O
Partido Digital Bolsonarista
Há
momentos em que a política muda de governo. Há outros, muito mais raros, em que
muda de natureza. Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo diante de
nossos olhos. Enquanto a cobertura política brasileira acompanha diariamente a
disputa entre Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Gilberto
Kassab, Valdemar da Costa Neto pela liderança do campo conservador, talvez
esteja deixando escapar a principal novidade da eleição presidencial de 2026.
Ela não
está nos palanques. Nem nas convenções partidárias. Nem mesmo nas pesquisas de
intenção de voto. Ela acontece nas plataformas digitais. Nos algoritmos. Nos
bancos de dados. Na inteligência artificial. E, sobretudo, na transformação
silenciosa da própria forma de fazer política. Talvez o maior equívoco da
cobertura política brasileira seja continuar analisando o bolsonarismo como um
partido tradicional.
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Outra interpretação
Pesquisadores
do Cebrap e da Unicamp alertam que o bolsonarismo deixou de ser apenas um
agrupamento político organizado em torno de um líder. Transformou-se em algo
diferente. Um Partido Digital Bolsonarista. A expressão, apresentada ao grande
público por Marcos Nobre, organizador do livro O Partido Digital Bolsonarista,
ajuda a compreender um fenômeno que desafia jornalistas, cientistas políticos e
os próprios partidos democráticos.
Não se
trata de uma multidão reproduzindo automaticamente ordens vindas de uma
liderança central. Também não se trata de uma massa caótica, em que cada
participante produz conteúdos isoladamente. Existe um processo permanente de
construção coletiva.
Narrativas
são testadas, ajustadas e estabilizadas até se transformarem em padrões aceitos
por todo o ecossistema digital até se estabilizarem como padrões aceitos por
todo um ecossistema digital. Há disputas internas, hierarquias, coordenação e
identidade comum. Há um Partido. Mas um partido cuja principal arena já não é o
diretório municipal, o congresso partidário ou o horário eleitoral gratuito.
Sua arena são as plataformas digitais.
Talvez
essa seja a principal novidade da eleição presidencial de 2026. E talvez ela
ajude a responder uma pergunta que deveria ocupar o centro do debate político
brasileiro.
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A pergunta persiste
Como
explicar que Flávio Bolsonaro continue reunindo cerca de quatro em cada dez
eleitores nas simulações de segundo turno? Como explicar essa resiliência
depois da derrota eleitoral de 2022, das investigações sobre a tentativa de
golpe, da prisão de Jair Bolsonaro, das críticas da imprensa liberal, do
afastamento de setores importantes da direita tradicional.
Apesar
disso tudo, do escândalo Vorcaro e muito mais, Flávio Bolsonaro permanece
competitivo. As explicações tradicionais ajudam a compreender parte desse
fenômeno. A polarização. A rejeição ao PT. A economia. A religião. O
conservadorismo de costumes. Tudo isso pesa. Mas talvez já não seja suficiente.
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Revolução tecnológica
É
justamente nesse ponto que a reflexão do historiador João Cezar de Castro Rocha
ganha importância. Há anos ele sustenta que a extrema direita não pode ser
compreendida apenas por seus líderes, seus partidos ou seus programas.
É
preciso compreender também a revolução tecnológica que transformou a própria
natureza das campanhas eleitorais. Durante mais de um século, campanhas
eleitorais falaram aos cidadãos. Em 2018, isso mudou.
Pela
primeira vez na história republicana brasileira, uma campanha presidencial
passou a dirigir mensagens diferentes para perfis comportamentais distintos,
identificados por meio da economia dos dados e das plataformas digitais.
A
cidadania deixou de ser o destinatário principal da comunicação política. Em
seu lugar surgiram milhões de perfis individuais. Cada grupo passou a receber
mensagens específicas, desenhadas para dialogar com seus medos, seus desejos,
seus ressentimentos e suas crenças. Já não existia uma única campanha. Existiam
milhares de campanhas. Essa transformação tem um nome conhecido.
