O
chinês formado em universidade de elite que é acusado de ser o 'rei do
fentanil' do México
"O
Irmão Wang era muito importante. Ele era o número 1", afirma Enrique,
sorrindo, com ar de quem sabe o que está falando.
Enrique
(nome fictício) se descreve como coordenador de alto escalão do cartel mexicano
de Sinaloa, uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo.
Nos
subúrbios da capital do Estado de Sinaloa, Culiacán, sentado em um
estacionamento onde mais ninguém consegue ouvi-lo, ele explica como os
ingredientes para a fabricação da droga mortal fentanil são transportados por
milhares de quilômetros, desde as fábricas na China até os laboratórios no
México.
Membros
do seu cartel afirmam que foi o Irmão Wang quem estabeleceu esta cadeia de
abastecimento.
Conhecido
no mundo do crime como "rei do fentanil", o Irmão Wang tem 39 anos.
De nacionalidade chinesa, seu nome real é Zhang Zhidong, segundo o Departamento
de Justiça dos Estados Unidos.
Preso
no México em 2024, Zhang escapou da prisão de forma espetacular, mas foi
recapturado e extraditado para os Estados Unidos em 2025.
O
fentanil é um opioide sintético 50 vezes mais potente que a heroína.
A droga
mata dezenas de milhares de pessoas todos os anos, a maioria nos Estados Unidos
— em muitos casos, o destino da droga. Mesmo uma dose pequena, equivalente a
poucos grãos de sal, pode ser fatal.
O
presidente americano, Donald Trump, chama os negociantes de fentanil de
"narcoterroristas".
Trump
classificou a droga e seus componentes como armas de destruição em massa e usou
o comércio de fentanil como motivo para impor tarifas de importação à China,
México e Canadá.
Zhang
compareceu à Justiça em Nova York, nos Estados Unidos, em 2025.
O
vice-procurador-geral americano da época, Todd Blanche, o descreveu como
"um dos traficantes mais perigosos do mundo".
Blanche
o acusou de "gerenciar uma empreitada global que descarregou imensas
quantidades de cocaína, fentanil e metanfetamina" nos Estados Unidos e de
praticar a lavagem de "milhões em receita dos narcóticos".
Zhang
se declarou inocente e aguarda julgamento. Entramos em contato com seu
advogado, que se recusou a enviar comentários enquanto o caso estiver em
andamento.
Membros
do cartel e ex-colegas de Zhang concordaram em conversar com a BBC, oferecendo
uma rara visão sobre como eles acreditavam que Zhang, diplomado na universidade
de maior prestígio da China, supostamente se tornou um elo fundamental na
cadeia entre as indústrias químicas chinesas e os laboratórios de produção de
drogas do México.
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Zhang, o homem
Zhang
se formou em espanhol na Universidade de Pequim, na China, em 2010. Um ano
depois, ele viajou para o México, para trabalhar para uma companhia chinesa de
mineração de ferro. Ele logo atingiu um alto posto na empresa.
Pessoas
que o conheceram na época consideravam Zhang um jovem e brilhante profissional,
ávido pela vida no exterior.
"Ele
tinha capacidade de negociação, era muito habilidoso e capaz de se adaptar a
todo tipo de ambiente", segundo Alex (nome fictício). Ele estudou na mesma
universidade e trabalhou posteriormente na mesma mineradora de Zhang no México.
Alex
afirma que o espanhol de Zhang era excelente. Ele tinha um instinto para a
gíria e conseguia falar com qualquer pessoa, sempre com forte sotaque de
Pequim.
Alex
conta que, às vezes, fazer negócios no México envolvia lidar com o submundo,
incluindo os cartéis, que controlam áreas importantes do país.
Zhang
conseguia estabelecer relações com "qualquer pessoa importante localmente,
tanto do lado oficial quanto do lado clandestino", explica Alex.
Alex
conta que Zhang adorava este aspecto do México e oferece o retrato de um homem
voltado ao risco e à imprudência.
Ele
relembra que Zhang bateu o carro do seu chefe, sem se preocupar com as
repercussões, e descreve como Zhang saiu da cidade de carro certa noite para
atirar em placas de trânsito em uma rodovia deserta.
Em
2013, a mineradora fechou e Alex voltou para a China. Zhang permaneceu no
México.
