celso Amorim e equipe cabe exigir firmeza e ação pronta.

¨      Pressão de Trump polarizou ainda mais o povo de Cuba, afirma o ex-ministro Abel Prieto

A Casa das Américas é uma instituição cultural emblemática da revolução cubana e da intelectualidade latino-americana. Abel Prieto, de 76 anos, autor de uma notável obra literária, é seu diretor.

Rotulado como marxista-lennonista por sua admiração por um dos Beatles, desempenha um papel fundamental na Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.

Em entrevista ao La Jornada, Prieto afirma que o momento atual vivido no mundo lhe recorda uma frase de Iván Karamázov, personagem de Fiódor Dostoiévski, segundo a qual, se Deus não existe, tudo é permitido. E, como para Trump o único Deus que existe é ele próprio, pode fazer o que bem entender. Seus caprichos nos colocaram diante de um mundo sem regras.

Segundo Prieto, Cuba enfrenta hoje o velho dilema: colônia ou soberania, colônia ou independência. E, para eles, independência é sinônimo de socialismo. Se perderem o socialismo, perde-se a nação, e o país voltará a ser uma vergonhosa colônia estadunidense, como foi há mais de 60 anos.

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>>>> A seguir, trechos centrais da conversa.

·        Luis Hernández Navarro – Como se vive em Cuba a nova ofensiva de Donald Trump?

Abel Prieto – O que Trump pretende com essa nova ofensiva é nos asfixiar diretamente no curto prazo. Quer que este país, sua economia e seus serviços fiquem estrangulados pela falta de combustível. Por isso, está ameaçando sancionar os países que nos vendam combustível.

É grotesco, só falta um bloqueio naval.

Ele está colocando em prática um bloqueio em sua versão mais grotesca e brutal. Só falta um bloqueio naval! Seu objetivo é o mesmo que existe desde a época de Eisenhower: criar pobreza, carências e dificuldades para a população.

Busca criar dificuldades e multiplicá-las para que o povo responsabilize seu governo e seu partido pelo que acontece. Querem precipitar uma mudança de regime. Pensam que, com o golpe na Venezuela, darão o golpe final na revolução cubana.

·        O que foi feito de errado para que a batalha da comunicação esteja sendo vencida pela direita?

Há algo que Ignacio Ramonet me comentou, e com razão. A esquerda tem uma limitação no combate comunicacional: a ética. Fidel Castro nos disse que jamais devemos mentir nem violar princípios éticos. Nossos inimigos nas redes mentem o tempo todo. Passam o tempo insultando nossos líderes, caluniando, dizendo coisas sem qualquer prova. A mentira é a arma essencial desse novo fascismo. E, apesar do dano que provocam, não podemos responder mentindo. É preciso defender a verdade.

É preciso apresentar a verdade da forma mais eficaz possível. Sou roqueiro. A nova canção de Bruce Springsteen não impressiona do ponto de vista musical, mas é um belo hino de solidariedade.

E há também o que aconteceu com Bad Bunny. Ele reivindicou os latinos, disse que suas vidas importam — e isso doeu muito em Trump. Ele respondeu dizendo que era um show terrível, uma bofetada para seu país. Se não fosse tão sinistro, seria até cômico.

·        Que reações Trump provocou no povo cubano?

Trump polarizou. Nos radicalizou. Nos tornou mais anti-imperialistas, mais antifascistas.

A Venezuela foi um golpe duríssimo. Sentimos como uma ferida muito íntima, como se tivesse sido contra nós também. Mas a forma como este país chorou nossos 32 irmãos que morreram defendendo o presidente Maduro foi uma mensagem tremenda para Trump e Marco Rubio — uma mensagem de unidade e firmeza.

No dia em que as urnas foram colocadas no Ministério das Forças Armadas, as pessoas desfilaram por horas. Era um dia frio e chuvoso, e ninguém deixou as enormes filas. Levaram seus filhos e seus idosos. Todos enfrentaram aquela fila interminável. Desde Martí, temos a ideia de que pátria é humanidade. E essa ideia está profundamente enraizada neste povo.

