Milei,
mesmo em baixa, quer liderar extrema direita latino-americana, mas analistas
apontam limites estratégicos
O presidente argentino Javier Milei avança na
organização de uma cúpula da direita que pretende reunir chefes de Estado e
lideranças políticas regionais e internacionais alinhadas ao seu projeto
ideológico de combate ao que chama de “socialismo do Século 21” e ao movimento
identitário conhecido como “woke” – ou o que se conhece no Brasil como
“lacração”. Segundo apoiadores do presidente argentino, sua agenda aponta a
tentar transformá-lo em uma espécie de fiador de uma aliança estratégica capaz
de contrabalançar governos de esquerda e centro-esquerda na região e, ao mesmo
tempo, reforçar o alinhamento do bloco com o governo dos Estados Unidos, sob a
Presidência de Donald Trump. Essa análise se baseia em uma leitura que
considera a América do Sul como um cenário em transformação, no qual líderes de
direita e extrema direita avançam, especialmente após as vitórias eleitorais
conquistadas no primeiro semestre deste ano.
O caso
mais recente é o da Colômbia, onde o advogado Abelardo de la Espriella venceu o
segundo turno presidencial em 21 de junho, por margem bastante apertada, contra
Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente de esquerda Gustavo Petro. De la
Espriella, que recebeu o apoio explícito de Trump durante a campanha, foi
imediatamente saudado nas redes sociais por Milei e pelo presidente do Chile,
José Antonio Kast, além de outras lideranças conservadoras da região.
Alguns
analistas consideram que, apesar da compatibilidade ideológica, faltaria a
Milei densidade política para liderar esse movimento, apontam analistas. Para
especialistas ouvidos por Opera Mundi, o desempenho de “pop star”
cultivado por Milei está longe de garantir impactos eleitorais significativos
em outros países. O presidente argentino anunciou recentemente uma agenda para
a América Latina, a mais intensa desde que assumiu o cargo, em dezembro de
2023. As viagens incluem Brasil, Peru e Colômbia – os dois últimos elegeram
recentemente presidentes de extrema direita.
No caso
brasileiro, Milei não
esconde sua preferência pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro, nem sua
proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), condenado opelo
Superior Tribunal Federal (STF) por liderar uma tentativa de golpe de Estado,
em trama que se desenvolveu desde a derrota eleitoral em outubro de 2022 até os
atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
<><>
‘Não tem qualidade de líder’
O
cientista político argentino Lucas Romero, que estuda a ascensão do libertário
argentino, foi taxativo ao avaliar as pretensões de liderança regional de
Milei. “Ele não tem qualidade de líder. Não tem qualidade estratégica como
político, nem experiência em liderar. Isso é justamente o contrário do que
seria necessário para exercer uma liderança regional, mesmo que contasse com
uma equipe qualificada ao seu redor”, observa.
Segundo
o especialista, o que sustenta a projeção internacional de Milei é menos um
projeto de liderança institucional e mais a construção de uma marca pessoal. “Ele
busca promover sua imagem globalmente como referência das ideias libertárias e
encontra espaço para isso por conta de sua excentricidade. Acaba sendo uma
figura à qual outros líderes recorrem por sua capacidade de atrair a atenção de
determinados segmentos do público”, acrescenta Romero.
De
acordo com o cientista político Diego Reynoso, pesquisador do Conselho Nacional
de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet, por sua sigla em
espanhol), Milei tornou-se uma referência simbólica para setores da direita
latino-americana, mas não necessariamente uma liderança regional. “O que ele
oferece é uma forma de interpelar os eleitores decepcionados com os sistemas
políticos tradicionais de seus países”, ponderou.
Na
avaliação de Reynoso, a principal influência de Milei está na chamada batalha
cultural, agenda que o presidente argentino defende com convicção quase
religiosa.
É
justamente nesse terreno que se encontra sua maior afinidade com Donald Trump.
Na área econômica, porém, as diferenças são relevantes. “Embora ambos defendem
políticas pró-mercado, Milei é muito menos protecionista do que o presidente
norte-americano”, ressalta Reynoso.
Na
avaliação do acadêmico, a influência de Milei sobre candidaturas de direita na
região ocorre de maneira mais pragmática do que estrutural. “Os candidatos que
buscam se aproximar de sua imagem procuram transmitir legitimidade a
determinados segmentos do eleitorado. A influência existe, mas não se traduz,
ao menos até agora, em mecanismos mais complexos de coordenação econômica ou de
incidência política direta”, analisa.
