Os
novos anões do orçamento cresceram
Em
1993, o Brasil assistiu à CPI dos “anões do orçamento”. Eu trabalhava na Câmara
dos Deputados à época e acompanhei de muito perto. Parlamentares pequenos em
estatura política, mas gigantes em desviar verbas por meio de
emendas-fantasmas. O país jurou nunca mais trilhar este caminho. Décadas
depois, “nunca mais” durou uma legislatura – o esquema evoluiu de artesanato
para indústria.
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A
comparação não é força de expressão. Segundo a Polícia Federal, na Operação
Transparência, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mantinha uma cota
pessoal e particular para decidir a destinação de emendas parlamentares, mesmo
sem ocupar cargo na Câmara. Não é deputado, não vota, não tem mandato – mas
tinha orçamento próprio dentro do orçamento da União. Foram identificadas pelo
menos 21 emendas ligadas a ele, somando 119 milhões de reais. Flávio Dino,
ministro do STF, determinou o bloqueio de bens no valor de R$ 119,2 milhões e a
suspensão das despesas vinculadas às emendas investigadas, em qualquer fase de
execução.
Comparado
aos anões dos anos 1990, o placar já é constrangedor: eles precisavam de
mandato para operar. O sistema atual dispensa até esse pequeno detalhe,
digamos, assim, burocrático. Basta ter influência. Exige apenas ser chefe de um
cartório partidário.
Aqui
mora a diferença estrutural que torna o caso potencialmente mais grave que o
original. O orçamento secreto e as emendas de comissão – as “emendas Pix” – não
dependem de driblar a lei: apenas de usá-la através de atalhos. Enquanto os
anões falsificavam planilhas às escondidas, o sistema recente institucionalizou
o sigilo, distribuindo bilhões sem rastreabilidade clara até o destino final,
sob a proteção formal do processo legislativo. Não é fraude contra o sistema; é
fraude dentro dele, com crachá e sala reservada. Dino já relacionou o caso à
jurisprudência do STF sobre transparência e rastreabilidade das emendas,
apontando possível peculato-desvio.
Ganha
sabor especial, nesse pano de fundo, a movimentação do ano passado pela chamada
PEC da Blindagem, que previa conceder foro privilegiado a presidentes de
partidos mesmo sem mandato eletivo – dispositivo que, não por acaso, blindaria
diretamente figuras como Valdemar Costa Neto e Antonio Rueda, hoje sob
investigação na primeira instância. Pura coincidência de calendário, decerto.
Talvez os presidentes partidários tenham acordado com súbito apreço
institucional pelo STF. Ou talvez soubessem – com aquela sabedoria de quem lê
intimação antes de gente comum – exatamente o que tinham feito no verão
passado. E que, no inverno atual, ao que parece, seguem fazendo.
A
ironia é cristalina: enquanto o Congresso discute há anos reduzir o foro
privilegiado, tirando-o até de quem tem mandato, um grupo de dirigentes sem
mandato algum tentou, de última hora, conquistar o benefício que outros estavam
perdendo. Não se pede um guarda-chuva sem antes verificar a previsão do tempo.
Se os
anões do orçamento ensinaram que pequenos operadores causam grandes estragos,
as emendas Pix ensinam algo mais desconfortável: quando o sigilo é regra, não
exceção, não é preciso ser insignificante para operar em silêncio – basta ser
presidente de partido, sem crachá de deputado, mas com a chave do cartório e do
cofre. A pergunta que fica não é só quanto dinheiro sumiu, mas se o desenho
institucional atual – sigiloso por padrão, dependente de decisões pontuais do
STF para virar transparente – não está fabricando, em escala industrial, a
próxima geração de anões do orçamento. Só que, desta vez, sem precisar se
curvar para caber no cargo.
Novo
rolo de Eduardo Cunha confirma que Dilma foi derrubada por excesso de
honestidade. Por Leonardo Attuch
A nova
investigação da Polícia Federal envolvendo Eduardo Cunha lança luz, mais uma
vez, sobre um dos personagens centrais da maior ruptura institucional da
história recente do Brasil. Dez anos depois do golpe parlamentar de 2016, o
ex-presidente da Câmara volta às manchetes sob suspeita de atuar no
direcionamento de emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato. A ironia
histórica é evidente: enquanto Dilma Rousseff preside hoje o Novo Banco de
Desenvolvimento (NDB), uma das principais instituições financeiras do mundo
multipolar, Cunha retorna às páginas policiais.
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O caso
também convida a uma reflexão sobre as verdadeiras razões da queda de Dilma.
Muito se falou, à época, sobre crise econômica, desgaste político e impasses
institucionais. Mas houve um fator decisivo: Dilma Rousseff recusou-se a
governar nos moldes tradicionais da política de toma-lá-dá-cá que, durante
décadas, marcou a relação entre Executivo e Congresso. Ao contrário dos
políticos tradicionais, ela resistiu às pressões dos chamados “achacadores”
profissionais do Parlamento, que viam no Orçamento da União um instrumento
permanente de barganha política.
