Por que algumas
pessoas são gênios esquecidos
No final dos anos 1920, um jovem de classe média
conhecido como Ritty passava a maior parte do tempo mexendo no seu
"laboratório", na casa dos pais em Rockaway, Nova York, nos Estados
Unidos.
O
laboratório era uma velha caixa de madeira, equipada com prateleiras que
continham uma bateria e um circuito elétrico com lâmpadas, chaves e resistores.
Uma das suas invenções mais notáveis era um alarme doméstico contra intrusos que
o alertava sempre que seus pais entrassem no seu quarto.
Ele
também usava um microscópio para estudar o mundo natural e, às vezes, levava
seu conjunto de química para a rua, para fazer truques para as outras crianças.
Mas
o registro escolar de Ritty no ensino fundamental era comum. Ele tinha
dificuldades com literatura e línguas estrangeiras. E, em um teste de QI quando
criança, a pontuação ele teria sido de cerca de 125, que é acima da média, mas
longe do espectro dos gênios.
Na
adolescência, Ritty demonstrou talento para a matemática e começou a estudar
sozinho com livros elementares. E, no final do ensino médio, ele conseguiu o
primeiro lugar no concurso anual de matemática do Estado.
Ritty
é parte da história da Ciência. Ele tornou-se o físico Richard Feynman
(1918-1988), vencedor do Prêmio Nobel em 1965. Sua teoria da eletrodinâmica
quântica revolucionou o estudo das partículas subatômicas.
Outros
cientistas consideravam o funcionamento da mente de Feynman algo impenetrável.
Para os colegas, ele parecia ter um talento quase sobrenatural, que levou o
matemático polonês-americano Mark Kac a declarar, em sua autobiografia, que
Feynman não era apenas um gênio comum, mas "um mágico do mais alto
calibre".
A
psicologia moderna pode nos ajudar a decodificar essa magia e compreender, de
forma mais geral, o que torna uma pessoa um gênio?
A
simples definição do termo já é uma dor de cabeça. Não existem critérios claros
e objetivos. Mas a maior parte das definições identifica que o gênio tem
realizações excepcionais em pelo menos um domínio, com originalidade e talento
que são reconhecidos por outros especialistas na mesma disciplina e podem
impulsionar muitos outros avanços.
Identificar
a origem da genialidade e as melhores formas de cultivá-la é uma tarefa ainda
mais difícil. Ela seria produto de uma alta inteligência geral? Curiosidade sem
limites? Coragem e determinação? Ou é a combinação fortuita de felizes
circunstâncias que são impossíveis de se recriar artificialmente?
Pesquisar
a vida de indivíduos excepcionais, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel, como
Richard Feynman, pode oferecer algumas indicações.
·
Os Cupins
Vamos
começar com os Estudos Genéticos da Genialidade, um projeto extremamente
ambicioso liderado pelo psicólogo Lewis Terman, da Faculdade de Educação de
Stanford, nos Estados Unidos, no início do século 20.
Terman
foi um dos pioneiros do teste de QI, ao traduzir e adaptar uma avaliação
francesa da aptidão acadêmica das crianças, desenvolvida no final do século 19.
As
questões examinavam uma série de capacidades diferentes, como vocabulário,
matemática e raciocínio lógico. Juntas, considerava-se que elas representassem
a capacidade de aprendizado e pensamento abstrato de uma pessoa.
Terman
criou tabelas das avaliações médias para cada idade. Ele podia então comparar
os resultados de qualquer criança com essa tabela e, assim, identificar sua
idade mental. A avaliação de QI era calculada dividindo-se a idade mental pela
idade cronológica, multiplicando essa relação por 100.
Uma
criança com 10 anos de idade que tivesse a mesma avaliação média das crianças
de 15 anos, por exemplo, teria QI 150. Uma criança de 10 anos que raciocinasse
como outra de nove teria QI 90.
Os
gráficos de avaliações de QI pareciam formar uma "distribuição
normal", na forma de sino centralizado na avaliação média de 100 pontos.
Isso significava que a quantidade de pessoas acima e abaixo da média era a
mesma e os QIs nas extremidades eram incrivelmente raros.
"Não
há nada sobre um indivíduo que seja tão importante quanto o QI", declarou
Terman em um artigo sobre o assunto, prevendo que a avaliação de uma criança
seria o prenúncio de suas realizações no transcurso da vida.
No
início dos anos 1920, Terman começou a examinar crianças da Califórnia, nos
Estados Unidos, em busca de estudantes com QI de pelo menos 140, que ele
considerava o limite dos gênios. Mais de mil crianças atingiram esse nível.
Terman e seus colegas as estudariam pelas sete décadas seguintes.
