Sem
indústria, não há soberania: o alerta sobre minerais críticos
O mundo
já entendeu que minerais críticos são infraestrutura de poder. Os Estados
Unidos pressionam, a China domina, a Índia avança. E o Brasil? Está prestes a
decidir se entra no século XXI como potência industrial ou se permanece como
fornecedor subordinado de recursos. Este não é um debate técnico. É uma disputa
pelo futuro.
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Entre a jazida e o poder, existe a cadeia produtiva, e é nela que se decide a
soberania
O erro
começa quando o Brasil ainda trata minerais críticos como um tema de mineração.
Não são. Já não são há algum tempo. O mundo que disputa esses recursos não está
interessado em jazidas, mas no que se faz com elas. E é nesse deslocamento que
se define o poder no século XXI.
Minerais
críticos são a base material de tudo aquilo que organiza a economia
contemporânea. Estão nos ímãs que movem turbinas eólicas, nos motores de
veículos elétricos, nos sistemas de defesa, nos data centers, nas cadeias de
semicondutores, na infraestrutura digital que sustenta a inteligência
artificial. Quem controla essa transformação controla a indústria, a tecnologia
e, em última instância, a soberania. Por isso, a questão central já não é quem
possui os recursos, mas quem domina a cadeia que os converte em poder.
Os
Estados Unidos compreenderam isso e passaram a reorganizar sua estratégia
industrial e de segurança nacional a partir dessa premissa. Não buscam apenas
acesso a minerais, mas a reconfiguração das cadeias globais para reduzir
dependências estratégicas, sobretudo em relação à China. A China, por sua vez,
não chegou agora. Construiu, ao longo de décadas, uma posição dominante
exatamente onde o valor é criado: no refino, na metalurgia, na fabricação de
componentes críticos, no domínio tecnológico e industrial que transforma
matéria em capacidade produtiva. A Índia se move para ocupar espaço nesse
rearranjo, tentando acelerar sua industrialização e se posicionar como
alternativa em uma cadeia em disputa. Não há neutralidade nesse cenário. Há
competição organizada por controle.
É nesse
contexto que o Brasil aparece. Não como protagonista consolidado, mas como
território estratégico a ser integrado a essas cadeias sob termos definidos por
outros. E é aqui que a disputa real começa, ainda que muitas vezes disfarçada
de cooperação.
A
pressão externa não se apresenta como imposição direta. Ela vem sob a forma de
parcerias, financiamentos, acordos de cooperação, promessas de processamento
local e integração a cadeias consideradas seguras. Mas, na prática, o que está
em jogo é a tentativa de garantir acesso aos recursos brasileiros sem permitir
que o país controle os elos de maior valor agregado. Trata-se de uma pressão
assimétrica, sofisticada e persistente, que opera justamente porque não se
declara como tal.
O risco
é aceitar essa lógica como avanço.
Porque
a armadilha central já está desenhada. Ela não está mais na exportação de
minério bruto, como no passado. Está na aceitação de um modelo em que o Brasil
realiza etapas intermediárias da cadeia, enquanto o controle do conhecimento,
da tecnologia, da propriedade intelectual e dos produtos finais permanece fora.
Trata-se de uma dependência atualizada, mais sofisticada, mas estruturalmente
idêntica.
Processar
no território nacional não é sinônimo de soberania. Sem domínio do refino
avançado, da metalurgia, da fabricação de ímãs, da integração industrial e do
desenvolvimento tecnológico, o país continua ocupando uma posição subordinada.
O que muda é apenas o nível de complexidade do que se exporta, não o lugar que
se ocupa na divisão internacional do trabalho.
É
exatamente por isso que o momento atual exige clareza estratégica.
O
encontro entre Lula e Trump não pode ser tratado como uma agenda diplomática
comum. Ele ocorre no centro de uma disputa global pela reorganização de cadeias
produtivas e, portanto, deve ser lido como uma negociação sobre o lugar do
Brasil no século XXI. Não se trata de discutir exportações, investimentos ou
cooperação genérica. Trata-se de definir se o país terá capacidade de controlar
os elos decisivos da cadeia ou se será integrado a ela como fornecedor.
Qualquer
acordo que não tenha como eixo a industrialização local, a transferência
tecnológica real, o controle dos dados e a integração completa da cadeia
produtiva reproduz, sob nova linguagem, o padrão histórico de dependência. Não
importa a narrativa que o acompanhe. O resultado será o mesmo.
Soberania,
nesse contexto, deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma condição
material. Ela depende de capacidade produtiva, de domínio tecnológico, de
coordenação estatal e de decisão política. Não é algo que se declara. É algo
que se constrói.
E essa
construção não pode ser delegada exclusivamente ao governo.
A
disputa pelos minerais críticos não será decidida apenas em mesas de
negociação. Ela será definida pela capacidade da sociedade brasileira de
compreender o que está em jogo e de pressionar por um projeto que não aceite
atalhos fáceis nem soluções aparentes. Jornalistas, formadores de opinião,
academia, setor produtivo e trabalhadores precisam disputar esse debate com
clareza, recusando a narrativa de que qualquer investimento ou parceria
representa automaticamente avanço.
Porque
não representa.
Sem
controle da cadeia, não há soberania. Sem indústria, não há autonomia. Sem
tecnologia, não há poder.
O
Brasil já percorreu esse caminho antes. Exportou recursos, importou valor e
permaneceu preso a uma posição subordinada no sistema internacional. Repetir
esse movimento agora, em um momento em que as cadeias produtivas definem o
centro do poder global, não é apenas um erro econômico. É uma escolha histórica
com consequências de longo prazo.
E,
desta vez, não haverá desculpa de desconhecimento.
O que
está em jogo é claro. A disputa está colocada. As condições estão dadas.
Resta
saber se o Brasil vai negociar o seu futuro ou, mais uma vez, aceitá-lo pronto,
abrindo mão de decidir o próprio destino.
• Na Índia, Lula amplia parcerias e assina
pactos em áreas estratégicas
O
governo brasileiro anunciou a adoção de uma série de atos bilaterais durante a
visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Índia,
realizada em Nova Déli. A agenda resultou na divulgação da Declaração Conjunta
Brasil-Índia e no lançamento da Parceria Digital para o Futuro, consolidando
uma nova etapa da cooperação entre os dois países. Segundo o Ministério das
Relações Exteriores (MRE), foram firmados compromissos entre órgãos
governamentais, instituições públicas e empresas brasileiras e indianas ao
longo da visita presidencial.
Além da
declaração conjunta e da criação da Parceria Digital para o Futuro, Brasil e
Índia formalizaram instrumentos em diferentes áreas estratégicas, com foco em
inovação, desenvolvimento sustentável e fortalecimento das cadeias produtivas.
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Acordos governamentais e cooperação institucional
Entre
os atos governamentais e institucionais, foi assinado memorando de entendimento
entre o Ministério de Minas do governo da República da Índia e o Ministério de
Minas e Energia do Brasil para cooperação no campo de elementos de terras raras
e minerais críticos.
Também
foi firmado memorando para cooperação no setor postal entre o Ministério das
Comunicações do Brasil e o Departamento de Correios do governo indiano.
No
campo das micro, pequenas e médias empresas, houve acordo entre o Ministério do
Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte do Brasil e o
Ministério das Micro, Pequenas e Médias Empresas da Índia.
Na área
sanitária, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) celebrou
memorando com a Organização Central de Controle de Padrões de Medicamentos da
Índia (CDSCO/DGHS), vinculada ao Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar.
Outro
instrumento estabelece o uso de certificados eletrônicos de origem entre os
dois países, com o objetivo de facilitar o comércio bilateral. Também foi
assinado acordo de cooperação entre o Conselho de Pesquisa Científica e
Industrial da Índia (CSIR) e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI) para acesso à Biblioteca Digital de Conhecimento Tradicional (TKDL).
No
campo educacional, o Ministério da Educação firmou memorando com o Instituto
Internacional de Tecnologia da Informação (IIIT) de Bangalore para cooperação
em transformação digital na educação. A Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) assinou acordo com o Instituto Indiano de Comunicação de Massa, e o
Instituto Satyajit Ray de Cinema e Televisão (SRFTI) estabeleceu parceria com a
Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Já no
setor siderúrgico, foi celebrado um memorando entre o Ministério do Aço da
Índia e o Ministério de Minas e Energia do Brasil para cooperação na cadeia de
suprimentos do aço.
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Parcerias público-privadas e investimentos
No
âmbito público-privado, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de
Farmanguinhos, firmou memorandos com a Biocon Pharma Ltda e com a Lupin Ltda
para pesquisa, desenvolvimento e inovação de fármacos estratégicos para o
Sistema Único de Saúde (SUS). Os acordos abrangem medicamentos destinados a
doenças raras, oncológicas, imunossupressores e enfermidades negligenciadas,
como tuberculose, malária, esquistossomose, hanseníase e doença de Chagas.
A
ApexBrasil assinou memorando com a Federação de Câmaras de Comércio e Indústria
da Índia (FICCI) para cooperação em promoção comercial e atração de
investimentos.
Empresas
de grande porte também formalizaram entendimentos. A Vale S.A., a NMDC Limited
e a Adani Gangavaram Port Limited firmaram memorando para a criação de zona
econômica especial no Porto de Gangavaram, voltada à blendagem e à venda de
finos de minério de ferro. A Embraer e a Adani Defense & Aerospace
assinaram acordo para a construção de linha de montagem final da aeronave E175
na Índia.
