quarta-feira, 15 de julho de 2026

Flávio e Valdemar, o Brasil não merece esta lama tão imunda

A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro chega à disputa cercada por uma sucessão de investigações, controvérsias e acusações que acompanham sua trajetória política há anos. O caso das chamadas “rachadinhas”, a homenagem ao ex-policial Adriano da Nóbrega e a contratação de familiares ligados a ele, as dúvidas levantadas sobre a compra subfaturada de uma mansão em Brasília e, mais recentemente, as revelações envolvendo recursos não esclarecidos e superfaturados para o filme Dark Horse e sua aproximação política com o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, compõem um conjunto comprometedores que merecem o repúdio da sociedade durante a campanha eleitoral.

No caso envolvendo o Banco Master, as informações divulgadas evidenciam um conluio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, que está preso e responde a graves acusações de fraude contra investidores atraídos por retornos milagrosos que nunca se confirmaram.

Entre elas estão denúncias de intimidação física contra funcionários e inimigos, além da produção de dossiês contra banqueiros brasileiros, como Milton Maluhy, presidente do Itaú, e André Esteves, controlador do BTG Pactual.

A aliança entre a elite financeira do pais e o bolsonarismo é cada vez, portanto, página virada, o que deve repercutir também na atitude da mídia conservadora.

Flávio Bolsonaro, ademais, não se vexou de viajar aos Estados Unidos para, em depoimento num processo manipulado pela Casa Branca para impor tarifas altíssimas às exportações do Brasil, ajoelhar-se diante do aos governo de Donald Trump. Em sua fala, Flavio na prática deu sinal verde para as tarifas contra sua pátria. Limitou-se a defender, retoricamente apenas, seu adiamento para depois das eleições o que equivale a um convite perigoso para que uma potência adversária intervenha mais uma vez em processo soberano brasileiro.

Mesmo depois da condenação de seu pai como chefe da organização que tentou dar um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, Flavio Bolsonaro segue defendendo aqueles criminosos que buscaram a abolição violenta do regime democrático.

Flávio segue ainda minimizando a responsabilidade, inclusive a sua, daqueles que, liderados por seu pai, facilitaram as condições para que o Brasil, desnecessariamente, registrasse mais de 700 mil mortos durante a pandemia de Covid-19.

Ao lado de Flávio Bolsonaro está o notório Valdemar Costa Neto. Nesta semana que passou, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou a indisponibilidade dos bens de Valdemar no equivalente a R$ 119 milhões no âmbito de investigações exemplares sobre desvios de recursos provenientes de emendas parlamentares que constituem um câncer a afetar o processo legislativo do país.

No caso, as investigações discutem justamente a utilização de verbas de emendas em favor do presidente de um partido político que não exerce mandato parlamentar nem pode estar envolvido na criação nem na gestão desse instrumento orçamentário. Valdemar é o cacique, aquele que dita o tom de um partido que hospeda em seus quadros não apenas Jair e Michele, mas também o ex-governador do Rio Claudio Castro e o líder na Câmara Sóstenes Cavalcante.

A eleição presidencial deve ser uma escolha entre projetos capazes de fortalecer o Brasil, ampliar seu desenvolvimento, proteger sua soberania e elevar a qualidade de vida da população. É desse patamar que a sociedade espera o debate entre os candidatos à Presidência da República.

A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro contrapõe trajetórias políticas profundamente distintas. De um lado, um presidente que quer afirmar nas urnas a aprovação dos méritos do seu terceiro mandato e lançar nelas o projeto transformador de um quarto mandato que vise elevar o país à condição de nação desenvolvida.

De outro, um candidato contra o Brasil, a favor de tarifas, contra o Pix, a favor da exclusividade para cartões estrangeiros, ligado ao crime organizado, beneficiado por recursos roubados pelo Banco Master, defensor do golpe e corresponsável pelo genocídio da Covid, cuja caminhada política exala um odor de compromisso com a degeneração da politica, infiltrada pela criminalidade.