Muitos
desses "Cupins", como foram afetuosamente chamados, tiveram carreiras
de sucesso. A romancista e correspondente de guerra Shelley Smith Mydans foi
uma delas. Outro foi Jess Oppenheimer, produtor e roteirista que ficou famoso
pelo seu trabalho com a comediante americana Lucille Ball. Ela o chamava de
"o cérebro" por trás da sua consagrada série de TV I Love
Lucy.
Quando
Terman morreu, no final dos anos 1950, mais de 30 participantes do estudo
haviam sido incluídos no livro Who's Who in America ("Quem
é quem na América", em tradução livre), que relaciona pessoas influentes
nos Estados Unidos, e quase 80 haviam sido reconhecidos em um livro de
referência que destaca os mais importantes cientistas norte-americanos,
chamado American Men of Science ("Homens de ciência
americanos", em tradução livre - e mulheres podiam ser incluídas no livro,
embora o título omitisse esse fato até os anos 1970).
Mas,
quando se observa cuidadosamente os dados, as estatísticas não sugerem que
pessoas com alto QI são mesmo destinadas a realizar grandes feitos.
É
importante controlar fatores que podem causar confusão, como as circunstâncias
socioeconômicas das famílias dos Cupins. Crianças com pais que receberam
educação e têm mais recursos em casa tendem a ter melhores avaliações nos
testes de QI e, por sua vez, esse privilégio facilita que elas tenham sucesso
na vida.
Considerando
todos esses fatores, os Cupins não tiveram resultados muito mais relevantes do
que outras crianças com antecedentes similares.
Outros
estudos observaram as diferenças de QI no grupo de Terman para verificar se os
estudantes com avaliação mais alta eram proporcionalmente mais propensos a ter
sucesso do que aqueles que passaram "raspando". Não eram.
Quando
o psicólogo americano David Henry Feldman examinou as medidas de distinção
profissional, como um advogado que se tornou um juiz ou um arquiteto que ganhou
um prêmio de prestígio, as pessoas com QI de mais de 180 foram apenas um pouco
mais bem sucedidas que aquelas com 30 ou 40 pontos a menos.
"QI
alto não parece indicar 'gênio' no sentido geralmente compreendido da
palavra", concluiu ele.
E
é revelador observar que o estudo inicial de Terman rejeitou dois meninos da
Califórnia — William Shockley e Luis Walter Alvarez — que ganharam o Prêmio
Nobel de Física, enquanto nenhuma das crianças que conseguiram a avaliação
mínima recebeu essa premiação.
Criado
em Nova York, Richard Feynman nunca teria tido a oportunidade de participar dos
Estudos Genéticos da Genialidade, que aconteceram na Califórnia. Mas, mesmo se
ele tivesse vivido perto de Stanford, onde morava Terman, seu suposto QI 125 teria
feito com que ele também não se qualificasse.
·
Mente multifacetada
As
histórias de vida dos Cupins não devem prejudicar a utilidade do QI como
ferramenta científica. Os testes de QI estão longe da perfeição, mas sabemos
que eles estão correlacionados a realizações educacionais e à renda da
população.
Eles
certamente ajudarão as pessoas a compreender conceitos abstratos que são
importantes em muitas disciplinas, particularmente em matemática, ciências,
engenharia ou filosofia. Mas, quando o assunto é prever as realizações
extraordinárias que podem ser consideradas geniais, parece que eles são apenas
uma pequena parte do quadro.
Considere
a capacidade de pensar com originalidade e contribuir com algo de valor para a
sua disciplina — um critério fundamental para avaliação de um gênio.
Os
testes de inteligência envolvem tipicamente questões que examinam o raciocínio
verbal e não verbal, frequentemente com apenas uma resposta certa. Eles não
parecem capturar elementos importantes da criatividade, como o pensamento
divergente, que é a capacidade de gerar novas ideias.
Para
medir as realizações criativas de forma geral, os psicólogos desenvolveram
questionários detalhados que perguntam às pessoas a frequência com que elas se
dedicam a diversas atividades criativas, como escrever textos literários,
compor música, projetar edifícios ou propor teorias científicas.
Fundamentalmente,
pede-se às pessoas que descrevam o reconhecimento por esses projetos — se, por
exemplo, o seu trabalho já recebeu algum prêmio e se mereceu cobertura da
imprensa. Milhares de pessoas já preencheram esses questionários para diversos
estudos e todos eles demonstram que o QI apresenta correlação apenas modesta
com os resultados dos participantes nestas avaliações.
Considerando
estas descobertas, parece provável que a inteligência seja uma condição
necessária para grandes feitos criativos — mas, sozinha, ela não é suficiente.
·
O que mais é necessário?
Se
você tiver QI mais alto, pode ser mais provável que tenha percepções criativas.
Mas a sua inteligência acima da média deve ser combinada com uma série de
outras características para que surja algo verdadeiramente original que se
destaque.
Isso
ajudaria a explicar por que a ampla maioria dos Cupins não marcou a história da
forma que havia sido prevista. Apesar da sua inteligência acima da média, eles
simplesmente não tinham as outras qualidades necessárias para os gênios.
Ainda
estamos evoluindo nossa compreensão de quais podem ser essas outras
características essenciais, mas a curiosidade é uma candidata importante. A
curiosidade pode ser medida por meio de questionários que examinam o quanto as
pessoas gostam de explorar novas ideias e tentar experiências diferentes. Elas
parecem ser mais criativas em tarefas de brainstorm em laboratório e nas suas
vidas pessoais.
A
importância da curiosidade para os gênios criativos pode também ser observada
em estudos de caso de figuras importantes. Embora nem sempre seja possível
conseguir com que essas pessoas preencham seus questionários de personalidade,
os pesquisadores pediram a seus biógrafos, familiares com os detalhes das suas
vidas, que preenchessem em nome deles.
A
tendência dos biógrafos foi de atribuir avaliações acima da média em
características relacionadas à exploração e interesse intelectual.
O
músico de jazz do século 20 John Coltrane, por exemplo, era profundamente
fascinado pela fé religiosa. Ele estudou o Cristianismo, o Budismo, o Hinduísmo
e o Islamismo. Grande parte dessa influência pode ser percebida na sua música.
Por
que a curiosidade levaria alguém a tornar-se um gênio? A sede de conhecimento
certamente motivará você a forçar seus limites dentro da sua própria
disciplina, enquanto outras pessoas, com menos necessidade de saber mais, podem
simplesmente desistir.
A
curiosidade pode também incentivar alguém a ampliar seus horizontes além da sua
especialidade, o que parece trazer seus próprios benefícios.
Os
cientistas ganhadores do Prêmio Nobel, por exemplo, costumam ter três vezes
mais hobbies pessoais do que a média das pessoas e são particularmente
dispostos a dedicar-se a tarefas criativas, como música, pintura ou poesia.
Esses passatempos podem treinar o cérebro para gerar e refinar ideias,
alimentando mais percepções originais na disciplina principal do cientista.
E
sair em busca de diversos interesses pode também gerar uma acidental
"polinização cruzada" de ideias. A química Dorothy Crowfoot Hodgkin,
por exemplo, ganhou um Prêmio Nobel pelos seus avanços na cristalografia de
raio X, que permitiu a ela descobrir a estrutura de substâncias bioquímicas,
como a penicilina e a vitamina B12.
Mas,
desde a adolescência, ela tinha intenso interesse por mosaicos bizantinos. Seu
conhecimento da sua simetria e geometria aparentemente a ajudou a compreender
como padrões repetidos de moléculas poderiam ser dispostos em cristais, o que
foi determinante para suas pesquisas científicas.
Como
diz Waqas Ahmed, autor do livro O Polímata - Revelando o Poder da
Versatilidade Humana (Ed. Qualitymark, 2022): "para prestar
contribuições inovadoras a qualquer campo de atividade, você precisa observar
aquele campo através da lente mais ampla e buscar o máximo de fontes de
inspiração possível". A maestria em diferentes campos treina você a
observar os problemas de diversos pontos de vista, o que aumenta a possibilidade
de ter percepções originais.
Ahmed
indica a poetisa, jornalista, escritora, cineasta e ativista dos direitos civis
Maya Angelou, que também trabalhou como cantora e dançarina, como um exemplo
moderno de polímata. Seus diversos interesses ofereceram muito mais que a soma
das suas partes e, juntos, alimentaram sua assombrosa criatividade.
A
vida de Richard Feynman certamente se encaixa nessas tendências. Pense em todo
o tempo que ele passou na infância mexendo no seu laboratório, dedicando-se a
projetos diferentes em diversas disciplinas.
Quando
adulto, ele aprendeu a desenhar, tocar bongô, falar português e japonês, ler
hieróglifos e chegou até a embarcar em um projeto paralelo no campo da
genética.
Um
dia, no café da universidade, ele observou por acaso um homem atirando pratos e
os pegando de volta. Ele reparou que os pratos oscilavam enquanto se moviam e
começou a rascunhar equações para descrever aquele movimento.
Logo
ele percebeu que havia paralelos com a atividade dos elétrons em órbita em
volta do átomo — e essa percepção levou ao seu trabalho ganhador do Prêmio
Nobel sobre eletrodinâmica quântica.
Deste
exemplo científico isolado, pode-se concluir facilmente que a inteligência
combinada com a curiosidade seria a fórmula da genialidade. Mas é claro que
isso também não é verdade e que existem muito mais peças neste quebra-cabeça.
