'PIB
fantasma' e desemprego em massa: as previsões apocalípticas de texto sobre IA
que assustou mercados
As
ações de algumas empresas de tecnologia — sobretudo de software — despencaram
na segunda-feira (23/2) e analistas dizem que o principal motivo seria uma
postagem em um blog que viralizou, pintando um cenário sombrio para a economia
mundial diante da ascensão da inteligência artificial.
As
empresas de software Datadog, CrowdStrike e Zscaler viram suas ações
despencarem mais de 9% cada uma ao longo da segunda-feira. A International
Business Machines teve queda de 13% — seu pior desempenho em um único dia desde
2000.
Outras
empresas cujo desempenho também pode vir a ser afetado no futuro pela
inteligência artificial também viram suas ações perderem valor. As ações da
American Express caíram cerca de 7%, enquanto as do JPMorgan, Citigroup e
Morgan Stanley recuaram mais de 4%. Mastercard e Visa tiveram quedas de mais de
4%.
Segundo
analistas e jornalistas especializados, o principal motivo por trás das quedas
no mercado foi um post escrito pela Citrini Research, uma empresa que foi
fundada pelo investidor James van Gleek. A Citrini Research é um dos canais de
finanças mais lidos do Substack.
O texto
que viralizou fala em um "PIB fantasma", a ideia de que a
inteligência artificial vai aumentar a produtividade e até o tamanho de algumas
economias, mas que provocaria ao mesmo tempo desemprego em massa ao substituir
humanos. Com isso, esse aumento da riqueza seria apenas ilusório.
"A
explicação mais comum para a renovada apreensão [nos mercados na segunda-feira]
foi uma postagem no blog da Citrini Research sobre como a IA poderia levar à
demissão de muitos profissionais de alta renda e prejudicar a economia",
escreveu o colunista Robert Armstrong, do jornal britânico Financial Times.
Já o
Wall Street Journal escreveu que "não é preciso muito para provocar
movimentos turbulentos nas ações em um mercado dominado por ações de tecnologia
e ansioso pelas perspectivas da inteligência artificial".
"Mas
nada evidencia a sensibilidade das ações neste momento como o que aconteceu na
segunda-feira, quando um dos fatores por trás da queda de 800 pontos do Dow
Jones foi um argumento hipotético de 7 mil palavras."
A
Citrini Research afirma logo no começo que seu texto, publicado no domingo, não
é uma previsão do futuro — mas sim um "exercício mental".
"O
único objetivo deste texto é modelar um cenário que tem sido relativamente
pouco explorado", escreve.
O texto
é escrito como se fosse um relatório do dia 30 de junho de 2028.
Ele
relata um mundo com desemprego de 10,2% e queda de quase 40% do S&P (índice
das ações das principais empresas listadas nos EUA). Em apenas dois anos, os
mercados iriam de uma euforia com a inteligência artificial a uma profunda
crise provocada pela ascensão da tecnologia.
Segundo
os autores, a inteligência artificial provocaria desemprego em massa entre
trabalhadores de colarinho branco — atividades ligadas à administração e
gerenciamento. A produtividade das empresas teria um salto com robôs sendo mais
eficientes do que trabalhadores — já que agentes de IA "não dormem, não
tiram dias de folga por doença e não precisam de plano de saúde".
No
entanto, isso geraria um "PIB fantasma": ganhos massivos de
produtividade, mas com queda enorme nos salários reais, já que os trabalhadores
substituídos teriam que buscar empregos com rendimentos menores.
"Quando
começaram a surgir fissuras na economia de consumo, os especialistas econômicos
popularizaram a expressão 'PIB Fantasma': produção que aparece nas contas
nacionais, mas nunca circula pela economia real", escreve a Citrini
Research, prevendo o que analistas do futuro diriam sobre a crise.
"Em
todos os sentidos, a IA estava superando as expectativas, e o mercado era IA. O
único problema... a economia não era."
O texto
descreve uma "espiral de substituição da inteligência humana" que
teria acontecido a partir de 2026, no cenário fictício.
