Flávio
e Valdemar, o Brasil não merece esta lama tão imunda
A
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro chega à disputa cercada por uma
sucessão de investigações, controvérsias e acusações que acompanham sua
trajetória política há anos. O caso das chamadas “rachadinhas”, a homenagem ao
ex-policial Adriano da Nóbrega e a contratação de familiares ligados a ele, as
dúvidas levantadas sobre a compra subfaturada de uma mansão em Brasília e, mais
recentemente, as revelações envolvendo recursos não esclarecidos e
superfaturados para o filme Dark Horse e sua aproximação política com o Banco
Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, compõem um conjunto comprometedores
que merecem o repúdio da sociedade durante a campanha eleitoral.
No caso
envolvendo o Banco Master, as informações divulgadas evidenciam um conluio
entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, que está preso e responde a graves
acusações de fraude contra investidores atraídos por retornos milagrosos que
nunca se confirmaram.
Entre
elas estão denúncias de intimidação física contra funcionários e inimigos, além
da produção de dossiês contra banqueiros brasileiros, como Milton Maluhy,
presidente do Itaú, e André Esteves, controlador do BTG Pactual.
A
aliança entre a elite financeira do pais e o bolsonarismo é cada vez, portanto,
página virada, o que deve repercutir também na atitude da mídia conservadora.
Flávio
Bolsonaro, ademais, não se vexou de viajar aos Estados Unidos para, em
depoimento num processo manipulado pela Casa Branca para impor tarifas
altíssimas às exportações do Brasil, ajoelhar-se diante do aos governo de
Donald Trump. Em sua fala, Flavio na prática deu sinal verde para as tarifas
contra sua pátria. Limitou-se a defender, retoricamente apenas, seu adiamento
para depois das eleições o que equivale a um convite perigoso para que uma
potência adversária intervenha mais uma vez em processo soberano brasileiro.
Mesmo
depois da condenação de seu pai como chefe da organização que tentou dar um
golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, Flavio Bolsonaro segue defendendo
aqueles criminosos que buscaram a abolição violenta do regime democrático.
Flávio
segue ainda minimizando a responsabilidade, inclusive a sua, daqueles que,
liderados por seu pai, facilitaram as condições para que o Brasil,
desnecessariamente, registrasse mais de 700 mil mortos durante a pandemia de
Covid-19.
Ao lado
de Flávio Bolsonaro está o notório Valdemar Costa Neto. Nesta semana que
passou, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou a
indisponibilidade dos bens de Valdemar no equivalente a R$ 119 milhões no
âmbito de investigações exemplares sobre desvios de recursos provenientes de
emendas parlamentares que constituem um câncer a afetar o processo legislativo
do país.
No
caso, as investigações discutem justamente a utilização de verbas de emendas em
favor do presidente de um partido político que não exerce mandato parlamentar
nem pode estar envolvido na criação nem na gestão desse instrumento
orçamentário. Valdemar é o cacique, aquele que dita o tom de um partido que
hospeda em seus quadros não apenas Jair e Michele, mas também o ex-governador
do Rio Claudio Castro e o líder na Câmara Sóstenes Cavalcante.
A
eleição presidencial deve ser uma escolha entre projetos capazes de fortalecer
o Brasil, ampliar seu desenvolvimento, proteger sua soberania e elevar a
qualidade de vida da população. É desse patamar que a sociedade espera o debate
entre os candidatos à Presidência da República.
A
disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro
contrapõe trajetórias políticas profundamente distintas. De um lado, um
presidente que quer afirmar nas urnas a aprovação dos méritos do seu terceiro
mandato e lançar nelas o projeto transformador de um quarto mandato que vise
elevar o país à condição de nação desenvolvida.
De
outro, um candidato contra o Brasil, a favor de tarifas, contra o Pix, a favor
da exclusividade para cartões estrangeiros, ligado ao crime organizado,
beneficiado por recursos roubados pelo Banco Master, defensor do golpe e
corresponsável pelo genocídio da Covid, cuja caminhada política exala um odor
de compromisso com a degeneração da politica, infiltrada pela criminalidade.
O
Brasil merece uma campanha presidencial voltada ao desenvolvimento, à
indústria, ao emprego, à educação, à ciência e à defesa da soberania nacional.
