quarta-feira, 15 de julho de 2026

Milei, mesmo em baixa, quer liderar extrema direita latino-americana, mas analistas apontam limites estratégicos

O presidente argentino Javier Milei avança na organização de uma cúpula da direita que pretende reunir chefes de Estado e lideranças políticas regionais e internacionais alinhadas ao seu projeto ideológico de combate ao que chama de “socialismo do Século 21” e ao movimento identitário conhecido como “woke” – ou o que se conhece no Brasil como “lacração”. Segundo apoiadores do presidente argentino, sua agenda aponta a tentar transformá-lo em uma espécie de fiador de uma aliança estratégica capaz de contrabalançar governos de esquerda e centro-esquerda na região e, ao mesmo tempo, reforçar o alinhamento do bloco com o governo dos Estados Unidos, sob a Presidência de Donald Trump. Essa análise se baseia em uma leitura que considera a América do Sul como um cenário em transformação, no qual líderes de direita e extrema direita avançam, especialmente após as vitórias eleitorais conquistadas no primeiro semestre deste ano.

O caso mais recente é o da Colômbia, onde o advogado Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno presidencial em 21 de junho, por margem bastante apertada, contra Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente de esquerda Gustavo Petro. De la Espriella, que recebeu o apoio explícito de Trump durante a campanha, foi imediatamente saudado nas redes sociais por Milei e pelo presidente do Chile, José Antonio Kast, além de outras lideranças conservadoras da região.

Alguns analistas consideram que, apesar da compatibilidade ideológica, faltaria a Milei densidade política para liderar esse movimento, apontam analistas. Para especialistas ouvidos por Opera Mundi, o desempenho de “pop star” cultivado por Milei está longe de garantir impactos eleitorais significativos em outros países. O presidente argentino anunciou recentemente uma agenda para a América Latina, a mais intensa desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023. As viagens incluem Brasil, Peru e Colômbia – os dois últimos elegeram recentemente presidentes de extrema direita.

No caso brasileiro, Milei não esconde sua preferência pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro, nem sua proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), condenado opelo Superior Tribunal Federal (STF) por liderar uma tentativa de golpe de Estado, em trama que se desenvolveu desde a derrota eleitoral em outubro de 2022 até os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.

<><> ‘Não tem qualidade de líder’

O cientista político argentino Lucas Romero, que estuda a ascensão do libertário argentino, foi taxativo ao avaliar as pretensões de liderança regional de Milei. “Ele não tem qualidade de líder. Não tem qualidade estratégica como político, nem experiência em liderar. Isso é justamente o contrário do que seria necessário para exercer uma liderança regional, mesmo que contasse com uma equipe qualificada ao seu redor”, observa.

Segundo o especialista, o que sustenta a projeção internacional de Milei é menos um projeto de liderança institucional e mais a construção de uma marca pessoal. “Ele busca promover sua imagem globalmente como referência das ideias libertárias e encontra espaço para isso por conta de sua excentricidade. Acaba sendo uma figura à qual outros líderes recorrem por sua capacidade de atrair a atenção de determinados segmentos do público”, acrescenta Romero.

De acordo com o cientista político Diego Reynoso, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet, por sua sigla em espanhol), Milei tornou-se uma referência simbólica para setores da direita latino-americana, mas não necessariamente uma liderança regional. “O que ele oferece é uma forma de interpelar os eleitores decepcionados com os sistemas políticos tradicionais de seus países”, ponderou.

Na avaliação de Reynoso, a principal influência de Milei está na chamada batalha cultural, agenda que o presidente argentino defende com convicção quase religiosa.

É justamente nesse terreno que se encontra sua maior afinidade com Donald Trump. Na área econômica, porém, as diferenças são relevantes. “Embora ambos defendem políticas pró-mercado, Milei é muito menos protecionista do que o presidente norte-americano”, ressalta Reynoso.

Na avaliação do acadêmico, a influência de Milei sobre candidaturas de direita na região ocorre de maneira mais pragmática do que estrutural. “Os candidatos que buscam se aproximar de sua imagem procuram transmitir legitimidade a determinados segmentos do eleitorado. A influência existe, mas não se traduz, ao menos até agora, em mecanismos mais complexos de coordenação econômica ou de incidência política direta”, analisa.

