A
guerra não vai parar porque a paz se tornou perigosa
A
guerra voltou. Não porque a diplomacia tenha sido abandonada, mas porque já não
consegue agir na velocidade das forças que pretende conter. A trégua de junho
interrompeu parte dos ataques e reabriu negociações. Poucas semanas depois,
Estados Unidos e Irã voltaram a se acusar de violar o entendimento, Washington
retomou a pressão militar e marítima, Teerã respondeu e Ormuz retornou ao
centro do confronto. A política ainda negociava as condições da paz quando a
guerra já havia retomado seu movimento.
Seria
confortável chamar isso de fracasso diplomático. O problema é mais grave.
Enquanto negociadores discutiam textos, garantias e sequências de obrigações, a
guerra continuava trabalhando. O Irã estudava os ataques sofridos, reorganizava
capacidades e procurava reduzir as vulnerabilidades expostas. Israel calculava
quanto dessa capacidade poderia ser reconstruída e em quanto tempo. Washington
media estoques, custos, pressão sobre aliados e o risco de permitir que uma
pausa longa demais devolvesse a Teerã parte do poder que meses de operações
tentaram destruir. Ninguém precisava apertar o gatilho para que o conflito
continuasse em movimento.
Talvez
seja esse o ponto ainda mal compreendido desta guerra: a trégua não suspendeu o
confronto. Transformou o tempo em campo de batalha. Para o Irã, cada dia sem
ataques permite aprender, adaptar e recompor. Para Israel e os Estados Unidos,
cada dia devolvido a Teerã reduz o efeito da destruição que tentaram impor. A
guerra continuou no intervalo porque os dois lados já mediam o silêncio pelo
que seria possível reconstruir dentro dele.
Uma
arquitetura capaz de estabilizar o Oriente Médio exigiria negociar Ormuz,
sanções e garantias de segurança entre atores que organizam suas estratégias
partindo da certeza de que o outro utilizará qualquer concessão para melhorar
sua posição. Isso exige anos, instituições e confiança. A recomposição militar
trabalha em semanas ou meses. O Irã não precisa reconstruir tudo o que perdeu:
basta recuperar capacidade suficiente para voltar a impor custos a uma nova
ofensiva. Israel tampouco precisa eliminar para sempre o poder iraniano, tarefa
provavelmente impossível apenas com bombardeios. Precisa atacar antes que Teerã
atravesse o limite de recomposição que decidiu considerar intolerável.
É aí
que a paz perde a corrida. O tempo necessário para construir uma solução
política tornou-se maior do que o tempo que Israel e seus aliados estão
dispostos a conceder ao Irã. Para Teerã, uma pausa longa significa sobreviver,
reconstruir defesas e reduzir a vulnerabilidade diante de uma nova agressão.
Para Israel, a simples recuperação dessa capacidade é convertida em
justificativa para atacar novamente. O mesmo mês que permite ao Irã reparar o
que foi bombardeado passa a ser tratado por seus agressores como uma ameaça
futura. Cria-se, assim, uma lógica perversa: quanto mais rapidamente o Irã
aprende a sobreviver aos ataques, menor é a janela que Israel se dispõe a
respeitar antes de lançar a ofensiva seguinte.
Por
isso, a paz se tornou perigosa: ela devolve ao adversário aquilo que a guerra
tentou lhe retirar, tempo. Enquanto a política tenta construir garantias, os
militares calculam quanto Teerã já conseguiu reconstruir. Quando esperar passa
a ser tratado como risco estratégico, a diplomacia deixa de disputar apenas
interesses. Passa a disputar o relógio.
