quarta-feira, 5 de abril de 2023

Vício em internet entre jovens cresce na Alemanha após covid

Atualmente, 6% das crianças e adolescentes alemães são dependentes de jogos e mídias sociais. São 680 mil casos,- o dobro do que antes da pandemia de covid-19.

Paul é berlinense, tem 19 anos e concluiu o ensino médio há quase um ano. Seus últimos anos escolares não lhe trazem boas lembranças. "Era um lockdown constante, por causa do coronavírus. Ficamos semanas sem escola e, independente disso, tínhamos que ficar em casa." Encontrar amigos, passear, ir a festas, praticar esportes: muito do que é importante e natural para os jovens foi tabu por bastante tempo.

"A única coisa que se podia fazer era ficar no quarto jogando no computador ou no smartphone e postando nas redes sociais”, diz o jovem, feliz com o fim das restrições.

Para Paul, que há tempos regressou ao mundo real, as inúmeras horas passadas diante do computador são apenas uma lembrança ruim. Outros não podem dizer o mesmo, pois ficaram presos no cosmos virtual.

•        Balde em vez de vaso sanitário

De acordo com um estudo de longo prazo conduzido pelo Hospital Universitário Hamburgo-Eppendorf (UKE) em parceria com a seguradora de saúde DAK-Gesundheit, o número de crianças e jovens patologicamente dependentes de jogos e mídias sociais dobrou na Alemanha, desde 2019. Cerca de 680 mil no país jogam, batem papo, postam ou assistem a vídeos online quase cinco horas por dia.

Para o diretor executivo da DAK-Gesundheit, Andreas Storm, esses resultados são "assustadores": "Infelizmente, a esperança de que o aumento do tempo de uso e do vício diminuísse nos últimos anos não se concretizou," lamenta.

As consequências de tal comportamento são observadas diariamente pelo psicólogo Kai Müller, presidente da associação profissional Medienabhängigkeit, especializada em dependência das mídias, e que atua também no ambulatório para viciados em jogos da Clínica Universitária de Mainz. É aqui que vêm pedir socorro pais desesperados, que não sabem mais o que fazer com seus filhos que passam cada minuto livre ao computador ou celular.

São jovens que negligenciam suas responsabilidades escolares e familiares, resistem ao desligamento das telas e reagem a ele com ansiedade, raiva intensa e incompreensão. Que se encerram em seus quartos, tornam-se inacessíveis e não têm mais hobbies nem interesses. Em casos extremos, chegam a esquecer de comer, e colocam um balde no quarto para não terem de ir ao banheiro.

•        Perda de controle, priorização, persistência do vício

Segundo Müller, a pandemia foi particularmente estressante para os adolescentes, que são psicologicamente mais vulneráveis do que os adultos. Sendo assim, o consumo de jogos, vídeos e redes sociais virava muitas vezes um "consolo".

"Quando as mídias te pegam numa fase de medo, decepção e dúvida, pode acontecer o que chamamos em psicologia de condicionamento emocional." Um vínculo é criado e, logicamente, isso faz com que nos agarremos a ele.

Desde o início de 2022 o vício em jogos de computador é reconhecido como distúrbio pela Organização Mundial da Saúde(OMS). De acordo com o psicólogo Kai Müller, há três critérios básicos para o diagnóstico. O primeiro é a "perda de controle", ou seja, não poder mais tomar decisões de forma livre e consciente. "Quanto disso eu uso, afinal, quando não uso, quanto tempo, e o que uso?"

O segundo ponto é a priorização. Quando os jogos ou o uso das redes sociais não fazem mais parte apenas da vida, mas dominam praticamente tudo.

"O terceiro critério é o uso ser mantido mesmo após os afetados perceberem que ele realmente lhes traz problemas ou que não lhes faz bem", explica Müller.

•        Vício em jogos é o problema mais comum

O sofrimento, porém, só costuma aparecer com o tempo. "Quando os jovens veem que aquele círculo de amigos que antes jogava bastante começa a se voltar para outras áreas da vida, como a primeira namorada ou o primeiro namorado, ou outros hobbies que nada têm a ver com a Internet, mas eles próprios ainda estão grudados nos jogos. Esse é muitas vez o gatilho interno que faz os afetados pararem e pensarem: 'Por que isso não está acontecendo comigo?'

