5
fatos sobre a história da luta das mulheres pelo direito ao voto no Brasil
história
do voto feminino no Brasil permaneceu, por décadas, em torno de uma narrativa
que minimizava o protagonismo das mulheres. Até então, sabe-se que a ideia de
que o direito ao sufrágio teria sido concedido por Getúlio Vargas em 1932, por
meio de um decreto, mas pesquisas recentes trazem a dimensão política dessa
conquista, evidenciando que ela foi resultado de uma grande articulação
liderada por mulheres.
Embora
hoje pareça um direito consolidado, o voto feminino no Brasil foi conquistado
há menos de cem anos. Em 24 de fevereiro de 1932, as mulheres passaram a ter o
direito de votar após uma longa campanha conduzida por movimentos feministas,
que reivindicavam essa conquista desde o final do século XIX.
O
pioneirismo coube à Nova Zelândia, que reconheceu o sufrágio feminino em 1893.
O Brasil levou quase quatro décadas para seguir o mesmo caminho, mas ainda se
antecipou a países como a França, onde as mulheres só puderam votar a partir de
1944, e a Suíça, que estendeu esse direito apenas em 1971. Hoje, representamos
a maior parcela do eleitorado brasileiro, e com influência determinante nas
disputas eleitorais.
A Fórum
resgatou alguns capítulos pouco lembrados da luta pelo voto feminino no Brasil.
Veja a seguir:
>>>>
1) Protagonista inivisibilizada do sufrágio feminino
Durante
décadas, uma fotografia histórica estampou reportagens, manuais e ensaios sobre
a conquista dos direitos políticos femininos no país. Apesar da força visual, a
fotografia circulou quase sempre sob o manto do anonimato: vinha sem uma
identidade reconhecida.
A
mulher eternizada no momento do voto é Almerinda Farias Gama. Nascida em
Alagoas, Almerinda foi jornalista, sindicalista, feminista, advogada de
formação e uma das maiores vozes do feminismo negro e operário nas primeiras
décadas do século XX. A ativista esteve entre as principais lideranças da
Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), organização criada em
1922, no Rio de Janeiro, pela sufragista Bertha Lutz.
Na
época, o Brasil registrava elevados índices de analfabetismo, concentrados na
população negra e de baixa renda. Isso significa que, embora o voto feminino
representasse um avanço histórico, a ampliação dos direitos políticos ainda
excluía grande parte desses grupos.
A
atuação de Almerinda Farias Gama foi essencial para denunciar essas
desigualdades e fortalecer a luta da população negra por maior participação
política, apesar da exclusão da sua identidade das narrativas oficiais de
autoria e protagonismo, reflexo de uma dupla camada de apagamento, de género e
de raça, que historicamente marginaliza as lideranças negras na construção da
cidadania brasileira.
Somente
décadas depois, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, conhecida
como Constituição Cidadã, o direito ao voto foi estendido também às pessoas
analfabetas, independentemente do sexo.
À
frente da organização dos trabalhadores, Almerinda criou ainda o Sindicato dos
Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal e, em 1933, foi a única mulher a
participar da Assembleia Nacional Constituinte como delegada classista. Ela
permaneceu na Constituinte até a promulgação da nova Constituição, em outubro
de 1934.
Em
1935, lançou candidatura à Câmara Federal pela legenda “Decreto do Direito ao
Trabalho, Congresso Master”. Apesar de não conquistar uma cadeira, continuou
atuando na política como presidente do Partido Socialista Proletário do Brasil,
função que exerceu até a extinção da legenda com a implantação do Estado Novo,
em 1937.
>>>>
2) Luta pelo direito ao voto das mulheres começou ainda no Império
Pesquisadora
há 17 anos sobre tudo o que envolve o voto feminino no país e doutora em
História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mônica
Karawejczyk contou em entrevista à Fórum em fevereiro de 2024 que esse direito
fundamental demorou muito para ser conquistado e com esse tempo, muitas
mulheres precisaram lutar até que ele se tornasse realidade.
