Grupo neonazista de
SC recrutava jovens de outras células, diz polícia
O
grupo neonazista de Santa Catarina recrutava jovens já radicalizados,
pertencentes a outras células criminosas. Segundo a Polícia Civil, os possíveis
integrantes eram convidados pela internet e em encontros presenciais.
Dez
pessoas foram presas por suspeita de integrar esse grupo skinhead neonazista —
oito delas em São Pedro de Alcântara, no ano passado, e as outras duas, na
última quarta-feira (29), em Caxias do Sul (RS).
A
prisão na cidade da Grande Florianópolis ocorreu após uma denúncia anônima.
Todos os 10 presos, segundo a polícia, estavam no sítio. Os dois detidos no Rio
Grande do Sul tinham ido embora antes da Polícia chegar ao local.
• Grupos neonazistas se espalham pelo
Brasil, apontam pesquisadores
Que
o Brasil tem acompanhado nos últimos anos o crescimento de grupos neonazistas
não é uma surpresa, basta uma navegação e pesquisa pelas redes para se dar
conta de como tais grupos "saíram do armário" e promovem discursos de
ódio sem nenhum constrangimento.
Mas,
com o objetivo de superar o "achar" e o "perceber", alguns
pesquisadores brasileiros têm se dedicados nos últimos anos a mapear os grupos
neonazistas no Brasil.
Uma
dessas pesquisadoras é a antropóloga Adriana Dias que, segundo as suas
estimativas hoje existem cerca de 530 células (formadas por pessoas que estão
no município).
A
pesquisadora revela que, em 2019, havia detectado 334, um aumento de 58%. O
trabalho de Adriana Dias é feito a partir da Unicamp e é permanente. Neste ano,
foram identificados cerca de 200 perfis de usuários neonazistas, o que pode
indicar novas células.
Thiago
Tavares, diretor-presidente e fundador do SaferNet Brasil, ONG que estuda o
discurso de ódio no Brasil, também revela números preocupantes: em 2019 foram
recebidas e processadas 1.071 denúncias; em 2020, o número de denúncias saltou
para 9.004 e 3.884 páginas, das quais 1.659 foram removidas.
A
principal preocupação de ambos os pesquisadores, além do crescente número de
perfis nas redes, é a "normalização" de tais grupos e de seus
respectivos discursos.
Tal
preocupação levou especialistas de várias universidades a criarem o
Observatório da Extrema Direita no Brasil, que é coordenado por Odilón
Caldeirão, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz
de Fora.
Investigação aponta conexões de
neonazistas brasileiros com organização internacional de supremacia branca
Uma
investigação policial descobriu conexões de grupos neonazistas brasileiros com
uma organização internacional de supremacia branca. Oito homens foram presos em
Santa Catarina e um plano para implantar no Brasil uma célula radical de
supremacia branca foi descoberto.
Segundo
a polícia, Laureano Vieira Toscani é um neonazista que comete crimes de ódio há
muito tempo. Entre as vítimas de Laureano estão judeus, negros e homossexuais.
De
acordo com as investigações, Laureano faria parte de um grupo internacional de
supremacia branca. Esse grupo surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos, e se
expandiu ao redor do mundo pela música de bandas de rock neonazistas, que
pregavam, em suas letras, o ódio racial.
“São
marcadamente violentos, racistas, neonazistas e buscam atacar e perseguir
minorias. Eles têm essa definição de um grupo mais fechado, formado justamente
por indivíduos ligados aos skinheads neonazistas”, explica Odilon Caldeira
Neto, professor de História Contemporânea.
À
polícia, Laureano negou fazer parte desse grupo internacional: “É um negócio
local nosso aqui, no Brasil. Não tem nada a ver com internacional, nem nada”,
disse ele em depoimento.
O
nome do "negócio local" que Laureano e outros acusados integram no
aplicativo de mensagens Telegram é comum em outros países do mundo e identifica
as bases de apoio ao grupo internacional de supremacia branca.