Ainda
assim, o pesquisador considera inegável a consolidação de um bloco ideológico
de direita na América Latina. “Estamos assistindo esse processo, ainda que
formado por lideranças que compartilham sobretudo estratégias de comunicação e
a batalha cultural. Ainda é cedo, no entanto, para afirmar se isso resultará em
uma agenda comum de políticas públicas ou em formas mais profundas de
integração”, resume Reynoso.
<><>
Vínculo ‘subsidiário’
Para
Lucas Romero, o protagonismo de Milei na articulação da direita
latino-americana está diretamente ligado ao alinhamento argentino com a Casa
Branca.
“O
vínculo com Trump é subsidiário. Milei oferece abertura total à agenda dos Estados Unidos na
Argentina em
troca de apoio diante das turbulências econômicas do país. Os Estados Unidos
têm interesses estratégicos em recursos argentinos”, afirma o pesquisador,
referindo-se às reservas de lítio (minérios), ao petróleo e gás da jazida de
Vaca Muerta e ao controle marítimo e geopolítico para conter a China.
Fontes
em Buenos Aires ouvidas pela reportagem confirmam que a intenção do governo
argentino é atuar em sintonia com a política externa da administração Trump –
algo que Milei já vem demonstrando desde o início do mandato, tanto em fóruns
multilaterais quanto em decisões de política econômica e comercial.
Dentro
do próprio partido de extrema direita A Liberdade Avança, militantes descrevem
presidente argentino, fundador da legenda, como um “líder natural”, capaz de
comandar esse bloco ideológico na América Latina. Fora do núcleo governista,
entretanto, essa avaliação é bem menos consensual.
<><>
Interesses de Trump
Para
Romero, a própria lógica da relação de Trump com a região dificulta a
consolidação de qualquer liderança intermediária.
“Não é
conveniente para Trump que exista um representante único deste bloco ideológico
na América Latina. É importante para ele que a relação permaneça centralizada
em sua própria figura. Não vejo condições objetivas para que alguém assuma essa
liderança”, comenta.
Na
leitura do especialista, nem mesmo o presidente salvadorenho Nayib Bukele –
apesar do prestígio acumulado entre setores da direita internacional, por sua
política de segurança e da proximidade pessoal com Milei – reuniria condições
para ocupar esse papel.
“Javier
Milei não tem atributos típicos de uma liderança regional. Falta-lhe
experiência na condução de grandes estruturas políticas, capacidade de
articulação estratégica e redes consolidadas de apoio. Sua trajetória é marcada
muito mais pela construção de uma figura pública disruptiva do que pela
formação de coalizões duradouras. Esse perfil está distante do que
historicamente se observa em lideranças capazes de coordenar projetos políticos
supranacionais”, argumenta Romero.
<><>
Sem definições
A
cúpula da direita idealizada por Milei ainda não tem data definida, sede
confirmada nem lista oficial de convidados divulgada publicamente.
O que
parece mais claro, contudo, é que a ascensão de governos de direita na América
Latina constitui um fenômeno concreto.
Já a
ideia de que Milei possa se tornar o “líder natural” deste movimento permanece,
por enquanto, mais associada ao discurso de seus aliados do que a uma avaliação
compartilhada no campo político, pelo menos por enquanto.
¨
Avançam as investigações na Argentina sobre corrupção de
Milei com criptomoedas
As
investigações sobre o escândalo envolvendo a criptomoeda $LIBRA e o
presidente argentino Javier Milei ganharam um novo capítulo. Segundo
informações do canal argentino C5N, a Justiça Federal determinou o
congelamento de dezenas de carteiras de criptomoedas supostamente ligadas ao
esquema sob investigação e ordenou que grandes plataformas internacionais do
setor revelem a identidade dos titulares das contas, numa tentativa de
reconstruir o caminho percorrido pelos recursos.
Play
Video
A
decisão foi tomada pelo juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, a pedido
do procurador Eduardo Taiano, com base em um amplo relatório elaborado
pelo Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal argentina.
O documento reconstrói o fluxo dos ativos digitais desde as chamadas “Team
Libra Wallets” até diversas plataformas internacionais de negociação de
criptomoedas.