Entre
todos eles, nenhum foi tão ousado quanto Eduardo Cunha. Investido da
Presidência da Câmara, ele transformou o cargo em um centro de poder paralelo.
À medida que suas demandas políticas deixavam de ser atendidas pelo governo,
passou a utilizar as chamadas “pautas-bomba”, aprovando medidas que agravavam
deliberadamente a situação fiscal do país e ampliavam a crise política
enfrentada pelo governo Dilma.
Quando
percebeu que não conseguiria impor sua agenda ao Planalto, Cunha conduziu o
processo que resultou no golpe parlamentar de 2016. Sem que houvesse crime de
responsabilidade atribuído à presidente eleita, consolidou-se uma maioria
circunstancial que retirou Dilma Rousseff do cargo. Aquele movimento criminoso
contou com a convergência de interesses entre Eduardo Cunha e Michel Temer,
então vice-presidente da República, que assumiria o governo após a destituição
de Dilma.
Cunha
provavelmente imaginava que sua participação decisiva na mudança de governo lhe
garantiria proteção política. Não foi o que aconteceu. As acusações que pesavam
contra ele eram tão numerosas e graves que nem Temer foi capaz de blindá-lo.
Poucos meses depois do golpe parlamentar, teve o mandato cassado, foi preso e
passou a responder por diversos processos relacionados à corrupção. O acordo
político que ajudou a viabilizar não foi suficiente para livrá-lo das
consequências judiciais de sua própria trajetória.
Mas, se
Cunha perdeu o mandato e acabou preso, o modelo político que emergiu após 2016
permaneceu. A partir do governo Temer consolidou-se aquilo que muitos
cientistas políticos passaram a chamar de “semiparlamentarismo” brasileiro: um
sistema no qual parcelas crescentes do Orçamento passaram a ser controladas
diretamente pelo Congresso Nacional, reduzindo significativamente a capacidade
de planejamento do Poder Executivo.
Hoje,
deputados federais administram dezenas de milhões de reais em emendas
parlamentares a cada ano, enquanto senadores controlam valores ainda maiores.
Em vez de um orçamento orientado por políticas públicas nacionais, saúde,
educação, infraestrutura e desenvolvimento passaram a disputar espaço com uma
distribuição pulverizada de recursos frequentemente destinada a obras locais,
interesses paroquiais e projetos de baixa prioridade estratégica – qusse sempre
marcados por corrupção.
Não por
acaso, o chamado orçamento secreto tornou-se alvo de sucessivas decisões do
Supremo Tribunal Federal. Nos últimos anos, o ministro Flávio Dino tem
determinado auditorias, exigido transparência e apontado indícios de
irregularidades em diversos repasses, reforçando a necessidade de controle
sobre um mecanismo que se expandiu justamente após a ruptura institucional de
2016.
Nesse
contexto, a notícia de que Eduardo Cunha seria capaz de operar emendas
parlamentares mesmo sem possuir mandato talvez seja o aspecto mais revelador de
toda a investigação. Se confirmadas as suspeitas, isso significaria que o
sistema de distribuição de recursos públicos tornou-se tão permeável à
influência política informal que um ex-deputado, fora do Parlamento há anos,
continuaria exercendo poder equivalente — ou até superior — ao de parlamentares
em exercício.
A
história parece ter reservado destinos opostos aos dois protagonistas daquele
período. Dilma Rousseff, afastada da Presidência sem condenação por corrupção e
sem crime de responsabilidade, voltou à cena internacional presidindo o Novo
Banco de Desenvolvimento, instituição estratégica dos BRICS e um dos pilares da
nova arquitetura financeira do Sul Global. Eduardo Cunha, por sua vez,
reaparece nas páginas policiais associado a mais uma investigação sobre o uso
de influência política e recursos públicos.
O
contraste entre ambos talvez seja a síntese mais eloquente do que ocorreu no
Brasil em 2016. Quem recusou as velhas práticas da política perdeu o mandato.
Quem ajudou a derrubá-la prometendo moralizar o país terminou envolvido, mais
uma vez, em suspeitas relacionadas justamente ao funcionamento do sistema
político que ajudou a construir. Dilma caiu por excesso de honestidade. E Cunha
nunca deixou de ser o que sempre foi.
• Decisão do STF aponta indícios de que
Cunha operou emendas por meio de deputado do Republicanos
O
ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio
de até R$ 6 milhões em bens do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha
(Republicanos-MG). A decisão, baseada em investigação da Polícia Federal,
aponta indícios de que o ex-parlamentar teria atuado na negociação de emendas
utilizando o deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG).
A
medida tem como fundamento o inquérito da Polícia Federal que apura supostos
desvios de recursos de emendas da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados.
Além do bloqueio de bens, Dino determinou a suspensão imediata da execução de
todas as despesas públicas relacionadas às emendas sob investigação.
Eduardo
Cunha não exerce mandato eletivo desde 2016, mas elementos reunidos pela
investigação indicariam que ele continuou participando da indicação de emendas
parlamentares por meio de deputados aliados.
A
defesa de Cunha informou que recorrerá da decisão do STF. Em nota, negou que o
ex-deputado tenha exercido um “mandato clandestino” e afirmou que ele não
participou formalmente da apresentação das emendas investigadas.
