terça-feira, 4 de abril de 2023

Grupo neonazista de SC recrutava jovens de outras células, diz polícia

O grupo neonazista de Santa Catarina recrutava jovens já radicalizados, pertencentes a outras células criminosas. Segundo a Polícia Civil, os possíveis integrantes eram convidados pela internet e em encontros presenciais.

Dez pessoas foram presas por suspeita de integrar esse grupo skinhead neonazista — oito delas em São Pedro de Alcântara, no ano passado, e as outras duas, na última quarta-feira (29), em Caxias do Sul (RS).

A prisão na cidade da Grande Florianópolis ocorreu após uma denúncia anônima. Todos os 10 presos, segundo a polícia, estavam no sítio. Os dois detidos no Rio Grande do Sul tinham ido embora antes da Polícia chegar ao local.

•        Grupos neonazistas se espalham pelo Brasil, apontam pesquisadores

Que o Brasil tem acompanhado nos últimos anos o crescimento de grupos neonazistas não é uma surpresa, basta uma navegação e pesquisa pelas redes para se dar conta de como tais grupos "saíram do armário" e promovem discursos de ódio sem nenhum constrangimento.

Mas, com o objetivo de superar o "achar" e o "perceber", alguns pesquisadores brasileiros têm se dedicados nos últimos anos a mapear os grupos neonazistas no Brasil.

Uma dessas pesquisadoras é a antropóloga Adriana Dias que, segundo as suas estimativas hoje existem cerca de 530 células (formadas por pessoas que estão no município).

A pesquisadora revela que, em 2019, havia detectado 334, um aumento de 58%. O trabalho de Adriana Dias é feito a partir da Unicamp e é permanente. Neste ano, foram identificados cerca de 200 perfis de usuários neonazistas, o que pode indicar novas células.

Thiago Tavares, diretor-presidente e fundador do SaferNet Brasil, ONG que estuda o discurso de ódio no Brasil, também revela números preocupantes: em 2019 foram recebidas e processadas 1.071 denúncias; em 2020, o número de denúncias saltou para 9.004 e 3.884 páginas, das quais 1.659 foram removidas.

A principal preocupação de ambos os pesquisadores, além do crescente número de perfis nas redes, é a "normalização" de tais grupos e de seus respectivos discursos.

Tal preocupação levou especialistas de várias universidades a criarem o Observatório da Extrema Direita no Brasil, que é coordenado por Odilón Caldeirão, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

       Investigação aponta conexões de neonazistas brasileiros com organização internacional de supremacia branca

 

Uma investigação policial descobriu conexões de grupos neonazistas brasileiros com uma organização internacional de supremacia branca. Oito homens foram presos em Santa Catarina e um plano para implantar no Brasil uma célula radical de supremacia branca foi descoberto.

Segundo a polícia, Laureano Vieira Toscani é um neonazista que comete crimes de ódio há muito tempo. Entre as vítimas de Laureano estão judeus, negros e homossexuais.

De acordo com as investigações, Laureano faria parte de um grupo internacional de supremacia branca. Esse grupo surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos, e se expandiu ao redor do mundo pela música de bandas de rock neonazistas, que pregavam, em suas letras, o ódio racial.

“São marcadamente violentos, racistas, neonazistas e buscam atacar e perseguir minorias. Eles têm essa definição de um grupo mais fechado, formado justamente por indivíduos ligados aos skinheads neonazistas”, explica Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea.

À polícia, Laureano negou fazer parte desse grupo internacional: “É um negócio local nosso aqui, no Brasil. Não tem nada a ver com internacional, nem nada”, disse ele em depoimento.

O nome do "negócio local" que Laureano e outros acusados integram no aplicativo de mensagens Telegram é comum em outros países do mundo e identifica as bases de apoio ao grupo internacional de supremacia branca.

