quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Partido Digital Bolsonarista

Há momentos em que a política muda de governo. Há outros, muito mais raros, em que muda de natureza. Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo diante de nossos olhos. Enquanto a cobertura política brasileira acompanha diariamente a disputa entre Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab, Valdemar da Costa Neto pela liderança do campo conservador, talvez esteja deixando escapar a principal novidade da eleição presidencial de 2026.

Ela não está nos palanques. Nem nas convenções partidárias. Nem mesmo nas pesquisas de intenção de voto. Ela acontece nas plataformas digitais. Nos algoritmos. Nos bancos de dados. Na inteligência artificial. E, sobretudo, na transformação silenciosa da própria forma de fazer política. Talvez o maior equívoco da cobertura política brasileira seja continuar analisando o bolsonarismo como um partido tradicional.

<><> Outra interpretação

Pesquisadores do Cebrap e da Unicamp alertam que o bolsonarismo deixou de ser apenas um agrupamento político organizado em torno de um líder. Transformou-se em algo diferente. Um Partido Digital Bolsonarista. A expressão, apresentada ao grande público por Marcos Nobre, organizador do livro O Partido Digital Bolsonarista, ajuda a compreender um fenômeno que desafia jornalistas, cientistas políticos e os próprios partidos democráticos.

Não se trata de uma multidão reproduzindo automaticamente ordens vindas de uma liderança central. Também não se trata de uma massa caótica, em que cada participante produz conteúdos isoladamente. Existe um processo permanente de construção coletiva.

Narrativas são testadas, ajustadas e estabilizadas até se transformarem em padrões aceitos por todo o ecossistema digital até se estabilizarem como padrões aceitos por todo um ecossistema digital. Há disputas internas, hierarquias, coordenação e identidade comum. Há um Partido. Mas um partido cuja principal arena já não é o diretório municipal, o congresso partidário ou o horário eleitoral gratuito. Sua arena são as plataformas digitais. 

Talvez essa seja a principal novidade da eleição presidencial de 2026. E talvez ela ajude a responder uma pergunta que deveria ocupar o centro do debate político brasileiro.

<><> A pergunta persiste

Como explicar que Flávio Bolsonaro continue reunindo cerca de quatro em cada dez eleitores nas simulações de segundo turno? Como explicar essa resiliência depois da derrota eleitoral de 2022, das investigações sobre a tentativa de golpe, da prisão de Jair Bolsonaro, das críticas da imprensa liberal, do afastamento de setores importantes da direita tradicional. 

Apesar disso tudo, do escândalo Vorcaro e muito mais, Flávio Bolsonaro permanece competitivo. As explicações tradicionais ajudam a compreender parte desse fenômeno. A polarização. A rejeição ao PT. A economia. A religião. O conservadorismo de costumes. Tudo isso pesa. Mas talvez já não seja suficiente.

<><> Revolução tecnológica

É justamente nesse ponto que a reflexão do historiador João Cezar de Castro Rocha ganha importância. Há anos ele sustenta que a extrema direita não pode ser compreendida apenas por seus líderes, seus partidos ou seus programas.

É preciso compreender também a revolução tecnológica que transformou a própria natureza das campanhas eleitorais. Durante mais de um século, campanhas eleitorais falaram aos cidadãos. Em 2018, isso mudou.

Pela primeira vez na história republicana brasileira, uma campanha presidencial passou a dirigir mensagens diferentes para perfis comportamentais distintos, identificados por meio da economia dos dados e das plataformas digitais.

A cidadania deixou de ser o destinatário principal da comunicação política. Em seu lugar surgiram milhões de perfis individuais. Cada grupo passou a receber mensagens específicas, desenhadas para dialogar com seus medos, seus desejos, seus ressentimentos e suas crenças. Já não existia uma única campanha. Existiam milhares de campanhas. Essa transformação tem um nome conhecido.

<><> Cambridge Analytica

Esta empresa britânica tornou-se símbolo mundial de uma nova forma de fazer política ao utilizar dados de milhões de usuários para construir perfis psicológicos e desenvolver estratégias de comunicação altamente segmentadas.

O escândalo marcou as eleições de Donald Trump, o referendo do Brexit e mudou definitivamente a maneira como o mundo passou a olhar para a relação entre tecnologia, democracia e poder.

Mas talvez o maior equívoco seja imaginar que a Cambridge Analytica seja o centro dessa história. Ela foi apenas o primeiro sinal visível de uma transformação muito maior. A empresa desapareceu. O método permaneceu. E evoluiu.

<><> Olavo de Carvalho e Steve Bannon

Antes mesmo da ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República, outro personagem preparava, a partir dos Estados Unidos, o terreno ideológico sobre o qual esse novo modelo de comunicação política encontraria abrigo no Brasil. Radicado nos Estados Unidos desde 2005, Olavo exerceu profunda influência sobre Jair Bolsonaro e, sobretudo, sobre seus filhos 01, 02 e 03. Mais do que um conselheiro, tornou-se o principal formulador da visão de mundo que estruturou o bolsonarismo nascente. 