A
Polícia Civil de Santa Catarina descobriu a existência de uma filial da
organização no Brasil, depois de receber uma denúncia anônima: em novembro de
2022, haveria um encontro de neonazistas em um sítio em São Pedro de Alcântara,
a cerca de 30 quilômetros de Florianópolis.
“De
fato, encontramos um grupo de indivíduos adeptos e integrantes de uma
organização skinhead neonazista transnacional. Localizamos toda a vestimenta
utilizada por eles, toda a indumentária que identifica eles como um grupo
neonazista”, diz o delegado Arthur de Oliveira Lopes.
Nos
celulares, havia também mensagens criminosas, como: "Pretos têm que morrer
todos os dias". Entre os oito acusados, estava Laureano, dono de uma
extensa ficha criminal. Saiba mais no vídeo acima.
• O que dizem os citados:
Um
dos presos é Fábio Lentino. À polícia, ele confessou participar de encontros
dos brasileiros associados ao grupo internacional e que pagava a mensalidade
para o grupo.
Fábio
Lentino era operador de áudio da rádio gaúcha, do grupo RBS, dono da RBS TV,
afiliada à TV Globo.
Em
nota, o Grupo RBS disse que "reitera seu repúdio a qualquer forma de
preconceito e já está tomando as medidas legais para o desligamento do
funcionário. Respeito e tolerância são valores fundamentais para a nossa
empresa e que constam no nosso código de ética e conduta."
O
outro preso é Rodrigo de Jesus Tavares, funcionário dos Correios.
Em
nota, a assessoria informou que "os Correios lamentam o ocorrido e
repudiam quaisquer comportamentos dissociados dos valores defendidos pela
estatal, e que a empresa tomará as medidas administrativas e cautelares
cabíveis".
O
advogado de Rodrigo e de Fábio disse que os "dois negam as acusações e que
isso ficará demonstrado durante a instrução processual."
Leonardo Sacramento: É o neonazismo,
estúpido!
O
assassino que esfaqueou a professora em São Paulo brigou na semana anterior e
apanhou dos alunos porque havia chamado um deles de macaco.
Algo
para ser mais bem elucidado, se a mídia e a polícia permitirem, pois sempre
tratam esses ataques como se fossem suicídio. Reina a lógica do silêncio para
enfatizar aspectos psicologizantes, deslocando o debate para um mero casuísmo
da psiquê.
Em
seu celular, foram encontrados exemplos de invasão e chacina em escolas. A
estética de suas vestimentas segue padrão dos ataques anteriores, com
referências explícitas.
O
twitter [i] trouxe, minutos depois, informações valiosas, como a existência de
um subgrupo neonazista do qual fazia parte, cujo nome escolhido foi o mesmo do
terrorista de Suzano (SP). Ali, foi encorajado e sugestionado a se vingar da
sociedade que o teria retirado de seu devido e histórico lugar.
Com
essa narrativa, grupos neonazistas trabalham com jovens em darkweb, deepweb,
mundo gamers e, agora e inclusive, em redes sociais, indicando a existência de
uma considerável aceitação social.
As
instituições e principalmente a esquerda não entenderam o que está acontecendo
entre os jovens.
Desenhemos
o processo em 10 fatos geralmente silenciados, os quais, por óbvio, não excluem
mais minudências:
(i)
Esses ataques têm sugestionamento e direção de grupos neonazistas na web,
inclusive em redes sociais abertas. Isso indica que o trabalho realizado por
anos a fios em sítios e jogos que ocultavam paradeiros e emissários deu certo;
(ii)
Os grupos prioritários são jovens brancos empobrecidos que pertenceriam a uma
espécie de classe média baixa – há exceções, como o terrorista de Realengo, que
matou dez mulheres em um total de doze jovens, quase todos negros.
Esses
jovens se transformam em guardiões do Tradicionalismo por terem, segundo
narrativa conservadora, perdido espaços em frentes outrora monopolizados em um
mundo mais reto e tranquilo [ii].
Agora,
disputariam de vaga em ensino superior a vaga de trabalho, inclusive a própria
representação estética, com negros, indígenas, mulheres e LGBTQIA+;
(iii)
O ataque ocorrido em Barreiras, na Bahia, por um branco de Brasília, filho de
policial (o maior salário de polícias do Brasil), é o caso mais exemplar.
