Os
argumentos de Alexandre de Moraes para suspender visitas de Flávio a Bolsonaro
por 90 dias
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu
nesta segunda-feira (13/7) o direito do senador e pré-candidato à Presidência
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL),
por um período de 90 dias.
A
decisão ocorre após Flávio divulgar no sábado (11/7), nas redes sociais, uma
carta escrita por Bolsonaro, em que o ex-presidente afirma que o filho é seu
porta-voz.
Condenado
a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro cumpre pena em
prisão domiciliar desde março.
Com a
suspensão das visitas, Flávio só poderia voltar a se encontrar com o pai após o
primeiro turno das eleições deste ano, marcado para 4 de outubro.
Ao
suspender as visitas, Moraes avaliou que, ao divulgar a carta, Flávio violou
medida cautelar imposta a Bolsonaro que proíbe o ex-presidente de usar redes
sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros.
"Utilizando-se
do seu direito de visita, Flávio Nantes Bolsonaro obteve uma carta do
sentenciado Jair Messias Bolsonaro, com a exclusiva finalidade de divulgá-la
nas redes sociais", escreve Moraes.
"Não
há dúvidas, portanto, que a conduta irregular de Flávio Nantes Bolsonaro
desrespeitou expressa vedação judicial e configurou ostensivo desvio de
finalidade no exercício de seu direito de visita", acrescenta o ministro.
Moraes
afirma ainda que Flávio "é reincidente em sua conduta desrespeitosa às
decisões judiciais", juntamente com Bolsonaro.
Isso
porque, em 3 de agosto de 2025, Bolsonaro participou por telefone de uma
manifestação em Copacabana, no Rio de Janeiro, enquanto cumpria medidas
cautelares, e o material foi replicado nas redes sociais pelo filho, em
postagem depois apagada.
Na
ocasião, a divulgação da mensagem de Bolsonaro levou Moraes a solicitar a
prisão domiciliar do ex-presidente.
Em uma
transmissão ao vivo em seu canal no YouTube na noite desta segunda, Flávio
Bolsonaro acusou Alexandre de Moraes de tentar interferir nas eleições deste
ano e classificou a decisão do ministro como uma "desculpa esfarrapada e
sem pé nem cabeça".
Em nota
enviada ao portal G1, a defesa de Flávio Bolsonaro afirmou que decisão
desrespeita a Constituição e o direito de comunicação entre preso e advogado.
"Dentre
os direitos que o preso possui, estão o de receber visita de seus familiares
(art. 41, inciso X, da Lei de Execução Penal), bem como o de manter comunicação
com o mundo exterior (art. 41, inciso XV, da Lei de Execução Penal). Esses dois
direitos foram retirados do Presidente Jair Bolsonaro na decisão de hoje",
argumentou a defesa.
"Vale
lembrar que o Senador Flávio Bolsonaro é também advogado de seu pai. A
proibição de contato viola, portanto, o direito que o advogado tem de se
comunicar com seu representado (art. 7, inciso III, do Estatuto da
Advocacia)", acrescentou.
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Propaganda eleitoral antecipada
Moraes
considerou ainda que a conduta de Flávio na divulgação da carta pode configurar
propaganda eleitoral antecipada e determinou que isso seja investigado pelo
Ministério Público eleitoral.
"A
conduta de Flávio Bolsonaro, como instrumento de promoção política de sua
pré-candidatura a Presidente da República, com a divulgação de vídeo em rede
social e utilização de expressões com carga semântica equivalente a pedido
explícito de voto pode configurar propaganda eleitoral antecipada em período
vedado pela legislação, devendo ser apurada pelo Ministério Público
eleitoral", escreve o ministro, na decisão desta segunda-feira.
O
ministro observa ainda que a afirmação de Flávio de que carta seria "um
recado" do ex-presidente sugere que Bolsonaro "tinha plena ciência de
que sua carta seria divulgada em redes sociais, o que, configuraria igualmente
desrespeito a medida cautelar a que está submetido, devendo os fatos, portanto,
serem esclarecidos pela Defesa".
Diante
disso, Moraes estabeleceu prazo de 48h para que a defesa de Bolsonaro se
manifeste sobre a possível desobediência a ordem judicial por parte do
ex-presidente.
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Flávio acusa Moraes de tentar interferir nas eleições
Na
noite desta segunda, Flávio Bolsonaro realizou uma transmissão ao vivo em seu
canal do YouTube para falar sobre a decisão de Moraes.
Na
live, ele afirmou que a medida imposta pelo ministro se baseava em uma
"justificativa fajuta", e que configura uma "tentativa de
Alexandre de Moraes de interferir nas eleições deste ano".
"Ele
deixa meu pai incomunicável, sem falar com o próprio filho, por 90 dias. Eu só
poderia voltar a falar com meu pai depois do primeiro turno das eleições deste
ano. Acham que é uma coincidência?", questionou o senador.