Na
decisão, o magistrado afirma que existem elementos suficientes para justificar
a medida cautelar, uma vez que estão presentes tanto a “verossimilhança do
direito quanto o perigo na demora”, requisitos legais para impedir que os
recursos desapareçam antes da conclusão das investigações. Segundo o juiz, o
bloqueio patrimonial busca “garantir a futura execução dos
direitos” e assegurar eventual confisco de bens relacionados aos crimes
investigados, evitando a consolidação do “produto ou proveito obtido de maneira
ilícita”.
<><>
Rota do dinheiro foi reconstruída
O
relatório técnico anexado ao processo descreve uma sequência contínua de
movimentações realizadas na blockchain. Segundo os investigadores, os recursos
partiram das carteiras identificadas como pertencentes ao “Team Libra”,
passaram por diversos endereços intermediários e terminaram em plataformas
internacionais de negociação de criptoativos.
De
acordo com o documento, foi possível reconstruir uma “sequência contínua e
ininterrupta de transações on-chain”, conectando diversas carteiras dentro da
mesma estrutura financeira investigada. Entre as plataformas mencionadas
estão Jup.ag, FixedFloat e deBridge Finance, utilizadas para transferência
e intercâmbio de ativos digitais.
O
relatório conclui que “os elementos obtidos permitem estabelecer uma
vinculação transacional entre os endereços analisados, integrando-os dentro de
uma mesma sequência de movimentos financeiros relacionada com a estrutura
investigada”.
<><>
Justiça aponta indícios de “pitufeo digital”
Outro
aspecto destacado pela decisão judicial é a existência de uma suposta
estratégia conhecida como “pitufeo digital” — ou smurfing,
prática utilizada para dificultar o rastreamento de recursos ilícitos.
Segundo
o juiz, após chegarem a uma conta centralizada, os valores passaram a ser
distribuídos diariamente em pequenas quantias para diversas carteiras
vinculadas a prestadores de serviços de ativos virtuais (VASP), com o objetivo
de converter os recursos em moeda fiduciária ou tornar mais difícil o
acompanhamento das operações.
A
decisão descreve literalmente que houve “uma estratégia de pitufeo digital
ou estruturação (smurfing), consistente na distribuição diária de montantes
fragmentados para múltiplas carteiras vinculadas a casas de câmbio
centralizadas (VASP), com a finalidade de liquidar os ativos em moeda
fiduciária ou dificultar seu rastreamento”.
Investigação
envolve promoção do token por Milei
Ao
resumir o objeto da investigação, o juiz recorda que o processo busca
esclarecer as circunstâncias envolvendo o lançamento e a promoção da
criptomoeda $LIBRA.
Segundo
a denúncia analisada pela Justiça argentina, em 14 de fevereiro de 2025, o
presidente Javier Milei divulgou em sua conta na rede social X uma
publicação promovendo o projeto e indicando o contrato para aquisição do token.
De
acordo com os autos, após essa divulgação o preço da criptomoeda saltou
de US$ 0,01 para quase US$ 5, mas poucas horas depois sofreu um colapso,
permitindo que um pequeno grupo de carteiras retirasse aproximadamente US$
100 milhões.
A
decisão judicial acrescenta que essa operação “teria gerado uma perda de
valor nas posições de mais de quarenta mil pessoas que haviam adquirido o
token” após a publicação presidencial.
<><>
Exchanges terão de revelar dados completos
Além do
congelamento das carteiras, a Justiça determinou que as exchanges Binance,
Bybit, OKX, CoinEx, FixedFloat e Bitfinex entreguem toda a documentação
relacionada às contas investigadas.
Entre
as informações exigidas estão os cadastros completos de identificação dos
clientes (KYC), registros de endereços IP utilizados para acesso, histórico
completo das movimentações de criptomoedas, contas bancárias vinculadas,
endereços empregados para envio e recebimento dos ativos e até memorandos
internos referentes às operações.
Os
pedidos serão executados pelo Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da
Polícia Federal argentina, com apoio da Interpol quando necessário.
Na
fundamentação da medida, o juiz advertiu que o fluxo financeiro já
identificado “poderia gerar consequências irreversíveis para o
desenvolvimento da presente investigação” e concluiu que, diante da
natureza descentralizada das criptomoedas, o congelamento das contas é
necessário “a fim de evitar um prejuízo de impossível reparação
posterior”.
