Corregedor encerra
instrução de investigação que pode tornar Jair Bolsonaro inelegível
O
corregedor-geral da Justiça Eleitoral ministro Benedito Gonçalves encerrou a
fase de instrução da ação de investigação eleitoral que mira o ex-presidente
Jair Bolsonaro pelo ataque às urnas eletrônicas em reunião com embaixadores, em
julho do ano passado, às vésperas do período eleitoral. Cumprida a fase inicial
do processo, por meio da coleta de documentos e outras provas, o caso fica mais
perto do desfecho - embora ainda não tenha sido marcada data para que o
colegiado submeta o tema a julgamento.
Agora,
as partes do processo apresentam suas alegações finais antes de o ministro
Gonçalves analisar todas as provas juntadas aos autos e formar um entendimento
sobre a ação. No caso, vão se pronunciar o Bolsonaro e seu candidato a vice nas
eleições 2022, o general Walter Souza Braga Neto, e o PDT, autor da ação.
Depois, o Ministério Público Eleitoral vai apresentar seu parecer sobre o
processo.
A
ação em questão imputa a Bolsonaro e Braga Neto 'abuso de poder político
tendente promover descrédito a esta Justiça Eleitoral e ao processo eleitoral,
com vistas a alterar o resultado do pleito'. Uma eventual condenação pode levar
à inelegibilidade do ex-chefe do Executivo.
Em
despacho assinado na sexta-feira, 31, Benedito Gonçalves listou todas as provas
coletadas ao longo da investigação eleitoral, entre depoimentos, perícias e
documentos compartilhados de outras investigações. O ministro anotou que 'foi
possível conjugar contraditório e celeridade, conduzindo-se o procedimento com
estrita observância ao diálogo processual, à boa-fé objetiva, ao princípio da
não surpresa e ao dever de fundamentação'.
"Em
pouco mais de 3 meses, foram realizadas cinco audiências e requisitados todos
os documentos, inclusive procedimentos sigilosos, relacionados aos fatos relevantes
para deslinde do feito. Saliente-se que foi deferida a oitiva de nove
testemunhas da defesa e, em razão da desistência dos investigados, ouvidas seis
delas. Foram ouvidas ainda 3 testemunhas por determinação do juízo, sempre com
a necessária delimitação dos fatos que seriam objeto do depoimento",
indicou.
Veja
a seguir a lista do que foi juntado aos autos do processo que pode tornar
Bolsonaro inelegível:
• Minuta do Golpe e perícia
Peça
que gerou grande movimentação na ação de investigação eleitoral, a cópia da
minuta de decreto de Estado de Defesa apreendida pela Polícia Federal na casa
do ex-ministro da Justiça Anderson Torres foi juntada aos autos no dia 16 de
janeiro. O documento citava suposta intervenção no TSE em uma tentativa de
anular as eleições 2022.
Segundo
o despacho de Benedito Gonçalves, também já consta nos autos do processo a
perícia feita pela Polícia Federal no documento. O procedimento se deu no bojo
da investigação sobre a suposta omissão de Anderson Torres e outras autoridades
públicas ante os atos golpistas do dia 8 de janeiro.
• Depoimentos
Ao
longo da fase de colheita de provas da ação de investigação eleitoral em
trâmite no TSE, foram colhidos depoimentos de: Carlos Alberto França,
ex-ministro das Relações Exteriores (abril de 2021 e dezembro de 2022); o
senador Ciro Nogueira; o almirante Flávio Augusto Viana Rocha, ex-secretário de
Assuntos Estratégicos do Palácio do Planalto; os deputados federais Filipe
Barros e Major Vitor Hugo; o jornalista Augusto Nunes. Todos foram ouvidos a
pedido de Bolsonaro e Braga Neto
Também
foram ouvidos os peritos Ivo de Carvalho Peixinho, que já foi responsável pela
unidade de tecnologia e capacitação da Divisão de Repressão de Crimes
Cibernéticos, e Mateus de Castro Polastro. Ambos participaram de uma reunião
realizada às vésperas da live que Bolsonaro fez em julho de 2021, também para
atacar o sistema eletrônico de votação.
Ainda
depôs ao TSE o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, preso por suposta
conivência com os atos golpistas do dia 8 de janeiro. Como mostrou o Estadão, o
aliado de Bolsonaro reiterou que desconhece a autoria da 'minuta do golpe' e
ainda contrapôs a versão da Procuradoria-Geral da República (PGR), que afirmou
que o documento não parecia que seria descartado e estava 'muito bem guardado'
em uma pasta oficial do governo federal, junto a pertences pessoais.
• Compartilhamento de inquéritos
A
ação de investigação eleitoral contra Bolsonaro e Braga Neto ainda foi
abastecida pelas cópias de dois inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal
Federal, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Uma
investigação se debruçou sobre o vazamento, por Bolsonaro, de dados sigilosos
de uma apuração da PF sobre um ataque hacker aos sistemas internos do TSE - o
qual foi usado por Bolsonaro, com informações distorcidas, para atacar as urnas
eletrônicas.
Em
tal inquérito, a conclusão da Polícia Federal foi a de que, o então chefe do
Executivo 'agiu deliberadamente' para promover desinformação sobre as urnas
eletrônicas em um evento 'previamente estruturado com o escopo de defender uma
teoria conspiratória'.
A
outra investigação compartilhada com o TSE é a que apura a ofensiva golpista
que invadiu e destruiu as dependências do Planalto, Supremo e Congresso no dia
8 de janeiro. Já são mais de mil denunciados pelos atos antidemocráticos e as
investigações sobre o caso seguem em diferentes frentes.
Foi
ainda juntada aos autos da investigação eleitoral a cópia integral de um pedido
de investigação em trâmite no STF sob relatoria do ministro Luiz Fux. Trata-se
da notícia crime em que deputados federais alegam que Bolsonaro teria praticado
crime contra o Estado Democrático de Direito, crime de responsabilidade e
eleitoral e atos de improbidade administrativa na reunião com embaixadores do
dia 18 de julho de 2022.
51% defendem Bolsonaro inelegível; 45%
são contra, diz Datafolha
Para
51% dos entrevistados pelo Datafolha o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve
ser condenado por sua campanha contra as urnas eletrônicas e se tornar
inelegível por oito anos, conforme é previsto na lei. Já outros 45% acreditam
que ele é inocente e não deve ser punido pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
O
percentual que defende a inelegibilidade de Bolsonaro, ouvido entre os dias 29
e 30 de março, acreditam que a perda dos direitos políticos é a punição mais
correta para o ex-presidente, já que Bolsonaro tentou por diversas vezes
desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.
No
entanto, outros 45% defendem que ex-chefe do Executivo deve ser liberado pela
Justiça Eleitoral para disputar os próximos pleitos.
Dos
2.028 ouvidos pelo Datafolha, não souberam avaliar a questão estimulada 4% dos
entrevistados. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para
mais ou para menos.
Mauro Cid vai relatar à PF que ordem para
retirar joias da alfândega partiu de Bolsonaro
Em
depoimento à Polícia Federal, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de
ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, vai dizer às autoridades que foi
Bolsonaro quem ordenou, na última semana do ano passado, que ele tomasse as
medidas necessárias para reaver o conjunto de diamantes apreendido pela Receita
Federal, em Guarulhos. O depoimento está marcado para o dia 5 de abril,
quarta-feira, mesma data prevista para o depoimento de Bolsonaro.
O
Estadão apurou que Cid tem reafirmado estes fatos a interlocutores e que o
mesmo foi repassado ao advogado que o tenente-coronel contratou para defendê-lo
no caso. A argumentação de Cid é de que não haveria, inclusive, outra forma
desta determinação ter chegado a ele, senão pelo próprio presidente. Procurado
pela reportagem, o tenente-coronel não quis falar sobre o assunto.
Após
receber a ordem de Bolsonaro, Mauro Cid encaminhou um ofício ao então chefe da
Receita Federal, Julio Cesar Vieira Gomes, em 28 de dezembro do ano passado,
para que fosse feita a "incorporação de bens apreendidos". É este
ofício que o então servidor da Ajudância de Ordens do Presidente da República
Jairo Moreira da Silva apresentou na tela de seu celular para o fiscal da
Receita, em Guarulhos, na tentativa de pegar as joias que, como disse o
ex-ministro Bento Albuquerque, eram para Michelle Bolsonaro.
Primeiro-sargento
da Marinha, Jairo Moreira da Silva explicou que tinha chegado no voo da Força
Aérea Brasileira (FAB) naquele dia, para "atender a demandas do Senhor
Presidente da República naquela cidade". Naquela ocasião, Jairo ainda
acionaria, por telefone, o próprio chefe da Receita, Julio Cesar, mas não teria
êxito, devido à resistência do auditor fiscal em cumprir a lei e demonstrar que
aquele ato era ilegal.
A
defesa de Mauro Cid é feita pelo criminalista Rodrigo Roca, que também advoga
para o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. Além de fazer sua defesa no caso
das joias, Rodrigo Roca atua nos demais processos que envolvem Mauro Cid e que
tramitam no Supremo Tribunal Federal.
Depois
de emitir o despacho para que o militar Jairo Moreira da Silva pegasse um voo
da FAB e fosse até Guarulhos, Mauro Cid deu encaminhamento para que se
adiantasse o cadastro das joias retidas no sistema no Palácio do Planalto, como
sendo itens que iriam para o acervo pessoal de Bolsonaro. Esse cadastro chegou
a ser feito, como relatou a servidora pública Priscila Esteves das Chagas, à
Polícia Federal. Com a tentativa frustrada de reaver as joias, porém, os dados
foram excluídos do sistema, conforme reconheceu uma servidora do departamento
responsável pelo cadastramento, em depoimento à Polícia Federal.
Bolsonaro
tem afirmado que nunca teve conhecimento das joias sauditas e que não
determinou envio de avião da FAB para reaver as joias apreendidas e estimadas
em cerca de R$ 16,5 milhões. Desde o dia 3 de março, quando o caso foi revelado
pelo Estadão, dois estojos de joias avaliados em pelo menos R$ 1,5 milhão já
foram devolvidos pelo ex-presidente, após estes casos também virem à tona.
Coronel da PM diz que ex-ministro de
Bolsonaro tinha conhecimento prévio sobre os ataques de 8 de janeiro
Em
depoimento à CPI dos atos antidemocráticos, no âmbito da Câmara Legislativa do
Distrito Federal, o coronel da PM Jorge Henrique da Silva Pinto disse que o
ex-Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal e ex-Ministro de Estado
da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Anderson Torres, tinha
conhecimento acerca de CACs que tramavam tomar o poder em Brasília.
“No
dia 5 de janeiro, recebemos um único documento de inteligência do Ministério da
Justiça. Esse documento tratava sobre essa possibilidade [de tomada do poder]”,
disse o coronel da PM no depoimento à CPI.
“Alguém
que integrava o grupo verificou que algumas pessoas tratavam dessa tomada de
poder, mas não havia a possibilidade de indicar que era uma quantidade grande,
quem eram as principais pessoas envolvidas e se já estavam em Brasília”,
concluiu o coronel Silva Pinto, dizendo depois que se tratava de um grupo de
CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores).
Fonte:
Agencia Estado/Terra

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