A
Fundação Vale e o Grupo TATA estabeleceram memorando para o desenvolvimento de
iniciativas direcionadas ao combate à pobreza multidimensional no Brasil e na
Índia. No setor sucroenergético, a ISMA (Indian Sugar & Bio-Energy
Manufacturers Association) e a UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar)
acordaram cooperação com foco em soluções sustentáveis para açúcar e
bioenergia.
Também
foram celebrados termos de compromisso entre BahiaFarma, Biocon Biologics
Limited e Bionovis S.A. para o desenvolvimento produtivo do medicamento
Pertuzumabe; entre BahiaFarma, Dr. Reddy’s Laboratories Ltda e Bionovis S.A.
para o medicamento Nivolumabe; e parceria entre a Fundação para o Remédio
Popular (FURP), Biocon Pharma e Nortec Química S.A. para o desenvolvimento
produtivo do medicamento Dasatinibe.
O
conjunto de atos adotados durante a visita de Estado reforça a ampliação da
cooperação Brasil-Índia em áreas consideradas estratégicas para os dois países,
abrangendo recursos minerais críticos, saúde pública, educação, inovação
tecnológica, indústria, comércio e desenvolvimento sustentável.
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Brasil e Coreia do Sul firmam acordos para expandir comércio e cooperação em
minerais críticos
Os
presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Lee Jae Myung anunciaram nesta
segunda-feira (23), em Seul, a ampliação da cooperação bilateral entre Brasil e
Coreia do Sul em áreas como comércio, minerais estratégicos, tecnologia e
cultura. Ao final do primeiro encontro oficial no país asiático em 21 anos, os
líderes confirmaram a decisão de elevar o relacionamento ao status de parceria
estratégica, em movimento que ocorre em meio a incertezas no comércio global
diante de dúvidas sobre tarifas dos Estados Unidos, relata a agência Reuters.
Os dois
governos também acordaram a adoção de um plano de ação com duração de quatro
anos para estabelecer medidas concretas de fortalecimento da cooperação em
setores como minerais estratégicos, defesa, indústria espacial e segurança
alimentar. O encontro ocorreu na Casa Azul, sede presidencial sul-coreana, e
foi seguido por uma cerimônia conjunta para formalização de acordos.
Durante
a coletiva de imprensa, Lee Jae Myung ressaltou a importância da estabilidade
regional e da cooperação internacional. “A paz, construída em condições em que
o conflito não é necessário, é a forma mais forte de segurança”, afirmou o
presidente sul-coreano. Ele acrescentou que os dois países trabalharão juntos
para apoiar a estabilidade na Península Coreana.
Ao
todo, foram assinados 10 memorandos de entendimento abrangendo comércio e
política industrial, minerais essenciais, economia digital — incluindo
inteligência artificial —, agricultura, saúde e biotecnologia, intercâmbio de
pequenas empresas e cooperação policial contra crimes cibernéticos,
narcotráfico e outras ameaças transnacionais.
O
Brasil é o principal parceiro comercial da Coreia do Sul na América do Sul, o
que reforça o peso da agenda econômica nas negociações. Lula destacou o
potencial brasileiro na área de recursos minerais estratégicos e sinalizou
interesse em ampliar investimentos sul-coreanos no país. Segundo o presidente,
o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, além de
expressivas jazidas de níquel, e o governo busca atrair empresas sul-coreanas
para esses segmentos.
Os dois
líderes também defenderam a retomada das negociações para a conclusão de um
acordo comercial entre a Coreia do Sul e o Mercosul. As tratativas tiveram
início em 2018, mas foram suspensas devido a divergências relacionadas à
proteção de produtos agrícolas e manufaturados.
Além da
pauta econômica, Lula propôs ampliar o diálogo sobre indústrias verdes e
transição energética e convidou a Coreia do Sul a participar do Fundo Amazônia,
mecanismo de financiamento voltado à conservação da floresta.
Antes
do encontro oficial, Lee publicou mensagem na rede X dando boas-vindas ao
presidente brasileiro e destacando afinidades pessoais e políticas. “Como
ex-trabalhador infantil, você provou com toda a sua vida que a democracia é a
ferramenta mais poderosa para o progresso social e econômico”, escreveu. “Apoio
sua vida, sua luta e suas conquistas, que permanecerão para sempre na história
da democracia global.”
Os dois
chefes de Estado já haviam se reunido anteriormente durante a cúpula do G7, no
Canadá, no ano passado, e também no encontro do G20, na África do Sul. A visita
de Estado incluiu cerimônia oficial na Casa Azul e previsão de banquete com
pratos típicos, além de apresentação de músicas brasileiras por uma banda de
jazz sul-coreana acompanhada por um coral infantil, segundo o gabinete
presidencial de Seul.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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