quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Samuel Kilsztajn: Pesadelo palestino

Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal. 

Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos. 

Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.  

A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).  

Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada. 

Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética). 

Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo. 

<><> Responsabilidade e anuência do genocídio palestino 

Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).  

Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão. 

O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).  

No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas. 

Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo. 

Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia. 

A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções. 

A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios. 

¨      Anexação da Cisjordânia: avanço sionista na região é o mais grave em 59 anos

No domingo, 8 de fevereiro, o Gabinete de Segurança de Israel aprovou novas regras para aumentar o controle sobre a Cisjordânia ocupada. O supremacismo étnico e religioso sionista continua seu caminho sombrio para ocupar toda a Palestina Histórica. “Não há nada que impeça os colonos de possuir terras, vir para o centro da cidade de Ramallah e construir casas”, disse a repórter Nida Ibrahim, de Birzeit, na Cisjordânia, em matéria publicada na Al Jazeera English, acrescentando que isso é ilegal segundo o acordo assinado com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e as leis internacionais que proíbem uma potência ocupante de transferir seus cidadãos para territórios ocupados. “Os palestinos só podem construir casas nas Áreas A e B, onde podem possuir terras, construir e expandir”, relata Ibrahim. “Existem muitas restrições aos palestinos que possuem terras ou constroem casas. Sempre que constroem na Área C, Israel as demole”, continua. “A Área C, em particular, tem uma grande presença de colonos”, afirma. 

Até hoje, a Cisjordânia ocupada é dividida em três zonas distintas, como resultado dos Acordos de Oslo de 1993, assinados pela OLP e Israel. Nela, a Área A (18%) representa o território que está sob controle palestino; a Área B (22%), o que está sob controle conjunto de Israel e da Palestina e; a na Área C (60%), encontra-se a maioria da área que está sob controle total de Israel, conforme indicado no mapa da reportagem. Além disso, informa que cerca de 700 mil colonos israelenses vivem em aproximadamente 250 assentamentos ilegais localizados na Área C, marcados em vermelho, e em Jerusalém Oriental ocupada, registrada na cor amarela.

Continua após o anúncio

“O ministro das Finanças [do regime sionista], Bezalel Smotrich, elogiou as mudanças como um reforço da presença de Israel no território, enquanto o ministro da Defesa, Israel Katz, disse que elas estabelecem uma âncora estratégica permanente para a política de assentamentos” coloniais, informa o i24 News, site de notícias israelense. 

<><> Palestinos temem anexação

Autoridades palestinas locais descrevem a medida como a mais grave desde 1967, alertando para uma tentativa de “esvaziar” bairros palestinos e criar bairros judeus ligando assentamentos à mesquita Ibrahimi, repetindo o “modelo Hebron” de divisão e controle militar desde o massacre de 1994. Moradores temem que a nova administração sionista do local sagrado leve à anexação da área, impedindo sepultamentos e visitas ao cemitério islâmico, o que forma parte de uma política sistemática e acelerada para consolidar o controle israelense sobre a Cisjordânia, estabelecendo uma anexação permanente, reporta Al Jazeera English

Várias organizações civis palestinas denunciaram energicamente as recentes medidas de anexação e colonização na Cisjordânia. Manifestam que a eliminação do status legal desses territórios visa acelerar o deslocamento forçado e consolidar a soberania da potência ocupante. Diante dessa situação, líderes sociais exigem uma reunião nacional de urgência para estabelecer uma estratégia defensiva unificada e firme. Além disso, fazem um apelo desesperado ao Conselho de Segurança da ONU para intervir diante do que classificam como crimes contra a humanidade. O relatório ressalta a importância de fortalecer a resistência civil e os laços de cooperação internacional para proteger a existência do povo palestino, segundo a agência de notícias SadaNews, sediada em Ramallah.

Já o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, enfatizou a necessidade de suspender essas medidas destinadas a minar as instituições do Estado palestino e a solução de dois Estados, além de consolidar a ocupação militar de 58 anos da Cisjordânia por Israel e seu projeto colonialista, em violação ao direito internacional e às Convenções de Genebra. Ele instou a comunidade internacional a agir de forma urgente e eficaz “para pôr fim a essas medidas e responsabilizar o governo israelense por suas violações contínuas, para preservar a credibilidade do sistema internacional baseado no respeito ao direito e à Carta das Nações Unidas”, reportou a Agência Palestina de Notícias e Informação (WAFA, na sigla em inglês).