O Brasil merece uma campanha presidencial voltada ao desenvolvimento, à indústria, ao emprego, à educação, à ciência e à defesa da soberania nacional. É essa discussão que interessa ao país e que deve prevalecer sobre a sucessão de ações nebulosas que não deveriam ser objeto do escrutínio eleitoral, pois pertencem mais aos âmbitos da prática criminal e da traição nacional.

•        Flávio Bolsonaro e a República à venda. Por Florestan Fernandes Jr

É impressionante. A cara de pau dessa turma parece não conhecer limites. E, desta vez, a hipocrisia vem embalada numa verdadeira aula de figura de linguagem.

O partido chama-se Republicanos. Só isso já seria motivo para uma boa discussão de semântica. Afinal, trata-se de uma legenda controlada politicamente pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Ora, um dos fundamentos da República brasileira é justamente o Estado laico, que separa religião e poder político. Na gramática, isso tem nome: oxímoro, ou paradoxo, quando duas ideias incompatíveis aparecem lado a lado. Poucas definições se encaixam tão perfeitamente quanto uma igreja estar no comando de um partido chamado Republicanos.

Mas o enredo consegue ficar ainda mais indigesto.

Marcos Pereira, presidente do partido, advogado e bispo licenciado da Universal, agora faz do apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro uma espécie de leilão político.

A mensagem dos bastidores é cristalina: apoio, só mediante a promessa de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal, na vaga que será aberta com a saída de Luiz Fux. Não se discute projeto de país, programa de governo ou compromisso com a sociedade. Negocia-se uma cadeira na mais alta Corte da República, como quem barganha cargos de segundo escalão.

É a política transformada em balcão de negócios, sem o menor constrangimento.

E há um detalhe quase cômico, não fosse tão revelador. Flávio Bolsonaro consegue a proeza de enfraquecer a própria candidatura antes mesmo de consolidá-la. Seu conhecido talento para a autossabotagem já produziu efeitos concretos: PP e União Brasil recuaram do apoio, deixando o “01” cada vez mais isolado. Agora, até os aliados parecem cobrar pedágio para permanecer ao seu lado.

No fim, sobra uma imagem desoladora. Um partido que invoca a República, enquanto se confunde com uma organização religiosa. Um dirigente que trata uma vaga no STF como ativo de negociação eleitoral. E um candidato que perde aliados na mesma velocidade com que acumula dificuldades.

Se isso ainda pode ser chamado de articulação política, então também precisamos rever o significado dessa expressão. Porque, diante de tamanho cinismo, o paradoxo já não está apenas na gramática. Está na própria política brasileira.

•        A cartinha do papai. Por Marco Damiani

Foi preciso uma cartinha do papai para tentar estancar a sangria desatada na candidatura de Flávio Bolsonaro. Levando chumbo por todos os lados, o 01 caminha em velocidade para chegar politicamente morto à Convenção Nacional do PL, dia 25. Se chegar. A perda de sustentação é diária. Ontem, Ciro Gomes correu dele em passagem pelo Ceará, dando no pé para o Rio de Janeiro, assim como a candidata ‘michelista’ ao Senado, Priscila Costa, que foi para Portugal participar de um encontro de mulheres conservadoras. O pré-candidato do PL participou de um evento em recinto fechado, lotado! De militantes pagos e trazidos de outros estados, entre os quais brutamontes na segurança e poucas mulheres presentes, como observou a âncora Sara Góes, do Boa Noite 247. Uma encenação, não um encontro político.

Outra encenação é a carta de Bolsonaro. Além de tardia, chega em um momento em que a candidatura já foi abandonada. O momento de “arregaçar mangas”, como pediu o capitão em favor de seu “porta-voz”, já passou. A subida do governador Tarcísio de Freitas, dias antes, ao palanque do candidato do PSD, Ronaldo Caiado, abriu a porteira para a debandada. Foi o episódio mais representativo da perda de sustentação de Flávio. Ele nem reclamou, como ainda tinha forças para fazer pouco antes, ao ser atingido pelos disparos de Michelle Bolsonaro.