A Polícia Civil de Santa Catarina descobriu a existência de uma filial da organização no Brasil, depois de receber uma denúncia anônima: em novembro de 2022, haveria um encontro de neonazistas em um sítio em São Pedro de Alcântara, a cerca de 30 quilômetros de Florianópolis.

“De fato, encontramos um grupo de indivíduos adeptos e integrantes de uma organização skinhead neonazista transnacional. Localizamos toda a vestimenta utilizada por eles, toda a indumentária que identifica eles como um grupo neonazista”, diz o delegado Arthur de Oliveira Lopes.

Nos celulares, havia também mensagens criminosas, como: "Pretos têm que morrer todos os dias". Entre os oito acusados, estava Laureano, dono de uma extensa ficha criminal. Saiba mais no vídeo acima.

•        O que dizem os citados:

Um dos presos é Fábio Lentino. À polícia, ele confessou participar de encontros dos brasileiros associados ao grupo internacional e que pagava a mensalidade para o grupo.

Fábio Lentino era operador de áudio da rádio gaúcha, do grupo RBS, dono da RBS TV, afiliada à TV Globo.

Em nota, o Grupo RBS disse que "reitera seu repúdio a qualquer forma de preconceito e já está tomando as medidas legais para o desligamento do funcionário. Respeito e tolerância são valores fundamentais para a nossa empresa e que constam no nosso código de ética e conduta."

O outro preso é Rodrigo de Jesus Tavares, funcionário dos Correios.

Em nota, a assessoria informou que "os Correios lamentam o ocorrido e repudiam quaisquer comportamentos dissociados dos valores defendidos pela estatal, e que a empresa tomará as medidas administrativas e cautelares cabíveis".

O advogado de Rodrigo e de Fábio disse que os "dois negam as acusações e que isso ficará demonstrado durante a instrução processual."

 

       Leonardo Sacramento: É o neonazismo, estúpido!

 

O assassino que esfaqueou a professora em São Paulo brigou na semana anterior e apanhou dos alunos porque havia chamado um deles de macaco.

Algo para ser mais bem elucidado, se a mídia e a polícia permitirem, pois sempre tratam esses ataques como se fossem suicídio. Reina a lógica do silêncio para enfatizar aspectos psicologizantes, deslocando o debate para um mero casuísmo da psiquê.

Em seu celular, foram encontrados exemplos de invasão e chacina em escolas. A estética de suas vestimentas segue padrão dos ataques anteriores, com referências explícitas.

O twitter [i] trouxe, minutos depois, informações valiosas, como a existência de um subgrupo neonazista do qual fazia parte, cujo nome escolhido foi o mesmo do terrorista de Suzano (SP). Ali, foi encorajado e sugestionado a se vingar da sociedade que o teria retirado de seu devido e histórico lugar.

Com essa narrativa, grupos neonazistas trabalham com jovens em darkweb, deepweb, mundo gamers e, agora e inclusive, em redes sociais, indicando a existência de uma considerável aceitação social.

As instituições e principalmente a esquerda não entenderam o que está acontecendo entre os jovens.

Desenhemos o processo em 10 fatos geralmente silenciados, os quais, por óbvio, não excluem mais minudências:

(i) Esses ataques têm sugestionamento e direção de grupos neonazistas na web, inclusive em redes sociais abertas. Isso indica que o trabalho realizado por anos a fios em sítios e jogos que ocultavam paradeiros e emissários deu certo;

(ii) Os grupos prioritários são jovens brancos empobrecidos que pertenceriam a uma espécie de classe média baixa – há exceções, como o terrorista de Realengo, que matou dez mulheres em um total de doze jovens, quase todos negros.

Esses jovens se transformam em guardiões do Tradicionalismo por terem, segundo narrativa conservadora, perdido espaços em frentes outrora monopolizados em um mundo mais reto e tranquilo [ii].