“Desde
a época do Império, encontramos mulheres reivindicando o direito de votar e
participar do jogo eleitoral, vozes isoladas e que solicitaram direitos, mas
quase não foram ouvidas e levadas a sério”, afirma.
Segundo
ela, jornalistas como a Josefina Álvares de Azevedo solicitaram o direito de
voto. Em 1881, Josefina era proprietária e redatora do jornal intitulado A
Família e, através da apresentação de uma peça teatral, O Voto Feminino,
questionou a lei eleitoral que excluía as mulheres do sufrágio. Sua iniciativa,
embora rejeitada pelos jornais e pela elite, plantando o que é considerada a
“semente da luta pelo voto e inserção feminina na política brasileira”,
destacou.
Autora
do livro “As filhas de Eva querem votar” e também do artigo “Josefina Álvares
de Azevedo e a peça teatral o voto feminino”, Mônica destaca que a jornalista
saiu do mero papel educacional de seu jornal, única área do conhecimento
possível oferecido à mulher – da elite intelectual – para um instrumento de
luta real em prol de transformação social. Nas charges que representavam o
“alistamento feminino” dos grandes jornais, como na Revista Ilustrada em 1890,
por exemplo, “a demanda pelo voto feminino estava sendo considerada, mas
limitada ao recurso da pilhéria [piada] e da zombaria”, escreveu a
pesquisadora.
Na
edição de A Família, de 30 de novembro de 1889, Josefina trouxe pela primeira
vez a mulher para o centro dos debates nacionais e rebateu discursos
conservadores que argumentavam sobre a questão “do lar”:
“A
pátria é livre, a sociedade brasileira vai reconstituir-se sob as bases de uma
prometida política libérrima, de vistas amplas, de princípios vitoriosos. Mas
em meio de tudo isso o que ficará sendo a mulher brasileira? Qual o destino que
lhe reservam no conflito da vida nacional? […] é necessário que a mulher,
também como ser pensante, como parte importantíssima da grande alma nacional,
como uma individualidade emancipada, seja admitida ao pleito em que vão ser
postos em jogo os destinos da pátria. […]. À mulher como ao homem deve competir
a faculdade de preponderar na representação da pátria. Queremos o direito de
intervir nas eleições, de eleger e ser eleitas, como os homens, em igualdade de
condições”
Com a
peça teatral O Voto Feminino, atração muito comum no final do século XIX, a
jornalista apostou mais alto e buscou evidenciar aquela situação. “Josefina
decidiu abordar a questão do sufrágio feminino no seu texto, como uma comédia,
fez com que usasse a seu favor uma das armas dos que eram contra a emancipação
feminina, ou seja, o riso”, analisou Mônica.
“A
partir de 1909, 1910 temos a formação de um verdadeiro movimento sufragista no
Brasil, com a liderança da professora Leolinda Daltro e a fundação, junto com
outras professoras, na capital federal de uma associação feminina que elas
chamaram de Partido Republicano Feminino, que entre suas pautas, lutava pelo
voto feminino, suas vozes passaram a soar cada vez mais juntas, mais fortes e
começaram a incomodar os que estavam no poder exigindo seus direitos”,
ressaltou Karawejczyk à Fórum.
Professora
baiana e defensora dos direitos indígenas e das mulheres, Leolinda de
Figueiredo Daltro tentou se colocar como eleitora pela lei entre os anos de
1910 e 1920. Seu primeiro ato político foi reunir mulheres em apoio à
candidatura de Hermes da Fonseca à presidência do Brasil, em 1909, formando a
Junta Feminina pró-Hermes-Wenceslau. A primeira associação estabelecida com o
objetivo de trabalhar pela emancipação das mulheres brasileiras.
>>>
3) Primeiro partido feminino do Brasil foi criado em 1910
Esse
marco levou Leolinda a fundar, em 1910, na capital do país, o Partido
Republicano Feminino (PRF), que buscava dar voz e plena cidadania às
brasileiras em todo o território. “O PRF teve uma atuação bem significativa até
1922”, mas no entanto “depois foi cada vez mais eclipsada”, relatou a
historiadora.