A
guerra consome em segundos aquilo que a indústria leva meses ou anos para
reconstruir. Um interceptador desaparece no céu; para substituí-lo, são
necessárias fábricas, componentes e cadeias produtivas que não obedecem ao
tempo do combate. É nesse descompasso que Irã, Ucrânia e Indo-Pacífico se
entrelaçam. O que é consumido hoje no Golfo altera o prazo de sustentação de
outra frente; o que é enviado a Kiev reduz a margem preservada para uma crise
futura no Pacífico. As guerras já não disputam apenas os mesmos estoques. Cada
uma começa a interferir no tempo material das outras, colonizando
antecipadamente recursos que ainda seriam necessários para conflitos que sequer
começaram.
O Irã
entendeu essa assimetria. Teerã não precisa reconstruir, peça por peça, tudo o
que Estados Unidos e Israel destroem. Precisa voltar a impor custos. Pode
perder um sistema e recuperar poder por outra combinação de meios, dispersando
capacidades e adaptando sua resposta às vulnerabilidades reveladas pelo próprio
ataque. Recompor poder não é refazer o arsenal anterior. É tornar a próxima
agressão novamente cara, incerta e difícil de sustentar.
É por
isso que contar alvos destruídos diz cada vez menos sobre o resultado
estratégico da guerra. Estados Unidos e Israel podem degradar instalações e
estoques sem eliminar conhecimento, experiência e capacidade de adaptação. Para
tornar a vulnerabilidade iraniana permanente, seria necessário controlar
fábricas, engenheiros, importações, parceiros e o próprio direito de Teerã
reconstruir suas defesas. A guerra deixa de perseguir apenas o míssil. Passa a
perseguir tudo aquilo que pode fazer outro míssil existir amanhã.
Bombardeios
destroem capacidade; sanções atrasam sua reposição; bloqueios retiram
financiamento; a perseguição a fornecedores corta atalhos. São instrumentos
distintos operando sobre a mesma variável: o tempo. Estados Unidos e Israel
tentam retardar a recomposição iraniana e atacar antes que ela restaure uma
capacidade suficiente de dissuasão. Teerã tenta aprender e adaptar-se antes da
ofensiva seguinte. Destruir já não basta. É preciso impedir que o destruído
volte a produzir poder rápido demais.
É aqui
que China e Rússia entram de forma mais profunda do que sugere a ideia
convencional de apoio ao Irã. Moscou não precisa enviar tropas a Teerã, nem
Pequim declarar guerra aos Estados Unidos. Inteligência, componentes ou
receitas do petróleo podem abreviar a recuperação iraniana. China e Rússia não
precisam fazer o Irã vencer. Basta impedir que a superioridade militar de
Estados Unidos e Israel se transforme em derrota irreversível.
É por
isso que a coerção se espalha. Quando um fornecedor é bloqueado e outro ocupa
seu lugar, o substituto entra no radar. Bancos, empresas e países passam a ser
pressionados pela capacidade de reduzir o tempo de recuperação de Teerã.
Washington já não persegue apenas o poder que o Irã possui, mas tudo aquilo que
possa acelerar o poder que ele terá amanhã. A guerra se globaliza perseguindo
as soluções criadas para sobreviver a ela.
A
Ucrânia expõe a contradição pelo outro lado do tabuleiro. A Rússia tenta
ampliar o tempo de recuperação de Kiev e voltar a pressioná-la antes que a
recomposição se complete. Estados Unidos e OTAN fazem o inverso: armas,
inteligência e financiamento procuram abreviar esse tempo e impedir que Moscou
transforme vantagem material em ruptura definitiva. O mecanismo que Washington
tenta sufocar no Irã é o mesmo que sustenta na Ucrânia. Em Teerã, a
recomposição de quem foi atacado é convertida em ameaça; em Kiev, é reconhecida
como condição legítima de sobrevivência.
Mas as
guerras já não interferem apenas no presente umas das outras. O que é consumido
no Golfo altera prazos de sustentação na Europa; o que é enviado à Ucrânia
reduz margens preservadas para o Indo-Pacífico; a preparação contra a China
imobiliza hoje capacidades reservadas para uma guerra futura. Cada frente
começa a colonizar o futuro material das demais. A arquitetura global dos
Estados Unidos, construída para projetar força simultaneamente em vários
teatros, passa a distribuir escassez entre eles. A questão já não é apenas
quantas guerras Washington consegue travar. É por quanto tempo consegue impedir
que cada uma reduza sua capacidade de sustentar as outras.