O apelo do pai a favor do filho não parece ser um fato novo capaz de mudar o viés de mergulho da atual candidatura bolsonarista. Desde as revelações de suas ligações financeiras com o banqueiro Daniel Vorcaro, em maio, Flávio Bolsonaro coleciona erros e se vê dentro de situações indefensáveis, como todas as ligações de seu grupo político histórico, no Rio de Janeiro, com o crime organizado, reveladas na operação Unha e Carne, da Polícia Federal.

Com a cartinha de Bolsonaro na mão, Flávio está desafiado a fazer o teste do calçadão. Verificar se os índices que as pesquisas ainda lhe atribuem correspondem ao carinho do público a céu aberto. Em Copacabana, estaria acompanhado por seu candidato a senador Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, que acaba de ser solto da prisão. No Viaduto do Chá, em São Paulo, a caminhada de confraternização teria em Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, o maior direcionador de emendas parlamentares do Brasil. No que daria?

Flávio virou tóxico. Ser filhinho de papai não vai mudar isso.

•        O atestado de fraqueza do pai para o filho. Por Moisés Mendes

É protocolar, cuidadosa demais e inútil para a direita a carta em que Bolsonaro reafirma que o filho ungido é seu porta-voz e seu candidato a presidente. A única utilidade da carta é a que favorece Lula, por funcionar como uma exposição pública da fraqueza de Bolsonaro e de Flávio.

Se não precisasse do aval do pai diante dos ataques e do poder da madrasta, Flávio poderia se virar por conta própria. Mas aí teria de provar que representa de fato o bolsonarismo e que chegou à idade adulta como político.

Flávio se revelou infantil desde o momento em que passou a ser pressionado a dar explicações sobre o envolvimento com Daniel Vorcaro. É certo que deve ter ido visitar o pai, para pedir apoio, levando mais de uma versão do manifesto de uma dúzia de linhas.

Saiu com a cartinha mais singela, sem força e sem muita convicção. Bolsonaro pede paz e diz o que era previsível. Mas não é categórico na defesa do filho atacado pela mulher dele. Talvez por saber que hoje Michelle tem mais lastro político do que os enteados e, como perspectiva de futuro de médio prazo, até do que o próprio marido.

Imaginemos a cena em que, na copa, enquanto Bolsonaro come pão com leite condensado, o filho tira do bolso as alternativas de texto e pede com o olhar para que Michelle se afaste. E então implora ao pai: escolha uma dessas.

O líder presidiário em prisão domiciliar enfrenta uma situação única. Sua mulher, que virou política, disputa o controle do bolsonarismo mandando na casa em que o enteado aparece como visita e tenta convencer o pai e seu entorno de que é político e não só operador dos negócios da família.

A carta é mais um documento da criancice das relações políticas dentro do bolsonarismo, e não só de Bolsonaro com os filhos. Não é uma manifestação singela, como sugere, mas pobre como expressão de liderança e de capacidade de comando do chefe da extrema direita.

A principal destinatária do recado está dentro de casa, e Bolsonaro poderia chamá-la, como líder e não como marido, para pedir que os dois, madrasta e enteado, declarassem trégua, ali e publicamente. Mas essa não é uma batalha pontual, é uma guerra.

Bolsonaro escreveu a declaração à mão, como deve ser, e ofereceu a Flávio a única ajuda possível no momento em que Michelle se desconecta do núcleo duro do bolsonarismo e do PL para construir o seu movimento ‘Imparáveis’.

Por isso a carta é sem sentido. A provocadora da guerra com o filho joga pife e dorme com Bolsonaro. E quer se desgrudar dele e do que ele representa, apesar de fingir querer herdar o bolsonarismo. E mesmo assim ele tenta convencer a direita de que domina a situação.

A carta e o movimento de Michelle com foco nas mulheres, para implodir o núcleo político dos enteados, agravam os problemas dos Bolsonaros. A Michelle contraditória quer autonomia, mas também precisa se vender à sua base religiosa como submissa e ajudadora.

A imparável acaba adotando, para sintetizar o que pretende fazer com essa liberdade, um adjetivo semelhante à palavra bagaceira criada pelo marido para se definir como homem. Mesmo assim, hoje não há carta que consiga parar Michelle dentro de casa e dentro da extrema direita.

 

Fonte: Brasil 247

 

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