Agora, disputariam de vaga em ensino superior a vaga de trabalho, inclusive a própria representação estética, com negros, indígenas, mulheres e LGBTQIA+;

(iii) O ataque ocorrido em Barreiras, na Bahia, por um branco de Brasília, filho de policial (o maior salário de polícias do Brasil), é o caso mais exemplar. Chamava os habitantes de inferiores. [iii] Matou uma cadeirante, também negra. Ele tinha contato com o assassino de Aracruz (ES), que matou quatro mulheres (apenas mulheres);

 (iv) O celular do assassino de Saudades (Santa Catarina), aquele que matou bebês e professoras (mulheres), ligou-o a grupos neonazistas do Rio de Janeiro.

[v] Talvez tenha sido o caso tratado de forma mais absurda, pois a hipótese inicial foi a de bullying. O que os bebês fizeram ao terrorista é um mistério.

[vi] Os dados desse grupo do Rio de Janeiro ligaram-no ao assassino de Suzano (São Paulo). Logo, é uma rede sem medo de aparecer. Quem faz questão de escondê-la é a polícia, a mídia, os governos, a burguesia e a classe média, inclusive a autoproclamada progressista.

Em Monte Mor, a bomba falhou e o terrorista foi preso com machadinha. Em Suzano um tinha arma de fogo, outro uma machadinha.

Outros ataques são a faca. Priorizam arma de fogo, mas quando não conseguem, existe um roteiro com inspiração em certos jogos com facas e machadinhas.

(vi) Os grupos neonazistas procuram jovens que já ganham ou ganharão menos que os pais, sem perspectiva de qualquer sorte diferente.

Culpam as mulheres por entrarem no mercado de trabalho e não se resumirem ao exercício do papel de mães e esposas, imigrantes (nordestinos no Sul e Sudeste, latinos nos EUA e africanos e árabes na Europa) e negros (entrada no mercado de trabalho e cotas).

Esses jovens são, sem exceção, supremacistas, mesmo que não militem formalmente em uma célula neonazista.

(vii) No caso das mulheres, defendem, ao lado das Igrejas Neopentecostais, a mulher tradicional e submissa.

Entendem que a nova mulher é fruto de uma espécie de confusão sexual da modernidade, cujas sexualidades são atacadas como quebra do Tradicionalismo no qual o homem branco é a ponta da pirâmide. Portanto, defendem um retorno ao que era seguro aos homens brancos.

Redpills e incels são expressões e objetos de interesse de grupos neonazistas na deepweb, darkweb, gamers e plataformas e redes sociais, como Youtube, Telegram e Twitter. Basta acompanhar subgrupos e comentários em canais vinculados à direita e ao universo jovem.

(viii) Bullying não provoca os ataques. Quem acha isso, é porque se identifica com os autores, identificando-se socialmente e racialmente – uma espécie de supremacismo velado. Não ocorre o mesmo com os jovens pretos em comunidades ou com as mães que roubam comida;

(ix) essa geração é mais afeita ao neonazismo porque ela é o produto mais bem acabado do neoliberalismo. Fragmentada, é a geração sem trabalho porque o trabalho foi destruído pelo neoliberalismo.

A garantia social que possuía para reproduzir o status quo familiar foi junto. Como resposta, essa geração volta-se contra as famigeradas minorias, que estariam ocupando o lugar que tradicionalmente lhe seria cativa.

Ou seja, o neoliberalismo destrói a realização da expectativa de reprodução de classe e raça, mas fomenta o sectarismo neonazista para preservar a fragmentação na classe por meio da reafirmação da superioridade racial. Por isso não é possível separar fascismo de neoliberalismo. São siameses.

(x) Por que apenas escolas públicas? Porque os intrusos estão lá. Porque os escolhidos, os brancos empobrecidos de classe média baixa também estão lá, sendo contaminados, como lembrou o assassino de Barreiras (BA).

O assassino de Suzano atacou apenas negros. Estamos sob ataque! Trabalhadoras e trabalhadores negros precisam aprender a se defender e reagir preventivamente a grupos neonazistas, de forma organizada e violenta.