É nesse
ponto que a América Latina entra na guerra antes mesmo de chegar ao campo de
batalha. Num sistema pressionado pela velocidade da reposição, países capazes
de abreviar uma escassez tornam-se estratégicos antes de disparar um tiro. O
valor de uma região já não se mede apenas pelo que ela possui, mas pelo tempo
que sua capacidade produtiva pode devolver a um sistema sob pressão. Um Brasil
capaz de redirecionar produção e aprofundar relações com a China reduz o efeito
de interrupções ocorridas a milhares de quilômetros. A disputa, portanto, não é
somente por recursos. É por quem decidirá para onde essa capacidade será
direcionada quando o relógio da escassez começar a correr.
O que
vem pela frente não precisa assumir a forma cinematográfica de uma guerra
mundial declarada. Pode ser mais profundo justamente por ser menos espetacular:
tréguas menores, respostas mais rápidas, ataques contra capacidades ainda em
reconstrução, sanções impostas antes que novos fornecedores amadureçam. A
intensidade de uma frente poderá cair por semanas ou meses enquanto sua
estrutura avança sobre empresas, economias e países cada vez mais distantes do
campo de batalha. A guerra não precisará ocupar todos os territórios. Bastará
reduzir o tempo que separa uma crise da seguinte.
É por
isso que a guerra contra o Irã não encontra hoje uma saída duradoura. Estados
Unidos e Israel não aceitam que Teerã recupere capacidade suficiente para
tornar uma nova agressão excessivamente custosa. O Irã não pode aceitar uma paz
que transforme sua vulnerabilidade em condição permanente e entregue sua
sobrevivência à decisão daqueles que já o atacaram. Sem uma arquitetura de
segurança capaz de romper essa contradição, cada pausa será medida pelo que o
outro conseguirá reconstruir dentro dela.
O
perigo está no desaparecimento progressivo do tempo político. A paz exige
garantias, instituições e confiança; todas exigem tempo. Mas as guerras
entrelaçadas comprimem esse intervalo e fazem esperar parecer mais arriscado do
que agir. Menos tempo para mediação. Menos tempo para que uma trégua produza
uma ordem. Menos tempo para impedir que a preparação substitua a política.
Durante
séculos, aprendemos a imaginar a guerra como ruptura da paz. Talvez estejamos
diante de uma inversão histórica: a pausa tornando-se parte operacional da
própria guerra. É no silêncio que vulnerabilidades são estudadas, capacidades
são recompostas e o próximo limite de tolerância é calculado. A guerra já não
precisa esperar o fracasso definitivo da paz. Pode amadurecer dentro dela.
Enquanto
essas condições materiais permanecerem intactas, a guerra não vai parar. O
tempo necessário para construir a paz tornou-se maior do que o tempo que
Estados Unidos e Israel estão dispostos a conceder à recomposição do Irã.
Quando isso acontece, o primeiro tiro da próxima guerra já não é disparado no
fim da trégua. Ele começa a ser preparado no primeiro dia de silêncio.
¨
Palestina como escudo do colonialismo marroquino. Por
Sayid Marcos Tenório
A
solidariedade do povo marroquino à Palestina é histórica, ampla e legítima. Nas
ruas, nos estádios e nas manifestações populares, milhares de marroquinos têm
reafirmado sua rejeição ao sionismo e seu apoio à libertação palestina.
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Essa
solidariedade, porém, não pode ser confundida com a política da monarquia.
O Reino
do Marrocos procura apropriar-se de um sentimento genuinamente popular para
construir uma imagem de defensor de Jerusalém, enquanto ocupa o Saara Ocidental
e nega ao povo saaraui o mesmo direito à autodeterminação que afirma defender
para os palestinos.
A
contradição é evidente. O Saara Ocidental permanece incluído pela Organização
das Nações Unidas na lista dos territórios não autônomos, isto é, territórios
cujo processo de descolonização ainda não foi concluído.
O
direito do povo saaraui à autodeterminação continua reconhecido
internacionalmente, apesar das tentativas marroquinas de apresentar sua
ocupação como uma questão de “integridade territorial”.
Ao
mesmo tempo, o rei Mohammed VI preside o Comitê Al-Quds da Organização para a
Cooperação Islâmica e utiliza essa posição para projetar-se como protetor de
Jerusalém e dos lugares sagrados islâmicos.
A
monarquia distribui ajuda humanitária, financia organizações e lideranças, faz
discursos em defesa de um Estado palestino e reivindica para si uma autoridade
religiosa sobre a questão.
Não se
trata de negar a importância da ajuda enviada aos palestinos, mas de
compreender sua função política. A causa palestina oferece à monarquia
legitimidade religiosa e popular.
Ao
apresentar o rei como “Comandante dos Fiéis” e guardião de Al-Quds, o regime
marroquino procura neutralizar a indignação provocada por sua cooperação com
“Israel” e encobrir sua própria prática colonial no Saara Ocidental.
Essa
instrumentalização tornou-se ainda mais evidente em dezembro de 2020. Naquele
momento, Marrocos restabeleceu oficialmente suas relações com Israel dentro dos
chamados Acordos de Abraão.
Em
contrapartida, o governo de Donald Trump reconheceu a pretensão marroquina de
soberania sobre o Saara Ocidental, contrariando o processo de descolonização
conduzido pelas Nações Unidas.
Foi uma
troca profundamente reveladora: a monarquia normalizou relações com o Estado
que ocupa a Palestina para conquistar apoio internacional à ocupação do
território saaraui.
Mais
tarde, Israel também reconheceu a reivindicação marroquina sobre o Saara
Ocidental.
Assim,
Palestina e Saara Ocidental foram conectados não pelos movimentos de
libertação, mas por uma negociação entre potências ocupantes.
O
futebol integra essa mesma estratégia.
A
seleção marroquina desperta sentimentos populares autênticos, mas compete sob a
bandeira, o hino e as instituições do Reino. As vitórias esportivas são
apropriadas pela monarquia para fortalecer o nacionalismo oficial, promover
unidade em torno de Mohamed VI e projetar internacionalmente uma imagem
moderna, africana e vitoriosa.
O
investimento em estádios, competições internacionais e influência nas
estruturas do futebol africano transformou o esporte em instrumento
diplomático.
Estudos
e análises recentes apontam que o futebol se tornou parte da política de poder
brando do Reino e de sua campanha para obter apoio às pretensões marroquinas
sobre o Saara Ocidental.
Essa
instrumentalização chegou ao ponto de um clube marroquino utilizar uma camisa
com um mapa que incorporava o Saara Ocidental ao território do Marrocos.
O
Tribunal Arbitral do Esporte considerou que a imagem constituía uma mensagem
política incompatível com as regras esportivas. O episódio mostrou que o
futebol não está separado da disputa colonial, mas é utilizado para naturalizar
uma anexação que permanece sem reconhecimento universal.
Distinguir
o povo marroquino da monarquia é indispensável.
Mas
também é necessário denunciar como o regime colonialista marroquino captura a
religião, a causa palestina e o futebol para legitimar seu poder e apagar o
povo saaraui.
A
Palestina não pode ser transformada em certificado de anticolonialismo para uma
monarquia que pratica o colonialismo e violações dos direitos humanos do povo
saaraui.
A
coerência exige uma posição inequívoca, através da defesa da liberdade para a
Palestina e autodeterminação para o Saara Ocidental.
Nenhuma
bandeira palestina levantada pela monarquia pode esconder o muro, a repressão,
a exploração dos recursos e a ocupação sofrida pelo povo saaraui.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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