Por
que a carta de Bolsonaro virou alvo de Moraes
No fim
da tarde do dia 11 de setembro de 2018, cercado de medalhões do PT e sob o céu
nublado de Curitiba, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh segurava um papel e
começou a falar: "Meus amigos e minhas amigas".
A fala
seguia o texto da carta que Greenhalgh segurava, em frente à Superintendência
da Polícia Federal na capital do Paraná. Era uma carta do então
ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT). Impedido de disputar as eleições daquele ano
após sua condenação durante a Operação Lava
Jato, o petista pedia, sem meias palavras, votos para o seu
substituto na campanha, Fernando
Haddad (PT).
Oito
anos depois, a leitura daquela carta volta à tona depois que o ministro
do Supremo
Tribunal Federal (STF), Alexandre de
Moraes, suspendeu, por 90 dias, o direito de
o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a visitar o seu pai,
o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL), depois de ter lido, nas suas redes sociais, uma
carta em que o pai pedia união da direita em torno da pré-candidatura do
senador.
"O
momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e
cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a
melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do
empobrecimento", diz um trecho da carta lida e divulgada por Flávio.
Em sua
decisão, Moraes justificou a suspensão afirmando que Bolsonaro cumpre medidas
cautelares que o impedem de usar redes sociais diretamente ou por meio de
terceiros e que a leitura da carta por Flávio seria uma forma de burlar essa
restrição.
Segundo
Moraes, o vídeo de Flávio anunciando a carta sugeria que "o sentenciado
(Bolsonaro) tinha plena ciência de que sua carta seria divulgada em redes
sociais, o que configuraria igualmente desrespeito à medida cautelar a que está
submetido, devendo os fatos, portanto, serem esclarecidos pela defesa".
A
suspensão das visitas determinada por Moraes, no entanto, foi criticada por
políticos de direita.
"Os
com a caneta não podem decidir no lugar dos com voto", disse Flávio
Bolsonaro em suas redes sociais.
"Parem
de destruir a democracia com pretexto de defender a democracia. Isso não
cola", complementou o pré-candidato.
A
decisão de Moraes também mobilizou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O
conselho federal da organização divulgou um requerimento para que Moraes
autorize Flávio a se encontrar com seu pai, uma vez que o senador também é
listado como advogado do ex-presidente.
"O
Conselho Federal da OAB solicita que seja assegurada a possibilidade de
comunicação pessoal e reservada entre o advogado e seu constituinte, para
finalidades estritamente profissionais, observadas as condições e cautelas que
Vossa Excelência considere adequadas, sem prejuízo das demais determinações
judiciais vigentes", diz o requerimento.
Em meio
a esse embate, a BBC News Brasil procurou especialistas para avaliar os casos
de Lula e de Bolsonaro para responder: afinal, os dois episódios são
comparáveis? Por que Lula ter suas cartas divulgadas e Bolsonaro,
aparentemente, não?
Segundo
os especialistas, o caso de Bolsonaro seria uma espécie de "bola
dividida" jurídica.
Por um
lado, parte deles avalia que a leitura da carta do ex-presidente por Flávio foi
uma violação clara a uma ordem judicial imposta pelo STF.
Por
outro, eles também avaliam que os limites das ordens judiciais que limitam o
direito de comunicação de Bolsonaro com o exterior ainda não estão claros.
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Cartas de Lula e Bolsonaro
Os três
entrevistados pela BBC News Brasil convergem na avaliação de que a diferença
entre os casos de Lula e Bolsonaro não estaria no direito de escrever cartas,
assegurado em princípio a qualquer pessoa presa no Brasil, mas nas condições
judiciais impostas a cada um dos ex-presidentes.
Eles
argumentam que, em 2018, Lula não estava submetido a uma proibição específica
de se comunicar publicamente por meio de terceiros.
Bolsonaro,
por outro lado, cumpre prisão domiciliar autorizada por Moraes e ainda está
submetido a uma ordem que veda o uso das redes sociais direta ou indiretamente.
Essa medida cautelar foi uma das condições impostas por Moraes para que ele
pudesse cumprir sua pena em regime domiciliar em caráter humanitário.
A
advogada, mestra em direito e membro da Associação Brasileira de Direito
Eleitoral e Político (Abradep), Emma Roberta Palu Bueno, diz à BBC News Brasil
que os episódios são semelhantes apenas no que seria o seu "pano de
fundo": dois ex-presidentes privados de liberdade enviando mensagens
políticas a aliados durante períodos eleitorais.
Juridicamente,
porém, segundo ela, as duas situações seriam distintas.
"No
caso do Bolsonaro, ele tem uma determinação expressa de proibição de
participação, de uso das redes sociais, para que ele possa cumprir a pena em
regime domiciliar, e, no caso de Lula, não existia nenhuma restrição a essa
comunicação", diz.
O
advogado criminalista e presidente da Comissão Especial de Direito Criminal da
OAB de São Paulo, José Carlos Abissamra Filho, diz à BBC News Brasil que os
casos são comparáveis "apenas em um plano geral".
"Há
uma diferença relevante. No caso de Bolsonaro, havia uma determinação expressa
proibindo a utilização de redes sociais, diretamente ou por intermédio de
terceiros", diz Abissamra Filho. No episódio de Lula, acrescenta, não
havia, "até onde se sabe, uma restrição equivalente".
Juliana
Bertholdi diz à BBC News Brasil que uma comparação sem considerar as diferenças
entre os processos pode produzir um "falso paralelo".
Nenhum
dos entrevistados entende que Bolsonaro esteja, atualmente, proibido de
escrever ou receber cartas. A restrição, segundo eles, surgiria quando
Bolsonaro, de forma consciente, usasse uma correspondência privada com o
objetivo de divulgá-la, por meio de terceiros, em redes sociais.
"Se
ele mandar uma carta com o objetivo de divulgá-la em redes sociais para toda a
população, aí ele está descumprindo a ordem", afirma.
Abissamra
Filho faz uma avaliação semelhante.
Ele
afirma que a Lei de Execução Penal assegura à pessoa presa o contato com o
mundo exterior por correspondências escritas. Ele diz, no entanto, que esse
direito pode ser suspenso ou restringido por uma decisão do juiz responsável
pela execução da pena. No caso de Bolsonaro, o caso é supervisionado por
Moraes. A decisão, diz o advogado, precisa ser fundamentada.
"Uma
carta de caráter privado continua, em princípio, permitida. A controvérsia
surge quando a correspondência é produzida ou entregue com a finalidade de ser
divulgada nas redes sociais. Nesse caso, ela pode ser interpretada como um
instrumento para contornar a proibição", diz o advogado.
Para
ele, entretanto, essa interpretação depende das circunstâncias concretas.
Segundo
ele, seria necessário demonstrar que Bolsonaro sabia de antemão que Flávio
divulgaria o conteúdo da carta em suas redes sociais.
Juliana
também diferencia comunicação privada de manifestação pública.
"A
decisão (de Moraes) não proíbe, em tese, a correspondência privada. O que ela
considera potencialmente ilícito é a utilização da carta como instrumento para
contornar a vedação ao uso das redes sociais", diz.
Na
avaliação dela, foi isso o que ocorreu quando Flávio leu a mensagem nas
próprias redes.
"O
que ele (Bolsonaro) fez, no frigir dos ovos, foi se manifestar por interposta
pessoa", afirma Juliana.
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'Bola dividida' jurídica?
Nenhum
dos entrevistados afirma de forma categórica que Bolsonaro já esteja sofrendo
uma violação de direitos. A avaliação vai na contramão dos seus aliados.
Apesar
disso, eles afirmam que o caso gera alguma controvérsia. Algo que alguns deles
classificaram como uma espécie de "bola dividida" jurídica.
Segundo
eles, as decisões de Moraes sobre o caso não seriam claras o suficiente para
delimitar até onde vai o direito de Bolsonaro se comunicar com o público
externo por meio de cartas.
"A
decisão também levanta um debate constitucional relevante sobre esses limites
da efetividade dessa ordem judicial e a própria liberdade de expressão, já que
ele poderia mandar uma carta para um órgão de imprensa, por exemplo, e a
divulgação dessa carta por um veículo de imprensa poderia envolver inclusive os
direitos fundamentais de terceiros, não apenas o Bolsonaro, o que tornaria essa
questão ainda mais complexa", diz Emma.
Emma
considera prematuro, no entanto, concluir que Bolsonaro teve seus direitos
violados.
"Após
o cumprimento do prazo que o ministro Alexandre deu para a defesa do Bolsonaro
se manifestar (sobre a divulgação da carta), virá uma decisão (de Moraes). Aí,
sim, a gente vai poder analisar de forma mais segura se há ou não violação de
algum outro direito fundamental como o direito à liberdade de expressão",
diz.
Juliana
tem uma interpretação diferente. Ela diz reconhecer que as decisões de Moraes
sobre o assunto podem ser debatidas, mas diz avaliar que elas são claras sobre
o que Bolsonaro pode ou não fazer.
"A
decisão pode ser questionada, como qualquer decisão judicial, mas ela me parece
clara no aspecto de que as manifestações em redes sociais todas estão
vedadas", diz.
Isso
não encerraria, segundo ela, a discussão sobre a legitimidade da medida.
"Se
isso é constitucional, adequado, justo, democrático, é um debate mais amplo e
complexo", afirma Juliana.
"É
justo que um preso seja impedido de se manifestar politicamente? Minha resposta
será sempre não. Mas é justo que um ex-presidente, condenado por atacar a
democracia, possa, em tese, renovar tais ataques enquanto cumpre pena? Me
parece igualmente que não", diz.
Abissamra
Filho entende que pode haver uma zona cinzenta nesse debate. Ele sustenta que
Bolsonaro continua tendo direito a se comunicar por cartas com quem quiser. O
problema, no entanto, é como essas cartas serão utilizadas depois.
"A
zona de dúvida está no meio: é preciso demonstrar se a carta foi escrita e
entregue com conhecimento e propósito de divulgação digital ou se o terceiro
decidiu publicá-la por iniciativa própria", afirma.
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Crime eleitoral dos Bolsonaro?
Um dos
pontos onde os especialistas divergem é sobre se a divulgação da carta de
Bolsonaro pelo filho poderia ou não configurar crime eleitoral. Essa tese foi
levantada por Moraes que, em sua decisão desta semana, encaminhou os vídeos
gravados por Flávio para a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE), para avaliar se
o teor da carta poderia ser interpretado como campanha eleitoral antecipada.
Caberá
à PGE determinar se há indícios ou não de crime eleitoral neste caso que pode
resultar em uma ação sobre o episódio no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
Nesse
ponto, Emma e Juliana divergem, enquanto Abissamra Filho destaca uma diferença
cronológica que, segundo ele, seria decisiva entre os episódios envolvendo
cartas de Lula durante as eleições de 2018, e a de Bolsonaro.
"A
carta de Lula foi lida em 11 de setembro de 2018, quando o período oficial de
campanha já havia começado. Portanto, não se tratava de propaganda antecipada
sob o aspecto cronológico. A carta de Bolsonaro foi divulgada em julho de 2026,
antes do início da campanha, autorizado a partir de 16 de agosto", diz o
advogado.
Abissamra
Filho diz, no entanto, que a decisão caberá ao TSE, atualmente presidido pelo
ministro do STF Kássio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro.
Emma
Roberta, por outro lado, diz que embora a legislação eleitoral em vigor seja a
mesma desde 2016, antes, portanto, das cartas divulgadas por Lula, o
entendimento da Justiça Eleitoral pode ser diferente agora do que foi no
passado.
Ela
avalia que algumas expressões da carta de Bolsonaro podem ser consideradas pela
Corte como equivalentes a um pedido de voto, ainda que a mensagem não utilize
diretamente palavras como "vote em Flávio".
Segundo
ela, frases que apresentam o senador e pré-candidato como "a melhor opção
para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento"
poderiam, em tese, ser enquadradas pelo TSE como propaganda antecipada.
Ela
também afirma que o tratamento dado à carta de Lula em 2018 não determina
automaticamente a conclusão sobre a mensagem de Bolsonaro.
Além da
diferença de datas apontada por Abissamra Filho, a jurisprudência e a
composição do TSE se modificaram, diz Emma.
"Não
é porque a carta de Lula para Haddad não foi considerada campanha antecipada
que a carta do Bolsonaro para o Flávio não vai ser. Vai ser feita uma análise
casuística", diz Emma.
Juliana
Bertholdi, por outro lado, discorda dessa avaliação.
Ela diz
reconhecer que a maneira como a carta foi utilizada pode tornar o caso menos
claro. Mesmo assim, ela hesita em classificar a carta como um pedido de voto.
"Na
minha leitura — pois a situação está longe de ser preto no branco —, o texto da
carta em si está mais inserido no contexto do pedido de apoio do que do pedido
de voto", diz a advogada.
Fonte:
BBC News Brasil

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