Foi ele quem difundiu entre seus discípulos conceitos como “guerra cultural”, “globalismo” e “marxismo cultural”, apresentando a política como um conflito permanente contra adversários ou inimigos que estariam instalados não apenas nos partidos, mas também na imprensa, nas universidades, nas artes e nas próprias instituições democráticas.

Essa elaboração encontrou grande afinidade com Steve Bannon, estrategista da campanha de Donald Trump e um dos principais articuladores da nova direita internacional. Enquanto Olavo oferecia uma doutrina, Bannon oferecia uma estratégia. Foi dele uma das expressões que melhor sintetizam a nova lógica da comunicação política: “Flood the zone with shit” (“Inundar o debate com lixo”).

 A ideia era simples e, ao mesmo tempo, devastadora. Produzir simultaneamente um volume tão grande de informações, polêmicas, controvérsias e conflitos que adversários ou inimigos,  jornalistas e instituições perdessem a capacidade de organizar o debate público. O objetivo deixava de ser vencer um debate. Passava a ser impedir que qualquer debate permanecesse central.

“Eduardo é o líder do movimento (ultradireita global) na América Latina.” Foi uma das citações de Banon sobre Eduardo, após encontro em Washington.

“Eduardo é um dos nossos. Ele entende o que está em jogo.”  Disse Banon sobre o 03 de Jair, representante nos Estados Unidos do candidato a presidente da República do Brasil, Flávio Bolsonaro. 

Muito antes da fuga de Eduardo para os EUA, em abril de 2025, as pontes internacionais com Bannon funcionaram de dentro da Palácio do Planalto durante o governo Jair Bolsonaro de 2019 a 2003. Investigações da Polícia Federal atribuiriam a esse núcleo papel central na estrutura que ficou conhecida como “gabinete do ódio”, equipe comandada por Carlos 02.

<><> O Partido Digital Bolsonarista

Mais importante, entretanto, do que discutir a existência formal de um gabinete é compreender que um ecossistema digital foi efetivamente construído. É justamente esse ecossistema que Marcos Nobre descreve como Partido Digital Bolsonarista.

O Partido Digital não depende de uma única liderança. Como todo partido, possui disputas internas, lideranças concorrentes, mecanismos de coordenação e permanentes processos de reorganização. A disputa recente entre Eduardo e Flávio Bolsonaro contra Michelle e Nikolas Ferreira, mostra precisamente isso.

O partido digital continua funcionando mesmo quando seus protagonistas disputam espaço entre si. Talvez resida aí uma das principais explicações para a extraordinária capacidade de sobrevivência do bolsonarismo. O candidato pode mudar. As lideranças podem se renovar. A máquina continua funcionando. E ela opera sobre uma infraestrutura inédita na história da democracia: as Big Techs. Os algoritmos. Os centros de dados. Os satélites. O smartphone. A inteligência artificial. 

Durante quase todo o século XX, a política precisava disputar espaço na vida do cidadão. Era preciso comprar o jornal. Ligar o rádio. Esperar o telejornal. Ir ao comício. No século XXI, essa lógica foi invertida. A política passou a acompanhar permanentemente o eleitor por meio do objeto que ele consulta centenas de vezes por dia. O smartphone.

Pela primeira vez na história, campanhas eleitorais deixaram de disputar apenas jornais, emissoras de televisão e praças públicas. Passaram a disputar atenção permanente dentro da palma da mão de cada cidadão. O smartphone transformou-se na principal interface entre plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial e comportamento político. É nesse ambiente que a inteligência artificial inaugura uma nova etapa.

Se a Cambridge Analytica mostrou como identificar perfis comportamentais, a IA amplia exponencialmente a capacidade de produzir conteúdos personalizados, testar mensagens, analisar reações e adaptar narrativas em tempo real. Mas a discussão já não se limita às campanhas eleitorais. Ela alcança um tema que, até pouco tempo atrás, parecia restrito aos especialistas em geopolítica.

<><> A soberania digital

Em entrevista recente concedida ao Brasil 247, o pesquisador James Görgen sustenta que plataformas digitais, centros de dados, satélites, infraestrutura de comunicação e modelos de inteligência artificial deixaram de ser apenas ativos econômicos.

Transformaram-se em instrumentos de projeção de poder. Segundo essa perspectiva, grandes empresas de tecnologia – as Big Techs – já não atuam apenas como corporações privadas. Tornaram-se atores da disputa geopolítica contemporânea. Integram a competição tecnológica entre Nações. A soberania territorial e econômica passa a depender também da capacidade de um país proteger sua infraestrutura digital, seus dados e suas redes de comunicação. 

Nesse contexto, eleições, circulação de informações, formação da opinião pública e proteção das instituições democráticas deixam de ser apenas questões políticas. Tornam-se também questões de soberania nacional. Talvez seja esse o verdadeiro desafio da eleição presidencial de 2026.

O Estado brasileiro, seus partidos, suas instituições e a própria sociedade compreenderam que a disputa política do século XXI também é uma disputa pela soberania digital? 

Responder a essa pergunta talvez seja tão importante quanto conhecer o resultado das urnas. No século XXI, defender a democracia já não significa apenas proteger o voto.

