Economia:
Quando o Brasil voltará a ousar?
Debate
sobre a política monetária brasileira não pode ficar restrita a intentos de
controle imediato da inflação. Por que medida é insuficiente para promover
desenvolvimento e gerou regressão precoce? Análise mostra: redução de juros é
estratégico...
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1. Introdução
O
debate sobre política monetária ganhou centralidade no século XXI em um
contexto marcado pela financeirização da economia global, elevada mobilidade de
capitais, transformações tecnológicas aceleradas e crescente instabilidade
geopolítica. Após a crise financeira internacional de 2008, a pandemia e os
recentes ciclos inflacionários, bancos centrais passaram a atuar em ambientes
de maior volatilidade, buscando conciliar estabilidade monetária, crescimento
econômico e sustentabilidade fiscal.
No
Brasil, a estabilização promovida pelo Plano Real representou um marco decisivo
ao controlar a inflação crônica e reorganizar o regime macroeconômico nacional.
A partir de 1999, contudo, a consolidação do regime de metas de inflação foi
acompanhada pela manutenção de taxas de juros estruturalmente elevadas.
Entre
1999 e 2025, o Brasil permaneceu entre os países emergentes com maiores taxas
reais de juros do mundo. No mesmo período, a taxa média de investimento
permaneceu próxima de 17% do PIB, abaixo de economias que realizaram processos
intensos de transformação produtiva, como China e Coreia do Sul. Paralelamente,
a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de cerca de
27% nos anos 1980 para níveis próximos de 11% em 2025.
Apesar
de momentos de expansão econômica, especialmente durante o ciclo internacional
de commodities entre 2003 e 2010, o país não consolidou uma trajetória
duradoura de crescimento produtivo. Ao contrário, observou-se a combinação
entre baixo crescimento, valorização financeira, apreciação cambial recorrente
e perda de densidade industrial.
A
interpretação convencional atribui os juros elevados à fragilidade fiscal, ao
prêmio de risco e à necessidade de preservar a credibilidade monetária. Parte
da literatura heterodoxa, entretanto, argumenta que a persistência de juros
elevados passou a integrar um padrão de acumulação baseado na financeirização
da economia.
Para
Keynes (1996), os juros refletem a preferência pela liquidez em ambientes de
elevada incerteza. Já Bresser-Pereira (2007), sustenta que a combinação entre
juros elevados e valorização cambial compromete a competitividade industrial e
favorece a desindustrialização precoce.
Sob
essa perspectiva, os juros elevados deixaram de ser apenas instrumento técnico
de controle inflacionário e passaram a influenciar diretamente a estrutura
produtiva brasileira.
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2. Formação do regime de juros elevados
A
consolidação do atual regime monetário brasileiro ocorreu após o Plano Real e
ganhou maior definição com o chamado “tripé macroeconômico”: metas de inflação,
câmbio flutuante e superávit primário.
Na fase
inicial da estabilização monetária, entre 1994 e 1999, a âncora cambial exigiu
juros elevados para sustentar a entrada de capitais externos e preservar a
estabilidade do real. Após a adoção do regime de metas de inflação em 1999, a
taxa Selic consolidou-se como principal instrumento de política monetária.
Ao
longo dos anos 2000, a ampliação da abertura financeira fortaleceu a entrada de
capitais de curto prazo em economias periféricas com elevada remuneração
financeira. No Brasil, a combinação entre juros elevados e liberalização
financeira estimulou a valorização cambial e reforçou a dependência de fluxos
internacionais de capitais.
Segundo
Belluzzo (2009), a estabilização monetária brasileira ocorreu simultaneamente
ao avanço da financeirização e ao fortalecimento da influência dos mercados
financeiros sobre a política econômica. Em perspectiva semelhante, Epstein
(2005) argumenta que a financeirização ampliou o peso dos mercados financeiros
sobre as decisões macroeconômicas contemporâneas.
Parte
da literatura desenvolvimentista sustenta que a combinação entre juros elevados
e câmbio apreciado constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento
brasileiro. A valorização recorrente da moeda nacional reduz a competitividade
industrial, favorece importações de maior intensidade tecnológica e amplia a
desindustrialização precoce.
Formou-se,
assim, um regime macroeconômico marcado pela coexistência entre estabilidade
monetária, baixo investimento produtivo, câmbio desfavorável e crescente
valorização financeira.
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3. Financeirização e baixo investimento produtivo
A
teoria keynesiana compreende os juros como recompensa pela renúncia à liquidez.
Em ambientes de elevada incerteza, agentes econômicos tendem a privilegiar
ativos líquidos e aplicações financeiras de menor risco.
No
Brasil, a experiência histórica de inflação elevada, crises cambiais e
instabilidade macroeconômica contribuiu para consolidar uma convenção monetária
conservadora, segundo a qual juros elevados seriam condição necessária para
garantir estabilidade econômica.
Autores
desenvolvimentistas criticam a ideia de que juros altos sejam uma condição
inevitável para a estabilidade macroeconômica brasileira. Segundo essa
interpretação, a predominância de aplicações financeiras altamente rentáveis
tende a deslocar recursos do investimento produtivo para estratégias
patrimoniais e financeiras.