Chamava os habitantes de inferiores. [iii] Matou uma cadeirante, também negra.
Ele tinha contato com o assassino de Aracruz (ES), que matou quatro mulheres
(apenas mulheres);
(iv) O celular do assassino de Saudades (Santa
Catarina), aquele que matou bebês e professoras (mulheres), ligou-o a grupos
neonazistas do Rio de Janeiro.
[v]
Talvez tenha sido o caso tratado de forma mais absurda, pois a hipótese inicial
foi a de bullying. O que os bebês fizeram ao terrorista é um mistério.
[vi]
Os dados desse grupo do Rio de Janeiro ligaram-no ao assassino de Suzano (São
Paulo). Logo, é uma rede sem medo de aparecer. Quem faz questão de escondê-la é
a polícia, a mídia, os governos, a burguesia e a classe média, inclusive a
autoproclamada progressista.
Em
Monte Mor, a bomba falhou e o terrorista foi preso com machadinha. Em Suzano um
tinha arma de fogo, outro uma machadinha.
Outros
ataques são a faca. Priorizam arma de fogo, mas quando não conseguem, existe um
roteiro com inspiração em certos jogos com facas e machadinhas.
(vi)
Os grupos neonazistas procuram jovens que já ganham ou ganharão menos que os
pais, sem perspectiva de qualquer sorte diferente.
Culpam
as mulheres por entrarem no mercado de trabalho e não se resumirem ao exercício
do papel de mães e esposas, imigrantes (nordestinos no Sul e Sudeste, latinos
nos EUA e africanos e árabes na Europa) e negros (entrada no mercado de
trabalho e cotas).
Esses
jovens são, sem exceção, supremacistas, mesmo que não militem formalmente em
uma célula neonazista.
(vii)
No caso das mulheres, defendem, ao lado das Igrejas Neopentecostais, a mulher
tradicional e submissa.
Entendem
que a nova mulher é fruto de uma espécie de confusão sexual da modernidade,
cujas sexualidades são atacadas como quebra do Tradicionalismo no qual o homem
branco é a ponta da pirâmide. Portanto, defendem um retorno ao que era seguro
aos homens brancos.
Redpills
e incels são expressões e objetos de interesse de grupos neonazistas na
deepweb, darkweb, gamers e plataformas e redes sociais, como Youtube, Telegram
e Twitter. Basta acompanhar subgrupos e comentários em canais vinculados à
direita e ao universo jovem.
(viii)
Bullying não provoca os ataques. Quem acha isso, é porque se identifica com os
autores, identificando-se socialmente e racialmente – uma espécie de
supremacismo velado. Não ocorre o mesmo com os jovens pretos em comunidades ou
com as mães que roubam comida;
(ix)
essa geração é mais afeita ao neonazismo porque ela é o produto mais bem
acabado do neoliberalismo. Fragmentada, é a geração sem trabalho porque o
trabalho foi destruído pelo neoliberalismo.
A
garantia social que possuía para reproduzir o status quo familiar foi junto.
Como resposta, essa geração volta-se contra as famigeradas minorias, que
estariam ocupando o lugar que tradicionalmente lhe seria cativa.
Ou
seja, o neoliberalismo destrói a realização da expectativa de reprodução de
classe e raça, mas fomenta o sectarismo neonazista para preservar a
fragmentação na classe por meio da reafirmação da superioridade racial. Por
isso não é possível separar fascismo de neoliberalismo. São siameses.
(x)
Por que apenas escolas públicas? Porque os intrusos estão lá. Porque os
escolhidos, os brancos empobrecidos de classe média baixa também estão lá,
sendo contaminados, como lembrou o assassino de Barreiras (BA).
O
assassino de Suzano atacou apenas negros. Estamos sob ataque! Trabalhadoras e
trabalhadores negros precisam aprender a se defender e reagir preventivamente a
grupos neonazistas, de forma organizada e violenta.