Significa também proteger a infraestrutura digital por meio da qual o eleitor é informado, influenciado e disputado.

•        Aliados dizem que Flávio Bolsonaro agiu sem consultar núcleo jurídico da campanha

Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmam que o parlamentar divulgou a carta escrita por Jair Bolsonaro (PL) sem consultar previamente sua equipe jurídica. A avaliação foi feita após a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender por 90 dias as visitas do senador ao pai.

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Segundo o jornal O Globo, interlocutores de Flávio Bolsonaro sustentam que a iniciativa de escrever e divulgar o documento partiu do próprio ex-mandatário. O objetivo seria encerrar as disputas em torno de sua sucessão política, incluindo atritos que vinham envolvendo integrantes da própria família.

<><> Divulgação da carta motivou decisão de Moraes

A publicação do documento levou Alexandre de Moraes a suspender temporariamente as visitas de Flávio Bolsonaro ao ex-mandatário, que está em prisão domiciliar. Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão no âmbito do inquérito da trama golpista.

Na decisão, o ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para obter um documento cuja finalidade seria sua divulgação nas redes sociais, burlando a proibição imposta a Bolsonaro de utilizar plataformas digitais, direta ou indiretamente.

Além da suspensão das visitas, Moraes determinou que a defesa apresente esclarecimentos, em 48 horas, sobre eventual conhecimento prévio do ex-presidente acerca da divulgação da carta. O ministro também encaminhou o caso ao procurador-geral eleitoral para apurar possível propaganda eleitoral antecipada.

<><> Carta foi lida após visita ao ex-mandatário

Antes de realizar uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Flávio visitou Jair Bolsonaro na residência onde o ex-mandatário cumpre prisão domiciliar, procedimento que realizava regularmente quando estava em Brasília.

Ao deixar o local, o senador iniciou uma live e leu integralmente a carta. Flávio tem autorização para visitar o pai tanto por ser seu filho quanto por atuar como advogado constituído do ex-mandatário.

Interlocutores afirmam que Bolsonaro decidiu escrever o documento porque estava incomodado com as disputas em torno de sua sucessão, intensificadas pelos atritos entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Segundo esses aliados, o senador não cogitou que a leitura pública da carta pudesse gerar consequências jurídicas para o pai. Eles afirmam que Flávio interpretou o documento como um gesto de apoio à sua pré-candidatura e, por isso, não considerou necessário consultar previamente seus advogados.

Na carta, Jair Bolsonaro pede que seus apoiadores “deixem de lado as possíveis diferenças” e se unam em torno da pré-candidatura presidencial do filho. Também o apresenta como seu “porta-voz”, afirma confiar nele para “resgatar o Brasil” e o define como “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.

Após a leitura, Flávio declarou que a carta representava um recado do pai para que aliados “caíssem dentro” da campanha e “vestissem a camisa” de sua candidatura.

<><> Defesa contesta decisão do STF

Em nota, a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro classificou a decisão de Alexandre de Moraes como “ilegal e inconstitucional”.

Os advogados sustentam que a medida viola dispositivos da Lei de Execução Penal que asseguram ao preso o direito de receber visitas de familiares e de manter comunicação com o mundo exterior.

A defesa também argumenta que, por atuar como advogado constituído do pai, Flávio teve comprometido o direito de comunicação entre advogado e cliente, previsto no Estatuto da Advocacia.

Segundo a manifestação, serão adotadas as medidas judiciais cabíveis para tentar reverter a decisão.

<><> Bastidores revelam avaliações divergentes

Nos bastidores da campanha, a decisão do STF dividiu opiniões entre aliados do senador.

Um grupo avalia que a suspensão das visitas representa um prejuízo político, uma vez que Jair Bolsonaro seguia participando das articulações sobre alianças estaduais, formação de palanques e estratégias eleitorais. Caso o prazo fixado por Moraes seja mantido, Flávio só poderá voltar a visitar o pai após o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Outra ala considera que o ex-mandatário já havia transmitido ao filho suas principais orientações políticas e que o senador poderá conduzir a campanha com maior autonomia. Na avaliação desses interlocutores, a restrição tende a reduzir a permanência de Flávio em Brasília e ampliar sua agenda eleitoral pelo país.

Há ainda aliados que, reservadamente, entendem que a decisão poderá reforçar o discurso de perseguição judicial explorado pelo bolsonarismo e mobilizar apoiadores em torno da candidatura de Flávio.

Ao mesmo tempo, interlocutores reconhecem que a medida atinge diretamente o objetivo da carta divulgada no último sábado. Na prática, segundo essa avaliação, o senador deixa de exercer o papel de “porta-voz” atribuído pelo pai e passa a conviver com o risco de responder por eventual propaganda eleitoral antecipada.

Aliados também questionam os fundamentos adotados por Alexandre de Moraes. Segundo a reportagem, eles citam como precedentes manifestações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o período em que esteve preso, além de cartas escritas por Jair Bolsonaro e divulgadas anteriormente por Michelle Bolsonaro, que, de acordo com esses interlocutores, não produziram consequências semelhantes.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

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