"Entre os que vão pedir ajuda na clínica para viciados em jogos em Mainz, estão jovens de 17 anos, por exemplo: "Isso acontece quando os afetados não funcionam mais, para dizer friamente, nem em termos físicos, de desempenho nem sociais", explica Müller.

Jovens aprendem coisas novas todos os dias. Não apenas nas escolas, mas também de maneira interpessoal. "Há toda uma gama de etapas de desenvolvimento, e vejo que entre os jovens adultos que chegam até nós com 25 ou 26 anos biológicos de vida, muitas vezes tenho a impressão de que se parecem com jovens de 15 ou 16 anos."

Os meninos são muito mais propensos a se viciar em jogos do que as meninas. A dependência das redes sociais afeta ambos os sexos, mas é um assunto muito menos comum na clínica de dependência em Mainz. "O uso das redes sociais faz parte da sociedade hoje em dia, está na cabeça das pessoas", diz Müller, que calcula haver "um elevado número de casos não notificados” entre os dependentes dessa área.

O uso excessivo de mídias sociais ê tamanho, que chegou a virar tema de campanhas educativas do Ministério da Saúde alemão. O psicólogo menciona um projeto de pesquisa em curso que visa desenvolver novas opções de tratamento.

•        Mais prevenção, mais ajuda

De qualquer forma, o tratamento do vício tem mais chances de sucesso quanto mais cedo médicos e psicólogos possam intervir, e antes que o quadro se torne crônico.

"Também temos pacientes cujos primeiros sintomas de dependência já existiam claramente na juventude, mas que só buscaram tratamento na idade adulta. Alguns chegaram a ficar internados, mas depois, aos 30 anos ou mais, acabam voltando, simplesmente porque o problema não vai embora.

Obter uma vaga na terapia, porém, é cada vez mais difícil. No ambulatório de Mainz, há uma fila de espera de três meses entre o registro por telefone e a primeira consulta com o psicólogo. Antes eram duas semanas, conta Müller: "Estamos longe de ter uma capacidade de atendimento adequada", atualmente os pacientes chegam a aguardar seis meses.

Para Andreas Storm, do DAK-Gesundheit, os serviços de prevenção e ajuda devem ser ampliados. "Se não agirmos rapidamente agora, mais e mais crianças e jovens vão cair no vício da mídia, e a tendência negativa não poderá mais ser interrompida".

Ele considera esse um dever não só da política, mas também da sociedade."Crianças e jovens devem aprender a avaliar os riscos do uso de mídias digitais e a refletir sobre seu comportamento, para que possam usar as possibilidades do mundo digital de forma construtiva, a longo prazo, para suas vidas pessoais e profissionais".

Psicólogos também veem nisso uma tarefa para os pais, que devem constantemente estabelecer limites para o uso de programas de entretenimento digital, especialmente quando se trata de crianças mais novas.

Porque uma coisa é certa: computadores e smartphones são onipresentes, e o mundo moderno seria inconcebível sem eles. Embora a abstinência seja possível no vício em álcool ou nicotina, com o vício digital a recaída está sempre a apenas um clique de distância.

 

       Dependência tecnológica aumenta procura por tratamento psicológico

 

Pesquisar no google, trocar confidências no whatsapp, atualizar o twitter e postar fotos no facebook são hábitos corriqueiros, mas não tão inocentes como parecem. Eles criaram uma dependência tecnológica que, em alguns casos, pode resultar em necessidade de tratamento. Entre os principais problemas, alertam os especialistas, está a perda de controle da administração do próprio tempo e doenças relacionadas ao isolamento, o que têm aumentado a demanda nos consultórios psicológicos.

"Quando o tempo pessoal é prejudicado porque eu dedico o tempo para o uso da tecnologia, isso está sendo um problema”, explica Sueli Ferreira Schiavo, psicóloga do Conselho Federal de Psicologia. "Nesse caso, a tecnologia está colocando o tempo das pessoas à disposição de um modelo de consumo, de um modelo de sociedade. Precisa verificar quanto isso pode resolver ou criar problemas na vida dela", analisa.