É essa discussão que interessa ao país e que deve prevalecer sobre a sucessão
de ações nebulosas que não deveriam ser objeto do escrutínio eleitoral, pois
pertencem mais aos âmbitos da prática criminal e da traição nacional.
• Flávio Bolsonaro e a República à venda.
Por Florestan Fernandes Jr
É
impressionante. A cara de pau dessa turma parece não conhecer limites. E, desta
vez, a hipocrisia vem embalada numa verdadeira aula de figura de linguagem.
O
partido chama-se Republicanos. Só isso já seria motivo para uma boa discussão
de semântica. Afinal, trata-se de uma legenda controlada politicamente pela
Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Ora, um dos fundamentos da
República brasileira é justamente o Estado laico, que separa religião e poder
político. Na gramática, isso tem nome: oxímoro, ou paradoxo, quando duas ideias
incompatíveis aparecem lado a lado. Poucas definições se encaixam tão
perfeitamente quanto uma igreja estar no comando de um partido chamado
Republicanos.
Mas o
enredo consegue ficar ainda mais indigesto.
Marcos
Pereira, presidente do partido, advogado e bispo licenciado da Universal, agora
faz do apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro uma espécie de leilão político.
A
mensagem dos bastidores é cristalina: apoio, só mediante a promessa de uma
indicação ao Supremo Tribunal Federal, na vaga que será aberta com a saída de
Luiz Fux. Não se discute projeto de país, programa de governo ou compromisso
com a sociedade. Negocia-se uma cadeira na mais alta Corte da República, como
quem barganha cargos de segundo escalão.
É a
política transformada em balcão de negócios, sem o menor constrangimento.
E há um
detalhe quase cômico, não fosse tão revelador. Flávio Bolsonaro consegue a
proeza de enfraquecer a própria candidatura antes mesmo de consolidá-la. Seu
conhecido talento para a autossabotagem já produziu efeitos concretos: PP e
União Brasil recuaram do apoio, deixando o “01” cada vez mais isolado. Agora,
até os aliados parecem cobrar pedágio para permanecer ao seu lado.
No fim,
sobra uma imagem desoladora. Um partido que invoca a República, enquanto se
confunde com uma organização religiosa. Um dirigente que trata uma vaga no STF
como ativo de negociação eleitoral. E um candidato que perde aliados na mesma
velocidade com que acumula dificuldades.
Se isso
ainda pode ser chamado de articulação política, então também precisamos rever o
significado dessa expressão. Porque, diante de tamanho cinismo, o paradoxo já
não está apenas na gramática. Está na própria política brasileira.
• A cartinha do papai. Por Marco Damiani
Foi
preciso uma cartinha do papai para tentar estancar a sangria desatada na
candidatura de Flávio Bolsonaro. Levando chumbo por todos os lados, o 01
caminha em velocidade para chegar politicamente morto à Convenção Nacional do
PL, dia 25. Se chegar. A perda de sustentação é diária. Ontem, Ciro Gomes
correu dele em passagem pelo Ceará, dando no pé para o Rio de Janeiro, assim
como a candidata ‘michelista’ ao Senado, Priscila Costa, que foi para Portugal
participar de um encontro de mulheres conservadoras. O pré-candidato do PL
participou de um evento em recinto fechado, lotado! De militantes pagos e
trazidos de outros estados, entre os quais brutamontes na segurança e poucas
mulheres presentes, como observou a âncora Sara Góes, do Boa Noite 247. Uma
encenação, não um encontro político.
Outra
encenação é a carta de Bolsonaro. Além de tardia, chega em um momento em que a
candidatura já foi abandonada. O momento de “arregaçar mangas”, como pediu o
capitão em favor de seu “porta-voz”, já passou. A subida do governador Tarcísio
de Freitas, dias antes, ao palanque do candidato do PSD, Ronaldo Caiado, abriu
a porteira para a debandada. Foi o episódio mais representativo da perda de
sustentação de Flávio. Ele nem reclamou, como ainda tinha forças para fazer
pouco antes, ao ser atingido pelos disparos de Michelle Bolsonaro.
O apelo
do pai a favor do filho não parece ser um fato novo capaz de mudar o viés de
mergulho da atual candidatura bolsonarista. Desde as revelações de suas
ligações financeiras com o banqueiro Daniel Vorcaro, em maio, Flávio Bolsonaro
coleciona erros e se vê dentro de situações indefensáveis, como todas as
ligações de seu grupo político histórico, no Rio de Janeiro, com o crime
organizado, reveladas na operação Unha e Carne, da Polícia Federal.