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Cambridge Analytica
Esta
empresa britânica tornou-se símbolo mundial de uma nova forma de fazer política
ao utilizar dados de milhões de usuários para construir perfis psicológicos e
desenvolver estratégias de comunicação altamente segmentadas.
O
escândalo marcou as eleições de Donald Trump, o referendo do Brexit e mudou
definitivamente a maneira como o mundo passou a olhar para a relação entre
tecnologia, democracia e poder.
Mas
talvez o maior equívoco seja imaginar que a Cambridge Analytica seja o centro
dessa história. Ela foi apenas o primeiro sinal visível de uma transformação
muito maior. A empresa desapareceu. O método permaneceu. E evoluiu.
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Olavo de Carvalho e Steve Bannon
Antes
mesmo da ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República, outro
personagem preparava, a partir dos Estados Unidos, o terreno ideológico sobre o
qual esse novo modelo de comunicação política encontraria abrigo no Brasil.
Radicado nos Estados Unidos desde 2005, Olavo exerceu profunda influência sobre
Jair Bolsonaro e, sobretudo, sobre seus filhos 01, 02 e 03. Mais do que um
conselheiro, tornou-se o principal formulador da visão de mundo que estruturou
o bolsonarismo nascente.
Foi ele
quem difundiu entre seus discípulos conceitos como “guerra cultural”,
“globalismo” e “marxismo cultural”, apresentando a política como um conflito
permanente contra adversários ou inimigos que estariam instalados não apenas
nos partidos, mas também na imprensa, nas universidades, nas artes e nas
próprias instituições democráticas.
Essa
elaboração encontrou grande afinidade com Steve Bannon, estrategista da
campanha de Donald Trump e um dos principais articuladores da nova direita
internacional. Enquanto Olavo oferecia uma doutrina, Bannon oferecia uma
estratégia. Foi dele uma das expressões que melhor sintetizam a nova lógica da
comunicação política: “Flood the zone with shit” (“Inundar o debate com lixo”).
A ideia era simples e, ao mesmo tempo,
devastadora. Produzir simultaneamente um volume tão grande de informações,
polêmicas, controvérsias e conflitos que adversários ou inimigos, jornalistas e instituições perdessem a
capacidade de organizar o debate público. O objetivo deixava de ser vencer um
debate. Passava a ser impedir que qualquer debate permanecesse central.
“Eduardo
é o líder do movimento (ultradireita global) na América Latina.” Foi uma das
citações de Banon sobre Eduardo, após encontro em Washington.
“Eduardo
é um dos nossos. Ele entende o que está em jogo.” Disse Banon sobre o 03 de Jair, representante
nos Estados Unidos do candidato a presidente da República do Brasil, Flávio
Bolsonaro.
Muito
antes da fuga de Eduardo para os EUA, em abril de 2025, as pontes
internacionais com Bannon funcionaram de dentro da Palácio do Planalto durante
o governo Jair Bolsonaro de 2019 a 2003. Investigações da Polícia Federal
atribuiriam a esse núcleo papel central na estrutura que ficou conhecida como
“gabinete do ódio”, equipe comandada por Carlos 02.
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O Partido Digital Bolsonarista
Mais
importante, entretanto, do que discutir a existência formal de um gabinete é
compreender que um ecossistema digital foi efetivamente construído. É
justamente esse ecossistema que Marcos Nobre descreve como Partido Digital
Bolsonarista.
O
Partido Digital não depende de uma única liderança. Como todo partido, possui
disputas internas, lideranças concorrentes, mecanismos de coordenação e
permanentes processos de reorganização. A disputa recente entre Eduardo e
Flávio Bolsonaro contra Michelle e Nikolas Ferreira, mostra precisamente isso.
O
partido digital continua funcionando mesmo quando seus protagonistas disputam
espaço entre si. Talvez resida aí uma das principais explicações para a
extraordinária capacidade de sobrevivência do bolsonarismo. O candidato pode
mudar. As lideranças podem se renovar. A máquina continua funcionando. E ela
opera sobre uma infraestrutura inédita na história da democracia: as Big Techs.