Parece
que tanto a institucionalidade quanto a esquerda não entenderam o fenômeno,
mais ou menos quando da ascensão do neofascismo nas Igrejas Evangélicas a
partir de 2013 – não percamos tempo com a direita.
Em
essência, não é problema de estrutura escolar (embora não tenha investimento e
precise ser feito), bullying e falta de cultura de paz. É fascismo e
neonazismo.
Não
há relação de causa e efeito entre estrutura escolar, bullying e ausência de
cultura da paz.
Não
foi mero racismo, em que o pobre jovem branco seria vítima do famigerado
“racismo estrutural”, conceito que foi transformado em pó de pirlimpimpim na
mídia e grupos voltados a oferta de uma “educação antirracista”.
Foi
neonazismo, com forte, evidente e explícita atuação de grupos neonazistas.
Todos os ataques em escolas nos últimos anos têm assinatura de grupos
neonazistas.
Se
Umberto Eco atentava que “o fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes
em trajes civis”, os ataques em escolas públicas mostram que os trajes civis
foram abandonados. Os trajes são militares. É preciso “golpear de morte a besta
fascista em seu próprio covil”.
O
ataque a escolas por neonazistas,[vii] independentemente da idade, deve ser
tipificado como terrorismo.
As
investigações devem ser federalizadas com a formação de um grupo de combate ao
neonazismo, incluindo Polícia Federal e Ministério Público Federal.
Deixar
para as polícias estaduais, sem compreender a concatenação de todos os ataques,
é contribuir para a profusão do neonazismo e naturalizar os ataques coordenados
e planejados em escolas.
Quanto
aos jovens objetos dos ataques, é prudente se formarem para agir
preventivamente, de forma violenta e organizada. Vai ter que ter ação
preventiva e reação justa de movimentos populares, sobretudo negros e mulheres
(a grandíssima maioria das vítimas é a mulher negra e pobre).
Não
vai dar para terceirizar tudo para o governo. Ele tem a sua cota, mas sem
movimento popular conscientemente violento, como indica Fanon em Os Condenados
da Terra, chegará o dia em que naturalizaremos os grupos neonazistas como
fizemos com o bolsonarismo. Fora disto, é só confete.
Assim,
é inadmissível a defesa de cursinhos antirracistas para neonazistas (sic!)
porque seriam vítimas do discurso de ódio.
A
questão é: materialmente, por que o discurso neonazista tem aderência a esses
jovens brancos pertencentes a uma espécie de classe média empobrecida?
A
resposta é desconfortante para quem acredita que os problemas brasileiros
poderão ser resolvidos com diálogo.
Perguntar
abstratamente o que aconteceu a esses jovens neonazistas e relacioná-los a meras
vítimas do “discurso do ódio” é inverter quem é a vítima.
O
padrão é ataque a escolas públicas para matar negros, cadeirantes, mulheres e
pobres.
Matar
professoras é outra constante de todos os ataques. Eis o busílis.
Pais do estudante que matou professora
sabiam do interesse do filho em realizar chacina
Os
pais do estudante de 13 anos que matou a facadas a professora Elisabeth
Tenreiro, de 71 anos, e feriu outras quatro pessoas em uma escola em São Paulo,
sabiam que o filho tinha “interesse em realizar uma chacina”, um mês antes do
atentado. É o que diz um documento que está em posse da Polícia Civil.
O
pai do adolescente, Ricardo Vieira da Silva, e a mãe dele, Renata Batista de
Carvalho, compareceram à Escola Estadual José Roberto Pacheco, onde o filho
estudava na época, a pedido da diretoria do colégio, de acordo com uma ata de
reunião escolar do dia 23 de fevereiro. O crime ocorreu no dia 27/03, na Escola
Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, zona oeste da capital paulista.
A
reunião foi convocada em razão do “comportamento suspeito” do garoto, de acordo
com depoimentos de funcionários. O estudante ameaçou de morte um colega de
classe via WhatsApp e tentou extorqui-lo. Uma semana depois, a mãe da vítima
teve acesso às mensagens e comunicou à escola sobre as conversas, em 14 de
fevereiro.