Ela
destaca que outras personagens invisibilizadas também construíram esse feito,
como as advogadas Elvira Komel, Mirthes de Campos, Natercia da Cunha Silveira e
a jornalista Diva Nolf Nazario.
A
bióloga Bertha Maria Júlia Lutz contrastava com Leolinda na luta pelos
direitos. Em vez de confrontos diretos, ela favorecia pronunciamentos públicos,
cartas à imprensa e apoio de líderes masculinos. Bertha fundou a Liga para a
Emancipação Intelectual da Mulher (LEIM), também com o objetivo principal de
conquistar o sufrágio feminino e a partir daí, a LEIM se tornou um farol de
esperança e ativismo, abrindo um novo caminho para a luta pelos direitos das
mulheres no Brasil.
No
entanto, Mônica lembra que as primeiras sufragistas ainda pertenciam à classe
média. “Quase todas pertencentes a uma elite intelectual, com escolaridade mais
elevada que a maioria da população no período e outras filhas da elite
econômica”, afirma, mas também destaca:
“Todas
contribuíram de formas variadas para que o voto já fosse aprovado no Brasil em
1932, nos colocando como um dos primeiros países no continente americano a
estender o direito de voto para as suas cidadãs.”
O
caminho no meio político para as brasileiras ainda é muito desafiador no século
XXI. “Mudou pouco na realidade. O cenário político brasiliero continua não
sendo acolhedor para as mulheres. Nesse ambiente elas não são vistas com
naturalidade e nem tratadas de forma igual aos homens, elas foram reconhecidas
como eleitoras mas não como candidatas, como representantes legítimas de todos,
homens e mulheres”, completou Mônica.
>>>
4) Mesmo com voto conquistado, nem todas as mulheres podiam votar
Quando
o voto feminino foi instituído, em 1932, ele não contemplava todas as
brasileiras. A legislação da época limitava o direito às mulheres casadas que
tivessem consentimento do marido, além de solteiras e viúvas com renda própria.
Somente dois anos depois, essas condições foram revogadas, mas o voto feminino
permaneceu facultativo. Apenas em 1946 a participação eleitoral das mulheres
passou a ser obrigatória, assim como a dos homens.
>>>
5) Primeira eleitora do Brasil votou antes de 1932
Antes
de o voto feminino ser incorporado à legislação brasileira, algumas mulheres já
haviam rompido essa barreira. Em abril de 1928, a professora Celina Guimarães
Viana tornou-se a primeira brasileira a votar, em Mossoró, no Rio Grande do
Norte.
O feito
foi possível porque a Justiça local permitiu que mulheres se alistassem para
uma eleição suplementar ao Senado. Ao lado de outras 20 eleitoras, Celina
participou da votação, mas o Senado anulou os votos sob o argumento de que o
sufrágio feminino não era reconhecido pela legislação nacional.
Mesmo
sem o reconhecimento oficial, a iniciativa consolidou Celina e as demais
eleitoras como pioneiras da luta pelos direitos políticos das mulheres. Após a
votação, ela enviou um telegrama ao Senado Federal reivindicando que o direito
fosse assegurado a todas as brasileiras.
<><>
Direito já conquistado ainda é questionado
Nas
últimas semanas, uma onda de influenciadores e apoiantes de movimentos de
extrema-direita coordenou campanhas na internet para endossar retrocessos
democráticos da participação de mulheres na política. Sob o verniz de discursos
“moralistas” e com a proximidade das eleições de 2026, Paulo Figueiredo e
Valrdemar Costa Neto proliferaram publicações e vídeos que utilizam a premissa
de que “mulher vota mal” para questionar a participação feminina nas decisões
estruturais do Estado após Michelle Bolsonaro publicar um vídeo após ser
enxotada do comando nacional e a extinção da presidência do PL Mulher, cargo
que era ocupado no movimento criado por ela a pedido de Jair Bolsonaro (PL) e
agora envia recado nas redes, ao criar o movimento “imparáveis”, para confrontar
o enteado Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que busca desesperadamente uma
reaproximação com a madrasta para evitar a fuga dos votos femininos.
Fonte:
Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário