Ronaldo
Lima Lins: A resistência cubana e a simpatia do mundo
Mais de
180 nações na ONU (precisamente, 187) se posicionaram em solidariedade a Cuba.
Poucos eram os que suportavam as novas formas de esmagamento de sua população,
decretadas por Washington. Trata-se talvez da mais longa história de opressão
internacional desencadeada contra um regime, com consequências desastrosas para
a economia local. E, no entanto, a ilha resiste. Como um psicopata que se
esforça em esmagar sua vítima, a Casa Branca reinventa medidas punitivas como
se brandisse um chicote contra um cavalo cansado. Por consequência, a
comunidade internacional reage, desta vez não para obedecer, mas para contestar
e fazer contrabalançar, através de redes de solidariedade, o que a tenacidade
cubana afirma ser impossível de aguentar. Sem comida e sem petróleo, anuncia-se
uma paralisia total.
O
sadismo já desencadeado contra outras nações, entre as quais Rússia, Irã e
Venezuela, enquanto plano bem-sucedido, por sorte, apresenta sinais de
esgotamento. Um império, por mais forte que seja, necessita da aquiescência dos
outros para despertar respeitabilidade. Desta feita, é como se a opinião
mundial se declarasse fatigada de se manter de braços cruzados contra a
injustiça e despertasse da letargia, pronta para reagir. Os 187 países da ONU,
com seu “basta!”, se manifestam dispostos a socorrer as autoridades de Havana
com ajuda humanitária, sem esquecer, é claro, da exportação de energia para
mover dispositivos econômicos e sociais. Cada vez mais, os Estados Unidos se
veem sozinhos, como monarcas de si mesmos, sentindo que a coroa enferruja.
Aliás, é preciso dizer que, numa comparação, apesar da crise, cubanos se
colocam melhor do que norte-americanos, estes povoando bairros e cidades com
desabrigados e moradores de rua, desprovidos de socorro. Na ilha, há muito a
miséria já não mostra a cara. Pobreza, sim. Miséria, não.
Os
milionários que, em nome dos republicanos, com Marco Rubio e Donald Trump à
frente, devem se espantar por ver que, por uma vez, dignidade não se vende.
Outrora havia o carisma de Fidel Castro mostrando como agir para defender as
conquistas da Revolução, na época do Batista, quando se deixou para trás a fase
da prostituição e dos cassinos. Mas as lições se infiltraram no comportamento
do povo e agora, nem acenando com o golpe baixo das riquezas subalternas, como
se dinheiro caísse do céu, sem concessões, alteram-se as disposições da
maioria.
Cabe
lembrar que força militar constitui, naturalmente, uma vantagem. Mas não é
tudo. Países às vezes se mostram como indivíduos. A partir de um limite, nada
os dobra. A farsa da “invasão” da Venezuela (e o sequestro do casal Maduro),
sem os desdobramentos necessários de dominação da estrutura interna, porque
faltou coragem, soa como intimidação pela metade. O chavismo persiste. E
negociações se revelam imprescindíveis a cada passo... A humanidade sabe se
comportar quando sente que chegou ao limite. Grandes impérios caíram assim.
Quem sabe estamos diante de mais um.
¨
Cuba, a Espanha do século XXI. Por Gabriel Cohn
As
atitudes do discípulo menor do senhor Adolf Hitler, com direito a reivindicação
análoga à Grande Alemanha (Grossdeutschland) nazista no esgar maníaco da
Grande América-MAGA, o senhor Donald Trump, vêm alisando o caminho de tendência
atual de fundamental importância. Trata-se da experiência de pesadelo
configurada na repetição passo a passo nos primeiros 30 anos do século XXI do
período correspondente no século passado.
Que
ninguém se iluda: no ritmo atual teremos no final desta década situação análoga
à da Europa em 1939, após as tentativas de apaziguar Hitler em Munique no ano
anterior. O imbróglio geopolítico é no mínimo comparável e o potencial
destrutivo é incomparavelmente maior, com uma Europa que mais parece a sua
problemática área balcânica da fase inicial do século passado, uma projeção
oriental em plena expansão e os Estados Unidos em fase neocolonial maníaca (com
bem menos racionalidade do que a obsessão nazista por “espaço vital”).
A
expansão agressiva nazista na Europa há um século não ganhou impulso no vácuo.
Foi precedida por um teste decisivo da capacidade de resistência internacional,
em condições históricas especialmente expressivas. Deu-se ela há exatos 90
anos, quando a República espanhola de 1936 atraiu sobre si a fúria fascista com
seu agente, o general Francisco Franco, como operador do eixo Alemanha-Itália.
A
Espanha representava na segunda metade da década de 1930 a cabal síntese dos
dilemas que atravessavam as sociedades europeias desde a primeira guerra
mundial de 1914-1918 (ou, como se veria depois, desde a primeira etapa da
guerra de trinta anos de 1914-1945). Cortada de alto a baixo pelo conflito
entre as forças ultrarreacionárias no poder e os movimentos populares e
autonomistas centrados na Catalunha e no País Basco, ela, junto com Portugal,
pagava o preço do arrogante desprezo europeu por aquelas sombras de eminência
histórica passada.
O
historiador britânico Gerald Brennan encontrou uma expressão clara ao falar no
“labirinto espanhol”. O que antes era um caminho sem saída nacional hoje parece
ter-se convertido em armadilha em escala planetária, com uma superpotência (que
a Alemanha nunca foi) em fase de desagregação e incapaz de sequer gerar
objetivos nacionais claros no seu centro.
A
península ibérica era em 1936 o território perfeito como campo de provas para o
avanço bélico da extrema direita no poder na Alemanha e na Itália, a começar
pelo teste de armamentos como os aeronáuticos da Legião Condor, que se
imortalizou na destruição da pequena e pacífica Guernica (Condor, sim, como a
organização de extermínio dos regimes de ultradireita argentinos, chilenos e
brasileiros pouco mais de três décadas depois).
Não se
tratava de uma guerra de destruição nacional, era muito mais o uso oportunista
de uma plataforma disponível para a preparação de avanços belicosos sem limite.
Desde que, e esse era o ponto, não encontrasse oposição armada convincente.
Não
encontrou. O que fez o governo da Frente Popular com tintura socialista na
fronteiriça França? Nenhum passo de solidariedade, para dizer o mínimo, com o
resto da Europa igualmente calada, exceto na intervenção cautelosa, mas real
com base no movimento comunista, da União Soviética.
O que
ficou de luminoso naquele período foi a valorosa valentia combativa da oposição
popular no interior da Espanha e o movimento, único em seu alcance e amplitude,
de solidariedade até o sacrifício das Brigadas Internacionais, com uma adesão
voluntária que incluiu numerosos brasileiros como Mario Pedrosa, a título de
exemplo.
Há quem
sustente, de modo plausível, que nos encontramos hoje diante de uma sequência
de testes desse tipo, com o morticínio em Gaza desempenhando o papel exemplar
para outras agressões em cadeia, caso essa logre seu repugnante êxito.
Desafio
análogo se apresenta neste momento, com Donald Trump ameaçando a literal
sobrevivência do povo cubano e arreganhando os dentes para quem ousar qualquer
oposição, por ora só encontrando resposta efetiva no valoroso México, o mesmo
que em 1936 vivia a mais consistente revolução nacional na América Latina.
Especialmente
atingidos pela provocação, além é claro dos vizinhos mais próximos, são os
países nucleares da associação internacional independente BRICS – Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul, com o Brasil envolvido mais do que como
mero destaque na sigla.
No
Brasil as ações mais fortes de apoio a Cuba vêm do interior da sociedade para
além do Estado nacional, como o MST e os petroleiros. Isso é vital, mas
insuficiente. Ameaças à integridade de nações e, no caso extremo como
presenciamos agora, quando populações inteiras são postas como alvo de agressão
letal, só podem ser contidas com ações decididas e rápidas no plano
internacional, antes que o complexo industrial-militar ao Norte se arreganhe
demais.
Do
contrário, o conflito bélico que com razão se busca evitar corre o risco de se
concretizar, como há um século em circunstâncias semelhantes. Não vivemos a
melhor hora para se confiar na racionalidade de governantes e representantes,
em Washington ou em Miami.
Cabe ao
povo a solidariedade a Cuba e a cobrança aos governantes que o representam.
Espanha republicana sim, Cuba independente sim, fascismo nunca mais, com ou sem
Adolf ou Donald. De Lula, Celso Amorim e equipe cabe exigir firmeza e ação
pronta.
¨
Pressão de Trump polarizou ainda mais o povo de Cuba,
afirma o ex-ministro Abel Prieto
A Casa
das Américas é uma instituição cultural emblemática da revolução cubana e da
intelectualidade latino-americana. Abel Prieto, de 76 anos, autor de uma
notável obra literária, é seu diretor.
Rotulado
como marxista-lennonista por sua admiração por um dos Beatles, desempenha um
papel fundamental na Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.
Em
entrevista ao La Jornada, Prieto afirma que o momento atual vivido
no mundo lhe recorda uma frase de Iván Karamázov, personagem de Fiódor
Dostoiévski, segundo a qual, se Deus não existe, tudo é permitido. E, como para
Trump o único Deus que existe é ele próprio, pode fazer o que bem entender.
Seus caprichos nos colocaram diante de um mundo sem regras.
Segundo
Prieto, Cuba enfrenta hoje o
velho dilema: colônia ou soberania, colônia ou independência. E, para eles,
independência é sinônimo de socialismo. Se perderem o socialismo, perde-se a
nação, e o país voltará a ser uma vergonhosa colônia estadunidense, como foi há
mais de 60 anos.
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A seguir, trechos centrais da conversa.
·
Luis Hernández Navarro – Como se vive em Cuba a nova
ofensiva de Donald Trump?
Abel
Prieto – O que Trump pretende com essa nova ofensiva é nos asfixiar diretamente
no curto prazo. Quer que este país, sua economia e seus serviços fiquem
estrangulados pela falta de combustível. Por isso, está ameaçando sancionar os
países que nos vendam combustível.
É
grotesco, só falta um bloqueio naval.
Ele
está colocando em prática um bloqueio em sua versão mais grotesca e brutal. Só
falta um bloqueio naval! Seu objetivo é o mesmo que existe desde a época de
Eisenhower: criar pobreza, carências e dificuldades para a população.
Busca
criar dificuldades e multiplicá-las para que o povo responsabilize seu governo
e seu partido pelo que acontece. Querem precipitar uma mudança de regime.
Pensam que, com o golpe na Venezuela, darão o golpe final na revolução cubana.
·
O que foi feito de errado para que a batalha da
comunicação esteja sendo vencida pela direita?
Há algo
que Ignacio Ramonet me comentou, e com razão. A esquerda tem uma limitação no
combate comunicacional: a ética. Fidel Castro nos disse que jamais devemos
mentir nem violar princípios éticos. Nossos inimigos nas redes mentem o tempo
todo. Passam o tempo insultando nossos líderes, caluniando, dizendo coisas sem
qualquer prova. A mentira é a arma essencial desse novo fascismo. E, apesar do
dano que provocam, não podemos responder mentindo. É preciso defender a
verdade.
É
preciso apresentar a verdade da forma mais eficaz possível. Sou roqueiro. A
nova canção de Bruce Springsteen não impressiona do ponto de vista musical, mas
é um belo hino de solidariedade.
E há
também o que aconteceu com Bad Bunny. Ele reivindicou os latinos, disse que
suas vidas importam — e isso doeu muito em Trump. Ele respondeu dizendo que era
um show terrível, uma bofetada para seu país. Se não fosse tão sinistro, seria
até cômico.
·
Que reações Trump provocou no povo cubano?
Trump
polarizou. Nos radicalizou. Nos tornou mais anti-imperialistas, mais
antifascistas.
A
Venezuela foi um golpe duríssimo. Sentimos como uma ferida muito íntima, como
se tivesse sido contra nós também. Mas a forma como este país chorou nossos 32
irmãos que morreram defendendo o presidente Maduro foi uma mensagem tremenda
para Trump e Marco Rubio — uma mensagem de unidade e firmeza.
No dia
em que as urnas foram colocadas no Ministério das Forças Armadas, as pessoas
desfilaram por horas. Era um dia frio e chuvoso, e ninguém deixou as enormes
filas. Levaram seus filhos e seus idosos. Todos enfrentaram aquela fila
interminável. Desde Martí, temos a ideia de que pátria é humanidade. E essa
ideia está profundamente enraizada neste povo.
