Vício em internet
entre jovens cresce na Alemanha após covid
Atualmente,
6% das crianças e adolescentes alemães são dependentes de jogos e mídias
sociais. São 680 mil casos,- o dobro do que antes da pandemia de covid-19.
Paul
é berlinense, tem 19 anos e concluiu o ensino médio há quase um ano. Seus
últimos anos escolares não lhe trazem boas lembranças. "Era um lockdown
constante, por causa do coronavírus. Ficamos semanas sem escola e, independente
disso, tínhamos que ficar em casa." Encontrar amigos, passear, ir a
festas, praticar esportes: muito do que é importante e natural para os jovens
foi tabu por bastante tempo.
"A
única coisa que se podia fazer era ficar no quarto jogando no computador ou no
smartphone e postando nas redes sociais”, diz o jovem, feliz com o fim das
restrições.
Para
Paul, que há tempos regressou ao mundo real, as inúmeras horas passadas diante
do computador são apenas uma lembrança ruim. Outros não podem dizer o mesmo,
pois ficaram presos no cosmos virtual.
• Balde em vez de vaso sanitário
De
acordo com um estudo de longo prazo conduzido pelo Hospital Universitário
Hamburgo-Eppendorf (UKE) em parceria com a seguradora de saúde DAK-Gesundheit,
o número de crianças e jovens patologicamente dependentes de jogos e mídias
sociais dobrou na Alemanha, desde 2019. Cerca de 680 mil no país jogam, batem
papo, postam ou assistem a vídeos online quase cinco horas por dia.
Para
o diretor executivo da DAK-Gesundheit, Andreas Storm, esses resultados são
"assustadores": "Infelizmente, a esperança de que o aumento do
tempo de uso e do vício diminuísse nos últimos anos não se concretizou,"
lamenta.
As
consequências de tal comportamento são observadas diariamente pelo psicólogo
Kai Müller, presidente da associação profissional Medienabhängigkeit,
especializada em dependência das mídias, e que atua também no ambulatório para
viciados em jogos da Clínica Universitária de Mainz. É aqui que vêm pedir
socorro pais desesperados, que não sabem mais o que fazer com seus filhos que
passam cada minuto livre ao computador ou celular.
São
jovens que negligenciam suas responsabilidades escolares e familiares, resistem
ao desligamento das telas e reagem a ele com ansiedade, raiva intensa e
incompreensão. Que se encerram em seus quartos, tornam-se inacessíveis e não
têm mais hobbies nem interesses. Em casos extremos, chegam a esquecer de comer,
e colocam um balde no quarto para não terem de ir ao banheiro.
• Perda de controle, priorização,
persistência do vício
Segundo
Müller, a pandemia foi particularmente estressante para os adolescentes, que
são psicologicamente mais vulneráveis do que os adultos. Sendo assim, o consumo
de jogos, vídeos e redes sociais virava muitas vezes um "consolo".
"Quando
as mídias te pegam numa fase de medo, decepção e dúvida, pode acontecer o que
chamamos em psicologia de condicionamento emocional." Um vínculo é criado
e, logicamente, isso faz com que nos agarremos a ele.
Desde
o início de 2022 o vício em jogos de computador é reconhecido como distúrbio
pela Organização Mundial da Saúde(OMS). De acordo com o psicólogo Kai Müller,
há três critérios básicos para o diagnóstico. O primeiro é a "perda de
controle", ou seja, não poder mais tomar decisões de forma livre e
consciente. "Quanto disso eu uso, afinal, quando não uso, quanto tempo, e
o que uso?"
O
segundo ponto é a priorização. Quando os jogos ou o uso das redes sociais não
fazem mais parte apenas da vida, mas dominam praticamente tudo.
"O
terceiro critério é o uso ser mantido mesmo após os afetados perceberem que ele
realmente lhes traz problemas ou que não lhes faz bem", explica Müller.
• Vício em jogos é o problema mais comum
O
sofrimento, porém, só costuma aparecer com o tempo. "Quando os jovens veem
que aquele círculo de amigos que antes jogava bastante começa a se voltar para
outras áreas da vida, como a primeira namorada ou o primeiro namorado, ou
outros hobbies que nada têm a ver com a Internet, mas eles próprios ainda estão
grudados nos jogos. Esse é muitas vez o gatilho interno que faz os afetados
pararem e pensarem: 'Por que isso não está acontecendo comigo?'