Parece que tanto a institucionalidade quanto a esquerda não entenderam o fenômeno, mais ou menos quando da ascensão do neofascismo nas Igrejas Evangélicas a partir de 2013 – não percamos tempo com a direita.

Em essência, não é problema de estrutura escolar (embora não tenha investimento e precise ser feito), bullying e falta de cultura de paz. É fascismo e neonazismo.

Não há relação de causa e efeito entre estrutura escolar, bullying e ausência de cultura da paz.

Não foi mero racismo, em que o pobre jovem branco seria vítima do famigerado “racismo estrutural”, conceito que foi transformado em pó de pirlimpimpim na mídia e grupos voltados a oferta de uma “educação antirracista”.

Foi neonazismo, com forte, evidente e explícita atuação de grupos neonazistas. Todos os ataques em escolas nos últimos anos têm assinatura de grupos neonazistas.

Se Umberto Eco atentava que “o fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis”, os ataques em escolas públicas mostram que os trajes civis foram abandonados. Os trajes são militares. É preciso “golpear de morte a besta fascista em seu próprio covil”.

O ataque a escolas por neonazistas,[vii] independentemente da idade, deve ser tipificado como terrorismo.

As investigações devem ser federalizadas com a formação de um grupo de combate ao neonazismo, incluindo Polícia Federal e Ministério Público Federal.

Deixar para as polícias estaduais, sem compreender a concatenação de todos os ataques, é contribuir para a profusão do neonazismo e naturalizar os ataques coordenados e planejados em escolas.

Quanto aos jovens objetos dos ataques, é prudente se formarem para agir preventivamente, de forma violenta e organizada. Vai ter que ter ação preventiva e reação justa de movimentos populares, sobretudo negros e mulheres (a grandíssima maioria das vítimas é a mulher negra e pobre).

Não vai dar para terceirizar tudo para o governo. Ele tem a sua cota, mas sem movimento popular conscientemente violento, como indica Fanon em Os Condenados da Terra, chegará o dia em que naturalizaremos os grupos neonazistas como fizemos com o bolsonarismo. Fora disto, é só confete.

Assim, é inadmissível a defesa de cursinhos antirracistas para neonazistas (sic!) porque seriam vítimas do discurso de ódio.

A questão é: materialmente, por que o discurso neonazista tem aderência a esses jovens brancos pertencentes a uma espécie de classe média empobrecida?

A resposta é desconfortante para quem acredita que os problemas brasileiros poderão ser resolvidos com diálogo.

Perguntar abstratamente o que aconteceu a esses jovens neonazistas e relacioná-los a meras vítimas do “discurso do ódio” é inverter quem é a vítima.

O padrão é ataque a escolas públicas para matar negros, cadeirantes, mulheres e pobres.

Matar professoras é outra constante de todos os ataques. Eis o busílis.

 

       Pais do estudante que matou professora sabiam do interesse do filho em realizar chacina

 

Os pais do estudante de 13 anos que matou a facadas a professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, e feriu outras quatro pessoas em uma escola em São Paulo, sabiam que o filho tinha “interesse em realizar uma chacina”, um mês antes do atentado. É o que diz um documento que está em posse da Polícia Civil.

O pai do adolescente, Ricardo Vieira da Silva, e a mãe dele, Renata Batista de Carvalho, compareceram à Escola Estadual José Roberto Pacheco, onde o filho estudava na época, a pedido da diretoria do colégio, de acordo com uma ata de reunião escolar do dia 23 de fevereiro. O crime ocorreu no dia 27/03, na Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, zona oeste da capital paulista.

A reunião foi convocada em razão do “comportamento suspeito” do garoto, de acordo com depoimentos de funcionários. O estudante ameaçou de morte um colega de classe via WhatsApp e tentou extorqui-lo. Uma semana depois, a mãe da vítima teve acesso às mensagens e comunicou à escola sobre as conversas, em 14 de fevereiro.