Alex
conta que, um ou dois anos depois, Zhang começou a postar mensagens no grupo de
alunos de espanhol da Universidade de Pequim no WeChat, aplicativo popular na
China. Ele se oferecia para trocar dólares por taxas melhores. Alex acredita
que ele estivesse lavando dinheiro.
Além
disso, o membro do cartel Enrique afirmou à BBC que Zhang também se envolveu
com drogas.
O
processo judicial nos Estados Unidos acusa Zhang de operar "uma enorme
organização de tráfico de narcóticos e lavagem de dinheiro" desde junho de
2016.
Enrique
acredita que Zhang tenha iniciado um relacionamento amoroso com uma mulher que
é parente de um dos líderes do cartel. Ele indica que isso o ajudou a ficar
mais próximo do seu círculo interno.
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A cadeia de abastecimento
Luís
(nome fictício) é outro membro do cartel que realizava tarefas para a
organização.
Ele
relembra uma tarde quente de 2019, quando seus chefes pediram que ele ficasse
de guarda para uma reunião, quando Zhang "veio oferecer seus
produtos".
Luís
conta que se tratava dos precursores químicos (substâncias fundamentais
utilizadas na fabricação de drogas sintéticas) necessários para a produção de
fentanil. Ele considera Zhang como a pessoa que, de fato, o apresentou ao
fentanil e deu início a este lado dos negócios do grupo.
Luís
conta que logo se tornou produtor de fentanil em um laboratório clandestino.
Ele
afirma ter visto pelo menos cinco produtores morrerem à sua frente. Luís
acredita que as mortes tenham sido causadas pelas substâncias que eles estavam
manipulando, que teriam vazado através de aberturas nas suas roupas de
proteção.
"Às
vezes, as pessoas simplesmente desmaiavam e precisávamos carregá-las para fora
da sala", ele conta.
Enrique
descreve que os pedidos de precursores eram encaminhados para Zhang, que,
segundo ele, usava seus contatos na China para obter as substâncias.
Os
ingredientes seguiam para o México de navio ou avião, segundo Enrique. Ele
conta que a própria rede de Zhang os distribuía para os produtores de fentanil,
como Luís, nos laboratórios ilegais em Sinaloa.
Pressionado
se ele se sente culpado por ter se envolvido em uma indústria que causa tantas
mortes, Enrique responde que um dos seus parentes morreu de overdose de
fentanil.
"Aquilo
abala sua consciência", segundo ele. Mas acrescenta que "trabalho é
trabalho e não conhecemos outra forma de ganhar a vida".
Questionado
sobre o mesmo tema, Luís afirma que, certa vez, ele tentou parar de trabalhar
no laboratório. Mas seu chefe disse que a alternativa seria sair em patrulha.
Ele
conta que seu chefe deu a ele uma escolha: "Você veste o uniforme, pega o
equipamento e sai para lutar. É isso ou trabalhar como produtor."
As
agências de segurança mexicanas afirmam que Zhang conduziu operações ilegais no
continente americano, na Europa, na China e no Japão.
A
pesquisadora Victoria Dittmar, do centro de estudos InSight Crime, passou anos
investigando o fluxo de substâncias precursoras para o México.
Ela
afirma que os intermediários (a função que se indica ter sido desempenhada por
Zhang) ficam no ponto crucial de intersecção entre os produtores das
substâncias e os cartéis.
Dittmar
declarou que pessoas com o tipo de alcance atribuído a Zhang são "muito
poucas" e "fundamentais para a cadeia de abastecimento".
"Ele
foi um intermediário que conectava as organizações mexicanas do tráfico aos
fornecedores chineses de substâncias precursoras", um mundo que, segundo
ela, é de difícil acesso para pessoas estranhas.
"Ele
também teve enorme presença nos Estados Unidos", prossegue Dittmar.
"Você não observa isso com frequência... Uma pessoa que consegue conectar
três regiões."
As
autoridades mexicanas afirmam que Zhang foi responsável pela exportação e
distribuição de mais de 1 mil kg de cocaína, 1,8 mil kg de fentanil e 600 kg de
metanfetamina. Elas também o acusam de movimentar mais de US$ 150 milhões
(cerca de R$ 766 milhões) anuais em receita proveniente das drogas.
O
Departamento de Justiça dos Estados Unidos emitiu um comunicado à imprensa em
2025, com detalhes do indiciamento de Zhang.