Os algoritmos. Os centros de dados. Os satélites. O smartphone. A inteligência
artificial.
Durante
quase todo o século XX, a política precisava disputar espaço na vida do
cidadão. Era preciso comprar o jornal. Ligar o rádio. Esperar o telejornal. Ir
ao comício. No século XXI, essa lógica foi invertida. A política passou a
acompanhar permanentemente o eleitor por meio do objeto que ele consulta
centenas de vezes por dia. O smartphone.
Pela
primeira vez na história, campanhas eleitorais deixaram de disputar apenas
jornais, emissoras de televisão e praças públicas. Passaram a disputar atenção
permanente dentro da palma da mão de cada cidadão. O smartphone transformou-se
na principal interface entre plataformas digitais, algoritmos, inteligência
artificial e comportamento político. É nesse ambiente que a inteligência
artificial inaugura uma nova etapa.
Se a
Cambridge Analytica mostrou como identificar perfis comportamentais, a IA
amplia exponencialmente a capacidade de produzir conteúdos personalizados,
testar mensagens, analisar reações e adaptar narrativas em tempo real. Mas a
discussão já não se limita às campanhas eleitorais. Ela alcança um tema que,
até pouco tempo atrás, parecia restrito aos especialistas em geopolítica.
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A soberania digital
Em
entrevista recente concedida ao Brasil 247, o pesquisador James Görgen sustenta
que plataformas digitais, centros de dados, satélites, infraestrutura de
comunicação e modelos de inteligência artificial deixaram de ser apenas ativos
econômicos.
Transformaram-se
em instrumentos de projeção de poder. Segundo essa perspectiva, grandes
empresas de tecnologia – as Big Techs – já não atuam apenas como corporações
privadas. Tornaram-se atores da disputa geopolítica contemporânea. Integram a
competição tecnológica entre Nações. A soberania territorial e econômica passa
a depender também da capacidade de um país proteger sua infraestrutura digital,
seus dados e suas redes de comunicação.
Nesse
contexto, eleições, circulação de informações, formação da opinião pública e
proteção das instituições democráticas deixam de ser apenas questões políticas.
Tornam-se também questões de soberania nacional. Talvez seja esse o verdadeiro
desafio da eleição presidencial de 2026.
O
Estado brasileiro, seus partidos, suas instituições e a própria sociedade
compreenderam que a disputa política do século XXI também é uma disputa pela
soberania digital?
Responder
a essa pergunta talvez seja tão importante quanto conhecer o resultado das
urnas. No século XXI, defender a democracia já não significa apenas proteger o
voto.
Significa
também proteger a infraestrutura digital por meio da qual o eleitor é
informado, influenciado e disputado.
• Aliados dizem que Flávio Bolsonaro agiu
sem consultar núcleo jurídico da campanha
Aliados
do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmam que o parlamentar divulgou a carta
escrita por Jair Bolsonaro (PL) sem consultar previamente sua equipe jurídica.
A avaliação foi feita após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender por 90 dias as visitas do senador
ao pai.
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Segundo
o jornal O Globo, interlocutores de Flávio Bolsonaro sustentam que a iniciativa
de escrever e divulgar o documento partiu do próprio ex-mandatário. O objetivo
seria encerrar as disputas em torno de sua sucessão política, incluindo atritos
que vinham envolvendo integrantes da própria família.
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Divulgação da carta motivou decisão de Moraes
A
publicação do documento levou Alexandre de Moraes a suspender temporariamente
as visitas de Flávio Bolsonaro ao ex-mandatário, que está em prisão domiciliar.
Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão no âmbito do
inquérito da trama golpista.
Na
decisão, o ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para
obter um documento cuja finalidade seria sua divulgação nas redes sociais,
burlando a proibição imposta a Bolsonaro de utilizar plataformas digitais,
direta ou indiretamente.
