Preço
de terreno ligado ao Master supervaloriza após anúncio de data center em Minas
Gerais
Um
terreno em Uberlândia, Minas Gerais, viu seu preço explodir após o anúncio da
construção de um data center de inteligência artificial no local. A área está
registrada em nome de um fundo administrado por empresas ligadas ao escândalo
do Banco Master. Além disso, a execução do empreendimento foi prometida por uma
empresa sem nenhuma experiência comprovada no ramo da tecnologia.
Para a
construção do data center em Uberlândia, a empresa RT-One alugou uma área de
960 mil metros quadrados pertencente ao fundo Bacuri, que foi administrado até
meados de 2025 pela Reag Trust e, desde então, é gerido pela WNT Capital – duas
gestoras investigadas pela Polícia Federal no caso Master.
Na
certidão do terreno, registrada no 2º Ofício de Registro de Imóveis de
Uberlândia, consta que a propriedade está avaliada em R$ 1,78 milhão para fins
fiscais. Nas notas explicativas anexadas à demonstração financeira de 2025 do
fundo Bacuri, no entanto, a WNT declarou que a área foi comprada em 2019 por R$
14 milhões e que seu valor havia saltado para R$ 76 milhões no final do ano
passado.
Segundo
relatório de auditores independentes que analisaram as demonstrações
financeiras do fundo, a WNT não forneceu os laudos de avaliação da propriedade.
A omissão impediu a auditoria de obter evidências “apropriadas e suficientes”
de que os resultados do Bacuri estavam “livres de distorções materiais”. O
documento também não apresenta nenhuma justificativa para a valorização
expressiva do terreno.
No
documento, a WNT atribui a avaliação do valor dos imóveis à Horbia Partners
Consultoria. Trata-se da mesma empresa que precificou para a Reag títulos
podres do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc, em um caso que
colocou Reag e WNT sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM,
antes mesmo do escândalo Master vir à tona. A suspeita da autarquia é que esses
títulos tenham sido utilizados justamente para inflar o patrimônio de fundos
ligados às duas gestoras.
As
investigações do Ministério Público e da Polícia Federal apontam que o banco de
Daniel Vorcaro, em conjunto com a Reag, teria desenvolvido um esquema de
fraudes com empresas de fachada para maquiar seus balanços. A manobra permitia
ao Master sustentar uma imagem de boa saúde financeira e, com isso, continuar
recebendo investimentos.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Pelo
esquema que está sendo investigado, o banco emprestaria o dinheiro arrecadado
com CDBs – oferecidos ao público com juros muito acima do mercado – a empresas
laranjas. Estas, por sua vez, investiriam os recursos em fundos administrados
pela Reag. A gestora, então, atuaria para reavaliar artificialmente seus
ativos, fazendo com que investimentos considerados “podres” fossem declarados
com valores muito maiores que os reais. Ao final do ciclo, esse dinheiro seria
reinvestido no próprio Master.
A
suspeita de precificação artificial dos ativos também recai sobre investimentos
ligados ao Master no mercado de créditos de carbono. E, assim como no terreno
do data center de Uberlândia, a personagem em comum é a Horbia Partners. Foi
justamente a consultoria que chancelou o laudo atestando a valorização da
Global Carbon, empresa controlada por outro fundo gerido pela Reag.
Segundo
reportagem da Folha de S.Paulo, a Global Carbon foi avaliada em R$ 31 bilhões
em 2024 com base na estimativa de que detinha milhões de créditos de carbono.
Ocorre que esses ativos estão associados a uma área de terra pública na
Amazônia, que sequer pertence à companhia.
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Pechincha
O
contrato firmado entre o fundo Bacuri e a RT-One, empresa com poucas
credenciais no mercado de tecnologia, levanta dúvidas sobre a legitimidade da
transação. Apesar de o projeto de data center de Uberlândia estar estimado em
R$ 6 bilhões quando concluído, o terreno onde o empreendimento será instalado
foi alugado à RT-One por irrisórios R$ 1 mil por mês.
O
Intercept Brasil teve acesso a um inquérito civil em andamento no Ministério
Público Federal, o MPF, que revela a propriedade do terreno em Uberlândia. O
procedimento começou em setembro de 2025 para apurar as medidas ambientais
adotadas pelo poder público em relação à instalação do data center.
O
inquérito contém um contrato de arrendamento assinado em dezembro de 2025 entre
a RT-One e o Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri para uso de um terreno de
96 hectares em Uberlândia – equivalentes a pouco menos de 1 quilômetro
quadrado. O valor acordado foi de R$ 1 mil por mês por um prazo de 15 anos – um
custo insignificante mesmo se comparado ao preço do terreno avaliado na
escritura, de R$ 1,78 milhão.
“A
discrepância chama atenção. Um terreno avaliado em R$ 1,7 milhão, arrendado por
R$ 1 mil mensais, gera remuneração de apenas R$ 12 mil ao ano, equivalente a
cerca de 0,7% ao ano sobre o valor do ativo. Em princípio, é um retorno muito
baixo para um fundo imobiliário, cuja finalidade normalmente é gerar renda ou
valorização aos cotistas”, disse ao Intercept o advogado Stefano Ribeiro Ferri,
especialista em direito imobiliário.
Para se
ter uma dimensão do negócio: os 0,7% anuais da operação em Uberlândia ficam
abaixo do que o mercado costuma pagar em um único mês. O IFIX – principal
índice da bolsa de valores brasileira, a B3, para avaliar o desempenho médio
dos fundos de investimento imobiliário – entregou no ano passado um rendimento
médio de cerca de 1% ao mês aos investidores.
Para
efeito de comparação: uma área de 20 mil metros quadrados, quase cinquenta
vezes menor que o terreno destinado ao data center, está sendo anunciada para
aluguel em Uberlândia por R$ 50 mil por mês.
A
incompatibilidade entre o aluguel e o preço do terreno é ainda mais gritante se
for considerado o valor que o fundo Bacuri atribui a ele em seu balanço: R$ 76
milhões.
Para
Paulo Carnaúba, professor de administração e finanças nas pós-graduações do
Insper e especialista em fraudes financeiras, um contrato de arrendamento só
faz sentido se garantir, no mínimo, o retorno sobre o investimento do fundo — o
que passa longe de acontecer no acordo com a RT-One. A discrepância de valores,
segundo ele, sugere “que o negócio está sendo utilizado como simulação para
ocultar outro negócio”.
Até
dezembro de 2025, o portfólio do fundo Bacuri – cujo único cotista é um outro
fundo de investimento não identificado – se resumia ao terreno do data center e
a um galpão, também em Uberlândia. O fundo, porém, estava em vias de adquirir
28 outros imóveis e já havia realizado, em janeiro do ano passado, a primeira
de 90 parcelas da compra.
Segundo
o advogado Stefano Ferri, não é necessariamente irregular que um fundo tenha
poucos imóveis ou adquira ativos de forma parcelada. “O ponto sensível é a
racionalidade econômica da operação. Um fundo com apenas dois imóveis,
assumindo a compra de 28 outros em 90 parcelas, deve demonstrar capacidade
financeira, aderência à política de investimento, avaliação adequada dos
ativos, transparência com os cotistas e ausência de conflito de interesses”,
disse o especialista. “A estrutura não é ilegal por si só, mas é incomum o
suficiente para exigir escrutínio documental e regulatório mais rigoroso.”
Em
março, mostramos como a RT-One se vende como uma multinacional com experiência
no ramo de data centers, embora seus dois únicos empreendimentos desse tipo
tenham sido anunciados apenas no ano passado – além de Uberlândia, a empresa é
responsável por um projeto em Maringá, no Paraná. A Core-One, que pertence ao
CEO da RT-One e gerencia os projetos de data centers no país, está registrada
no endereço de um consultório odontológico em São Paulo.