Ainda assim, o pesquisador considera inegável a consolidação de um bloco ideológico de direita na América Latina. “Estamos assistindo esse processo, ainda que formado por lideranças que compartilham sobretudo estratégias de comunicação e a batalha cultural. Ainda é cedo, no entanto, para afirmar se isso resultará em uma agenda comum de políticas públicas ou em formas mais profundas de integração”, resume Reynoso.

<><> Vínculo ‘subsidiário’

Para Lucas Romero, o protagonismo de Milei na articulação da direita latino-americana está diretamente ligado ao alinhamento argentino com a Casa Branca.

“O vínculo com Trump é subsidiário. Milei oferece abertura total à agenda dos Estados Unidos na Argentina em troca de apoio diante das turbulências econômicas do país. Os Estados Unidos têm interesses estratégicos em recursos argentinos”, afirma o pesquisador, referindo-se às reservas de lítio (minérios), ao petróleo e gás da jazida de Vaca Muerta e ao controle marítimo e geopolítico para conter a China.

Fontes em Buenos Aires ouvidas pela reportagem confirmam que a intenção do governo argentino é atuar em sintonia com a política externa da administração Trump – algo que Milei já vem demonstrando desde o início do mandato, tanto em fóruns multilaterais quanto em decisões de política econômica e comercial.

Dentro do próprio partido de extrema direita A Liberdade Avança, militantes descrevem presidente argentino, fundador da legenda, como um “líder natural”, capaz de comandar esse bloco ideológico na América Latina. Fora do núcleo governista, entretanto, essa avaliação é bem menos consensual.

<><> Interesses de Trump

Para Romero, a própria lógica da relação de Trump com a região dificulta a consolidação de qualquer liderança intermediária.

“Não é conveniente para Trump que exista um representante único deste bloco ideológico na América Latina. É importante para ele que a relação permaneça centralizada em sua própria figura. Não vejo condições objetivas para que alguém assuma essa liderança”, comenta.

Na leitura do especialista, nem mesmo o presidente salvadorenho Nayib Bukele – apesar do prestígio acumulado entre setores da direita internacional, por sua política de segurança e da proximidade pessoal com Milei – reuniria condições para ocupar esse papel.

“Javier Milei não tem atributos típicos de uma liderança regional. Falta-lhe experiência na condução de grandes estruturas políticas, capacidade de articulação estratégica e redes consolidadas de apoio. Sua trajetória é marcada muito mais pela construção de uma figura pública disruptiva do que pela formação de coalizões duradouras. Esse perfil está distante do que historicamente se observa em lideranças capazes de coordenar projetos políticos supranacionais”, argumenta Romero.

<><> Sem definições

A cúpula da direita idealizada por Milei ainda não tem data definida, sede confirmada nem lista oficial de convidados divulgada publicamente.

O que parece mais claro, contudo, é que a ascensão de governos de direita na América Latina constitui um fenômeno concreto.

Já a ideia de que Milei possa se tornar o “líder natural” deste movimento permanece, por enquanto, mais associada ao discurso de seus aliados do que a uma avaliação compartilhada no campo político, pelo menos por enquanto.

¨      Avançam as investigações na Argentina sobre corrupção de Milei com criptomoedas

As investigações sobre o escândalo envolvendo a criptomoeda $LIBRA e o presidente argentino Javier Milei ganharam um novo capítulo. Segundo informações do canal argentino C5N, a Justiça Federal determinou o congelamento de dezenas de carteiras de criptomoedas supostamente ligadas ao esquema sob investigação e ordenou que grandes plataformas internacionais do setor revelem a identidade dos titulares das contas, numa tentativa de reconstruir o caminho percorrido pelos recursos.

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A decisão foi tomada pelo juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, a pedido do procurador Eduardo Taiano, com base em um amplo relatório elaborado pelo Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal argentina. O documento reconstrói o fluxo dos ativos digitais desde as chamadas “Team Libra Wallets” até diversas plataformas internacionais de negociação de criptomoedas.