Nosso
povo tem senso do momento histórico. Sabe quando é preciso dar uma demonstração
de unidade, de firmeza, de dignidade, de amor à soberania e aos princípios.
·
Como essa nova volta de parafuso afetou o mundo cultural?
Estamos
diante de um brutal golpe colonial, que pretende provocar uma mudança de
regime. Vivemos momentos duríssimos. Quem fica sem gasolina e sem petróleo
são os hospitais, os lares de idosos. Quem sofre é o povo cubano.
Este
momento me recorda a frase de Iván Karamázov, personagem de Fiódor Dostoiévski:
se Deus não existe, tudo é permitido. E, como para Trump o único Deus que
existe é ele mesmo, tudo lhe é permitido. São os caprichos de um personagem
grotesco e brutal que nos colocaram diante de um mundo sem regras. Ele chutou o
tabuleiro. Já não há normas.
Mas
aqui há muita história, história demais. Há uma cultura anticolonial e
anti-imperialista. Cuba é um país com uma força cultural muito vigorosa e um
sentimento nacional muito forte. Cultura e nação caminham juntas. Entre os
artistas há um sentimento patriótico muito íntimo, associado à sua forma de
compreender a vida. É assim que eles têm se manifestado.
O
significado deste momento é que estamos diante do velho dilema: colônia ou
soberania, colônia ou independência. E, para nós, independência é sinônimo de
socialismo. Se perdermos o socialismo, perde-se a nação. Se a revolução for
derrotada, voltaremos à condição de uma colônia ianque humilhada e vergonhosa,
o que fomos há mais de 60 anos. Este país jamais será isso.
·
Como este bloqueio tem afetado a criação artística?
Apesar
dos apagões, realizamos o Festival de Cinema de Havana com muito êxito. Também
aconteceu o Festival de Jazz, ao qual vieram muitos estadunidenses. Mas tivemos
de adiar a Feira do Livro. Vamos manter o Prêmio Casa das Américas, mas as
avaliações do júri serão feitas online.
·
Você tem insistido na necessidade de se aliar ao povo dos
Estados Unidos. Essa continua sendo sua posição?
Há um
movimento antifascista dentro dos Estados Unidos. É preciso enviar uma mensagem
ao povo que luta ali. Fidel disse a Ramonet que, quando o povo dos Estados
Unidos conhece a verdade sobre um fato, reage de maneira nobre e justa. Fidel
nos convidou a confiar nos sentimentos e nas virtudes desse povo. Pablo
González Casanova entendeu isso muito bem. É necessário formar uma frente
antifascista internacional, apoiando-se na Rede de Intelectuais e Artistas em
Defesa da Humanidade.
·
Qual é a relevância de dom Pablo em um momento como este?
Pablo
foi quem idealizou a Rede. Seu senso ético e sua lucidez caminhavam juntos. Era
um homem brilhante, com um olhar agudíssimo sobre os processos culturais,
políticos e históricos, além de uma ética extraordinária. Ele nos faz falta.
Sempre nos faz falta um homem como Pablo. Um homem extraordinário.
Mas não
podemos esquecer que não é apenas Cuba que está em perigo. Creio que a América
Latina, o Caribe e o mundo estão em risco com este auge do fascismo. Inclusive
estão tentando disputar a memória. Querem lavar a imagem de Franco, de Hitler,
de Mussolini, a imagem daqueles que cometeram o genocídio dos povos indígenas.
·
Nem os mortos estão em paz?
A
batalha é pelo presente e pelo futuro, e também por nossa memória.
·
Você foi qualificado como marxista-lennonista. O que acha
que Lennon pode nos dizer para uma época como a atual?
Adoro
Lenin, mas me encanta o rótulo de marxista-lennonista. O Beatle teria sido um
militante anti-Trump incansável. Foi um grande combatente contra o genocídio no
Vietnã, um lutador pela paz. Deixou canções extraordinárias contra os senhores
da guerra.
·
Com qual delas você fica?
Com Imagine. Trata-se de uma
utopia lindíssima.
Fonte: Brasil
247/A Terra é Redonda/La Jornada

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