Uma
reportagem publicada pelo site Aos Fatos, em março passado, mostrou que o CEO
da RT-One, Fernando Palamone, mentiu sobre ter ocupado o cargo de diretor de
operações da multinacional fabricante de processadores Intel. A assessoria de
imprensa da Intel disse que a empresa está processando o executivo e a RT-One
por negociarem um data center no Distrito Federal se apresentando como
parceiros locais da multinacional, sem possuir autorização ou qualquer vínculo
real para isso.
Como
proprietário do terreno, o fundo Bacuri solicitou à Prefeitura de Uberlândia
estudos técnicos para implantação do data center no local. O processo envolveu
diversas secretarias municipais – desde o Departamento Municipal de Água e
Esgoto até a Secretaria de Serviços Urbanos – para análise da rede de energia
elétrica e iluminação.
Procurada
pelo Intercept, a WNT afirmou que a operação com o terreno “não teve
continuidade”. A empresa declarou ainda que não é gestora do fundo investigado
pela CVM desde 2020 e que acompanha os desdobramentos do caso. Também
acrescentou que “não possui qualquer relação com a Reag”.
Questionada
sobre o aluguel do terreno e as investigações sobre as gestoras do fundo
Bacuri, a RT-One disse que “a iniciativa envolve estruturas contratuais
privadas, compostas por diferentes instrumentos jurídicos e operacionais,
conforme é usual em projetos de infraestrutura e empreendimentos imobiliários
de grande porte”.
A
empresa também declarou que “não comenta detalhes de contratos privados” nem
“quaisquer informações protegidas por obrigações de confidencialidade entre as
partes” e reforçou que “todas as suas operações seguem rigorosamente os
instrumentos legais aplicáveis e os procedimentos regulatórios pertinentes”.
Sobre a reportagem do Aos Fatos, a RT-One respondeu que o texto contém
“informações e interpretações incorretas” e garantiu ter adotado “as medidas
cabíveis”.
Reag, a
Horbia Partners e a prefeitura de Uberlândia não responderam aos
questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto.
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Ligação com o Master
Segundo
dados da CVM, o fundo Bacuri é atualmente administrado pela WNT Capital,
sediada em São Paulo. Antes disso, até agosto de 2025, a administradora do
fundo era a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., a
Reag Trust DTVM, que teve sua liquidação extrajudicial decretada em janeiro
passado pelo Banco Central.
A Reag
Investimentos – empresa que, assim como a Reag Trust, atua sob o guarda-chuva
da Reag Holding – já havia entrado na mira das autoridades em agosto do ano
passado. A gestora foi alvo de uma megaoperação do Ministério Público de São
Paulo para desmantelar um esquema de fraudes bilionárias no setor de
combustíveis envolvendo o Primeiro Comando da Capital, o PCC.
No caso
Master, investigações recentes da Polícia Federal indicaram que a Reag Trust
teria atuado para estruturar e administrar fundos suspeitos de movimentar
recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de
fraude e lavagem de dinheiro. Na avaliação do Banco Central, a gestora e fundos
de investimento ligados a ela foram usados para desviar valores do Master. Até
a publicação desta reportagem, o Bacuri não havia sido citado nessas
investigações.
Em
janeiro, a WNT, atual administradora do Bacuri, também virou alvo da Polícia
Federal na segunda fase da operação Compliance Zero. A ação da PF investiga a prática de organização criminosa,
fraude em instituição financeira, manipulação do mercado de capitais e lavagem
de dinheiro.
O
emprego de fundos para fins criminosos só foi viabilizado pela fiscalização
falha de autoridades como o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários.
“Não existia, até outubro do ano passado, a obrigação dos administradores
desses fundos, como a WNT, como a Reag, informarem para o Banco Central quem
são os reais detentores desses investimentos, quem são os cotistas desses
fundos”, explicou Carnaúba.
“A
partir do momento que a banda podre do mercado sabe que não há fiscalização e
que a autoridade de fiscalização não está preocupada, ela implanta uma [fraude]
atrás da outra. Foi o que aconteceu com o Master”, disse o professor.
Fonte:
Por Laís Martins, Isabella Mota e Gisele Lobato, em The Intercept

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