Na decisão, o magistrado afirma que existem elementos suficientes para justificar a medida cautelar, uma vez que estão presentes tanto a “verossimilhança do direito quanto o perigo na demora”, requisitos legais para impedir que os recursos desapareçam antes da conclusão das investigações. Segundo o juiz, o bloqueio patrimonial busca “garantir a futura execução dos direitos” e assegurar eventual confisco de bens relacionados aos crimes investigados, evitando a consolidação do “produto ou proveito obtido de maneira ilícita”.

<><> Rota do dinheiro foi reconstruída

O relatório técnico anexado ao processo descreve uma sequência contínua de movimentações realizadas na blockchain. Segundo os investigadores, os recursos partiram das carteiras identificadas como pertencentes ao “Team Libra”, passaram por diversos endereços intermediários e terminaram em plataformas internacionais de negociação de criptoativos.

De acordo com o documento, foi possível reconstruir uma “sequência contínua e ininterrupta de transações on-chain”, conectando diversas carteiras dentro da mesma estrutura financeira investigada. Entre as plataformas mencionadas estão Jup.ag, FixedFloat e deBridge Finance, utilizadas para transferência e intercâmbio de ativos digitais.

O relatório conclui que “os elementos obtidos permitem estabelecer uma vinculação transacional entre os endereços analisados, integrando-os dentro de uma mesma sequência de movimentos financeiros relacionada com a estrutura investigada”.

<><> Justiça aponta indícios de “pitufeo digital”

Outro aspecto destacado pela decisão judicial é a existência de uma suposta estratégia conhecida como “pitufeo digital” — ou smurfing, prática utilizada para dificultar o rastreamento de recursos ilícitos.

Segundo o juiz, após chegarem a uma conta centralizada, os valores passaram a ser distribuídos diariamente em pequenas quantias para diversas carteiras vinculadas a prestadores de serviços de ativos virtuais (VASP), com o objetivo de converter os recursos em moeda fiduciária ou tornar mais difícil o acompanhamento das operações.

A decisão descreve literalmente que houve “uma estratégia de pitufeo digital ou estruturação (smurfing), consistente na distribuição diária de montantes fragmentados para múltiplas carteiras vinculadas a casas de câmbio centralizadas (VASP), com a finalidade de liquidar os ativos em moeda fiduciária ou dificultar seu rastreamento”.

Investigação envolve promoção do token por Milei

Ao resumir o objeto da investigação, o juiz recorda que o processo busca esclarecer as circunstâncias envolvendo o lançamento e a promoção da criptomoeda $LIBRA.

Segundo a denúncia analisada pela Justiça argentina, em 14 de fevereiro de 2025, o presidente Javier Milei divulgou em sua conta na rede social X uma publicação promovendo o projeto e indicando o contrato para aquisição do token.

De acordo com os autos, após essa divulgação o preço da criptomoeda saltou de US$ 0,01 para quase US$ 5, mas poucas horas depois sofreu um colapso, permitindo que um pequeno grupo de carteiras retirasse aproximadamente US$ 100 milhões.

A decisão judicial acrescenta que essa operação “teria gerado uma perda de valor nas posições de mais de quarenta mil pessoas que haviam adquirido o token” após a publicação presidencial.

<><> Exchanges terão de revelar dados completos

Além do congelamento das carteiras, a Justiça determinou que as exchanges Binance, Bybit, OKX, CoinEx, FixedFloat e Bitfinex entreguem toda a documentação relacionada às contas investigadas.

Entre as informações exigidas estão os cadastros completos de identificação dos clientes (KYC), registros de endereços IP utilizados para acesso, histórico completo das movimentações de criptomoedas, contas bancárias vinculadas, endereços empregados para envio e recebimento dos ativos e até memorandos internos referentes às operações.

Os pedidos serão executados pelo Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal argentina, com apoio da Interpol quando necessário.

Na fundamentação da medida, o juiz advertiu que o fluxo financeiro já identificado “poderia gerar consequências irreversíveis para o desenvolvimento da presente investigação” e concluiu que, diante da natureza descentralizada das criptomoedas, o congelamento das contas é necessário “a fim de evitar um prejuízo de impossível reparação posterior”.

