O
caso Stuart Angel e a importância de recordar
No dia
7 de julho de 2026, a Universidade Federal do Rio de Janeiro concedeu a Stuart
Edgar Angel Jones o diploma de graduação em Economia. Passavam-se cinquenta e
cinco anos desde seu assassinato por agentes da Ditadura. Stuart era então
estudante e militante da luta contra o regime de exceção. A atribuição do
diploma a quem teve seus estudos interrompidos pela ação criminosa de
torturadores é um ato simbólico. Ele exprime o repúdio ao arbítrio e à
violência de Estado que vigorou no país entre 1964 e 1985 e que tem, ainda
hoje, sinistros adeptos. A cerimônia de assinatura do diploma e a homenagem
feita, simultaneamente, aos demais 25 estudantes da mesma Universidade que
sofreram o mesmo bárbaro tratamento foi, ao mesmo tempo, um ato de rememoração
e de documentação histórica. Como dizia Zuzu Angel, heróica mãe de Stuart,
também morta pela Ditadura por sua coragem em denunciar a violação sistemática
dos direitos pelo regime de exceção: “A história de meu filho vai entrar para
os livros de história”. A memória coletiva se faz acompanhar agora por um
documento que registra justamente para a História a força e o sentido do
engajamento deste entre tantos militantes vitimados pela violência da repressão
ditatorial.
Quais
são os sentidos do ato de rememorar? Entre as diferentes metáforas para o
trabalho de rememoração, há, por exemplo, referências à Arquitetura: a memória
seria uma espécie de construção, composta de relatos e imagens. Há também
menções à Arqueologia: a memória faria uma escavação das camadas profundas de
experiências passadas. É comum também a metáfora da Cartografia: rememorar
seria rever os espaços percorridos no passado para melhor mapear e definir as
trajetórias do presente. As lembranças afloram também nos lugares e precisam de
localização para funcionar. Lugares de memória são hoje demarcados para
resgatar coletivamente este passado ditatorial mal conhecido. A localização das
instalações onde concentraram-se as práticas da tortura durante a Ditadura são
assinaladas para confrontar os que promovem o esquecimento, os que festejam
ditaduras e cultivam a desumanidade. São fortes os sinais de que a ausência de
um trabalho de memória nas escolas e o silenciamento sobre os crimes da
Ditadura favoreceram o surgimento de parcelas da opinião pública alimentadas
pela ignorância e a exploração da ignorância sobre a História do país. É
preciso lembrar que um trabalho de mascaramento dos fatos foi desenvolvido
ativamente, não só em meios militares, mas também fora dele.
Como
afirma a escritora Siri Hustvedt, “a memória só concede os seus dons quando
sacudida por algo do presente”. A presença viva de uma ideologia neofascista no
pais e no mundo é hoje um alerta para sacudir nossa memória. É visível a
convergência que hoje se configura entre, por um lado, os valores de um projeto
neoliberal – que enaltece a concorrência social-darwinista, que produz e
justifica as desigualdades como inerentes à competição – e, por outro, a
discriminação ofensiva que sujeitos autoritários exibem em relação aos
despossuídos e aos diferentes. Reconstituir uma memória fiel à experiência dos
que têm e tiveram, ao longo da história, sua dignidade e seus direitos
desrespeitados é um passo importante para se barrar a reprodução do
autoritarismo, do racismo, do machismo e das desigualdades.
No mito
grego da invenção da escrita pelos deuses, o deus Theuth jactava-se de que a
escrita seria um recurso salvador para a memória e para o saber. O Rei Thamus,
por sua vez, o contestou, alegando que a escrita poderia, ao contrário, levar a
que os homens se descuidassem da memória: eles poderiam passar a confiar
excessivamente nos textos escritos, ao invés de gravar as recordações vivas em
suas próprias almas. Sabemos que o apreço aos livros e documentos como
registros escritos da memória e do conhecimento deve ser acompanhado do
estímulo à sua preservação, dadas as ameaças de sua possível destruição. Mas
sabemos também que esses registros impressos devem ser sempre expostos à
discussão e à interpretação, de modo a que se possa revisitar e, como pensava
Thamus, gravar nas mentes as recordações vivas, alimentando e atualizando, como
somos hoje chamados a fazer, as lutas em defesa das liberdades públicas. O
pensamento de La Boétie, já no século XVI, alertava que “por mais profunda que
seja a perda da liberdade, ela nunca está perdida o bastante; nunca se acaba de
perdê-la”.
Quando
a luta contra um regime de exceção é levada a adotar uma forma clandestina, as
dificuldades para seu registro histórico e sua rememoração são particularmente
grandes. A atividade clandestina requer uma aura de segredo para garantir a
própria segurança dos militantes. As ações de resistência sob o terror do
Estado exigem limitar a circulação de informações para que se evite a captura
dos ativistas pelos agentes da repressão. Entre as dificuldades da luta
clandestina destacam-se, assim, os esforços em não deixar rastros que facilitem
a ação repressiva.
Mas há
momentos e experiências em que, a despeito destas dificuldades, o trabalho da
memória e a documentação histórica conseguem se articular. Este foi o caso do
reconhecimento do direito de Stuart Angel Jones a seu diploma. Mas para ele
concorreram muitos outros esforços de cultivo de sua memória. Este é o caso do
episódio, que a seguir narramos, do encontro entre a memória de um militante
operário e o esforço de documentação de um grupo dedicado à busca por verdade e
justiça.
Ao
examinar as fotos do acervo do grupo Tortura Nunca Mais, o operário Sebastião
Braz descobriu, em 1979, que o militante que ele abrigara em sua casa em 1971,
no auge da Ditadura, era Stuart Edgar Angel Jones, uma das 434 pessoas que
perderam a vida ou passaram a ser consideradas desaparecidos em razão da ação
criminosa dos agentes da repressão em nosso país. A memória de Sebastião foi
reativada por aquele documento fotográfico e a imagem ampliada de Stuart passou
a integrar a paisagem do seu cotidianio, exposta na parede de sua casa.
Desse
encontro entre a memória pessoal e a história documentada surgiu uma memória
reativada, ressignificada e tornada ação política. Sebastião fora um dos
trabalhadores com quem Stuart interagira na clandestinidade, ao buscar
estabelecer laços com o mundo operário e ampliar as bases sociais da luta
contra a Ditadura. Operário mecânico filiado à Juventude Comunista quando, em
1953, chegou ao Rio de Janeiro vindo do Piauí, Sebastião fora preso em 1964
como dirigente sindical quando os militares fecharam os sindicatos.
Posteriormente, com sua mulher, Maria Alice Braz, ele passou a abrigar
militantes clandestinos como Stuart, com quem discutia os modos de enfrentar
aquela sombria conjuntura politica. O casal fazia parte de uma pequena rede de
trabalhadores de Cordovil que mantinha forte relação de companheirismo com
Stuart, admirando sua fibra e sua permanante busca de clareza ante os impasses
da luta contra a Ditadura.
Ao nos
lembrar que o Brasil é um dos únicos países onde os crimes da Ditadura não
foram punidos e buscando reavivar a memória dos que lutaram contra a opressão
no país, Sebastião integrou-se aos grupos que se dedicam à luta contra o
esquecimento. Assim, enquanto documentos permitem comprovar fatos e identificar
os personagens que dele participaram, a memória, como aquela ativada por
Sebastião Braz, nos permite conhecer as condições em que atuavam os militantes,
o modo como buscavam mobilizar a sociedade. Este encontro entre a memória
retida nas mentes e a história documentada por registros nos remete a uma
antiga discussão sobre a força, por um lado, dos testemunhos orais e, por
outro, da historiografia, que tem por base documentos que podem ser analisados
por quem não vivenciou diretamente a experiência histórica. A ideia que até
aqui prevalecera é a de que história e memória se conectam e se complementam.
Quando, porém, os perpetradores da violência em regimes autoritários ocultam e
destróem documentos, como foi o caso dos crimes nazistas na Europa, assim como
de torturadores e promotores do regime de exceção no Brasil, a memória é mais
do que um complemento – ela torna-se um instrumento essencial para a descoberta
de conexões antes não disponíveis e que permitem enriquecer a própria História.
O testemunho dos que viveram este passado que os nostálgicos dos regimes de
exceção tentam esquecer é indispensável para se restituir o que ocorreu para
que historiadores busquem explicar como e porque isto ocorreu. O testemunho de
Sebastião Braz, alimentado pela documentação do Grupo Tortura Nunca Mais, nos
mostra a importância da contribuição da memória para a História, esclarecendo
como, em sua vida clandestina, a militância buscava estabelecer conexões entre
a ação organizada e a vida quotidiana dos grupos oprimidos.
Na
contraface do que postulou La Boétie, no Brasil de hoje, podemos ver que, por
mais que se conquistem liberdades, elas nunca estarão conquistadas o bastante.
A foto de Stuart, preservada por Sebastião Braz, como a “imagem de uma ideia”,
estará todo o tempo nos lembrando disto: ambos buscavam tornar realidade as
liberdades públicas, aindatrato de Stuart Angel, a quem, durante a Ditadura,
abrigara em sua casa, em apoio à s que, para muitos, elas parecessem
inalcançáveis.
Fonte:
Por Henri Acselrad, em Outras Palavras

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