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Conversas embasaram a decisão
Os
elementos utilizados pelo ministro incluem mensagens extraídas do celular de
Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, servidora da Câmara apontada pela
Polícia Federal como operadora do suposto esquema de manipulação de emendas
parlamentares.
Entre
os diálogos reproduzidos na investigação está uma conversa de 12 de setembro de
2025 entre Cunha e Tuca. Na troca de mensagens, o ex-deputado menciona emendas
destinadas ao município de Manhuaçu (MG) e demonstra preocupação com a
informação de que os recursos estariam sendo atribuídos ao deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG), e não a Gilberto Abramo.
“Oi. Se
puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é
inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso
de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele”, diz a mensagem
atribuída a Cunha.
Na
decisão, Flávio Dino afirmou que “causa estranheza o cenário narrado, uma vez
que aparenta que uma suposta emenda de titularidade do deputado Gilberto Abramo
estava sendo tratada por Eduardo Cunha com Tuca, e não pelo titular”.
O
ministro também registrou que “considerando que os elementos encontrados no
celular de Tuca deixam claro que essas emendas eram indicações de Eduardo
Cunha, o fato de que outros parlamentares tenham sido alocados como
‘solicitantes’ só agrava o processo de fraude de encaminhamento e desvio dos
recursos. Observa-se uma clara proeminência do deputado Gilberto Abramo que,
como visto acima, foi apontado como parceiro político do ex-presidente da
Câmara no estado de Minas Gerais”.
• Eduardo Cunha contesta investigação
sobre emendas
A
defesa do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG)
afirmou, neste domingo (12), que o ex-parlamentar “desconhece qualquer
irregularidade” relacionada às emendas parlamentares investigadas pela Polícia
Federal (PF). O posicionamento foi divulgado após decisão do ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que determinou o bloqueio de R$
6,15 milhões em bens de Cunha.
Segundo
os advogados, a medida será contestada, e a própria decisão não atribui ao
ex-deputado o “recebimento de qualquer vantagem”. De acordo com a investigação,
o valor bloqueado corresponde ao total das emendas que, segundo a Polícia
Federal, teriam sido indicadas por Eduardo Cunha para municípios de Minas
Gerais, embora ele não exerça mandato parlamentar desde 2016.
A
defesa sustenta que Cunha não “apresentou, subscreveu ou formalizou” nenhuma
das emendas citadas, argumentando que elas foram oficialmente apresentadas por
parlamentares, bancadas ou órgãos competentes, os únicos com atribuição para
atuar no processo orçamentário.
A
investigação da Polícia Federal, por outro lado, aponta que Eduardo Cunha
“dispõe dos serviços de Mariângela Fialek e da liberalidade política para
destinar recursos conforme seus interesses, em sintomas inequívocos do
cometimento dos crimes de peculato”. Conforme a apuração, Mariângela Fialek,
servidora da Câmara dos Deputados, teria atuado como “consultora, facilitadora
e implementadora” das demandas atribuídas ao ex-parlamentar.
Em
nota, os advogados afirmam que Eduardo Cunha exerceu “legítima interlocução
política”, rejeitando a interpretação de que essa atuação possa ser equiparada
ao “exercício clandestino de mandato parlamentar”.
A
defesa também informa que o ex-deputado não havia sido intimado nem chamado a
prestar esclarecimentos antes da decretação do bloqueio patrimonial e afirma
que buscará acesso integral aos autos para exercer o direito de defesa.
>>>
Confira a nota na íntegra ondo os advogados querem transformá-lo em “santo”
“A
defesa de Eduardo Cunha tomou conhecimento, pela imprensa, da decisão divulgada
neste domingo e esclarece que, antes da decretação do bloqueio patrimonial, não
havia sido intimado, ouvido ou chamado a prestar qualquer esclarecimento no
âmbito dessa investigação.
Eduardo
Cunha não exerce mandato parlamentar e, portanto, não apresentou, subscreveu ou
formalizou nenhuma das emendas mencionadas nas reportagens. Ao contrário.
Conforme pode-se observar, elas foram oficialmente apresentadas e indicadas por
parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, únicos que possuem competência
sobre o processo orçamentário.
Eduardo
Cunha sempre pautou sua vida pública pelo compromisso ético e probidade,
respeitando as normas legais, inclusive enquanto exerceu seu mandato
parlamentar.
Deste
modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima
interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar.
É
igualmente necessário esclarecer que o montante de R$ 6,15 milhões corresponde
ao valor global das emendas questionadas, destinadas a municípios ou outros
beneficiários públicos, e nem mesmo a decisão imputa recebimento de qualquer
vantagem a Eduardo Cunha.
Eduardo
Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe
ressaltar que a própria PGR considerou prematuro o bloqueio das contas de
Eduardo Cunha.
A
defesa buscará acesso integral à investigação a fim de conhecer o contexto
completo dos fatos, exercer o contraditório e impugnar as medidas decretadas.”
Fonte:
Por Oliveiros Marques, em Brasil 247

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