Bruno Lima Rocha: A
democracia dos agiotas
"Quanto
maior o poder da agiotagem com pessoa jurídica, mais 'risco sistêmico' o mundo
das finanças terá. E quem está financeirizado? Praticamente todas as empresas
Transnacionais (TNCs) com relações de poder e privilégio dentro de governos
ocidentais", escreve Bruno Lima Rocha, cientista político, jornalista
profissional e professor de relações internacionais
<<<<
Eis o artigo.
Existe
um problema de fundo na análise política contemporânea. O século XXI demonstra
que o capitalismo gerador de algum grau de Bem Estar precisa necessariamente
ser controlado. Não por acaso, as economias líderes da nova integração
Eurasiática (China, Rússia e Irã) tem espaços para a iniciativa privada - até
de oligopólios em áreas sensíveis -, mas respondem em última instância ao
Estado e, em específico, ao Poder Executivo.
Ou
seja, no final das contas, qualquer fração de classe dominante estará
subalterna às elites dirigentes. E o acesso às carreiras de Estado dão uma
transcendência superior ao jogo viciado das portas giratórias do ocidente.
Nenhuma destas formas de vida em sociedade é "socialista" e podemos
caracterizar o regime e parte do modo de produção do antigo modelo soviético
ainda existente na Coreia do Norte e em Cuba. Estamos falando de economias
capitalistas sob controle final do Poder Executivo, algo que se verifica, em
maior ou menor graus, na China, Rússia e Irã, e em menor grau de
desenvolvimento, em outras economias asiáticas. Mesmo “economias de mercado”,
como a do Hindustão (Índia), tem severo planejamento de setores estratégicos,
como na produção de arroz. Assim, no segundo país mais populoso do mundo, o
“agro não chega a ser pop”. Ironias a parte, o conceito é simples: a produção
de alimentos é tema de segurança nacional e não necessariamente do saldo da
balança de exportações através de uma cadeia de valor subsidiada.
Voltando
ao tema da “democracia X autoritarismo”, a classificação de sociedades
autoritárias ou com poder de veto e censura é absolutamente correta, sem
tergiversar. Mas, o cinismo das democracias sob controle da agiotagem não traz
nenhuma virtude superior, muito pelo contrário. É falsa a polêmica que apenas o
capitalismo traz a liberdade individual, assim como é absolutamente correta a
caracterização que este mesmo capitalismo só é controlado ou pelo Poder do
Estado, ou por um nível muito intenso de luta de classes, gerando quase a
incapacidade parcial de governo, tal é o caso da França neste momento de
imposição de perda de direitos.
• No Brasil, quem governa? Quem manda?
Vejamos
uma série de reflexões lógicas e evidentes. O custo do giro da dívida pública
brasileira é de 6% do PIB. O BNDES no modelo pós Lava Jato empresta 1% do PIB.
A meta do governo eleito em outubro de 2022 é dobrar de tamanho o banco de
fomento, chegar a 2% do PIB e com isso retomar a política industrial. É isso o
que a Faria Lima e os agiotas estrangeiros não querem e forçam seus paus
mandados no Copom para ampliar a chantagem contra a economia brasileira.
As
portas giratórias são escancaradas – tão explícitas como a analogia de juros e
a pornografia feita pelo presidente da FIESP. Uma vez que deixem seus cargos de
confiança no Banco Central, a "quarentena" dos conselheiros do COPOM
e outros que ocupam funções semelhantes em setores sensíveis da economia é de
180 dias. Após operar por dentro do aparelho de Estado, favorecendo
majoritariamente ao grande capital especulativo, ficam 6 meses em casa
recebendo o último salário e dando palestrinha "pro bono".
Depois
desse período, serão contratados a peso de ouro para as empresas que foram
beneficiadas por essas mesmas pessoas, que tomam as principaid decisões que
empobrecem a sociedade e beneficiam quem já tem muito. Outra possibilidade é
serem recrutados por "clientes externos", como os dealers da dívida
pública controlados por capitais transnacionais (na última lista tinha Goldman
Sachs, Merril Lynch e BNP Paribas francês) ou vão entrar no Grupo Banco Mundial
e defender o imperialismo com mais eficácia do que um porta-aviões.
Convido
a quem lê estas tortas linhas a verificar a ficha corrida passada destas
instituições financeiras e veja qual o volume de “escândalos” com as quais
estão diretamente envolvidas. Não é teoria conspiratória, é fato mesmo.
Nas
“democracias ocidentais”, onde está o poder de facto?
A
quebra do Silicon Valley Bank está diretamente vinculada aos investimentos de
risco das gigantes vizinhas de alta tecnologia. Certo? Não. Vejamos. As Big
Techs do Vale do "Suplicio" faturaram USD 1 trilhão e meio de dólares
en 2022. E ainda assim fogem da tributação, da responsabilidade judicial dos
discursos de ódio e de parar de nos espionar. Não seria possível fazer um termo
de compromisso nos EUA, como o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), ato do
Ministério Público (brasileiro) com força de sentença judicial obrigando essas
empresas a segurarem o rombo que as próprias ajudaram a criar?
Outro
debate de fundo se faz necessário. Existe “gestão temerária” e “contabilidade
criativa” quando na verdade diretores gerentes estão “operando a descoberto” e
elevam o risco real o tempo todo? Existe aleatoriedade quando há informação
perfeita diante dos tomadores finais de decisão? A “nova quebra” em cadeia
provavelmente se dará na França. BNP, Societé Generale, Exane, Natixis e o
sempre presente nestes momentos HSBC foram alvos de investigação da
Procuradoria Nacional de Finanças (PNF) e o processo avança. As acusações são
de fraude e evasão fiscal avançada.
Enquanto
isso, o governo de Macron toma medida executiva, determina a “reforma da
Previdência” e a ampliação de tempo de contribuição e de serviço. Alega que o
“sistema vai quebrar” caso isso não ocorra. Curiosa coincidência. A banca não
pode quebrar – grande demais para falir – e o Estado entra como pagador de
última instância. Já o direito da maioria trabalhadora, fica sempre em segundo
plano. Isso é “democrático”?
• A fábrica de mentiras a favor da
agiotagem
Como
estas instituições bancárias podem simplesmente "quebrar"? Não podem
a não ser que estejam operando muito a "descoberto" e abundante
"gestão temerária". Parece repetitivo, mas deu para entender? Ainda
não. E porque? Porque são termos auto referenciados do "mercado
financeiro", de milhares de profissionais vendendo muitas vezes apenas um instrumento
que não passa de uma aposta matematizada com algum lastro (quando têm, ou
sistemas colaterais cuja ponta da garantia está oculta).
Em
2008, os derivativos eram negociados em cima de casas que tinham hipotecas
vencidas, ou imóveis com mais de cinco hipotecas em cima e cujo comprador não
tinha dinheiro, trabalho ou bens para fiar ou garantir o seguro da compra. Esse
jogo era chamado de negociar Ativos tóxicos ou Ninjas (No Income, No Jobs, No
Assets).
Isso
é uma exceção? Não, é a regra. Fazer pirâmide (Esquema Ponzi) para quem não tem
renda é a parte mais básica da jogada, mas operar sem garantias é regra sim.
Quanto
maior o poder da agiotagem com pessoa jurídica, mais "risco
sistêmico" o mundo das finanças terá. E quem está financeirizado?
Praticamente todas as empresas Transnacionais (TNCs) com relações de poder e
privilégio dentro de governos ocidentais.
E
as TNCs não ocidentais ou de países com governos autoritários? Em geral não têm
tanta autonomia e mesmo quando cometem crimes, como a quebradeira de Chipre em
2013 (lavanderia de capitais de oligarcas russos) ou a mega construtora chinesa
Evergrande, as ameaças reais de punição não compensam mais riscos. É justo o
oposto do que ocorre nas economias capitalistas anglossaxãs, europeias ou da
Ásia aliada da OTAN, como Coreia do Sul e Japão.
E
quem sabe disso? Todo mundo, ou seja, todas e todos que têm poder real de
decisão e que em geral estão envolvidos nestas mesmas fraudes. Uma boa parte de
quem leciona ciências económicas também sabe. Mas aí a hegemonia do pensamento
único neoliberal é contestada dentro dos meios acadêmicos e mais sérios. Na
opinião publicada e na pregação de “empreendedorismo” o senso comum da
baboseira neoclásica opera como base doutrinária (e fantasia a-histórica) da
agiotagem como fração de classe dominante acima de poderes de Estado.
Não
há democracia social possível com o poder de decisão sequestrado pelos
parasitas financeiros.
Cerca de 80% dos brasileiros apoiam
críticas de Lula ao Banco Central pela manutenção dos juros
A
maioria dos brasileiros concorda com as recentes críticas do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ao Banco Central (BC) por manter a taxa de juros em
13,75%, que o presidente considera muito alta.
Segundo
pesquisa do instituto Datafolha divulgada pelo G1, "80% dos
brasileiros" acreditam que o presidente está agindo corretamente ao tecer
críticas à taxa de juros mantida pelo BC na casa de 13,75%, contra 16% que
discordam e 5% que não souberam responder. De acordo com o resultado da
pesquisa, as críticas de Lula têm respaldo na população, já que 71% dos
entrevistados consideram que a taxa de juros está mais alta do que deveria.
A
reprovação ao papel do BC é alta até mesmo entre os eleitores do ex-presidente
Jair Bolsonaro (2017-2021), que foi quem indicou o atual presidente da instituição,
Roberto Campos Neto. Segundo os dados, 77% dos eleitores de Bolsonaro acreditam
que o BC está exagerando ao manter as taxas no patamar atual.
O
Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) alega que a medida é
necessária para conter a inflação, mas o governo considera que ela freia os
investimentos e o desenvolvimento econômico.
OPOSIÇÃO DOMINA RELATORIAS DE PROPOSTAS
FISCAIS DE LULA
Prestes
a completar 100 dias de governo, o presidente Lula vai enfrentar diretamente
dois dos maiores partidos de oposição – o PP e o PL -, para que veja aprovadas
as principais medidas fiscais do seu governo: o arcabouço fiscal e a reforma
tributária. Para completar os primeiros dias da gestão de Lula, a relatoria da
Comissão Mista de Orçamento ficou nas mãos do PL. Os dois partidos integram as
bancadas que mais prometem dar dor de cabeça aos planos do governo.
O
arcabouço fiscal de Lula é o tema que promete acirrar de forma mais imediata os
debates na Câmara. Sobretudo pela urgência do governo na aprovação da proposta.
Pressionado tanto pelos parlamentares quanto pelo mercado financeiro, o governo
vai entregar nesta semana o texto ao Congresso Nacional, com a expectativa de
aprovar ainda em abril.
• Turbulências
A
batalha do governo é para que a proposta seja aprovada tanto na Câmara quanto
no Senado sem alterações, mas poucas horas depois de o ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, ter apresentado tópicos da proposta apenas aos líderes, o
governo já percebeu que a tramitação não irá ocorrer sem algumas turbulências.
O próprio presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), já afirmou que, ainda que
o projeto seja considerado urgente, ele vai demandar “ajustes e negociações”, e
que a Câmara não irá abrir mão durante as negociações para a apreciação.
“O x vão ser as nossas negociações para ver
quais projetos e votações vamos ter que fazer depois para ajustar o arcabouço.
Na tese que o governo defende de não aumentar impostos e de fazer com que quem
não paga impostos passe a pagar, isso nos remete a isenções, desonerações,
subvenções e incentivos fiscais, e terá de ser negociado”, afirmou Lira.
Lira
tem tranquilidade para falar sobre as eventuais mudanças, uma vez que ele
próprio garantiu a relatoria do texto do arcabouço fiscal ao seu partido, o que
facilita eventuais alterações no texto. O deputado federal Claudio Cajado
(PP-BA) foi o nome escolhido pelo PP para ser o relator do novo arcabouço
fiscal, e deve ser oficializado na missão nesta semana. Com o PP também está a relatoria da
tributária, essa que, devido ao arcabouço, deve ficar só para o segundo
semestre. Agnaldo Ribeiro (PB), tem comandado uma série de audiências para
tratar do tema.
• Menina dos olhos
Antes
da reforma tributária, o novo arcabouço fiscal é tido como a menina dos olhos
do governo Lula neste primeiro semestre, e sua necessidade foi negociada pelo
governo com o Congresso ainda antes de Lula tomar posse. Com o novo modelo, o
governo espera zerar o déficit público primário da União em 2024 e atingir o
superávit primário de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Para 2026,
último ano do mandato de Lula, a expectativa é atingir o superávit primário de
1% do PIB e estabilizar a dívida pública da União.
Segundo
o Ministério da Fazenda, a proposta permitirá “menos inflação; mais estímulo ao
investimento privado; menos juros na dívida pública; atração de investimentos
internacionais; recuperação do grau de investimento; mais previsibilidade e
estabilidade; e recuperação do grau de investimento”. As promessas suscitaram
dúvidas.
Para
o líder do PL, deputado Altineu Cortes (RJ), é exatamente a garantia de que o
arcabouço fiscal traga um cenário para a economia do país, com mais
investimentos, que não está claro no projeto apresentado previamente pelo
governo. Por esse motivo, o líder do PL é um dos que defende mudanças no texto
do arcabouço fiscal, o primeiro que o partido vai se empenhar, ainda antes da
CMO.
“Precisamos
de um texto que prime pela redução de juros, não jogando isso como uma aposta
no Banco Central. Isso nos deixa muito preocupados. É preciso que o arcabouço
inverta essa regra, e vamos trabalhar para que o arcabouço traga a segurança
necessária para que haja uma queda de juros e uma melhoria na economia do
país”, disse o deputado ao Congresso em Foco.
• “NÃO VAMOS USAR O ORÇAMENTO PARA BARGANHA”,
AFIRMA LÍDER DO PL
Responsável
pela relatoria do primeiro orçamento da União da atual gestão do presidente
Lula, o PL da Câmara promete fazer uma oposição baseada em dados, e não
utilizar a Comissão Mista de Orçamento (CMO) como espécie de barganha contra o
presidente Lula. Para o líder da legenda na Casa, deputado Altineu Côrtes
(PL-RJ), essa seria a melhor forma de o partido se solidificar como liderança
de oposição ao atual governo.
“Não
vamos usar a relatoria da CMO para fazer barganha. A gente sabe que o trabalho
na CMO é bastante técnico, e não é espaço para ficar fazendo oposição por
oposição”, disse ao Congresso em Foco o líder da legenda.
Côrtes
foi responsável por levar ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o nome
do deputado Luiz Carlos Motta (PL-SP) para ser o relator do Orçamento da União.
Em seu segundo mandato, Motta é tido pelos aliados do governo como um nome
equilibrado, ainda que integre os quadros do principal partido de oposição a
Lula.
“O
PL vai ser uma oposição de alta nível. Tudo que for bom para o Brasil, vamos
apoiar”, garante ele.
• Articulação de Valdemar
A
jogada que garantiu a colocação de Motta na relatoria da CMO foi articulada
pelo próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Foi ele o primeiro a
conversar com o parlamentar sobre a indicação para a relatoria do orçamento.
Como a relatoria da CMO pertence à Câmara, a indicação ao Congresso precisava
partir de Lira, o que foi acertado com o aval do governo. O PT já sabia que não
teria a relatoria, em um acerto que passou pelo comando da Comissão de
Constituição e Justiça do Senado (CCJ). O colegiado se manteve sob o comando de
David Alcolumbre (União-AP).
O
PL, partido de Jair Bolsonaro, elegeu o maior número de deputados federais: 99.
Ao lado do PP, a sigla desponta entre os partidos cujos integrantes foram mais
beneficiados pelas emendas do relator nos anos de 2020 e 2021, segundo apontou
levantamento do Congresso em Foco.
As
RP9, ou emendas do relator, passaram a ser chamadas de emendas do orçamento
secreto diante da falta de transparência sobre os critérios de repasse. Tanto
os nomes dos parlamentares responsáveis pelas indicações, quanto o destino
desse dinheiro era mantido sob sigilo.
Fonte:
IHU OnLine/Sputnik Brasil/Congresso em Foco

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