A nota
acusa Zhang de tráfico de drogas e afirma que ele recrutou pessoas para abrir
contas bancárias em nome de mais de 100 empresas de fachada.
O órgão
afirma que ele recebia dinheiro em vários locais dos Estados Unidos,
"depositava aquele dinheiro nas contas bancárias das empresas de fachada e
transferia os fundos para contas de outros beneficiários, para que fossem
lavados fora dos Estados Unidos".
No
outro lado das supostas operações de Zhang, fica a China. O país é um dos
maiores produtores e exportadores mundiais das substâncias precursoras
empregadas na fabricação de drogas sintéticas, segundo um relatório de 2025 do
Departamento de Estado americano.
O
relatório afirma que a indústria química chinesa é "imensa", com 160
mil empresas. E, apesar das medidas tomadas pelas autoridades para implementar
controles, a fiscalização "conta com funcionários e equipamentos
insuficientes".
A
Embaixada chinesa nos Estados Unidos declarou à BBC que a China é "um dos
países mais rígidos do mundo no combate aos narcóticos".
Ela
destacou que o país regulamentou todas as substâncias relacionadas ao fentanil
em 2019. Por isso, elas recebem rígido controle do governo. Essas substâncias
não são proibidas porque algumas têm usos legítimos em diversas indústrias.
A
Embaixada afirmou que a "extensa e profunda" cooperação com os
Estados Unidos no combate aos narcóticos foi "altamente produtiva".
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Fuga e prisão
O
suposto envolvimento de Zhang no comércio de drogas teve um final repentino
quando ele foi preso no México, no dia 31 de outubro de 2024.
Um juiz
tomou a polêmica decisão de colocá-lo em prisão domiciliar, mas Zhang conseguiu
escapar, supostamente por um buraco na parede, e voou em avião particular para
Cuba e, dali, para a Rússia.
Autoridades
de imigração russas descobriram que seus documentos eram falsos. Ele foi
enviado de volta para Cuba, que o devolveu para o México, de onde foi
extraditado para os Estados Unidos.
Sua
prisão chegou às manchetes de todo o mundo. A rede de alunos da Universidade de
Pequim, onde Zhang estudou espanhol, ficou perplexa.
"Todos
falavam sobre aquilo", conta Alex. "Foi uma história muito chocante e
ele, provavelmente, é uma das pessoas mais famosas já formadas pela
Universidade de Pequim."
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'Gato e rato'
Em
Culiacán, os membros do cartel afirmam que a ausência de Zhang foi
imediatamente percebida. Luís conta que ficou "muito difícil conseguir os
precursores".
"Eles
levaram o homem e isso causou confusão", relembra Enrique.
Ele
conta que Zhang era "a pessoa com as conexões" na China e que os
cartéis precisaram "começar do zero e construir um novo circuito".
Mais ou
menos ao mesmo tempo, a Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos começou
a detectar uma queda da pureza do fentanil.
Segundo
o organismo, esta descoberta era "consistente com indicadores de que
muitos produtores de fentanil no México estão enfrentando dificuldades para
obter algumas substâncias precursoras básicas".
Mas a
interrupção das cadeias de abastecimento de drogas, normalmente, é temporária.
Dittmar a descreve como um "constante jogo de gato e rato".
Sua
pesquisa descobriu que, quando os comerciantes são retirados ou substâncias
importantes são controladas, os produtores de fentanil se adaptam encontrando
substitutos e aprendendo novos processos.
Os
indivíduos da cadeia de abastecimento também podem ser substituídos, mesmo
aqueles com amplas e profundas conexões, como supostamente teria sido o caso de
Zhang, segundo os membros do cartel.
Enrique
afirma que já existe alguém na estrutura, outra pessoa de nacionalidade
chinesa. Mas ele diz que não pode dizer mais "pela minha própria
segurança".
Outro
membro do cartel, que se descreve como coordenador responsável pelo transporte
de pessoas e pessoal dentro da organização, afirma que "tudo isso começou
por causa dele [o Irmão Wang]", mas "ele deixou muitas conexões para
nos ajudar a continuar".
"Se
ele se for, outra pessoa irá entrar... O negócio não irá parar."
Fonte:
Por Shawn Yuan, da BBC Global China Unit em Culiacán (México)

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