O
silêncio estratégico de Lula
Há uma
pergunta que começa a circular entre aliados, adversários e analistas
políticos: por onde anda Lula? O presidente parece ter desaparecido do
noticiário justamente quando a disputa eleitoral entra em sua fase decisiva.
Para quem se acostumou, ao longo de quase quatro anos, a vê-lo inaugurando
obras, anunciando programas sociais, viajando pelo país e ocupando diariamente
o centro do debate político, a ausência chama atenção.
Mas
talvez a pergunta esteja mal formulada. Lula não desapareceu. Apenas deixou de
ocupar o espaço que tradicionalmente pertence aos candidatos. E essa distinção
é muito mais importante do que parece.
Ao
contrário de líderes políticos que confundem governo com campanha permanente,
Lula conhece como poucos o peso institucional da Presidência da República. Em
ano eleitoral, sobretudo após o início das restrições impostas pela legislação,
o presidente precisa reduzir a exposição pública para evitar que a máquina do
Estado seja confundida com instrumento de propaganda política.
Essa
dimensão jurídica explica parte do fenômeno. Mas explica apenas parte.
O que
se observa é também uma decisão política.
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Governar enquanto outros disputam
Durante
meses, Lula percorreu o país inaugurando universidades, hospitais, conjuntos
habitacionais, obras de infraestrutura e anunciando investimentos públicos. O
governo procurou acelerar entregas e consolidar resultados antes do período em
que a agenda presidencial naturalmente se tornaria mais restrita.
Agora a
lógica mudou.
A
campanha passou a ser conduzida pelos partidos, pelos candidatos e pelas
lideranças regionais. O presidente continua governando. Essa mudança produz um
curioso efeito de percepção.
Como
Lula deixou de aparecer diariamente em cerimônias públicas, muitos concluem que
desapareceu. Na realidade, permanece despachando, reunindo ministros,
coordenando políticas públicas, negociando projetos com o Congresso,
acompanhando a economia e administrando os desafios cotidianos do país. Apenas
deixou de transformar essas atividades em espetáculo permanente.
Em
tempos dominados pelas redes sociais, essa talvez seja uma das maiores
diferenças entre governar e produzir conteúdo.
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Nem toda liderança precisa ocupar todas as manchetes
Vivemos
numa época em que muitos governantes passaram a acreditar que visibilidade
permanente equivale à liderança.
Donald
Trump transformou a Presidência dos Estados Unidos em um fluxo contínuo de
declarações, confrontos e anúncios. Jair Bolsonaro fez das transmissões ao vivo
e das polêmicas diárias uma estratégia permanente de mobilização política. Em
ambos os casos, a ocupação constante do espaço público tornou-se parte
essencial da forma de exercer o poder.
Nessa
lógica, desaparecer do noticiário seria interpretado como sinal de fraqueza.
Lula
parece seguir um caminho diferente.
Sua
liderança foi construída muito antes da era das redes sociais. Nasceu das
greves do ABC, das negociações sindicais, das caravanas pelo país e da
capacidade de estabelecer diálogo com diferentes setores da sociedade. Sua
força política nunca dependeu exclusivamente da intensidade da exposição
midiática.
Existe
aí uma concepção distinta de comunicação.
Nem
todo silêncio representa ausência. Em determinados momentos, significa
exatamente o contrário: confiança suficiente para não transformar cada dia de
governo em um evento político.
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Preservar o principal ativo político
Há
ainda uma razão política que ajuda a compreender esse momento.
Lula
continua sendo o principal patrimônio eleitoral do campo democrático e
progressista brasileiro. Independentemente do desempenho dos candidatos
aliados, sua liderança permanece como o maior fator de agregação das forças que
sustentam o atual governo.
Justamente
por isso, faz sentido preservar esse capital político.
A
política ensina que nem sempre o melhor estrategista é aquele que está
permanentemente em campo. Em campanhas eleitorais, lideranças de grande
prestígio costumam escolher cuidadosamente quando falar e quando permanecer em
segundo plano. Quanto mais rara é uma intervenção, maior tende a ser seu
impacto.
Talvez
seja exatamente essa a lógica adotada pelo Palácio do Planalto.
Em vez
de permitir que o presidente seja diariamente arrastado para o terreno das
polêmicas produzidas pela oposição, o governo parece reservar sua intervenção
para momentos realmente decisivos, quando sua palavra puder reorganizar o
debate nacional.
Isso
não significa afastamento.
Significa
administração inteligente de um dos ativos políticos mais importantes da
democracia brasileira.
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O centro da disputa mudou
Outro
elemento ajuda a explicar a impressão de vazio. O foco da cobertura política
deslocou-se. As manchetes passaram a girar em torno de candidaturas
alternativas, das pesquisas eleitorais, das alianças partidárias, das decisões
da Justiça Eleitoral e das movimentações da oposição.
É
natural. Campanhas tendem a monopolizar a atenção da imprensa.
Enquanto
isso, a rotina administrativa perde espaço.
Presidentes
em fim de mandato frequentemente deixam de ocupar o centro do noticiário para
abrir espaço à competição eleitoral.
A
diferença é que, no Brasil contemporâneo, acostumou-se a associar política à
produção permanente de conflitos. Quando o presidente reduz a temperatura da
comunicação, instala-se a falsa impressão de que nada está acontecendo.
Na
verdade, apenas mudou o palco principal da disputa.