Flávio
Bolsonaro também citou outras quatro vezes em que cartas escritas por Jair
Bolsonaro foram tornadas públicas, mas que nenhuma medida foi tomada diante
disso.
Uma
delas foi no Natal, quando o ex-presidente escreveu uma carta confirmando a
indicação de Flávio como pré-candidato à Presidência.
Em
outra situação, em fevereiro de 2026, Bolsonaro escreveu um bilhete com uma
declaração a Michelle, no aniversário de casamento dos dois. A ex-primeira dama
publicou a mensagem nas redes sociais.
"Mas
como é a Michelle que publicou, nenhum poroblema", ironizou Flávio durante
a transmissão.
O
senador ainda afirmou que o objetivo de Moraes é tentar tirar Jair Bolsonaro da
prisão domiciliar e impedir que ele, Flávio, seja candidato à presidência.
"Não
estou descumprindo ordem judicial. Qual a diferença de publicar na minha rede,
no YouTube, na rede da Michelle, dos meus irmãos, no Jornal Nacional? Ele só
quer mais uma desculpinha pra tirar meu pai da domiciliar", afirmou.
"O
que eu percebo é que Alexandre de Moraes quer interferir nas eleições. Quer,
obviamente, que eu não seja candidato. Ele sabe da força que meu pai ainda tem,
sabe da importância de uma manifestação dele a meu favor e quer impedir que
isso aconteça."
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A carta de Bolsonaro
A carta
de Bolsonaro foi publicada no sábado, após embates entre Flávio e a ex-primeira
dama Michelle Bolsonaro.
"Saudoso
do contato com o povo, ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão
para o futuro de todos nós. O momento é de arregaçar as mangas e deixar de lado
possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro", escreveu o ex-presidente.
"Meu
porta-voz no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e
prosperidade", completa Bolsonaro, no documento, lido por Flávio nas redes
sociais.
"Fica-se
muita especulação acontecendo, muitas pessoas que parecem que estão boicotando
até a candidatura, esperando o momento certo para vestir a camisa do Bolsonaro
e ir para rua", comentou Flávio, após a leitura da carta.
"[Quero]
agradecer a ele por estar me colocando como seu porta-voz. Isso é muito
importante para evitar que existam falas conflituosas ou direções diferentes
que porventura alguém possa estar seguindo."
No
sábado à noite, após a divulgação da carta, o vice-líder do governo Lula na
Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (PT-RJ), disse nas redes sociais que o
PT entraria com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a revogação
da prisão domiciliar do ex-presidente. "Jair Bolsonaro está ferindo
medidas cautelares com esse tipo de atitude", disse Lindbergh.
• Bolsonaro pode retornar para a
Papudinha, porque não acontecerá nada. Por Moisés Mendes
Qual a
diferença entre Marcola e Bolsonaro? Marcola não tentou um golpe de Estado,
nunca chefiou militares e, se tivesse oportunidade, certamente romperia uma
tornozeleira eletrônica. O líder do PCC não tem filho candidato, não escreve
cartas políticas e, se escrevesse recados de dentro da cadeia para empoderar
seu sucessor em liberdade, seria mandado para a solitária.
A
semelhança básica entre os dois é que ambos foram condenados como chefes de
organizações criminosas armadas. Mas ninguém imagina que especialistas em
Direito poderiam ser convocados pelos jornalões para saber se Marcola pode ou
não pedir, em mensagem escrita à mão para ser lida nas redes sociais, unidade
total em torno de um filho que assumiu seu legado e seus negócios.
O
Bolsonaro presidiário provoca debates por causa da carta que fez para o filho
livre, por uma distorção da realidade e do suposto status perpétuo de chefe
político. O chefão teria o direito de se manifestar em nome da liberdade de
opinião que atuais ou ex-ocupantes de cargos públicos reclamam como absoluta.
Bolsonaro
teria para sempre o privilégio de ex-presidente acima de qualquer outra
condição? Não. Bolsonaro é um criminoso preso. É seu status atual. Condenado,
encarcerado e beneficiado pela prisão domiciliar por questões humanitárias, mas
criminoso, sem os direitos políticos de poder votar e de ser votado.
Deveria
estar quieto, como Marcola está, e não poderia ser pauta sobre alegadas
controvérsias. Não há polêmica, não há nada impreciso ou nebuloso no fato de
que é um criminoso perigoso condenado a 47 anos de prisão.
Não há
nada escrito em lei alguma indicando que, por ser ex-presidente, Bolsonaro
possa ter regalias ou a preservação do direito de emitir opiniões públicas
sobre a situação do país que ele tentou afundar numa ditadura.
Essa é
a situação do presidiário. Pode jogar cartas com Michelle, como faz todos os
dias, conversar com a mulher sobre a guerra dela com o filho e pode até admitir
que não tem forças para conter o conflito.
Mas não
pode sair dando palpite sobre questões relacionadas com as eleições. Porque
Bolsonaro foi condenado como chefe de uma organização armada que atentou contra
a democracia e perdeu direitos, como qualquer outro presidiário.