Além da
suspensão das visitas, Moraes determinou que a defesa apresente
esclarecimentos, em 48 horas, sobre eventual conhecimento prévio do
ex-presidente acerca da divulgação da carta. O ministro também encaminhou o
caso ao procurador-geral eleitoral para apurar possível propaganda eleitoral
antecipada.
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Carta foi lida após visita ao ex-mandatário
Antes
de realizar uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Flávio visitou Jair
Bolsonaro na residência onde o ex-mandatário cumpre prisão domiciliar,
procedimento que realizava regularmente quando estava em Brasília.
Ao
deixar o local, o senador iniciou uma live e leu integralmente a carta. Flávio
tem autorização para visitar o pai tanto por ser seu filho quanto por atuar
como advogado constituído do ex-mandatário.
Interlocutores
afirmam que Bolsonaro decidiu escrever o documento porque estava incomodado com
as disputas em torno de sua sucessão, intensificadas pelos atritos entre Flávio
e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Segundo
esses aliados, o senador não cogitou que a leitura pública da carta pudesse
gerar consequências jurídicas para o pai. Eles afirmam que Flávio interpretou o
documento como um gesto de apoio à sua pré-candidatura e, por isso, não
considerou necessário consultar previamente seus advogados.
Na
carta, Jair Bolsonaro pede que seus apoiadores “deixem de lado as possíveis
diferenças” e se unam em torno da pré-candidatura presidencial do filho. Também
o apresenta como seu “porta-voz”, afirma confiar nele para “resgatar o Brasil”
e o define como “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da
violência e do empobrecimento”.
Após a
leitura, Flávio declarou que a carta representava um recado do pai para que
aliados “caíssem dentro” da campanha e “vestissem a camisa” de sua candidatura.
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Defesa contesta decisão do STF
Em
nota, a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro classificou a decisão de Alexandre
de Moraes como “ilegal e inconstitucional”.
Os
advogados sustentam que a medida viola dispositivos da Lei de Execução Penal
que asseguram ao preso o direito de receber visitas de familiares e de manter
comunicação com o mundo exterior.
A
defesa também argumenta que, por atuar como advogado constituído do pai, Flávio
teve comprometido o direito de comunicação entre advogado e cliente, previsto
no Estatuto da Advocacia.
Segundo
a manifestação, serão adotadas as medidas judiciais cabíveis para tentar
reverter a decisão.
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Bastidores revelam avaliações divergentes
Nos
bastidores da campanha, a decisão do STF dividiu opiniões entre aliados do
senador.
Um
grupo avalia que a suspensão das visitas representa um prejuízo político, uma
vez que Jair Bolsonaro seguia participando das articulações sobre alianças
estaduais, formação de palanques e estratégias eleitorais. Caso o prazo fixado
por Moraes seja mantido, Flávio só poderá voltar a visitar o pai após o
primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.
Outra
ala considera que o ex-mandatário já havia transmitido ao filho suas principais
orientações políticas e que o senador poderá conduzir a campanha com maior
autonomia. Na avaliação desses interlocutores, a restrição tende a reduzir a
permanência de Flávio em Brasília e ampliar sua agenda eleitoral pelo país.
Há
ainda aliados que, reservadamente, entendem que a decisão poderá reforçar o
discurso de perseguição judicial explorado pelo bolsonarismo e mobilizar
apoiadores em torno da candidatura de Flávio.
Ao
mesmo tempo, interlocutores reconhecem que a medida atinge diretamente o
objetivo da carta divulgada no último sábado. Na prática, segundo essa
avaliação, o senador deixa de exercer o papel de “porta-voz” atribuído pelo pai
e passa a conviver com o risco de responder por eventual propaganda eleitoral
antecipada.
Aliados
também questionam os fundamentos adotados por Alexandre de Moraes. Segundo a
reportagem, eles citam como precedentes manifestações do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva durante o período em que esteve preso, além de cartas escritas
por Jair Bolsonaro e divulgadas anteriormente por Michelle Bolsonaro, que, de
acordo com esses interlocutores, não produziram consequências semelhantes.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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