quarta-feira, 5 de abril de 2023

O que a neurociência nos ensina sobre o prazer

Como um bom cientista, Kent Berridge ficou feliz quando descobriu que algumas das suas ideias sobre o cérebro estavam erradas.

"Aprendi que muitas dessas decepções podem ser muito gratificantes quando o cérebro sussurra seus segredos e nos surpreende", afirma.

Professor de psicologia e neurociência da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, Berridge pesquisa há décadas como se origina o prazer no cérebro, quais são as bases neuronais do desejo e dos gostos e o que causa as dependências.

Estas pesquisas permitiram entender muito melhor e tratar condições como o Parkinson, alguns tipos de esquizofrenia e a depressão.

Um dos focos dos seus estudos mais recentes sobre o prazer é a surpreendente diferença que existe no cérebro entre gostar e desejar.

Berridge começou a interessar-se por este campo quando estava na escola secundária e leu um livro que teve profundo impacto na sua vida: The Territorial Imperative ("O imperativo territorial", em tradução livre), do escritor norte-americano Robert Ardrey.

Dali surgiu sua curiosidade para entender a relação entre a psicologia, o cérebro e a evolução humana, que acabou por levá-lo a especializar-se nos misteriosos segredos da nossa espécie.

Nesta entrevista, Berridge conta à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) o que o cérebro nos ensina sobre o prazer.

·         Como se origina o prazer no nosso cérebro e o quanto isso determina a forma como experimentamos o prazer?

Kent Berridge - O prazer de uma experiência sempre se origina no cérebro. Existem certas chaves que abrem a fechadura do prazer, como o sabor do doce, que é algo prazeroso para muitas pessoas desde o momento em que elas nascem.

Mas também é possível criar um aprendizado relativo a uma aversão a essa experiência, se ela nos fizer sentir náuseas e nos fizer parecer que o doce é repulsivo.

Da mesma forma, o sabor amargo costuma ser naturalmente pouco prazeroso, mas é possível aprender a desfrutá-lo. As pessoas aprendem a abrir esses bloqueios de prazer no cérebro.

·         O quanto isso é biológico e o quanto é aprendido socialmente?

Berridge - No caso dos prazeres sensoriais, eles claramente se originam no cérebro. Sabemos que existem certos pontos no cérebro que são geradores de prazer.

Trata-se de uma meia dúzia de pequenas áreas do cérebro que, quando interconectadas, agem como um grupo único para ativar prazeres intensos.

E esses pontos do cérebro que geram prazer utilizam certos neuroquímicos naturais, como opioides ou versões naturais da heroína ou da maconha, para estimular o cérebro e gerar esses intensos prazeres. Chamamos esses locais de pontos quentes hedônicos.

Para outros tipos de prazer, como o prazer de ver alguém de quem gostamos ou experimentar prazer com a arte ou escutando música, é diferente.

Se você me perguntasse 20 anos atrás, eu teria dito que esses prazeres culturais aprendidos funcionam como um sistema cerebral totalmente diferente, em comparação com os prazeres sensoriais. Mas as evidências nos mostraram que as mesmas zonas do cérebro geram prazeres sensoriais ou prazeres aprendidos culturalmente.

·         Como você estuda este tipo de conexões cerebrais no seu laboratório?

Berridge - Fazemos experimentos com imagens neurológicas para medir a ativação de determinadas regiões do cérebro humano. Isso nos permitiu entender que as mesmas zonas são ativadas, mesmo com diferentes tipos de prazer.

E, para estudar os geradores do prazer propriamente ditos, nós manipulamos os sistemas cerebrais de animais de forma ética e sem causar dor.

Nós suprimimos a dopamina em ratos com medicamentos capazes de bloquear os receptores de dopamina no cérebro e descobrimos que isso não reduziu o prazer que eles experimentavam com o sabor doce. Ou seja, o gosto pelo doce, mesmo bloqueando totalmente a dopamina, continuava presente.

Nós fazemos experimentos com seres humanos há cerca de 20 anos, manipulando os níveis de dopamina no cérebro, observando o prazer e o desejo, e a diferença entre desejar e gostar.

·         Qual é a diferença entre gostar e desejar?

Berridge - Esta é a pergunta fundamental. Eu pensava que não houvesse diferença. Que o circuito cerebral de recompensa fosse o mesmo. Mas a verdade é que eles podem ser separados.

Nós queremos as coisas de que gostamos e gostamos das coisas que queremos, mas nem sempre é assim. É o caso, por exemplo, de uma pessoa que quer algo intensamente, mas não gosta daquilo.