"As
capacidades de IA melhoraram, as empresas precisaram de menos funcionários, as
demissões de profissionais de escritório aumentaram, os trabalhadores demitidos
gastaram menos, a pressão sobre as margens levou as empresas a investir mais em
IA, as capacidades de IA melhoraram… É um ciclo vicioso sem freio
natural."
O
artigo descreve ficcionalmente uma empresa de inteligência artificial que
consegue avanços na área de "agentic coding", em que agentes
autônomos de IA escrevem e testam códigos com intervenção humana mínima.
Com o
tempo, empresas de software gerariam eficiências aos seus clientes, que
precisariam de menos mão-de-obra. Mas menos trabalhadores também implica em
menos licenças de software sendo compradas, gerando perdas financeiras ao
próprio setor de softwares que desenvolveu novas tecnologias.
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'Relações humanas'
A crise
no setor de softwares seria apenas um prelúdio de uma crise mais ampla, segundo
ao artigo.
Com o
tempo, todos os setores produtivos passariam a usar agentes de inteligência
artificial que produziriam ganhos enormes de eficiência.
Praticamente
todas as atividades humanas que necessitam de trabalho especializado — mediante
pagamento por esses serviços — seriam otimizadas por máquinas: comércio,
agências de turismo, contabilidade, serviços legais, entre outros.
"Qualquer
categoria em que a proposta de valor do prestador de serviços é 'Eu vou lidar
com a complexidade que você considera tediosa' foi impactada, pois os agentes
[de inteligência artificial] não acham que nada seja tedioso", escrevem os
autores.
Segundo
eles, até mesmo áreas em que as relações humanas eram valorizadas se provariam
frágeis.
"O
mercado imobiliário, onde os compradores toleravam comissões de 5 a 6% durante
décadas devido à assimetria de informação entre o agente e o consumidor,
desmoronou quando agentes de IA equipados com acesso a bases de dados com
listagem de preços de propriedades e décadas de dados de transações puderam
replicar instantaneamente a base de conhecimento."
"[Descobrimos
que por anos] havíamos superestimamos o valor das 'relações humanas'.
Descobrimos que muito do que as pessoas chamavam de relacionamentos era
simplesmente 'atrito' — só que apresentada de forma mais simpática."
Outro
exemplo dado pelos autores é o de aplicativos de entrega de comida. Segundo
eles, desenvolvedores seriam capazes de criar, com ajuda da inteligência
artificial, aplicativos mais eficientes que os atuais, repassando de 90% a 95%
da receita direto aos motoristas, provocando uma falência em empresas que
dominam o mercado hoje.
Mas
mesmo os motoristas não teriam muito futuro: já que em breve eles próprios
seriam substituídos por veículos autônomos.
Outra
área de otimização seria em transações financeiras, com busca a alternativas
mais baratas aos cartões de crédito, como Visa e Mastercard. O exemplo dado
pela Citrini Research é o das stablecoins como Solana e Ethereum — que são
criptomoedas com menos volatilidade. A migração para sistemas com stablecoins
provocaria uma crise em empresas de meios de pagamentos.
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Empregos dizimados
Segundo
os autores, sempre houve uma crença de que "a inovação tecnológica destrói
empregos e depois cria outros mais". Mas isso estaria mudando.
"A
IA agora é uma inteligência geral que aprimora justamente as tarefas para as
quais os humanos seriam realocados. Programadores desempregados não podem
simplesmente migrar para a 'gestão de IA', porque a própria IA já é capaz de
fazer isso."
Eles
dizem que a inteligência artificial continuariam criando novos empregos — como
engenheiros de prompt, pesquisadores de segurança em IA ou técnicos de
infraestrutura — mantendo os humanos dentro da cadeia de produção. Mas esses
empregos não seriam suficientes para absorver a mão-de-obra que seria perdida.
E os salários seriam muito mais baixos.
Os
autores dão como exemplo fictício uma gerente sênior de produto.