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O contraste com a oposição
Existe
ainda um aspecto que merece atenção.
Grande
parte da estratégia da oposição depende de manter Lula permanentemente no
centro dos ataques políticos. Quanto maior a exposição cotidiana do presidente,
maiores as oportunidades para produzir controvérsias, alimentar conflitos e
transformar qualquer declaração em combustível para as redes sociais. Ao
reduzir voluntariamente sua presença no debate diário, Lula altera essa
dinâmica.
A
oposição continua necessitando de um adversário permanente, mas encontra um
presidente menos disposto a responder a cada provocação.
Isso
obriga seus adversários a concentrarem esforços na construção de propostas,
alianças e candidaturas próprias, tarefa muito mais difícil do que simplesmente
reagir às declarações do chefe do Executivo.
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Os riscos do silêncio
Naturalmente,
nenhuma estratégia é isenta de riscos.
A
velocidade das redes sociais permite que informações falsas, desinformação e
narrativas distorcidas circulem em poucos minutos.
Ausências
prolongadas podem abrir espaço para que adversários ocupem sozinhos
determinados temas ou tentem definir a agenda pública.
O
governo certamente conhece esse risco.
Por
isso, dificilmente Lula permanecerá distante do debate durante toda a campanha.
Sua presença deverá crescer à medida que os temas decisivos para o país
exigirem posicionamentos mais firmes e que a disputa eleitoral entrar em sua
reta final.
O
silêncio, portanto, não deve ser confundido com passividade.
É uma
pausa estratégica, não uma retirada.
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Enquanto isso, a oposição enfrenta seus próprios problemas
O
aparente silêncio de Lula coincide com um período em que a oposição
bolsonarista enfrenta dificuldades para controlar a própria agenda. Em vez de
impor ao governo temas capazes de mobilizar a sociedade, boa parte do debate
passou a ser ocupada por questões que atingem o próprio campo conservador, como
as investigações envolvendo o Banco Master, as relações escandalosas entre
figuras centrais da oposição e o sistema financeiro e as controvérsias sobre a
atuação de seus principais líderes.
A
estratégia tradicional do bolsonarismo sempre consistiu em manter Lula
permanentemente no centro do confronto político. Quanto mais o debate girasse
em torno do presidente, maior seria a possibilidade de desgastar sua imagem.
Mas, ao reduzir sua exposição, Lula acaba deslocando a atenção para aquilo que
a oposição preferiria evitar: suas próprias contradições, divisões internas e
episódios ainda pendentes de esclarecimento perante a opinião pública.
Nesse
contexto, o caso Master ganha importância política. Independentemente dos
desdobramentos jurídicos, ele introduziu no debate público perguntas incômodas
sobre as relações entre setores do mercado financeiro, grupos políticos e
interesses privados. Para uma oposição que construiu parte de seu discurso na
defesa da moralidade administrativa, o episódio dificulta a manutenção dessa
narrativa e desloca parte do foco para seus próprios vínculos e
responsabilidades.
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Quando o silêncio também comunica
Existe
uma antiga máxima segundo a qual a política é feita tanto de palavras quanto de
gestos. Talvez seja preciso acrescentar uma terceira dimensão. Às vezes, ela
também é feita de silêncios.
O
aparente desaparecimento de Lula do noticiário parece refletir menos uma
ausência e mais uma compreensão madura do papel institucional da Presidência da
República. Em vez de disputar diariamente cada manchete, o presidente parece
apostar que sua principal contribuição para a eleição será preservar a
autoridade construída ao longo do mandato e permitir que o governo seja julgado
pelos resultados entregues à população.
Num
tempo em que muitos líderes confundem política com espetáculo permanente, essa
opção merece reflexão. Governar não significa ocupar todos os espaços de mídia,
responder a todas as provocações ou transformar cada dia em um confronto.
Há
momentos em que a melhor estratégia consiste justamente em permitir que as
realizações falem mais alto do que os discursos.
Se essa
aposta produzirá os resultados eleitorais esperados, somente as urnas poderão
responder. Mas ela já revela algo importante sobre a concepção de liderança de
Lula. Enquanto muitos acreditam que o poder depende da exposição permanente,
ele parece apostar que a verdadeira autoridade não se mede pelo número de
manchetes, mas pela capacidade de escolher o momento certo para voltar ao
centro da cena política.
Talvez,
por isso, Lula não tenha desaparecido. Apenas compreendeu que, em determinados
momentos, o maior erro de um governo é permitir que seus adversários escolham o
terreno da disputa. Enquanto a oposição tenta sobreviver às próprias
dificuldades e reorganizar seu discurso, o presidente parece apostar que
chegará à reta final da campanha com aquilo que considera seu maior patrimônio
político: um governo para defender e uma oposição obrigada a explicar seus
próprios problemas.
Existe
uma ironia nesse momento da política brasileira. Durante anos, o bolsonarismo
construiu sua estratégia sobre a ocupação permanente do espaço público,
convencido de que dominar o noticiário significava dominar a política. Hoje,
quando Lula decide falar menos, são justamente seus adversários que monopolizam
as manchetes — não por sua capacidade de liderar o debate nacional, mas pelas
dificuldades de liderar a si próprios. Talvez aí resida a principal diferença
entre campanha permanente e exercício do governo. Um produz ruído. O outro pode
produzir resultados.
Fonte:
Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

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