Meus colegas e eu propusemos uma teoria para as dependências. Em alguns indivíduos, seus sistemas cerebrais de dopamina são vulneráveis à neurossensibilização.

Isso significa que eles se tornam hiper-reativos a determinadas drogas. Essa hiper-reatividade aos sistemas de dopamina faz com que eles desejem intensamente certos estímulos, independentemente se gostam deles ou não.

Foram feitos experimentos com o consumo de cocaína ou com pacientes com Parkinson e descobrimos que a dopamina está relacionada com querer algo, com o desejo, mais do que com o gosto.

·         Qual é a relação entre a incapacidade de experimentar prazer, conhecida como anedonia, e as doenças mentais?

Berridge - A anedonia pode ser um sintoma de algumas formas de esquizofrenia ou depressão profunda. Como ocorre com os pacientes com Parkinson, observa-se a falta de querer experimentar prazer, mas o prazer em si não desaparece.

Em muitos casos de esquizofrenia, não se trata da perda do prazer, mas da perda da motivação por querer essas coisas. O prazer, o gosto, aparentemente está intacto. No caso da depressão, pode-se perder as duas coisas: o desejo e o gosto.

·         Existem indivíduos mais propensos a procurar prazer do que outros?

Berridge - Sim, existem escalas de impulsividade e reações de recompensa. Alguns têm esse tipo de característica nas suas personalidades e é um fator de vulnerabilidade para desenvolver dependências, por exemplo.

Eles têm um sistema cerebral que reage mais aos sinais ativadores dos sistemas de recompensa. Isso pode ser bom para encontrar motivações e prazer na vida, mas também pode nos levar a uma busca excessiva de recompensas, de prazer.

·         Que aplicações tem a sua pesquisa?

Berridge - Tem havido aplicações no campo das dependências, por entender que elas têm mais a ver com o desejo do que com o gosto.

Ou seja, as hiper-reações às substâncias que causam dependência podem ser independentes do gosto por elas. Neste sentido, a dependência não é apenas a busca do prazer.

Os resultados das nossas pesquisas também podem ser aplicados ao tratamento de certas condições mentais para ajudar as pessoas a lidar melhor com essas questões.

·         Você escreveu que, compreendendo os mecanismos cerebrais do prazer, é possível entender melhor a natureza humana...

Berridge - Nós costumamos pensar que os prazeres e os desejos andam sempre juntos.

Quando vemos um dependente, podemos pensar que ele é dependente porque procura o prazer. Mas, se compreendermos a essência das dependências, podemos entender que pode existir um nível intenso de desejo, um nível intenso de tentação, que o resto de nós não experimentamos nas nossas vidas.

·         Daqui a 10 ou 20 anos, o que você gostaria de ter conseguido com suas pesquisas?

Berridge - Minha experiência tem sido uma série de surpresas. Às vezes, essas surpresas são decepcionantes, já que frequentemente nossas teorias estão erradas.

Mas aprendi que muitas dessas decepções podem ser muito gratificantes quando o cérebro sussurra seus segredos e nos surpreende.

 

Ø  O exercício simples que traz benefícios surpreendentes para o cérebro

 

"Sob perspectiva da evolução, nós desenvolvemos cérebros realmente grandes, cuja manutenção é especialmente custosa."

“Eles são grandes demais, muito ineficientes e precisam de muita energia para funcionar, mesmo em repouso”, diz Damian Bailey, diretor do Instituto de Pesquisa em Saúde e Bem-Estar da Universidade de South Wales, no Reino Unido.

Bailey, que também é o líder do Laboratório de Pesquisa Neurovascular da Universidade, explicou que seu grupo a atividade física porque "não há tratamento curativo para a neurodegeneração e o exercício surgiu como uma contramedida muito, muito poderosa".

Mas a grande questão, segundo ele, é: quanto exercícios se deve fazer, de que tipo e com que frequência.

"Muito do que fazemos no laboratório é observar diferentes aspectos do exercício, em termos de tipo, intensidade e duração, tentando encontrar o ponto ideal onde podemos ver uma adaptação otimizada", diz Bailey.

Sabemos que com a atividade física podemos aumentar o fluxo sanguíneo para o cérebro, o que é crucial porque isso ajuda o cérebro a reconhecer as substâncias químicas úteis de que precisa para crescer, diz o cientista.

Esse suprimento de sangue também é importante porque nosso hipocampo, a parte do cérebro responsável pelo aprendizado e pela memória, tende a encolher à medida que envelhecemos, recebendo menos sangue ao fazê-lo.

Graças aos recentes avanços tecnológicos, os cientistas podem entender como a atividade física beneficia o cérebro.