Com a
cartinha de Bolsonaro na mão, Flávio está desafiado a fazer o teste do
calçadão. Verificar se os índices que as pesquisas ainda lhe atribuem
correspondem ao carinho do público a céu aberto. Em Copacabana, estaria
acompanhado por seu candidato a senador Márcio Canella, ex-prefeito de Belford
Roxo, que acaba de ser solto da prisão. No Viaduto do Chá, em São Paulo, a
caminhada de confraternização teria em Valdemar da Costa Neto, presidente do
PL, o maior direcionador de emendas parlamentares do Brasil. No que daria?
Flávio
virou tóxico. Ser filhinho de papai não vai mudar isso.
• O atestado de fraqueza do pai para o
filho. Por Moisés Mendes
É
protocolar, cuidadosa demais e inútil para a direita a carta em que Bolsonaro
reafirma que o filho ungido é seu porta-voz e seu candidato a presidente. A
única utilidade da carta é a que favorece Lula, por funcionar como uma
exposição pública da fraqueza de Bolsonaro e de Flávio.
Se não
precisasse do aval do pai diante dos ataques e do poder da madrasta, Flávio
poderia se virar por conta própria. Mas aí teria de provar que representa de
fato o bolsonarismo e que chegou à idade adulta como político.
Flávio
se revelou infantil desde o momento em que passou a ser pressionado a dar
explicações sobre o envolvimento com Daniel Vorcaro. É certo que deve ter ido
visitar o pai, para pedir apoio, levando mais de uma versão do manifesto de uma
dúzia de linhas.
Saiu
com a cartinha mais singela, sem força e sem muita convicção. Bolsonaro pede
paz e diz o que era previsível. Mas não é categórico na defesa do filho atacado
pela mulher dele. Talvez por saber que hoje Michelle tem mais lastro político
do que os enteados e, como perspectiva de futuro de médio prazo, até do que o
próprio marido.
Imaginemos
a cena em que, na copa, enquanto Bolsonaro come pão com leite condensado, o
filho tira do bolso as alternativas de texto e pede com o olhar para que
Michelle se afaste. E então implora ao pai: escolha uma dessas.
O líder
presidiário em prisão domiciliar enfrenta uma situação única. Sua mulher, que
virou política, disputa o controle do bolsonarismo mandando na casa em que o
enteado aparece como visita e tenta convencer o pai e seu entorno de que é
político e não só operador dos negócios da família.
A carta
é mais um documento da criancice das relações políticas dentro do bolsonarismo,
e não só de Bolsonaro com os filhos. Não é uma manifestação singela, como
sugere, mas pobre como expressão de liderança e de capacidade de comando do
chefe da extrema direita.
A
principal destinatária do recado está dentro de casa, e Bolsonaro poderia
chamá-la, como líder e não como marido, para pedir que os dois, madrasta e
enteado, declarassem trégua, ali e publicamente. Mas essa não é uma batalha
pontual, é uma guerra.
Bolsonaro
escreveu a declaração à mão, como deve ser, e ofereceu a Flávio a única ajuda
possível no momento em que Michelle se desconecta do núcleo duro do
bolsonarismo e do PL para construir o seu movimento ‘Imparáveis’.
Por
isso a carta é sem sentido. A provocadora da guerra com o filho joga pife e
dorme com Bolsonaro. E quer se desgrudar dele e do que ele representa, apesar
de fingir querer herdar o bolsonarismo. E mesmo assim ele tenta convencer a
direita de que domina a situação.
A carta
e o movimento de Michelle com foco nas mulheres, para implodir o núcleo
político dos enteados, agravam os problemas dos Bolsonaros. A Michelle
contraditória quer autonomia, mas também precisa se vender à sua base religiosa
como submissa e ajudadora.
A
imparável acaba adotando, para sintetizar o que pretende fazer com essa
liberdade, um adjetivo semelhante à palavra bagaceira criada pelo marido para
se definir como homem. Mesmo assim, hoje não há carta que consiga parar
Michelle dentro de casa e dentro da extrema direita.
Fonte:
Brasil 247

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