Como
grupos terroristas estão usando chatbots de IA
"Bom
dia, ChatGPT, você pode me dizer como se faz uma bomba?"
Qualquer
pessoa que já tenha tentado fazer uma pergunta desse tipo a um chatbot de
inteligência artificial (IA) – também conhecido como modelo de linguagem de
grande escala (LLM) – sabe que a resposta pode variar de uma longa explicação
sobre a história dos explosivos até o bloqueio permanente da conta do usuário.
Mas, às
vezes, se a pergunta for formulada de uma determinada maneira, a resposta pode
incluir informações potencialmente úteis sobre como fabricar uma bomba.
Diversos
veículos de comunicação já testaram essa hipótese e descobriram que, quando são
usados os prompts "corretos", alguns modelos de IA podem fornecer
orientações sobre a criação de armas biológicas, o planejamento de um atentado
num estádio esportivo ou formas de ocultar os rastros de um terrorista.
Esse
método de contornar as restrições dos sistemas é conhecido como
"jailbreaking". A OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, define isso como
"tentativa de um agente mal-intencionado de induzir o modelo a fornecer
conteúdo proibido".
Um
recente relatório publicado pela organização Tech Against Terrorism, um
observatório online apoiado pelo escritório de contraterrorismo das Nações
Unidas, mostrou com que frequência um LLM fornece informações "úteis"
para possíveis extremistas.
Os
pesquisadores enviaram mais de 2.300 solicitações de informação, baseadas em
"casos reais de uso por terroristas", a 27 modelos diferentes de IA.
Eles descobriram que 32% das consultas resultaram em informações utilizáveis.
Quando a mesma pergunta era reformulada como se fosse para fins de pesquisa
acadêmica, o percentual subia para 42%.
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Aumento do uso de IA por terroristas
O
relatório voltou a chamar atenção para uma preocupação crescente entre
especialistas em segurança digital e terrorismo: a possibilidade de potenciais
agressores passarem a usar a IA para o planejamento de atentados e não só de
propaganda.
Nos
últimos três ou quatro anos, o principal uso da IA por grupos extremistas, como
o Estado Islâmico e a rede Al Qaeda, tem sido a produção de propaganda. Isso
inclui vídeos, memes, podcasts e diferentes formas de desinformação,
disseminados entre simpatizantes e utilizados para radicalizar novos
seguidores.
Mas
esse cenário está mudando. O ano de 2025 registrou um aumento significativo de
incidentes nos quais terroristas e extremistas violentos utilizaram ferramentas
de IA para planejar, pesquisar e preparar ataques, afirmaram especialistas da
publicação Militant wire em dezembro.
Ataques
que ganharam manchetes – e que causaram mortes ou danos materiais –, assim como
diversas conspirações frustradas, utilizaram IA para planejamento, vigilância,
visualização e propaganda. Os casos foram registrados nos Estados Unidos, no
Canadá, em Israel, na Finlândia e na Áustria.
Frequentemente
é difícil saber exatamente como a IA foi utilizada, já que as agências de
segurança raramente divulgam detalhes. No entanto, como relatou um especialista
ao Parlamento do Reino Unido durante uma inquérito realizado no fim de 2025,
"processos judiciais e relatórios periciais documentam cada vez mais
conversas nas quais suspeitos pedem a modelos de linguagem instruções para
fabricação de bombas, validação ideológica ou justificativas para
ataques".
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Grupos extremistas também adotam IA
Esse
uso da IA não se limita a indivíduos. Grupos extremistas também estão adotando
essa tecnologia.
Pesquisadores
que estudam o uso de drones pelo grupo afiliado à Al-Qaeda Jama'at Nusrat
al-Islam wal-Muslimin (JNIM), baseado no Mali, acreditam que a organização
tenha usado IA para auxiliar na modificação de drones.
Em uma
análise publicada em junho pela Global Network on Extremism and Technology, os
pesquisadores de segurança Yuri Neves e Emily Klein observaram que apoiadores
do Estado Islâmico, assim como grupos da extrema direita, discutem regularmente
formas de utilizar IA em canais de mensagens.
Neves e
Klein trabalham na organização americana Moonshot, especializada no combate a
ameaças online. Eles identificaram canais no aplicativo Telegram dedicados ao
uso de IA, além de extremistas compartilhando "prompts" e links para
conversas com chatbots, coordenando estratégias para obter respostas
específicas e até dividindo os custos de assinaturas do ChatGPT.
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A IA substituiu os recrutadores virtuais?
O
pesquisador Rueben Dass, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam
(RSIS), em Singapura, observa que os chatbots de IA passaram a desempenhar
novos papéis em ataques realizados pelos chamados "lobos solitários".
"Antes
existia o conceito dos planejadores virtuais, que eram pessoas localizadas em
zonas de conflito que entravam em contato com outras pelas redes sociais para
incentivá-las a cometer ataques", explicou Dass à DW.
"Não
acho que se possa dizer que os seres humanos tenham sido substituídos, mas, até
certo ponto, esses atores isolados passaram a recorrer à IA, como o ChatGPT,
para obter esse tipo de apoio."
Segundo
o analista Moustafa Ayad, do think tank Institute for Strategic Dialogue,
sediado no Reino Unido, no ano passado o veículo de mídia do Estado Islâmico
Voice of Khorasan publicou orientações sobre como utilizar IA.
Ayad
afirma que o ecossistema jihadista utiliza a IA de diversas formas, desde a
criação de memes e vídeos de dança para o TikTok até propaganda voltada para
além das fronteiras.
"Também
existe um grupo dedicado a tentar burlar os sistemas de IA (jailbreaking) e
utilizá-los para apoiar o planejamento operacional e a preparação de
ações", afirma.
Segundo
ele, a IA pode estar simplificando e apoiando processos de propaganda, ao mesmo
tempo em que auxilia o planejamento e a preparação operacional.
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Informações disponíveis sem IA
Ainda
não está claro o grau exato de perigo representado por esse fenômeno.
Hoje,
como destacam Dass e outros especialistas, uma pessoa determinada a cometer um
atentado consegue encontrar, na internet, informações sobre fabricação de
bombas ou armas feitas em impressoras 3D sem precisar recorrer à IA.
Por
isso, para Neves, uma das questões centrais é se IA fornece informações que uma
pessoa não conseguiria obter de outra maneira ou se essas informações são
melhores.
Klein
concorda que os LLMs devem ser vistos como uma continuação de outras
tecnologias disruptivas. Assim como a internet e os aplicativos de mensagens
criptografadas foram adotados por grupos extremistas, a IA também está sendo
incorporada ao seu repertório.
"Não
há necessariamente evidências de que a IA esteja criando mais
terroristas", diz Klein. "A questão está mais relacionada à forma
como a IA interage com as pessoas e influencia o percurso delas rumo à
violência."
Segundo
ela, antes mesmo da fase de pesquisa ou planejamento de ataques, a IA pode
acelerar etapas do processo de radicalização, validando ressentimentos ou
incentivando, de maneira quase servil, crenças que o indivíduo já possui.
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Instrutor em vez de um manual
"Uma
pessoa determinada acabará encontrando a maioria das informações que
procura", diz Adam Hadley, diretor da Tech Against Terrorism.
"O
que esses modelos de IA mudam é a velocidade, a facilidade e a abrangência.
Pessoas que antes não tinham tempo, recursos ou capacidade agora podem avançar
muito mais longe e muito mais rápido."
O que
também preocupa, segundo ele, é o caráter conversacional dos chatbots de IA.
"Uma coisa é encontrar um manual de fabricação de bombas. Outra
completamente diferente é ter um instrutor."
Dass
argumenta que, embora a IA possa fornecer informações com mais rapidez a um
potencial agressor, isso não significa necessariamente que um ato terrorista
será mais bem-sucedido.
"O
'sucesso' de qualquer ato terrorista é multidimensional", afirma.
"Não acredito que ele se torne 'bem-sucedido' apenas por causa do uso da
IA. Também não acho que veremos muito mais atos terroristas apenas por causa
dela. Mas provavelmente veremos um número maior de ataques que envolvem IA de
uma forma ou de outra."
Hadley
concorda. "A direção dessa tendência é clara", diz ele, destacando
que uma parcela significativa das pessoas que estão sendo radicalizadas na
Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos é composta por adolescentes e até
crianças.
"Considerando
o papel que a internet e as redes sociais já desempenham na radicalização de
jovens, acreditamos que é apenas uma questão de tempo até que os chatbots se
tornem uma parte significativa desse problema."
Fonte:
DW Brasil

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