Stiglitz
(2002) argumenta que processos de liberalização financeira em economias
periféricas frequentemente ampliam vulnerabilidades externas e reduzem o espaço
de coordenação das políticas nacionais de desenvolvimento. Nesse contexto,
juros elevados passaram a funcionar simultaneamente como mecanismo de atração
de capitais e instrumento de estabilização cambial.
Entre
os principais efeitos desse processo destacam-se:
- maior
atratividade da renda financeira;
- redução do
investimento produtivo;
- valorização
cambial recorrente;
- enfraquecimento
industrial;
- aumento da
dependência de capitais externos.
Além
disso, consolidou-se um ambiente institucional favorável à manutenção de taxas
de juros elevadas, reforçado pela centralidade adquirida pelo mercado
financeiro na dinâmica macroeconômica contemporânea.
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4. Juros elevados e regressão produtiva
Em
Keynes (1996), o investimento resulta da comparação entre a eficiência marginal
do capital e a taxa de juros, de modo que juros elevados reduzem a viabilidade
de projetos produtivos de longo prazo. Minsky (1982) amplia essa interpretação
ao destacar o papel das expectativas, da fragilidade financeira e das condições
de financiamento na decisão de investir.
A
economia brasileira apresenta características compatíveis com essa dinâmica.
Empresas enfrentam simultaneamente elevado custo do crédito, concorrência
financeira com ativos de alta rentabilidade e significativa volatilidade
macroeconômica.
Em
2025, a taxa Selic alcançou 15% ao ano, mantendo o Brasil entre as maiores
taxas reais de juros do mundo. Ao mesmo tempo, o investimento produtivo
permaneceu reduzido e a indústria continuou perdendo participação relativa na
economia.
Juros
elevados também atraem capitais externos e pressionam a valorização cambial.
Esse processo reduz a competitividade industrial, desestimula exportações
manufatureiras e reforça a especialização em produtos de menor valor agregado.
Rodrik
(2011), argumenta que processos de desindustrialização precoce reduzem a
capacidade de aprendizado tecnológico e comprometem o crescimento de longo
prazo das economias periféricas, enquanto. Chang (2004) demonstra que países
atualmente desenvolvidos utilizaram políticas industriais, crédito direcionado
e coordenação estatal durante seus processos históricos de industrialização.
A
experiência internacional sugere, portanto, que estabilidade macroeconômica não
depende exclusivamente de juros elevados, mas também da coordenação entre
política monetária, política cambial, crédito e estratégia industrial.
No caso
brasileiro, consolidou-se uma dinâmica caracterizada por:
- juros elevados
reduzindo o investimento;
- baixo
investimento limitando o crescimento;
- crescimento
reduzido ampliando a incerteza;
- maior incerteza
fortalecendo a valorização financeira.
O
resultado é uma economia com baixa capacidade de investimento, reduzida
densidade industrial e crescente dependência de exportações concentradas em
commodities.
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5. Política monetária e reconstrução produtiva
A
reversão da perda de dinamismo produtivo brasileiro exige maior coordenação
entre política monetária, política cambial e política industrial.
Em
primeiro lugar, torna-se necessária a redução estrutural da taxa real de juros
de forma gradual, permitindo a ampliação do investimento produtivo e o
alongamento do horizonte de planejamento das empresas.
Em
segundo lugar, a política cambial deve evitar ciclos persistentes de apreciação
excessiva da moeda nacional, preservando a competitividade industrial e
reduzindo a vulnerabilidade externa.
Também
se faz necessária a ampliação dos mecanismos públicos de financiamento de longo
prazo, especialmente voltados à infraestrutura, inovação e setores de maior
intensidade tecnológica. Mazzucato (2013) e Chang (2004) destacam que
experiências internacionais bem-sucedidas estiveram associadas à atuação
estratégica do Estado na coordenação de investimentos e inovação.
Além
disso, instrumentos macroprudenciais podem contribuir para reduzir a
volatilidade dos fluxos internacionais de capitais e limitar movimentos
especulativos de curto prazo.
A
experiência internacional demonstra que países que combinaram estabilidade
macroeconômica com transformação estrutural utilizaram políticas monetárias
menos subordinadas à lógica financeira e mais articuladas ao desenvolvimento
produtivo.
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6. Considerações finais
O
debate sobre política monetária no Brasil não pode permanecer restrito ao
controle imediato da inflação. A trajetória recente da economia brasileira
indica que juros estruturalmente elevados contribuíram para baixo investimento,
valorização financeira e perda de capacidade industrial.
A
estabilidade monetária é necessária, mas insuficiente para promover
desenvolvimento econômico sustentado. Sem coordenação entre juros, câmbio,
crédito e política industrial, a economia brasileira tende a reproduzir um
padrão de crescimento reduzido e dependente da financeirização.
Reduzir
estruturalmente os juros, ampliar o financiamento produtivo e preservar a
competitividade cambial não são apenas medidas conjunturais, mas condições
relevantes para fortalecer a capacidade produtiva nacional.
Mais do
que controlar preços, o desafio brasileiro consiste em criar condições
macroeconômicas favoráveis ao investimento, à transformação estrutural e ao
desenvolvimento de longo prazo.
Fonte: Por
Bruno Mota, em Outras Palavras

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