Nosso povo tem senso do momento histórico. Sabe quando é preciso dar uma demonstração de unidade, de firmeza, de dignidade, de amor à soberania e aos princípios.

·        Como essa nova volta de parafuso afetou o mundo cultural?

Estamos diante de um brutal golpe colonial, que pretende provocar uma mudança de regime. Vivemos momentos duríssimos. Quem fica sem gasolina e sem petróleo são os hospitais, os lares de idosos. Quem sofre é o povo cubano.

Este momento me recorda a frase de Iván Karamázov, personagem de Fiódor Dostoiévski: se Deus não existe, tudo é permitido. E, como para Trump o único Deus que existe é ele mesmo, tudo lhe é permitido. São os caprichos de um personagem grotesco e brutal que nos colocaram diante de um mundo sem regras. Ele chutou o tabuleiro. Já não há normas.

Mas aqui há muita história, história demais. Há uma cultura anticolonial e anti-imperialista. Cuba é um país com uma força cultural muito vigorosa e um sentimento nacional muito forte. Cultura e nação caminham juntas. Entre os artistas há um sentimento patriótico muito íntimo, associado à sua forma de compreender a vida. É assim que eles têm se manifestado.

O significado deste momento é que estamos diante do velho dilema: colônia ou soberania, colônia ou independência. E, para nós, independência é sinônimo de socialismo. Se perdermos o socialismo, perde-se a nação. Se a revolução for derrotada, voltaremos à condição de uma colônia ianque humilhada e vergonhosa, o que fomos há mais de 60 anos. Este país jamais será isso.

·        Como este bloqueio tem afetado a criação artística?

Apesar dos apagões, realizamos o Festival de Cinema de Havana com muito êxito. Também aconteceu o Festival de Jazz, ao qual vieram muitos estadunidenses. Mas tivemos de adiar a Feira do Livro. Vamos manter o Prêmio Casa das Américas, mas as avaliações do júri serão feitas online.

·        Você tem insistido na necessidade de se aliar ao povo dos Estados Unidos. Essa continua sendo sua posição?

Há um movimento antifascista dentro dos Estados Unidos. É preciso enviar uma mensagem ao povo que luta ali. Fidel disse a Ramonet que, quando o povo dos Estados Unidos conhece a verdade sobre um fato, reage de maneira nobre e justa. Fidel nos convidou a confiar nos sentimentos e nas virtudes desse povo. Pablo González Casanova entendeu isso muito bem. É necessário formar uma frente antifascista internacional, apoiando-se na Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.

·        Qual é a relevância de dom Pablo em um momento como este?

Pablo foi quem idealizou a Rede. Seu senso ético e sua lucidez caminhavam juntos. Era um homem brilhante, com um olhar agudíssimo sobre os processos culturais, políticos e históricos, além de uma ética extraordinária. Ele nos faz falta. Sempre nos faz falta um homem como Pablo. Um homem extraordinário.

Mas não podemos esquecer que não é apenas Cuba que está em perigo. Creio que a América Latina, o Caribe e o mundo estão em risco com este auge do fascismo. Inclusive estão tentando disputar a memória. Querem lavar a imagem de Franco, de Hitler, de Mussolini, a imagem daqueles que cometeram o genocídio dos povos indígenas.

·        Nem os mortos estão em paz?

A batalha é pelo presente e pelo futuro, e também por nossa memória.

·        Você foi qualificado como marxista-lennonista. O que acha que Lennon pode nos dizer para uma época como a atual?

Adoro Lenin, mas me encanta o rótulo de marxista-lennonista. O Beatle teria sido um militante anti-Trump incansável. Foi um grande combatente contra o genocídio no Vietnã, um lutador pela paz. Deixou canções extraordinárias contra os senhores da guerra.

·        Com qual delas você fica?

Com Imagine. Trata-se de uma utopia lindíssima.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda/La Jornada

 

 

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