¨      Milei enfrenta queda de popularidade e acumula casos de corrupção

O governo de Javier Milei enfrenta o pior momento à frente da Argentina em meio a escândalos de corrupção, queda nos índices de popularidade e na atividade econômica e industrial. A inflação, até então principal vitrine política da Casa Rosada, voltou a acelerar. Após reduzir a inflação mensal de dois dígitos, no final de 2023, para cerca de 2% ao mês, ao longo de 2025, os índices de preços voltaram a subir entre o final do ano passado e o início de 2026, chegando a 3,4% em março deste ano.

A aceleração recente fez Milei reconhecer dificuldades econômicas publicamente. “O dado é ruim”, disse em uma rede social.

Ao mesmo tempo, a atividade econômica na Argentina apresentou uma retração de 2,6% em fevereiro, se comparado a janeiro, com uma queda acumulada de 2,1% nos últimos 12 meses. Talvez a situação mais preocupante seja a queda na produção industrial, que registrou baixa de 4% em fevereiro, acumulando uma queda de 8,7% nos últimos 12 meses.

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo Gala comentou que o plano econômico de Milei é “simplista” e não tem dado conta de reverter completamente à situação econômica que herdou. “As pessoas não confiam mais no peso. Elas dolarizam os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, disse.

O governo de Milei prega a redução do tamanho do Estado, com corte de gastos e austeridade fiscal, como medidas para conter a inflação e recuperar a economia.

O economista Gala avalia que o plano de Milei não deve ir muito longe, argumentando que seriam necessárias outras medidas, como instituir uma nova moeda.

Ele destacou ainda que o peso argentino está sobrevalorizado, o que tem, segundo ele, destruído a indústria do país. “Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”, completou.

Para o especialista, a tendência é a Argentina se desindustrializar cada vez mais, focando a economia apenas no setor agroexportador de matérias-primas.

“Não está descartado um cenário de recessão e, possivelmente, nova crise cambial com enorme dívida em dólares”, analisa Paulo Gala.

A Argentina tem contraído novos empréstimos com bancos internacionais, em dólares, para segurar o valor do peso.

Popularidade – Além da situação econômica difícil, recentes casos de corrupção têm contribuído para a queda nos índices de popularidade do governo.

Um dos exemplos é a investigação sobre possível enriquecimento ilícito do chefe de Gabinete de Milei, Manuel Adorni, que tem tido que se explicar sobre viagens de luxo e compra e reforma de imóveis que seriam incompatíveis com sua renda.

As pesquisas de opinião têm registrado índices de desaprovação superiores a 60%, marcando os piores números desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro de 2023. A corrupção e o desempenho econômico são os fatores determinantes para a queda na popularidade.

Segundo a consultoria Zentrix, 66,6% da população avaliam que se “quebrou” a promessa “anti-casta” de combate à corrupção de Milei. “A corrupção surge como o principal desafio do país, mesmo entre aqueles que votaram no partido governante em 2025, superando o desemprego, a inflação ou os salários”, diz a empresa de pesquisas de opinião.

O cientista político argentino Leandro Gabiati explicou à Agência Brasil que Milei foi eleito muito em cima do discurso de combate à corrupção, o que tem sido desconstruído ao longo do mandato. “Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, explicou.

Ao mesmo tempo, Gabiati diz que a população reconhece a conquista do governo de reduzir a inflação, porém, pondera que os preços continuam subindo. “Obviamente, essa inflação, que dá uns 30% a 40% ao ano, é uma inflação importante. Reduzir demandaria mais esforço, tanto da sociedade, quanto do governo”, diz o especialista.

Mas o que tem jogado à favor do governo Milei é a desorganização e a desaprovação da população em relação à oposição ao governo da Argentina. “Isso aí quer dizer que o governo terá problemas na eleição presidencial de 2027? Isso é algo que ainda está muito longe no radar. O governo tem alguns problemas que terá que resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino”, avalia.

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil 247/Monitor Mercantil

 

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