Existe,
por exemplo, a determinação — a busca persistente das suas paixões, mesmo
quando surgem dificuldades.
Qualquer
gênio, em qualquer disciplina, deve primeiro dominar uma enorme quantidade de
conhecimento e técnicas antes de poder fazer suas próprias descobertas. Isso
normalmente só vem com anos de prática.
A
professora de psicologia Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia, nos
Estados Unidos, é pioneira na pesquisa da determinação. Suas descobertas
indicam que, como o QI e a curiosidade, ela contribui com diversos graus de
sucesso.
Os
gênios também empregam "estratégias megacognitivas", que descrevem
todos os processos que usamos para elaborar nossos projetos, monitorar nosso
progresso e encontrar estratégias melhores e mais eficientes para fazer o que
precisamos fazer.
Sem
esta reflexão útil sobre o nosso trabalho, podemos acabar perdendo tempo que
poderia ter sido mais bem empregado em práticas ou explorações frutíferas. Pode
parecer óbvio, mas algumas pessoas têm dificuldade para pensar estrategicamente
e aproveitar melhor os seus esforços, o que irá dificultar em muito para
atingir um alto grau de realização.
Por
fim, existe a humildade intelectual, que é uma característica negligenciada,
mas fundamental.
Pesquisas
recentes da professora Tenelle Porter, da Universidade Estadual Ball em Muncie,
Indiana (Estados Unidos), demonstram que a capacidade de reconhecer suas falhas
e limitações amplifica o aprendizado, pois incentiva você a lidar com seus
erros sem baixar a cabeça e preencher as suas lacunas de pensamento. Ela
contribui, no longo prazo, para aumentar seu crescimento em qualquer
disciplina.
Feynman
parece ter reconhecido este ponto. "Consigo viver com a dúvida e a
incerteza e não saber. Acho muito mais interessante viver não sabendo do que
ter respostas que podem estar erradas", disse ele em uma entrevista para a
televisão.
Mas,
mesmo se alguém tiver todas essas características positivas, a sorte, sem
dúvida, desempenha um importante papel para determinar quem se destacará entre
seus pares. Você precisa estar no lugar certo, no momento certo, rodeado pelas
pessoas certas, para poder fazer o máximo uso possível dos seus talentos. E até
os indivíduos mais promissores podem facilmente perder as oportunidades para
brilhar.
Não
é difícil imaginar um cientista brilhante que recebeu a oferta do ambiente
perfeito para cultivar suas capacidades, ou um artista que perdeu todas as
conexões sociais para se tornar conhecido.
Isso,
sem mencionar as barreiras estruturais associadas à etnia, gênero ou
sexualidade — que evitam que muitas mentes brilhantes atinjam seu potencial e o
reconhecimento que elas merecem. Como mencionou Virginia Woolf em Um
Teto Todo Seu (Ed. Nova Fronteira, 2019), as necessidades básicas de
criatividade, como o tempo e a privacidade para trabalhar, foram (e continuam
sendo) negadas para grandes segmentos da população.
O
papel da boa sorte nas realizações oferece outra boa razão para que as pessoas
de sucesso mantenham sua humildade, mesmo depois de terem recebido
reconhecimento pelos seus feitos.
·
O gênio humilde
Infelizmente,
muitas pessoas têm uma imagem cor-de-rosa do seu caminho até o reconhecimento
da genialidade. Elas começam a acreditar que suas mentes excepcionais foram a
garantia do sucesso e que seus julgamentos são infalíveis. E a perda da
humildade, muitas vezes, acaba manchando sua reputação.
Escritores
sobre ciências vêm notando há tempos a existência da "doença do
Nobel". Trata-se de uma expressão irônica, usada para descrever a
tendência de alguns ganhadores do Prêmio Nobel de formar teorias um tanto
irracionais com mais idade.
Diversos
cientistas que compareceram ao palanque da prefeitura de Estocolmo, na Suécia,
para receber o mais alto reconhecimento na sua disciplina acabaram
posteriormente expressando justificativas absurdas para o negacionismo da Aids,
das mudanças climáticas e das vacinas, o racismo científico e endossando
tratamentos pseudocientíficos, como a homeopatia.
É
claro que Sócrates nos ensinou sobre isso milênios atrás. Platão descreve,
na Apologia de Sócrates, como seu mestre vagueava pelas ruas de
Atenas, na Grécia, para encontrar os poetas, artesãos e políticos mais bem
sucedidos da cidade. E, às vezes, ele reconhecia que as pessoas mais sábias
eram aquelas que conseguiam reconhecer os limites do seu conhecimento.
Esta
lição é importante para os candidatos a gênio de hoje em dia, da mesma forma
que 2,4 mil anos atrás. Não importa quanto talento você tenha, sempre haverá
algo que você desconhece.
Fonte:
BBC Future

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