¨
Milei enfrenta queda de popularidade e acumula casos de
corrupção
O
governo de Javier Milei enfrenta o pior momento à frente da Argentina em meio a
escândalos de corrupção, queda nos índices de popularidade e na atividade
econômica e industrial. A inflação, até então principal vitrine política da
Casa Rosada, voltou a acelerar. Após reduzir a inflação mensal de dois dígitos,
no final de 2023, para cerca de 2% ao mês, ao longo de 2025, os índices de
preços voltaram a subir entre o final do ano passado e o início de 2026,
chegando a 3,4% em março deste ano.
A
aceleração recente fez Milei reconhecer dificuldades econômicas publicamente.
“O dado é ruim”, disse em uma rede social.
Ao
mesmo tempo, a atividade econômica na Argentina apresentou uma retração de 2,6%
em fevereiro, se comparado a janeiro, com uma queda acumulada de 2,1% nos
últimos 12 meses. Talvez a situação mais preocupante seja a queda na
produção industrial, que registrou baixa de 4% em fevereiro, acumulando uma
queda de 8,7% nos últimos 12 meses.
O
professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo
Gala comentou que o plano econômico de Milei é “simplista” e não tem dado conta
de reverter completamente à situação econômica que herdou. “As pessoas não
confiam mais no peso. Elas dolarizam os contratos, um pouco parecido com o que
aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a
inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”,
disse.
O
governo de Milei prega a redução do tamanho do Estado, com corte de gastos e
austeridade fiscal, como medidas para conter a inflação e recuperar a economia.
O
economista Gala avalia que o plano de Milei não deve ir muito longe,
argumentando que seriam necessárias outras medidas, como instituir uma nova
moeda.
Ele
destacou ainda que o peso argentino está sobrevalorizado, o que tem, segundo
ele, destruído a indústria do país. “Esse mergulho da atividade
manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento
de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim.
Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco
que restou de indústria na Argentina”, completou.
Para o
especialista, a tendência é a Argentina se desindustrializar cada vez mais,
focando a economia apenas no setor agroexportador de matérias-primas.
“Não
está descartado um cenário de recessão e, possivelmente, nova crise cambial com
enorme dívida em dólares”, analisa Paulo Gala.
A
Argentina tem contraído novos empréstimos com bancos internacionais, em
dólares, para segurar o valor do peso.
Popularidade
– Além da situação econômica difícil, recentes casos de corrupção têm
contribuído para a queda nos índices de popularidade do governo.
Um dos
exemplos é a investigação sobre possível enriquecimento ilícito do chefe de
Gabinete de Milei, Manuel Adorni, que tem tido que se explicar sobre viagens de
luxo e compra e reforma de imóveis que seriam incompatíveis com sua renda.
As
pesquisas de opinião têm registrado índices de desaprovação superiores a 60%,
marcando os piores números desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro de
2023.
A corrupção e o desempenho econômico são os fatores determinantes para a queda
na popularidade.
Segundo
a consultoria Zentrix, 66,6% da população avaliam que se “quebrou” a promessa
“anti-casta” de combate à corrupção de Milei. “A corrupção surge como o
principal desafio do país, mesmo entre aqueles que votaram no partido
governante em 2025, superando o desemprego, a inflação ou os salários”, diz a
empresa de pesquisas de opinião.
O
cientista político argentino Leandro Gabiati explicou à Agência Brasil que
Milei foi eleito muito em cima do discurso de combate à corrupção, o que tem
sido desconstruído ao longo do mandato. “Esse governo colocou a pauta da
corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos
envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete,
que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo,
desgasta o governo e cria problemas”, explicou.
Ao
mesmo tempo, Gabiati diz que a população reconhece a conquista do governo de
reduzir a inflação, porém, pondera que os preços continuam subindo. “Obviamente,
essa inflação, que dá uns 30% a 40% ao ano, é uma inflação importante. Reduzir
demandaria mais esforço, tanto da sociedade, quanto do governo”, diz o
especialista.
Mas o
que tem jogado à favor do governo Milei é a desorganização e a desaprovação da
população em relação à oposição ao governo da Argentina. “Isso aí quer dizer
que o governo terá problemas na eleição presidencial de 2027? Isso é algo que
ainda está muito longe no radar. O governo tem alguns problemas que terá que
resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção
política clara para o eleitor argentino”, avalia.
Fonte:
Opera Mundi/Brasil 247/Monitor Mercantil

Nenhum comentário:
Postar um comentário