O
menor também teria enviado outras mensagens suspeitas a uma colega no dia 21 de
fevereiro, durante o feriado de Carnaval, perguntando se a estudante
conseguiria arrumar isqueiro e gasolina, sem dar detalhes do que pretendia
fazer com os objetos.
• Indiferença do pai
Na
mesma reunião, os pais do garoto foram informados, em detalhes, pela diretoria
da escola sobre todas as ameaças feitas pelo garoto a colegas. Ao final, eles
assinaram um termo confirmando que estavam cientes do comportamento do filho.
A
diretora da escola, Kelly Salerno, disse a eles que o adolescente havia
compartilhado com outros alunos fotos que faziam apologia a atentados em
escolas e imagens em que segurava armas de fogo.
“A
gestora [da escola] explicou sobre os últimos eventos: no primeiro deles, [o
menor, cujo nome é preservado] manifestou interesse em realizar uma chacina e
compartilhou fotos que enaltecem essa ação. O pai disse que tem uma arma em
casa, que [o menor] tem uma Airsoft [simulacro de arma usado em jogos] e que
todas as fotos mostradas foram tiradas na casa da avó”, diz a ata da reunião
enviada à polícia.
Segundo
depoimentos de funcionários da escola, o pai do garoto teria reagido com
indiferença e dito que esse comportamento do filho era “normal”. O casal
relatou durante a reunião um episódio no qual o adolescente teria sido
espancado quando tinha 11 anos, no antigo colégio em que estudava. Segundo
eles, desde então, o filho nunca mais foi o mesmo.
Como a Varig teria se envolvido com o
regime nazista
Em
novembro de 1939, o alemão Otto Ernst Meyer foi preso pelo suposto envolvimento
de sua empresa, a Viação Aérea Rio Grandense (Varig), em um plano de espionagem
do regime nazista. Meyer ficou detido por três dias, e documentos da época
apontam que o delegado da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) de Porto
Alegre concluiu que a companhia estaria ciente sobre a participação no ato
ilícito.
A
investigação que culminou com a prisão de Meyer começou após a polícia gaúcha
ter descoberto um plano para a instalação de radiotransmissores clandestinos a
bordo de um vapor alemão em Rio Grande. Segundo documentos da época, esses
equipamentos seriam usados na espionagem voltada a enviar informações para
navios e submarinos alemães na costa sul do Brasil.
O
caso foi revelado pelo historiador Alexandre Fortes, da Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em sua tese de doutorado defendida em 2001.
"Depois da descoberta dos documentos do Dops, encontrei diversos
documentos sobre o tema no Arquivo Nacional dos Estados Unidos", conta o
pesquisador à DW.
De
acordo com os documentos descobertos por Fortes, a Varig transportou os
aparelhos de espionagem e o técnico encarregado da operação até Rio Grande. A
empresa também teria levado de graça o representante da Companhia Hamburguesa
de Navegação no porto de Rio Grande, Friedrich Wilhelm Wiltgens, até Porto
Alegre, para participar de uma reunião sobre a operação ocorrida no consulado
alemão.
Após
a prisão de Meyer, autoridades recomendaram uma investigação mais geral sobre
as atividades da empresa. O andamento do inquérito foi lento, de acordo com
Fortes. Somente em 1940, o Dops preparou um relatório sobre a atuação política
da Varig e seu dono. O relatório afirma que Meyer era simpatizante do nazismo.
O documento aponta ainda a Varig como responsável pela distribuição dos jornais
e pelo transporte do dinheiro do caixa do Partido Nazista na região.
Meyer
teria ainda escrito um artigo para um jornal pró-nazista de Porto Alegre
negando haver um descontamento das Forças Armadas alemãs com Adolf Hitler. Ele
também teria retirado anúncios da Varig de um periódico antinazista seguindo
uma orientação do Partido Nazista. O relatório afirmava ainda que o dono da
Varig teria trocado correspondências com agentes do regime alemão que
supostamente chefiavam uma rede de espionagem na região.
"Apesar
da prisão de Meyer e do relatório do Dops sobre o envolvimento da empresa no
caso, isso não teve nenhuma consequência jurídica imediata. Atribuo isso à força
política da empresa e do próprio Meyer", avalia Fortes.