Em resposta à ação israelense, os combatentes da resistência de Hamas teriam convocado a população da Cisjordânia a “intensificar o confronto com a ocupação e seus colonos”, de acordo com reportagem da Al Jazeera English.

<><> Países da região condenam avanços coloniais 

Mesmo formando parte do macabro “Conselho de Paz”, plano sionista e imperial que pretende exterminar a soberania palestina em Gaza, oito países de maioria muçulmana — Egito, Indonésia, Jordânia, Paquistão, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Emirados Árabes Unidos — denunciaram as mudanças, afirmando que elas visam “impor a soberania ilegal de Israel” na Cisjordânia. Durante anos, Israel tem buscado anexar a Cisjordânia ocupada. “Sob o atual governo, que assumiu o poder no início de 2023, a expansão dos assentamentos atingiu seu nível mais alto desde que a ONU começou a acompanhar esses dados em 2017”, e “somente em 2025, quase 47.390 unidades habitacionais foram avançadas, aprovadas ou licitadas, contra cerca de 26.170 em 2024”, reporta a Quds News Network (QNN), agência de notícias palestina.

<><> Ex-comandantes do Exército de Israel alertam que o movimento põe em risco a segurança do regime

Segundo o grupo Comandantes para a Segurança de Israel (CIS, na sigla em inglês), liderado pelo ex-major-general Matan Vilnai e composto por ex-chefes do Mossad, do Shin Bet (Serviço de Segurança de Israel), da polícia e outros altos funcionários das Forças de Ocupação de Israel, “essas ações, combinadas com a escalada acentuada e incessante do terrorismo judaico nos territórios, contribuem diretamente para – e irão exacerbar ainda mais – a radicalização de jovens palestinos e, consequentemente, seu armamento e recrutamento para o Hamas”, bem como outras organizações da resistência palestina. “Embora o CIS represente a opinião majoritária no meio das forças de segurança, há muitos oficiais de segurança do outro lado do debate, e muitos partidos políticos de centro não se opõem à construção na Cisjordânia, mesmo que não a incentivem tanto quanto os partidos de direita”, reporta o Jerusalem Post, meio de comunicação israelense. 

<><> ONU: Israel viola o direito dos palestinos à autodeterminação

Em 9 de fevereiro, Stéphane Dujarric, porta-voz do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou que a decisão do governo israelense está “comprometendo a perspectiva de uma solução de dois Estados”. Ele reitera que “todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, e seus respectivos regimes e infraestruturas, não possuem validade legal e constituem uma violação flagrante do direito internacional, incluindo as resoluções pertinentes das Nações Unidas”. Disse também que “tais ações, incluindo a presença contínua de Israel no Território Palestino Ocupado, não são apenas desestabilizadoras, mas também – como lembrou o Tribunal Internacional de Justiça – ilegais”.

Na quarta-feira, (11), o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirmou que as decisões aprovadas pelo gabinete de segurança israelense são “as mais recentes de uma série de medidas para anexar terras palestinas, em flagrante violação do direito à autodeterminação” do povo palestino, informou a TRT World, canal de notícias turco.

<><> Ex-premiê israelense condena

Em entrevista à Al Jazeera English, o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert disse que as novas regras territoriais israelenses que facilitam a expansão ilegal dos assentamentos na Cisjordânia ocupada “parecem uma limpeza étnica” dos palestinos. “Sou contra a política... do governo e dos membros seniores do gabinete, particularmente os aliados mais importantes do primeiro-ministro israelense, o grupo messiânico de bandidos”, disse o autodeclarado sionista. “Isso é algo que certamente mostra uma tentativa de criar uma limpeza étnica na Cisjordânia visando limpar os territórios para que a eventual anexação seja mais fácil e simples”.

<><> Brasil condena Israel

Na avaliação do Itamaraty, tais decisões impulsionam o avanço dos assentamentos considerados ilegais e intensificam a interferência de Israel sobre regiões palestinas sob ocupação. “O governo brasileiro deplora as medidas aprovadas em 8 de fevereiro pelo gabinete de segurança de Israel, que facilitam a aquisição de imóveis por cidadãos israelenses na Cisjordânia, Estado da Palestina, por meio da alteração de regras de registro de terras, e conferem novas atribuições administrativas e de fiscalização a agências do governo israelense”, afirma o comunicado do Ministério das Relações Exteriores, publicado na terça-feira (10).

 

Fonte: Le Monde/Diálogos do Sul Global

 

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