Samuel
Kilsztajn: Pesadelo palestino
Ninguém
poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo
em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra
Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso,
a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque
a Palestina é a minha terra natal.
Com o
fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra
por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos
judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus
(ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No
decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em
massa dos judeus. Com que direito as Nações
Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os
sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um
santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos
de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados
a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos
de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das
fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a
catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano
de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3
milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e
400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200
mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que
garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas
aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados
palestinos às suas casas.
A crise
causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos
judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da
África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a
substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por
700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países
muçulmanos (300 mil).
Israel
não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de
Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil
refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de
Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida
a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas
controladas por Israel; e
Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua
política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra
gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente
a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo
(mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos
anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas
de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense
pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é
centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia
e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras
palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda
sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e
apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste
processo.
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Responsabilidade e anuência do genocídio palestino
Para a
Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver
os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu
sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra
Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço
pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo
ocidental e a maioria dos judeus festejaram as
vitórias militares israelenses como atos heroicos que
contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras
militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da
diáspora).
Além
disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo
antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo
comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no
final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam
“formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um
posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado
judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os
judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra
santa contra o Islão.
O
pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora
as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas,
documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham
sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A
grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo
em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre
Israel e Hamas,
realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses
declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da
pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes
israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que
a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda
(45%).
No
decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas,
mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se
empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os
consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos,
que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que
está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se
orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive
bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os
palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de
declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do
Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos
judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o
Estado de Israel, inclusive os judeus
ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado
antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula
o antissemitismo.
Quando
e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na
diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território
israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para
provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da
imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era
um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos
abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de
Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A
Europa, principalmente a Alemanha, palco do
Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das
manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos
os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas
com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo
genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China
e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel
alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas,
embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah
e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio
Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a
Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente
às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em
1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em
1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel
criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele
que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e
quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino,
podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do
povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
¨
Anexação da Cisjordânia: avanço sionista na região é o
mais grave em 59 anos
No
domingo, 8 de fevereiro, o Gabinete de Segurança de Israel aprovou novas regras
para aumentar o controle sobre a Cisjordânia ocupada. O supremacismo étnico e religioso
sionista continua
seu caminho sombrio para ocupar toda a Palestina Histórica. “Não há nada que
impeça os colonos de possuir terras, vir para o centro da cidade de Ramallah e
construir casas”, disse a repórter Nida Ibrahim, de Birzeit, na Cisjordânia, em matéria publicada na
Al Jazeera English,
acrescentando que isso é ilegal segundo o acordo assinado com a Organização
para a Libertação da Palestina (OLP) e as leis internacionais que proíbem uma
potência ocupante de transferir seus cidadãos para territórios ocupados. “Os
palestinos só podem construir casas nas Áreas A e B, onde podem possuir terras,
construir e expandir”, relata Ibrahim. “Existem muitas restrições aos
palestinos que possuem terras ou constroem casas. Sempre que constroem na Área
C, Israel as demole”, continua. “A Área C, em particular, tem uma grande
presença de colonos”, afirma.
Até
hoje, a Cisjordânia ocupada é dividida em três zonas distintas, como resultado
dos Acordos de Oslo de 1993, assinados pela OLP e Israel. Nela, a Área A
(18%) representa o território que está sob controle palestino;
a Área B (22%), o que está sob controle conjunto de Israel e da
Palestina e; a na Área C (60%), encontra-se a maioria da área que está
sob controle total de Israel, conforme indicado no mapa da
reportagem. Além disso, informa que cerca de 700 mil colonos
israelenses vivem em aproximadamente 250 assentamentos
ilegais localizados na Área C, marcados em vermelho, e em Jerusalém
Oriental ocupada, registrada na cor amarela.
Continua
após o anúncio
“O
ministro das Finanças [do regime sionista], Bezalel Smotrich, elogiou as
mudanças como um reforço da presença de Israel no território, enquanto o
ministro da Defesa, Israel Katz, disse que elas estabelecem uma âncora
estratégica permanente para a política de assentamentos” coloniais, informa
o i24 News, site de notícias
israelense.
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Palestinos temem anexação
Autoridades
palestinas locais descrevem a medida como a mais grave desde 1967, alertando
para uma tentativa de “esvaziar” bairros palestinos e criar bairros
judeus ligando assentamentos à mesquita Ibrahimi, repetindo o “modelo
Hebron” de divisão e controle militar desde o massacre de 1994. Moradores temem
que a nova administração sionista do local sagrado leve à anexação da área,
impedindo sepultamentos e visitas ao cemitério islâmico, o que forma parte de
uma política sistemática e acelerada para consolidar o controle israelense
sobre a Cisjordânia, estabelecendo uma anexação permanente, reporta Al Jazeera English.
Várias organizações civis palestinas
denunciaram energicamente as recentes medidas de anexação e colonização na
Cisjordânia.
Manifestam que a eliminação do status legal desses territórios
visa acelerar o deslocamento forçado e consolidar a soberania da potência
ocupante. Diante dessa situação, líderes sociais exigem uma reunião nacional de
urgência para estabelecer uma estratégia defensiva unificada e firme. Além
disso, fazem um apelo desesperado ao Conselho de Segurança da ONU para intervir
diante do que classificam como crimes contra a humanidade. O relatório ressalta
a importância de fortalecer a resistência civil e os laços de cooperação
internacional para proteger a existência do povo palestino, segundo a agência
de notícias SadaNews, sediada em Ramallah.
Já o
presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, enfatizou a
necessidade de suspender essas medidas destinadas a minar as instituições do
Estado palestino e a solução de dois Estados, além de consolidar a
ocupação militar de 58 anos da Cisjordânia por Israel e seu projeto
colonialista, em violação ao direito internacional e às Convenções de
Genebra. Ele instou a comunidade internacional a agir de forma urgente e eficaz
“para pôr fim a essas medidas e responsabilizar o governo israelense por suas
violações contínuas, para preservar a credibilidade do sistema internacional
baseado no respeito ao direito e à Carta das Nações Unidas”, reportou a Agência Palestina de Notícias e
Informação (WAFA,
na sigla em inglês).
Em
resposta à ação israelense, os combatentes da resistência de Hamas teriam
convocado a população da Cisjordânia a “intensificar o confronto com a ocupação
e seus colonos”, de acordo com reportagem da Al
Jazeera English.
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Países da região condenam avanços coloniais
Mesmo
formando parte do macabro “Conselho de Paz”, plano sionista e
imperial que pretende exterminar a soberania palestina em Gaza, oito países de
maioria muçulmana — Egito, Indonésia, Jordânia, Paquistão, Catar, Arábia
Saudita, Turquia e Emirados Árabes Unidos — denunciaram as mudanças, afirmando
que elas visam “impor a soberania ilegal de Israel” na
Cisjordânia. Durante anos, Israel tem buscado anexar a Cisjordânia
ocupada. “Sob o atual governo, que assumiu o poder no início de 2023, a
expansão dos assentamentos atingiu seu nível mais alto desde que a ONU começou
a acompanhar esses dados em 2017”, e “somente em 2025, quase 47.390 unidades
habitacionais foram avançadas, aprovadas ou licitadas, contra cerca de 26.170
em 2024”, reporta a Quds News Network
(QNN),
agência de notícias palestina.
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Ex-comandantes do Exército de Israel alertam que o movimento põe em risco a
segurança do regime
Segundo
o grupo Comandantes para a Segurança de Israel (CIS, na sigla em inglês),
liderado pelo ex-major-general Matan Vilnai e composto por ex-chefes do Mossad,
do Shin Bet (Serviço de Segurança de Israel), da polícia e outros altos
funcionários das Forças de Ocupação de Israel, “essas ações, combinadas com a
escalada acentuada e incessante do terrorismo judaico nos territórios,
contribuem diretamente para – e irão exacerbar ainda mais – a radicalização de
jovens palestinos e, consequentemente, seu armamento e recrutamento para o
Hamas”, bem como outras organizações da resistência palestina. “Embora o CIS
represente a opinião majoritária no meio das forças de segurança, há muitos
oficiais de segurança do outro lado do debate, e muitos partidos políticos de
centro não se opõem à construção na Cisjordânia, mesmo que não a incentivem
tanto quanto os partidos de direita”, reporta o Jerusalem Post, meio de comunicação
israelense.
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ONU: Israel viola o direito dos palestinos à autodeterminação
Em 9 de
fevereiro, Stéphane Dujarric, porta-voz do Secretário-Geral das Nações Unidas,
António Guterres, declarou que a decisão
do governo israelense está “comprometendo a perspectiva de uma solução de dois
Estados”. Ele reitera que “todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia
ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, e seus respectivos regimes e infraestruturas,
não possuem validade legal e constituem uma violação flagrante do direito
internacional, incluindo as resoluções pertinentes das Nações Unidas”. Disse
também que “tais ações, incluindo a presença contínua de Israel no Território
Palestino Ocupado, não são apenas desestabilizadoras, mas também – como lembrou
o Tribunal Internacional de Justiça – ilegais”.
Na
quarta-feira, (11), o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirmou
que as decisões aprovadas pelo gabinete de segurança israelense são “as mais
recentes de uma série de medidas para anexar terras palestinas, em flagrante
violação do direito à autodeterminação” do povo palestino, informou a TRT World, canal de notícias
turco.
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Ex-premiê israelense condena
Em entrevista à Al
Jazeera English,
o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert disse que as novas regras
territoriais israelenses que facilitam a expansão ilegal dos assentamentos na
Cisjordânia ocupada “parecem uma limpeza étnica” dos palestinos. “Sou contra a
política... do governo e dos membros seniores do gabinete, particularmente os
aliados mais importantes do primeiro-ministro israelense, o grupo messiânico de
bandidos”, disse o autodeclarado sionista. “Isso é algo que certamente mostra
uma tentativa de criar uma limpeza étnica na Cisjordânia visando limpar os
territórios para que a eventual anexação seja mais fácil e simples”.
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Brasil condena Israel
Na
avaliação do Itamaraty, tais decisões impulsionam o avanço dos assentamentos
considerados ilegais e intensificam a interferência de Israel sobre regiões
palestinas sob ocupação. “O governo brasileiro deplora as medidas aprovadas em
8 de fevereiro pelo gabinete de segurança de Israel, que facilitam a aquisição
de imóveis por cidadãos israelenses na Cisjordânia, Estado da Palestina, por
meio da alteração de regras de registro de terras, e conferem novas atribuições
administrativas e de fiscalização a agências do governo israelense”, afirma
o comunicado do
Ministério das Relações Exteriores, publicado na terça-feira (10).
Fonte:
Le Monde/Diálogos do Sul Global

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