"[Em
2025, ela tinha] cargo, plano de saúde, previdência privada e salário de US$
180 mil por ano (R$ 930 mil). Ela perdeu o emprego na terceira rodada de
demissões. Depois de seis meses procurando emprego, começou a dirigir para o
Uber. Seus ganhos caíram para US$ 45 mil (R$ 230 mil)".
"Multiplique
essa dinâmica por algumas centenas de milhares de trabalhadores em todas as
principais metrópoles. A mão de obra superqualificada inundando a economia de
serviços e de trabalhos temporários pressiona para baixo os salários dos
trabalhadores que já estavam em dificuldades."
O
próximo passo, segundo os autores, seria sentido no mercado imobiliário. A
queda brusca na massa de salários provocaria dificuldades para compradores
pagarem por seus empréstimos imobiliários.
Todo
esse cenário de crise geraria uma resposta de governos, mas eles próprios
estariam em situação mais frágil, dada a queda esperada em arrecadação de
impostos.
"O
governo precisa transferir mais dinheiro para as famílias exatamente no momento
em que está arrecadando menos impostos delas. [...] A capacidade da IA está
evoluindo mais rápido do que as instituições conseguem se adaptar. A resposta
política está seguindo o ritmo da ideologia, não da realidade."
Os
autores lembram ao final do artigo que ainda não estamos em junho de 2028, como
eles propõem retoricamente. Estamos em fevereiro de 2026 e esses "ciclos
negativos ainda não começaram".
"Temos
certeza de que alguns desses cenários não se concretizarão. Da mesma forma,
temos certeza de que a inteligência artificial continuará a se acelerar. Como
investidores, ainda temos tempo para avaliar o quanto de nossos portfólios se
baseia em premissas que não resistirão à década. Como sociedade, ainda temos
tempo para sermos proativos."
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Reações
Apesar
de muitos atribuírem a quedas do mercado na segunda-feira ao texto da Citrini
Research, nem todos levam a sério suas previsões.
"O
mais importante sobre o texto não é o que ele diz. É que o mercado de ações
chegou ao ponto em que postagens em blogs causam movimentos significativos nas
ações, ou pelo menos é o que as pessoas pensam que causam", escreve o
colunista de mercados Robert Armstrong, do Financial Times.
"A
polêmica em torno da Citrini é mais uma prova de que estamos em um mercado
inflado que busca uma desculpa para cair, por razões que provavelmente vão além
da IA."
Em
artigo na revista Fortune, o editor de Negócios Nick Lichtenberg diz que o
cenário traçado pela Citrini "pode estar ignorando a adaptabilidade humana
e a resposta institucional" e que a inteligência artificial "poderia
eventualmente democratizar o acesso à abundância" de recursos.
"O
argumento do 'PIB fantasma' da Citrini pressupõe que os salários humanos
substituídos desaparecerão permanentemente da economia, ignorando como os
ganhos de produtividade historicamente tendem a realocar valor em vez de
destruí-lo", escreve Lichtenberg.
"Quando
a IA reduz os custos, bens e serviços ficam mais baratos, aumentando
efetivamente o poder de compra real, mesmo para famílias com renda nominal mais
baixa."
Ele
cita um Tanmai Gopal — CEO da empresa PromptQL, de análise de dados — que
estima que 70% dos trabalhos de hoje não podem ser automatizadas, pois a IA
precisa ser treinada com dados e o contexto humano é dinâmico demais para que
ela seja atualizada com frequência suficiente.
Na
segunda-feira, o CEO do JPMorgan Chase — cujas ações caíram mais de 4% em meio
às repercussões do artigo — afirmou que os temores sobre inteligência
artificial são exagerados e que seu banco usará a tecnologia a seu favor.
"Na
minha opinião, sairemos vencedores", disse Jamie Dimon. "Nossa
estratégia sempre foi usar a tecnologia para prestar um serviço melhor aos
clientes, e somos muito bons nisso."
Fonte:
BBC News Brasil

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