O menor também teria enviado outras mensagens suspeitas a uma colega no dia 21 de fevereiro, durante o feriado de Carnaval, perguntando se a estudante conseguiria arrumar isqueiro e gasolina, sem dar detalhes do que pretendia fazer com os objetos.

•        Indiferença do pai

Na mesma reunião, os pais do garoto foram informados, em detalhes, pela diretoria da escola sobre todas as ameaças feitas pelo garoto a colegas. Ao final, eles assinaram um termo confirmando que estavam cientes do comportamento do filho.

A diretora da escola, Kelly Salerno, disse a eles que o adolescente havia compartilhado com outros alunos fotos que faziam apologia a atentados em escolas e imagens em que segurava armas de fogo.

“A gestora [da escola] explicou sobre os últimos eventos: no primeiro deles, [o menor, cujo nome é preservado] manifestou interesse em realizar uma chacina e compartilhou fotos que enaltecem essa ação. O pai disse que tem uma arma em casa, que [o menor] tem uma Airsoft [simulacro de arma usado em jogos] e que todas as fotos mostradas foram tiradas na casa da avó”, diz a ata da reunião enviada à polícia.

Segundo depoimentos de funcionários da escola, o pai do garoto teria reagido com indiferença e dito que esse comportamento do filho era “normal”. O casal relatou durante a reunião um episódio no qual o adolescente teria sido espancado quando tinha 11 anos, no antigo colégio em que estudava. Segundo eles, desde então, o filho nunca mais foi o mesmo.

 

       Como a Varig teria se envolvido com o regime nazista

 

Em novembro de 1939, o alemão Otto Ernst Meyer foi preso pelo suposto envolvimento de sua empresa, a Viação Aérea Rio Grandense (Varig), em um plano de espionagem do regime nazista. Meyer ficou detido por três dias, e documentos da época apontam que o delegado da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) de Porto Alegre concluiu que a companhia estaria ciente sobre a participação no ato ilícito.

A investigação que culminou com a prisão de Meyer começou após a polícia gaúcha ter descoberto um plano para a instalação de radiotransmissores clandestinos a bordo de um vapor alemão em Rio Grande. Segundo documentos da época, esses equipamentos seriam usados na espionagem voltada a enviar informações para navios e submarinos alemães na costa sul do Brasil.

O caso foi revelado pelo historiador Alexandre Fortes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em sua tese de doutorado defendida em 2001. "Depois da descoberta dos documentos do Dops, encontrei diversos documentos sobre o tema no Arquivo Nacional dos Estados Unidos", conta o pesquisador à DW.

De acordo com os documentos descobertos por Fortes, a Varig transportou os aparelhos de espionagem e o técnico encarregado da operação até Rio Grande. A empresa também teria levado de graça o representante da Companhia Hamburguesa de Navegação no porto de Rio Grande, Friedrich Wilhelm Wiltgens, até Porto Alegre, para participar de uma reunião sobre a operação ocorrida no consulado alemão.

Após a prisão de Meyer, autoridades recomendaram uma investigação mais geral sobre as atividades da empresa. O andamento do inquérito foi lento, de acordo com Fortes. Somente em 1940, o Dops preparou um relatório sobre a atuação política da Varig e seu dono. O relatório afirma que Meyer era simpatizante do nazismo. O documento aponta ainda a Varig como responsável pela distribuição dos jornais e pelo transporte do dinheiro do caixa do Partido Nazista na região.

Meyer teria ainda escrito um artigo para um jornal pró-nazista de Porto Alegre negando haver um descontamento das Forças Armadas alemãs com Adolf Hitler. Ele também teria retirado anúncios da Varig de um periódico antinazista seguindo uma orientação do Partido Nazista. O relatório afirmava ainda que o dono da Varig teria trocado correspondências com agentes do regime alemão que supostamente chefiavam uma rede de espionagem na região.

"Apesar da prisão de Meyer e do relatório do Dops sobre o envolvimento da empresa no caso, isso não teve nenhuma consequência jurídica imediata. Atribuo isso à força política da empresa e do próprio Meyer", avalia Fortes.