"Entre
os que vão pedir ajuda na clínica para viciados em jogos em Mainz, estão jovens
de 17 anos, por exemplo: "Isso acontece quando os afetados não funcionam
mais, para dizer friamente, nem em termos físicos, de desempenho nem
sociais", explica Müller.
Jovens
aprendem coisas novas todos os dias. Não apenas nas escolas, mas também de
maneira interpessoal. "Há toda uma gama de etapas de desenvolvimento, e
vejo que entre os jovens adultos que chegam até nós com 25 ou 26 anos
biológicos de vida, muitas vezes tenho a impressão de que se parecem com jovens
de 15 ou 16 anos."
Os
meninos são muito mais propensos a se viciar em jogos do que as meninas. A
dependência das redes sociais afeta ambos os sexos, mas é um assunto muito
menos comum na clínica de dependência em Mainz. "O uso das redes sociais
faz parte da sociedade hoje em dia, está na cabeça das pessoas", diz
Müller, que calcula haver "um elevado número de casos não notificados”
entre os dependentes dessa área.
O
uso excessivo de mídias sociais ê tamanho, que chegou a virar tema de campanhas
educativas do Ministério da Saúde alemão. O psicólogo menciona um projeto de
pesquisa em curso que visa desenvolver novas opções de tratamento.
• Mais prevenção, mais ajuda
De
qualquer forma, o tratamento do vício tem mais chances de sucesso quanto mais
cedo médicos e psicólogos possam intervir, e antes que o quadro se torne
crônico.
"Também
temos pacientes cujos primeiros sintomas de dependência já existiam claramente
na juventude, mas que só buscaram tratamento na idade adulta. Alguns chegaram a
ficar internados, mas depois, aos 30 anos ou mais, acabam voltando,
simplesmente porque o problema não vai embora.
Obter
uma vaga na terapia, porém, é cada vez mais difícil. No ambulatório de Mainz,
há uma fila de espera de três meses entre o registro por telefone e a primeira
consulta com o psicólogo. Antes eram duas semanas, conta Müller: "Estamos
longe de ter uma capacidade de atendimento adequada", atualmente os
pacientes chegam a aguardar seis meses.
Para
Andreas Storm, do DAK-Gesundheit, os serviços de prevenção e ajuda devem ser
ampliados. "Se não agirmos rapidamente agora, mais e mais crianças e
jovens vão cair no vício da mídia, e a tendência negativa não poderá mais ser
interrompida".
Ele
considera esse um dever não só da política, mas também da
sociedade."Crianças e jovens devem aprender a avaliar os riscos do uso de
mídias digitais e a refletir sobre seu comportamento, para que possam usar as
possibilidades do mundo digital de forma construtiva, a longo prazo, para suas
vidas pessoais e profissionais".
Psicólogos
também veem nisso uma tarefa para os pais, que devem constantemente estabelecer
limites para o uso de programas de entretenimento digital, especialmente quando
se trata de crianças mais novas.
Porque
uma coisa é certa: computadores e smartphones são onipresentes, e o mundo
moderno seria inconcebível sem eles. Embora a abstinência seja possível no
vício em álcool ou nicotina, com o vício digital a recaída está sempre a apenas
um clique de distância.
Dependência tecnológica aumenta procura
por tratamento psicológico
Pesquisar
no google, trocar confidências no whatsapp, atualizar o twitter e postar fotos
no facebook são hábitos corriqueiros, mas não tão inocentes como parecem. Eles
criaram uma dependência tecnológica que, em alguns casos, pode resultar em
necessidade de tratamento. Entre os principais problemas, alertam os
especialistas, está a perda de controle da administração do próprio tempo e
doenças relacionadas ao isolamento, o que têm aumentado a demanda nos
consultórios psicológicos.
"Quando
o tempo pessoal é prejudicado porque eu dedico o tempo para o uso da
tecnologia, isso está sendo um problema”, explica Sueli Ferreira Schiavo,
psicóloga do Conselho Federal de Psicologia. "Nesse caso, a tecnologia
está colocando o tempo das pessoas à disposição de um modelo de consumo, de um
modelo de sociedade. Precisa verificar quanto isso pode resolver ou criar
problemas na vida dela", analisa.
Ainda
não existe um estudo epidemiológico mais aprofundado para poder dizer qual é o
impacto do uso descontrolado da internet na vida das pessoas, aponta Sueli, que
também é mestre em Educação. Mas o tema faz parte das sessões de terapia dentro
dos consultórios.
As
pessoas se isolam porque não têm habilidade social e se sentem mais seguras na
frente do computador. Na internet, elas conseguem se comunicar melhor – nesse
espaço, é possível assumir qualquer identidade. Já as pessoas com dificuldades
psíquicas, como timidez ou transtornos psiquiátricos (depressão ou transtorno
obsessivo compulsivo) continuam solitárias. "Elas fazem perfis falsos. É
como se fosse um novo palco para manifestar essas patologias", aponta
Sueli.
• Conectado e solitário
O
novo cenário inspirou a fundação do Grupo de Dependência de Internet do
Instituto de Psiquiatria, formado por profissionais do Hospital das Clínicas de
São Paulo. Um dos critérios listados pelo grupo para definir a dependência da
internet é ter o trabalho e as relações sociais em risco pelo uso excessivo da
tecnologia. A tendência se reflete principalmente no isolamento e na
superficialidade.
"As
pessoas estão cada vez mais ‘fast'. Tudo tem que acontecer de forma muito
rápida, automática e imediata. Lidam cada vez pior com as frustrações do dia a
dia. Esse é o pior fenômeno: perder a habilidade para retardar o prazer",
observa Dora Sampaio Góes, psicóloga e vice-coordenadora do grupo. Segundo ela,
adolescentes e jovens são os mais vulneráveis.
Os
casos mais comuns de dependência tecnológica estão ligados às redes sociais,
embora celular e videogame também façam parte da lista. O mecanismo criado para
promover o encontro pode fazer exatamente o contrário. "É muito comum a
gente ir a bar e lanchonete e ver grupos de jovens, cada um conversando via
torpedo ou por meio de outro aplicativo, mas com outras pessoas. Então elas não
estão ali", analisa Góes. Ela lembra que no meio virtual, perde-se a
possibilidade de desenvolver habilidade social. "As pessoas vão ficar cada
vez mais solitárias, vão se encontrar menos."
A
opinião não é consenso entre os estudiosos da área. O psicólogo da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ViníciusThomé Ferreira, aponta o
poder de união dessas redes. "Os acontecimentos dos últimos meses que
mobilizaram a população brasileira para reivindicar mudanças na política
nacional são fortes indicativos do poder integrador que as redes possuem para
aproximar as pessoas", observa. Ele ressalta que vários protestos foram
combinados pelas redes, permitindo a participação de milhares de pessoas.
"Isto não é algo que afasta as pessoas, mas aproxima, e foi proporciondado
pela existência das redes sociais."
• "Estar conectato é estar vivo"
Na
avaliação de Sueli Ferreira Schiavo, o uso indiscriminado das redes sociais
reflete a necessidade de visibilidade. "As pessoas precisam se sentir
visíveis. Isso faz parte de um modelo de sociedade", opina. "As
pessoas acham que se relacionam com pessoas, na verdade se relacionam com
máquinas. É um modelo de sociedade que gera carência de interação social."
As
redes sociais estão reconfigurando a maneira como as pessoas se relacionam, na
opinião de Vinícius Thomé Ferreira. Ele acredita que o advento das tecnologias
da informação, e especialmente a internet, produziram um impacto sem limites
sobre o comportamento humano. "Não importa mais hoje onde você esteja,
desde que tenha acesso à internet e uma conta numa rede social, você poderá
manter contato em tempo real com pessoas no outro lado do mundo. O espaço já
não é mais um problema para que as pessoas se relacionem, pois todos estamos
virtualmente conectados", analisa. "Estar conectado é quase um
sinônimo de estar vivo."
Sueli
diz que a inversão de papeis não é saudável. "Relacionar-se com máquinas
não resolve o déficit real de atenção de pessoas. Essas questões podem levar a
uma angústia e ansiedade. A tecnologia tem um papel. É preciso saber a
diferença entre o papel da tecnologia e o papel das relações humanas."
O
limite entre o saudável e o problemático é tênue. "É como se fosse um
anestésico da própria vida. Enquanto você está lá, você não está em contato com
a sua vida, com as suas dificuldades, com os seus problemas, com as suas metas.
Cada vez mais os jovens não querem viver os desconfortos do cotidiano e ficam
na tecnologia", avalia Dora.
Fonte:
Deutsche Welle

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