• O nascimento da Varig
Veterano
da Primeira Guerra Mundial, Meyer emigrou para o Brasil em 1921. Inicialmente
esteve em Recife e, depois de passar pelo Rio de Janeiro, se estabeleceu em
Porto Alegre.
"Ao
vir para o Rio Grande do Sul, ele dá muita sorte de entrar para a elite local.
Ele conhece uma viúva rica da sociedade, muito bem relacionada, e acaba se
casando com ela", conta a historiadora Claudia Musa Fay, da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Em
1927, com apoio de políticos e empresários locais, Meyer consegue realizar seu
sonho de fundar uma empresa de aviação no Brasil. Os recursos iniciais para o
negócio vieram de quase 500 acionistas que investiram na Varig. Por meio de um
acordo com a empresa alemã Condor Syndikat, a nova companhia teve acesso ao
primeiro avião e tripulação.
A
Varig operava inicialmente no ramo de entrega de correspondência e encomendas a
nível regional. O transporte de passageiros era pífio, devido ao alto valor das
passagens e ao pequeno número de assentos disponíveis nas aeronaves – apenas
seis. Sua primeira rota regular foi Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande.
Em
1932, após passar por um período de dificuldades, o governo do Rio Grande do
Sul acabou se tornando o maior acionista individual da Varig.
• Controvérsia sobre o envolvimento com o
regime nazista
Além
do relatório do Dops, a Varig foi monitorada pelo consulado americano em Porto
Alegre a partir de 1936, segundo a pesquisa de Fortes. Em relatórios produzidos
em 1939, surgem declarações de que Meyer seria um forte apoiador do nazismo.
Para
a especialista em aviação Fay, Meyer pode até ter contribuído financeiramente
para o Partido Nazista num momento em que a comunidade alemã no Brasil estaria
empolgada com a recuperação econômica da Alemanha.
"A
aviação alemã era muito pujante na época. Quem olha pela máquina, pela
tecnologia e por esse viés, consegue entender que aquelas pessoas não estavam
preocupadas com a situação política, mas com o avanço técnico", ressalta a
historiadora.
Fay,
porém, descarta um envolvimento da Varig em espionagem – por não haver
interesses estratégicos, pois a empresa só operava regionalmente, e pelo
pragmatismo de seu fundador.
"Meyer
não queria criar um Partido Nazista no Brasil. Ele estava muito interessado na
aviação e em sua empresa. Sua ligação com a política é muito pragmática. Ele
era amigo dos políticos, porque os políticos de certa maneira o ajudavam. Ele
era muito amigo das empresas alemãs, porque elas forneciam os equipamentos. Mas
quando teve que mudar por pressão dos Estados Unidos, a Varig passou a importar
equipamento americano", argumenta Fay.
• Nacionalização da empresa
O
episódio de 1939 relatado pelo Dops permaneceu sem consequências. No entanto, com
o avanço da Segunda Guerra Mundial, a rede de aviação na América Latina que
dependia de parceiros alemães ficou em uma situação complicada: sem assistência
técnica ou novos aviões.
No
final de 1941, após pressão dos americanos em troca da venda de aviões e peças
de reposição, Meyer se afastou da diretoria da Varig, segundo Fortes. Pouco
tempo depois, seu fiel aliado e primeiro funcionário, Rubem Berta, assumiu a
presidência da companhia.
"Meyer
ficou, porém, nos bastidores. Ele não saiu totalmente da empresa. Ele e Berta
trabalhavam sempre juntos", destaca Fay, que acrescenta que, com o fim da
guerra, Meyer voltou a pertencer ao conselho da companhia, onde permaneceu até
a sua morte, em 1966.
Fortes
ressalta ainda que o caso da Varig não é isolado. "Ele se insere numa rede
de empresas de aviação de origem alemã e faz parte de uma disputa pela aviação
civil na América Latina no período entreguerras, quando europeus e americanos
competiam por espaço formando empresas", afirma.
Fonte:
Metrópoles/Viomundo/Deutsche Welle/g1/Fórum

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