Ainda não existe um estudo epidemiológico mais aprofundado para poder dizer qual é o impacto do uso descontrolado da internet na vida das pessoas, aponta Sueli, que também é mestre em Educação. Mas o tema faz parte das sessões de terapia dentro dos consultórios.

As pessoas se isolam porque não têm habilidade social e se sentem mais seguras na frente do computador. Na internet, elas conseguem se comunicar melhor – nesse espaço, é possível assumir qualquer identidade. Já as pessoas com dificuldades psíquicas, como timidez ou transtornos psiquiátricos (depressão ou transtorno obsessivo compulsivo) continuam solitárias. "Elas fazem perfis falsos. É como se fosse um novo palco para manifestar essas patologias", aponta Sueli.

•        Conectado e solitário

O novo cenário inspirou a fundação do Grupo de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria, formado por profissionais do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um dos critérios listados pelo grupo para definir a dependência da internet é ter o trabalho e as relações sociais em risco pelo uso excessivo da tecnologia. A tendência se reflete principalmente no isolamento e na superficialidade.

"As pessoas estão cada vez mais ‘fast'. Tudo tem que acontecer de forma muito rápida, automática e imediata. Lidam cada vez pior com as frustrações do dia a dia. Esse é o pior fenômeno: perder a habilidade para retardar o prazer", observa Dora Sampaio Góes, psicóloga e vice-coordenadora do grupo. Segundo ela, adolescentes e jovens são os mais vulneráveis.

Os casos mais comuns de dependência tecnológica estão ligados às redes sociais, embora celular e videogame também façam parte da lista. O mecanismo criado para promover o encontro pode fazer exatamente o contrário. "É muito comum a gente ir a bar e lanchonete e ver grupos de jovens, cada um conversando via torpedo ou por meio de outro aplicativo, mas com outras pessoas. Então elas não estão ali", analisa Góes. Ela lembra que no meio virtual, perde-se a possibilidade de desenvolver habilidade social. "As pessoas vão ficar cada vez mais solitárias, vão se encontrar menos."

A opinião não é consenso entre os estudiosos da área. O psicólogo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ViníciusThomé Ferreira, aponta o poder de união dessas redes. "Os acontecimentos dos últimos meses que mobilizaram a população brasileira para reivindicar mudanças na política nacional são fortes indicativos do poder integrador que as redes possuem para aproximar as pessoas", observa. Ele ressalta que vários protestos foram combinados pelas redes, permitindo a participação de milhares de pessoas. "Isto não é algo que afasta as pessoas, mas aproxima, e foi proporciondado pela existência das redes sociais."

•        "Estar conectato é estar vivo"

Na avaliação de Sueli Ferreira Schiavo, o uso indiscriminado das redes sociais reflete a necessidade de visibilidade. "As pessoas precisam se sentir visíveis. Isso faz parte de um modelo de sociedade", opina. "As pessoas acham que se relacionam com pessoas, na verdade se relacionam com máquinas. É um modelo de sociedade que gera carência de interação social."

As redes sociais estão reconfigurando a maneira como as pessoas se relacionam, na opinião de Vinícius Thomé Ferreira. Ele acredita que o advento das tecnologias da informação, e especialmente a internet, produziram um impacto sem limites sobre o comportamento humano. "Não importa mais hoje onde você esteja, desde que tenha acesso à internet e uma conta numa rede social, você poderá manter contato em tempo real com pessoas no outro lado do mundo. O espaço já não é mais um problema para que as pessoas se relacionem, pois todos estamos virtualmente conectados", analisa. "Estar conectado é quase um sinônimo de estar vivo."

Sueli diz que a inversão de papeis não é saudável. "Relacionar-se com máquinas não resolve o déficit real de atenção de pessoas. Essas questões podem levar a uma angústia e ansiedade. A tecnologia tem um papel. É preciso saber a diferença entre o papel da tecnologia e o papel das relações humanas."

O limite entre o saudável e o problemático é tênue. "É como se fosse um anestésico da própria vida. Enquanto você está lá, você não está em contato com a sua vida, com as suas dificuldades, com os seus problemas, com as suas metas. Cada vez mais os jovens não querem viver os desconfortos do cotidiano e ficam na tecnologia", avalia Dora.

 

Fonte: Deutsche Welle

 

Nenhum comentário: