Como
superar as fissuras antidemocráticas no Brasil?
Ao
analisar as fissuras profundas abertas pelo Golpe de 2016 e a consequente
fragilidade da arquitetura institucional sob o terceiro mandato de Lula, Luis
Felipe Miguel reposiciona a urgência da disputa política a partir de uma dupla
ancoragem teórica e epistemológica.
De um
lado, a reflexão alinha-se à crítica das perspectivas anglo-eurocêntricas — na
linha proposta por Luciana Ballestrin —, rejeitando o “platonismo” que trata a
democracia como uma forma ideal abstrata, e defendendo, em contrapartida, a
recuperação de seu caráter histórico, plebeu e radicalmente participativo. De
outro, reatualiza-se o instrumental crítico de Karl Marx para decifrar as
mutações do capitalismo contemporâneo, demonstrando como a uberização do
trabalho e a alienação algorítmica não anulam, mas agudizam a extração do
mais-valor.
O
resultado é uma costura analítica contundente e sem concessões, que transita da
captura do sistema político pelo capital ao nó górdio da segurança pública nas
periferias. Trata-se de um chamado rigoroso para que o campo progressista rompa
o cerco defensivo e volte a formular um horizonte utópico real, compreendendo
que a verdadeira resistência democrática exige enfrentar as contradições
estruturais da nossa formação social.
Luis
Felipe Miguel é professor titular do Instituto de Ciência Política da UnB
(desde 1996) e pesquisador do CNPq. Sua formação inclui graduação em
Comunicação pela UFSC, mestrado pela UnB e doutorado em Ciências Sociais pela
Unicamp. Coordena o grupo Demodê e fundou a Revista Brasileira de Ciência
Política. Entre seus principais livros estão Democracia e representação (Prêmio
de melhor livro de Ciências Sociais em 2015), Consenso e conflito na
democracia contemporânea, Dominação e resistência, Democracia
na periferia capitalista (2022), O colapso da democracia no
Brasil e Marxismo e política (2024). É autor ainda de
obras sobre feminismo e sobre o ódio como política. Sua produção acadêmica
concentra-se na teoria democrática, representação política, desigualdades,
gênero, mídia e na análise do bolsonarismo e da crise democrática brasileira.
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Eis a entrevista.
·
Em o colapso da democracia no Brasil, o senhor cobre
o arco que vai da Constituição de 1988 ao Golpe de 2016. O que, na sua análise,
foi determinante para esse colapso: a arquitetura institucional, a correlação
de forças sociais, a captura do sistema político pelo capital, ou tudo isso
junto? E qual desses fatores permanece mais ameaçador em 2026?
Infelizmente,
uma resposta honesta é que todas as condições que levaram a um golpe em 2016
continuam presentes no cenário político brasileiro. O golpe conduziu à
presidência de Bolsonaro, como efeito colateral, mas não inesperado, já que os
artífices da deposição da presidente Dilma Rousseff julgaram útil manipular um
discurso extremista que, no entanto, casava-se melhor com alguém como Jair. A
vitória de Lula, em 2022, nos deu esperança de reverter este cenário. Mas gerou
uma presidência fraca, amarrada por uma coalizão mais do que ampla –
digo isso porque não se trata de uma frente ampla de todos os setores
comprometidos com a democracia, ainda que conservadores, mas de um balaio que
inclui também vastos setores oportunistas, que nunca ergueram um dedo para
resistir às derivas autoritárias e que estariam alegremente abraçados a
Bolsonaro caso ele tivesse vencido as eleições ou mesmo caso a intentona
golpista de 8 de janeiro de 2023 tivesse obtido sucesso.
O golpe
de 2016 foi um ponto maior de ruptura na política brasileira. Ele representou a
dissolução de consensos que, de alguma maneira, organizavam as disputas desde o
final da ditadura: igualdade, império da lei, enquadramento das reivindicações
e dos interesses em uma gramática de direitos. Mesmo o respeito à regra básica
do jogo, que diz que a obtenção do voto popular é o único meio legítimo de
acesso ao poder, foi rompido, pelo simples fato da destituição da presidente.
Toda a arquitetura do equilíbrio de poderes foi substituída por um vale tudo,
em que vigora a regra do “manda quem pode, obedece quem tem juízo” e que
continua, em grande medida, em vigor.
Tivemos
a punição de alguns golpistas, mas não o suficiente para que a parcela
oportunista da elite congressual se sentisse ameaçada. Com exceção de uns
poucos, como Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, os parlamentares que
trabalharam contra a democracia não foram punidos. Alguns deles exerceram
influência no governo Lula, como Arthur Lira ou Davi Alcolumbre. Pior, não
conseguimos que fosse recomposto o apoio à ordem democrática na sociedade. A
extrema-direita ainda domina o debate nas plataformas sociodigitais, o
jornalismo corporativo normaliza suas posições, a esquerda investe muito pouco
na educação política. Em particular, a opção por punir os golpistas começando
pelos peixes pequenos, com penas às vezes exageradas, ao gosto do ministro
Alexandre de Moraes, alimentou uma narrativa de vitimização que a direita usa
com competência.
Eu digo
que é como se uma casa tivesse sido devastada por um furacão e uma enchente. O
governo Lula tirou a lama, passou uma água nos móveis, trocou umas lâmpadas.
Mas as janelas continuam quebradas, as paredes rachadas. As fissuras que o
golpe de 2016 fez em nossa institucionalidade democrática, que sempre foi
fraca, continuam aí. Por isso, a luta ainda é apenas para evitar o pior, sem
nenhuma mudança real no nosso horizonte.
·
O livro que o senhor organizou com Luciana Ballestrin
questiona os limites da institucionalidade democrática. As teorias democráticas
tradicionais — deliberativa, participativa, agonística — ainda têm algo a dizer
para um contexto de “tecnofascismo” e desinformação algorítmica, ou é preciso
refundar o próprio conceito de democracia desde o Sul Global?
Creio
que é preciso superar, sim, as perspectivas “anglo-eurocêntricas”, como diz a
Luciana, que são dominantes na teoria da democracia. Mas seu defeito não é a
origem geográfica, é uma forma de platonismo: impõem uma visão de democracia
que se apresenta como desconectada do processo histórico de sua construção,
como se fosse uma forma ideal que deveria se concretizar no mundo. Mas a
solução não é buscar uma contrateoria ancorada na periferia capitalista,
conceito que prefiro ao rótulo algo despolitizado de “Sul Global”, o que muitas
vezes se liga a uma idealização acrítica das sociedades anteriores à
colonização, que ignora tanto suas contradições quanto o fato de que não é
possível transplantar aquelas experiências para o mundo contemporâneo.
É
preciso de uma teoria da democracia que recupere seu caráter histórico
primário, de projeto plebeu e popular, que se insubordine contra sua
domesticação na forma da democracia burguesa e que a reconecte às demandas da
classe trabalhadora, entendida na sua pluralidade de experiências, isto é,
atravessada também por gênero, raça, nacionalidade. É um projeto a ser
elaborado, até porque o imaginário da democracia foi em grande medida capturado
pelo liberalismo e a esquerda, à parte insights importantes,
mas que raras vezes encontraram maior desenvolvimento, dedicou-se muito mais a
fazer a crítica das limitações das democracias concorrenciais, representativas,
liberais, ocidentais, do que a construir sua própria alternativa. Para a parte
da esquerda que infelizmente se vincula a um ideal repressivo, seja em sua
forma clássica, stalinista, seja na sua forma renovada, identitarista, isto
talvez não seja um problema, Mas para quem se vincula a um projeto
emancipatório abrangente, é uma lacuna que precisamos coletivamente preencher.
Para
isso, precisamos, é claro, entender a democracia como um projeto aberto, de
combate às diferentes formas de opressão e de dominação presentes na sociedade.
Mas precisamos também avançar na outra dimensão, que é o desenho de uma
institucionalidade democrática que oriente a organização social. É isso que
está em falta. Creio que as teorias participativas dos anos 1970, que
infelizmente não foram desenvolvidas plenamente, indicam o caminho. A
democracia será limitada se não se espalhar para os espaços da vida cotidiana:
locais de trabalho, vizinhança, escolas, famílias. Por isso, qualquer projeto
democrático mais substantivo é necessariamente anticapitalista e feminista – e
precisa ser adaptável às diversidades locais.
·
Seu livro de 2025 defende explicitamente a atualidade do
marxismo como ferramenta de análise e transformação do mundo contemporâneo.
Como o marxismo pode contribuir para compreender fenômenos como a “uberização”
do trabalho, a captura da esfera pública pelas plataformas digitais e a
ascensão de uma extrema direita que se apresenta como antissistema enquanto
aprofunda o neoliberalismo?
Marx
não é um oráculo, não adianta ir às obras dele na busca de respostas prontas.
para os desafios se enfrentamos hoje. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar
suas contribuições para compreensão da dinâmica da sociedade capitalista, uma
dinâmica que se metamorfoseou em várias dimensões, mas que continua mantendo
traços essenciais que Marx desvendou. Por exemplo, a plataformização do
trabalho de fato muda as relações entre os trabalhadores e seus patrões. Não é
algo que Marx pudesse ter previsto. Aparentemente, uma das características
definidoras do modo de produção capitalista, a separação entre os trabalhadores
e os meios de produção, foi superada, já que o motorista de Uber é ou pode ser
o dono do seu automóvel, o entregador do iFood é o dono de sua moto ou de sua
bicicleta e assim por diante. Na verdade, o aplicativo tornou-se o
intermediário indispensável sem o qual o trabalho não pode se concretizar.
Então, embora as mudanças não sejam insignificantes, permanecem os elementos
centrais do capitalismo: a exploração do trabalho, o controle da atividade do
trabalhador, a impossibilidade de o trabalhador colocar por conta própria o
produto de sua atividade no mercado (exceto para vender sua força de trabalho),
a alienação do trabalhador na atividade produtiva. Em relação ao capitalismo
“clássico”, da época de Marx, vemos na verdade uma agudização desses problemas.
A pulverização da força de trabalho dificulta sua organização; mesmo onde ela
permanece reunida, como, por exemplo, nos galpões de empresas como a Amazon, o
controle cada vez mais rígido, que a tecnologia permite, cumpre este mesmo
papel. Ou seja, as circunstâncias mudam, mas as tendências gerais descritas por
Marx permanecem de pé.
O
capitalismo se transmuta, mas permanece sendo capitalismo, um modo de produção
baseado na propriedade dos meios de produção, ainda que hoje esses meios ganhem
a forma de aplicativos, e na exploração do trabalhador, isto é, na extração de
mais-valor a partir do sobretrabalho da classe trabalhadora, ainda que uma
parcela crescente dessa classe seja formalmente autônoma. É a dinâmica do
capitalismo, de subordinar o valor de uso ao valor de troca, que nos empurra
para o colapso ambiental (que, uma vez mais, Marx não tinha como prever, mas
que nos ajuda a entender). Da mesma forma, a integração da classe trabalhadora
à sociedade de consumo, o desenvolvimento da indústria cultural e agora as
plataformas sociodigitais geraram formas de alienação com as quais Marx nem
sonhava. Mas a alienação, isto é, a incapacidade de conectar a própria
atividade com a produção do mundo social, continua sendo um fenômeno
fundamental da experiência humana sob o capitalismo.
Não é
possível entender o mundo sem entender o capitalismo e não é possível entender
o capitalismo sem estudar Marx. A obra de Marx e a de tantos que se inspiraram
nele continuam sendo indispensáveis para quem quer entender e transformar o
mundo. Marx continua sendo um parceiro fundamental no esforço de decifrar a
realidade e buscar caminhos para evitar a catástrofe. Não nos dá uma receita de
bolo, não tinha bola de cristal, precisa ser interpelado criticamente,
discutido, emendado. Mas precisa ser lido e entendido.
·
Em sua série de artigos de setembro de 2025, o senhor
descreve o campo progressista como “emparedado pela direita, sonhando apenas
com evitar o pior”. Como furar esse cerco? A esquerda precisa reconstruir um
horizonte utópico ou, como sugere seu título, devemos nos preparar para um
longo “vale de lágrimas”?
Eu
acredito que a direita até pode fazer política sem ter um horizonte de
sociedade renovada para apresentar ao público, mas a esquerda, não. É preciso
dizer que sociedade queremos construir, que valores devem presidi-la, que tipo
de mudanças precisa ser implementado para nos aproximarmos dela. Já havia a
carência desse projeto nos anos áureos do lulismo, que eu caracterizo como uma
forma de acomodação resignada à realidade existente, simplesmente buscando nela
brechas para introduzir mudanças pontuais em favor dos mais vulneráveis, sem
elaborar um projeto de transformação social abrangente. Não digo que não seja
relevante; só uma pessoa com uma vida bem estabelecida, ao abrigo de qualquer
incerteza, pode negar a importância de dar de comer a dezenas de milhões de
pessoas que estavam com fome. Também não digo que não tenha tido efeitos
importantes, que incomodaram nossa classe dominante, senão não teríamos
presenciado os retrocessos que presenciamos. Mas sempre foi, basicamente, isso:
o diagnóstico de que não é possível uma mudança mais estrutural, então vamos
buscar maneiras de minorar as agruras das maiorias. Com o avanço da
extrema-direita, a situação piorou. A parte principal da esquerda, aquela que
tem maior peso social, adotou um discurso claramente restaurador. Seu horizonte
não vai além de retomar o pleno funcionamento dos institutos da democracia
eleitoral, de restaurar a vigência plena da Constituição de 1988, de, enfim,
voltar aos tempos áureos dos primeiros mandatos de Lula. O futuro que apresenta
é voltar a 2003. Sim, tudo isso é melhor do que aquilo que enfrentamos hoje,
mas ainda assim é muito pouco e exige um esforço de apagamento de todas as
insuficiências deste passado idealizado. Há setores minoritários da esquerda
que vivem na nostalgia do bolchevismo, que fazem RPG de revolucionário russo
nas redes sociais ou mesmo que exaltam o stalinismo como modelo ao qual
deveríamos retornar. Há também aqueles, desta vez sobretudo nas esquerdas
identitárias, que se refugiam em uma “ancestralidade” mítica. São todos
escapismos que mostram a falta de projeto de transformação social capaz de
mobilizar as esperanças, as energias utópicas de amplos setores da população.
Marx escreveu que a revolução deve buscar sua poesia no futuro, não no passado.
É essa poesia do futuro que estamos precisando encontrar, depois da falência
dos projetos da esquerda do século XX.
·
Em junho de 2025, o senhor publicou um artigo polêmico no
Blog da Boitempo sobre facções, funk e seletividade penal. O debate foi
intenso. Passado um ano, como o senhor reflete sobre essa polêmica e sobre os
desafios de uma esquerda que precisa lidar simultaneamente com a crítica ao
Estado penal e com a violência que afeta os territórios periféricos?
Eu
creio que a questão de fundo é que nós precisamos lidar com a complexidade da
realidade, em vez de buscar simplificações que levam a uma compreensão
unilateral e a soluções que parecem fáceis, mas não resolvem os problemas que
nos desafiam. Assim, vejo se defrontarem, simetricamente, uma direita
punitivista que diz que “bandido bom é bandido morto” e uma esquerda lacradora
que resume sua visão de segurança pública à denúncia da seletividade do
aparelho repressivo do Estado. Daí surgem posições como essas, que exaltam os
chefes das facções como se fossem “rebeldes primitivos” – desconhecendo seus
vínculos com o capital financeiro e com a elite política reacionária.
Desconhecendo, sobretudo, o pesado ônus que é imposto às pessoas que moram nos
territórios controlados pelas facções. É a cobrança de taxas, é o cerceamento
do direito de ir e vir, da liberdade de expressão e da liberdade de crença, é o
recrutamento dos jovens para a criminalidade, é o despotismo cotidiano dos
chefes, que se traduz em vários tipos de violência, inclusive e em particular a
violência sexual contra as mulheres. Por isso é chocante, do meu ponto de
vista, que uma pessoa que detém um mandato parlamentar de um partido de
esquerda venha a público convocar alguém como funkeiro Oruam, filho do chefe do
Comando Vermelho, a se unir na luta popular – como fez Érica Hilton.
Há
também intelectuais que aderem a esse discurso, que é típico de gente bem
situada na vida, que fala para ganhar aplausos de sua bolha. É fácil posar de
descolado, aplaudindo nepobaby do tráfico, garoto-propaganda
de bet, colecionador de carro de luxo, lavador de dinheiro, com
rosto de torturador tatuado no peito, de dentro de seu apartamento confortável
ou de seu gabinete na universidade. É um fascínio juvenil pelo bandido que se
traveste de transgressão política. Seria um simples caso para estudo psicológico,
caso não impactasse na esquerda, com o resultado líquido de levá-la a renunciar
à interlocução real com essas populações e ao desgaste diante da opinião
pública, ao aderir a um discurso que está claramente deslocado da realidade. No
final das contas, esta postura é a melhor maneira de alimentar o discurso
punitivista da direita, porque assume que não há alternativa entre o império do
crime organizado e a brutalidade do BOPE.
Eu não
sou especialista em segurança pública. Sei apenas que a situação é mais
complicada exatamente por causa da forte interpenetração entre as organizações
criminosas e o aparato do Estado, incluindo influência no Poder Judiciário. E
sei também que é necessário que a esquerda apresente uma visão de política de
segurança que seja capaz de garantir o respeito aos direitos humanos e
simultaneamente recuperar para o poder público o controle dos territórios hoje
em mãos das facções. Isso significa, evidentemente, que é necessário estender
aos morros, às periferias das grandes cidades, os serviços próprios do Estado,
cuja presença não pode se limitar à repressão. Mas significa igualmente que os
grupos criminosos, que são a mistura de traficantes, milicianos, controladores
do jogo do bicho, pistoleiros de aluguel, hoje tudo junto e misturado, sejam
derrotados, o que exige trabalho policial inteligente e uma justiça que não
seja complacente. A esquerda não pode ter medo de defender medidas duras contra
as facções. Não existe possibilidade de avançar na democracia, na extensão dos
direitos de cidadania, na promoção da igualdade, se uma parcela significativa
da população vive sob o tacão de bandos criminosos.
Fonte:
Por Thiago Gama, em Outras Palavras

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