Eles podem medir o fluxo sanguíneo para o cérebro através do pescoço e do cérebro.

“E o que nossa pesquisa está mostrando é que você não precisa fazer exercícios de tirar o fôlego ou se esforçar ao máximo na academia para beneficiar certas partes do cérebro”.

"Você pode fazer alguns grandes movimentos que quase não parecem que você está fazendo esforço físico e que realmente estimulam o cérebro."

·         Quais exercícios

“O que identificamos é que, principalmente para pessoas que não estão muito em forma ou que não podem fazer exercícios pesados, o agachamento é uma opção muito útil”.

É isso mesmo: agachar-se e levantar-se repetidamente foi descrito como uma forma "inteligente" de exercício porque "desafia o cérebro" e, portanto, o beneficia.

O melhor de fazer agachamentos, explica o cientista, é que quando você se levanta, você está indo contra a gravidade; quando você desce, você trabalha com a gravidade.

"O que acontece é que o fluxo sanguíneo para o cérebro sobe e desce repetidamente conforme você faz o movimento, e é essa mudança no fluxo que pode estimular o endotélio vascular, o revestimento interno dos vasos sanguíneos, a fornecer mais sangue ao cérebro."

É preciso fazer muitas repetições?

No mínimo, Bailey recomenda fazer agachamentos por três minutos, três vezes por semana.

Ele diz que quando eles fizeram medições da rapidez com que o sangue entra no cérebro em voluntários mostraram que os melhores resultados acontecem com um regime de agachamentos de 4 a 5 vezes por dia, 3 a 4 vezes por semana.

Ele diz que esses resultados são melhores do que os apresentados por outros exercícios, como correr, caminhar ou pedalar em dispositivos estacionários por 30 a 40 minutos.

Além do mais: você pode matar dois coelhos com uma cajadada só se, enquanto se exercita, lê ou faz palavras cruzadas porque, como explica Bailey, "sabemos que podemos melhorar ainda mais o fluxo para o cérebro fornecendo o que chamamos de estressor cognitivo, a carga cognitiva".

·         Nos extremos

A privação de oxigênio experimentada em alguns esportes radicais também pode ser usada como um estressor para forçar os limites do cérebro e entender como funcionam seus mecanismos de defesa.

Como Bailey é um ex-atleta, ele próprio é objeto de sua própria investigação.

"Você tem que praticar o que prega."

"Usamos toda uma gama de esportes radicais para desafiar o cérebro a obter uma visão diferente desses mecanismos", diz ele, citando mergulho livre, paraquedismo e montanhismo.

Somos tão sensíveis à falta de oxigênio que quando vamos, por exemplo, a altitudes extremas com níveis de oxigênio extremamente baixos, há um aumento do fluxo sanguíneo.

"O cérebro está compensando o tempo todo. É como se estivesse andando em uma corda bamba bioenergética. Ele constantemente precisa fazer ajustes para não cair."

O rastreamento das respostas cerebrais a condições extremas pode esclarecer não apenas como tratar doenças como a demência, mas também como tornar possíveis as missões espaciais de longo prazo.

O cérebro é particularmente sensível a mudanças na gravidade, diz Bailey.

"Com a falta de gravidade no espaço e o sangue fluindo para a cabeça... você só precisa olhar para os rostos vermelhos e inchados e as pernas finas dos astronautas."

E uma das possíveis complicações disso é que, a longo prazo, pode aumentar a pressão dentro do cérebro, o que pode influenciar sua visão.

“Esse é um dos maiores problemas que enfrentamos e é por isso que estamos fazendo experimentos para tentar entender, resolver e desenvolver contramedidas para um voo humano para Marte.”

Na Universidade de Milão, pesquisadores italianos também estão investigando o assunto.

"Pensamos: 'O que acontece quando você não consegue se mexer?'", diz Daniele Bottai, do Departamento de Ciências da Saúde da universidade.

"Porque há situações, como quando as pessoas passam muito tempo em seus sofás durante a pandemia, ou quando você está doente ou está em órbita no espaço há meses."

"Nós costumamos nos preocupar com a circulação, com os ossos, com os músculos, mas também temos que pensar no desempenho do cérebro."

A inatividade reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro e não receber oxigênio suficiente pode ter consequências terríveis.

“Quando as coisas dão errado com o cérebro, você só precisa de uma janela muito pequena para receber danos, e é por isso que estamos interessados em atividade física”, reiterou Bailey.

“É a única contramedida que existe no momento, e estamos começando a arranhar a superfície no que diz respeito ao cérebro”.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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