•        O nascimento da Varig

Veterano da Primeira Guerra Mundial, Meyer emigrou para o Brasil em 1921. Inicialmente esteve em Recife e, depois de passar pelo Rio de Janeiro, se estabeleceu em Porto Alegre.

"Ao vir para o Rio Grande do Sul, ele dá muita sorte de entrar para a elite local. Ele conhece uma viúva rica da sociedade, muito bem relacionada, e acaba se casando com ela", conta a historiadora Claudia Musa Fay, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Em 1927, com apoio de políticos e empresários locais, Meyer consegue realizar seu sonho de fundar uma empresa de aviação no Brasil. Os recursos iniciais para o negócio vieram de quase 500 acionistas que investiram na Varig. Por meio de um acordo com a empresa alemã Condor Syndikat, a nova companhia teve acesso ao primeiro avião e tripulação.

A Varig operava inicialmente no ramo de entrega de correspondência e encomendas a nível regional. O transporte de passageiros era pífio, devido ao alto valor das passagens e ao pequeno número de assentos disponíveis nas aeronaves – apenas seis. Sua primeira rota regular foi Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande.

Em 1932, após passar por um período de dificuldades, o governo do Rio Grande do Sul acabou se tornando o maior acionista individual da Varig.

•        Controvérsia sobre o envolvimento com o regime nazista

Além do relatório do Dops, a Varig foi monitorada pelo consulado americano em Porto Alegre a partir de 1936, segundo a pesquisa de Fortes. Em relatórios produzidos em 1939, surgem declarações de que Meyer seria um forte apoiador do nazismo.

Para a especialista em aviação Fay, Meyer pode até ter contribuído financeiramente para o Partido Nazista num momento em que a comunidade alemã no Brasil estaria empolgada com a recuperação econômica da Alemanha.

"A aviação alemã era muito pujante na época. Quem olha pela máquina, pela tecnologia e por esse viés, consegue entender que aquelas pessoas não estavam preocupadas com a situação política, mas com o avanço técnico", ressalta a historiadora.

Fay, porém, descarta um envolvimento da Varig em espionagem – por não haver interesses estratégicos, pois a empresa só operava regionalmente, e pelo pragmatismo de seu fundador.

"Meyer não queria criar um Partido Nazista no Brasil. Ele estava muito interessado na aviação e em sua empresa. Sua ligação com a política é muito pragmática. Ele era amigo dos políticos, porque os políticos de certa maneira o ajudavam. Ele era muito amigo das empresas alemãs, porque elas forneciam os equipamentos. Mas quando teve que mudar por pressão dos Estados Unidos, a Varig passou a importar equipamento americano", argumenta Fay.

•        Nacionalização da empresa

O episódio de 1939 relatado pelo Dops permaneceu sem consequências. No entanto, com o avanço da Segunda Guerra Mundial, a rede de aviação na América Latina que dependia de parceiros alemães ficou em uma situação complicada: sem assistência técnica ou novos aviões.

No final de 1941, após pressão dos americanos em troca da venda de aviões e peças de reposição, Meyer se afastou da diretoria da Varig, segundo Fortes. Pouco tempo depois, seu fiel aliado e primeiro funcionário, Rubem Berta, assumiu a presidência da companhia.

"Meyer ficou, porém, nos bastidores. Ele não saiu totalmente da empresa. Ele e Berta trabalhavam sempre juntos", destaca Fay, que acrescenta que, com o fim da guerra, Meyer voltou a pertencer ao conselho da companhia, onde permaneceu até a sua morte, em 1966.

Fortes ressalta ainda que o caso da Varig não é isolado. "Ele se insere numa rede de empresas de aviação de origem alemã e faz parte de uma disputa pela aviação civil na América Latina no período entreguerras, quando europeus e americanos competiam por espaço formando empresas", afirma.

 

Fonte: Metrópoles/Viomundo/Deutsche Welle/g1/Fórum

 

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