E aí
vamos a outra diferença importante entre Marcola e Bolsonaro. Em maio de 2006,
a transferência de líderes do crime organizado para presídios de segurança
máxima provocou uma onda de atentados violentos em São Paulo.
Em
pouco mais de uma semana, morreram 560 pessoas, entre bandidos e pessoas
inocentes, incluindo servidores públicos, em confrontos com a polícia. De
dentro da cadeia, Marcola havia emitido uma ordem para que o PCC disseminasse o
caos. O plano foi chamado de ‘salve geral’.
Foi ouvido porque continua comandando o PCC, mesmo preso desde 1999.
Hoje,
se fosse transferido de volta da mansão em Brasília para a cadeia, Bolsonaro
não provocaria comoção alguma. Como não aconteceu nada quando foi preso. Como
não houve grandes protestos, ao contrário do que anunciavam se prendessem um
general.
Braga
Netto, o mais poderoso general da República da era Bolsonaro, está preso desde
14 de dezembro de 2024. Foi para a cadeia preventivamente, antes da condenação
a 26 anos de prisão. Outros generais estão encarcerados e nada aconteceu.
É uma
diferença decisiva para que se compreenda o poder de ameaçar ou de blefar de
criminosos que mandam em seus asseclas de dentro da prisão. Se Bolsonaro for
preso de novo, será o que é desde a eclosão da guerra familiar. Um presidiário
ainda chefe de facção política, mas incapaz até de conter o conflito da mulher
com o filho ungido.
Alexandre
de Moraes pode contribuir para mais uma vitimização de Bolsonaro, ao impedir
que o filho o visite e se mandá-lo de volta à cadeia? Não. Só Michelle, ao
afrontar sua autoridade dentro da própria casa, pode vitimizá-lo como líder
frouxo de uma extrema direita dividida e alquebrada.
• Flávio Bolsonaro diz que Moraes busca
“uma desculpinha” para mandar seu pai de volta à Papudinha
O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta segunda-feira (13) que o
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes estaria buscando
“uma desculpinha” para retirar Jair Bolsonaro (PL) da prisão domiciliar.
Segundo o G1, as declarações do pré-candidato à Presidência da República foram
feitas durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, após o magistrado
determinar a suspensão das visitas do parlamentar ao pai por 90 dias.
Na
avaliação de Flávio Bolsonaro, a decisão judicial representa uma tentativa de
endurecer as restrições impostas ao ex-mandatário. “O que eu percebo é que mais
uma vez o Alexandre de Moraes quer só uma desculpinha pra tirar o meu pai da
domiciliar que ele se encontra. Gente, não vamos ser ingênuos”, declarou.
Jair
Bolsonaro cumpre prisão domiciliar desde novembro do ano passado, quando passou
a executar pena de 27 anos e três meses de prisão após ser condenado por
liderar uma organização criminosa que tentou promover um golpe de Estado para
mantê-lo no poder após a derrota nas eleições presidenciais de 2022.
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Flávio Bolsonaro critica suspensão das visitas
A
decisão de Alexandre de Moraes impede que Flávio Bolsonaro visite o pai durante
90 dias. Com isso, pai e filho somente poderão voltar a se encontrar após o
primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro.
Durante
a transmissão, o senador classificou a medida como desproporcional e afirmou
que ela busca interferir na disputa eleitoral.
“É
obviamente algo completamente desproporcional, desarrazoado e claramente
configura essa tentativa de Alexandre de Moraes de interferir nas eleições
desse ano […] O que o Alexandre Moraes faz agora é claramente deixar o meu pai
incomunicável. Não por acaso ele toma a decisão, deixando o presidente
Bolsonaro sem falar com o próprio filho. No caso Flávio Bolsonaro, eu por 90
dias, ou seja, eu só poderia voltar a falar com o presidente Bolsonaro após o
primeiro turno das eleições deste ano”, afirmou.
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Decisão cita divulgação de carta
Na
decisão, Alexandre de Moraes, relator da execução penal de Jair Bolsonaro no
STF, sustentou que Flávio Bolsonaro utilizou uma visita ao ex-mandatário para
obter uma carta cuja finalidade exclusiva seria sua divulgação nas redes
sociais, em desacordo com as restrições impostas ao cumprimento da prisão
domiciliar.
O
ministro também destacou que houve reincidência na conduta. Segundo Moraes,
episódio semelhante ocorreu em agosto de 2025 e motivou, à época, a decretação
da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.
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Carta foi divulgada após conflito público
A carta
de Jair Bolsonaro foi divulgada no sábado (11), poucos dias depois de uma troca
pública de acusações entre Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro nas redes sociais.
Ao
justificar a nova restrição, Moraes entendeu que a obtenção e a divulgação do
documento configuraram uma tentativa de contornar as determinações judiciais
impostas ao ex-presidente durante o cumprimento da prisão domiciliar.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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