quarta-feira, 15 de julho de 2026

PDV e Marcellão: Como Mendonça blindou Flávio Bolsonaro na última ação da PF no caso Master

André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a avançar na 9ª fase da Operação Compliance Zero contra Jaques Wagner (PT-BA), mas deixou fora da ação ostensiva o eixo mais sensível para a extrema direita no caso Master: Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Projeto DV, conhecido nos bastidores como PDV, e Marcello Lopes, o Marcellão, marqueteiro da pré-campanha presidencial do senador bolsonarista.

O ponto central da decisão é o recorte. O STF informou oficialmente que Mendonça atendeu parcialmente a pedido da PF para aplicar medidas contra Wagner e gestores do Banco Master. A decisão pública, no entanto, não levou para a mesma vitrine policial a trilha que passa por Flávio, por Daniel Vorcaro e pela estrutura de comunicação contratada para atacar o Banco Central.

<><> Mendonça apertou Jaques Wagner e poupou o eixo de Flávio Bolsonaro

A 9ª fase da Compliance Zero produziu o que toda operação de impacto produz: mandados, cautelares, manchetes e imagem política. O alvo foi Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado. A apuração, segundo o STF, envolve suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e organização criminosa relacionados ao Banco Master.

A decisão autorizou buscas e medidas contra pessoas físicas e jurídicas apontadas pela PF como parte de um núcleo ligado a Wagner e a gestores do banco. O ministro também impôs restrições de contato e de atuação econômica relacionadas a empresas investigadas. O mérito das suspeitas não foi julgado.

Mas a mesma decisão não cita Flávio Bolsonaro. Não cita Marcellão. Não cita Projeto DV. Não cita o PDV. Esse silêncio é o fato político da operação. No mesmo caso Master em que a PF bateu na porta de um senador do PT, o pedaço que encosta na pré-campanha presidencial bolsonarista seguiu fora da ação aberta ao público.

<><> PDV colocou Marcellão na rota de Daniel Vorcaro

O PDV, ou Projeto DV, é a peça que conecta a comunicação política bolsonarista ao entorno de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o documento listava Marcello Lopes, o Marcellão, como integrante da “equipe de estrategistas” de uma ofensiva contratada por Vorcaro contra o Banco Central e servidores da autarquia.

A conexão não é lateral. A Fórum mostrou, em reportagem sobre o Pix de R$ 650 mil, que Marcellão aparece no centro do cruzamento entre Vorcaro, comunicação digital e a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. O publicitário foi escalado para coordenar a estratégia de comunicação do senador do PL antes de o caso explodir.

De acordo com a apuração publicada pela Folha e retomada pela Fórum, Thiago Miranda, dono da agência Mithi, fez um Pix de R$ 650 mil a Marcellão em 13 de dezembro, período em que o Projeto DV estava em elaboração. O publicitário negou participação na ofensiva contra o Banco Central e afirmou que o valor se referia a pagamentos atrasados por serviços e consultorias anteriores.

Mesmo com a negativa, o dado permanece relevante: o marqueteiro de Flávio aparece associado ao plano de Vorcaro justamente no capítulo do Master que envolve comunicação, pressão sobre autoridade monetária e disputa política. Foi esse capítulo que não entrou na operação assinada por Mendonça contra Wagner.

<><> Marcellão atuava na campanha mesmo depois do constrangimento

Marcellão também não é apenas um nome de planilha. Ele era operador de comunicação da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e circulava no núcleo que preparava o senador para ocupar o lugar político de Jair Bolsonaro em 2026.

A Fórum revelou que o marqueteiro ligado a Flávio assinou contratos milionários no governo Bolsonaro. A informação ajuda a explicar por que a presença de Marcellão no Projeto DV não é um detalhe burocrático, mas uma ponte entre dinheiro, comunicação e poder político.

Depois da exposição do caso, Flávio tentou reorganizar a comunicação da pré-campanha. A troca no marketing de Flávio foi tratada pela Fórum como tentativa de afastar Marcellão do comando formal. A movimentação não apagou o vínculo anterior nem a pergunta que segue sem resposta pública na decisão de Mendonça: por que o núcleo do PDV ficou fora da ação ostensiva da PF?

<><> Dark Horse e PDV ficaram na gaveta certa para Flávio

O outro eixo de proteção é o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A Fórum mostrou que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, segundo documentos e áudios revelados pelo The Intercept Brasil, para financiar a produção.

O caso chegou ao STF por notícia-crime do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que apontou possível conexão entre Banco Master, Vorcaro, Flávio, Eduardo Bolsonaro e recursos destinados ao filme. A presidência do Supremo remeteu o caso para Mendonça por prevenção, porque já havia procedimentos relacionados ao tema sob a relatoria do ministro.

O resultado prático é simples: Dark Horse ficou com Mendonça. PDV não apareceu na última ação ostensiva. Marcellão não foi levado ao centro da decisão. Flávio Bolsonaro, embora seja o personagem político mais exposto na linha Vorcaro, não foi tratado na operação com a mesma dureza aplicada ao recorte de Jaques Wagner.

<><> A blindagem de Mendonça está no que a PF não fez

A decisão de Mendonça não arquiva investigação sobre Flávio Bolsonaro. Também não declara que Marcellão ou o PDV estejam fora do caso Master. A blindagem aparece de outro modo: no desenho da operação, no que sobe para a vitrine e no que permanece em procedimento sigiloso, periférico ou sem medida pública equivalente.

Na prática, a 9ª fase da Compliance Zero apertou o lado que produz desgaste imediato para o governo Lula e manteve fora da foto o pedaço que toca a campanha presidencial bolsonarista. É esse o ponto central. Não se trata de procurar uma frase explícita de proteção no despacho. Trata-se de observar a seleção dos alvos.

Enquanto Wagner virou alvo de mandados e cautelares, Flávio Bolsonaro seguiu fora da ação pública mesmo depois de ter admitido pedido de dinheiro a Vorcaro para Dark Horse e de ter Marcellão, seu marqueteiro, ligado ao Projeto DV. No caso Master, Mendonça não precisou defender Flávio em voz alta. Bastou deixar o PDV fora da porta da PF.

•        Vorcaro teria assinado contrato para filme sobre Master na prisão, diz PF

A PF (Polícia Federal) apreendeu na casa do publicitário Thiago Miranda um contrato que previa a produção de um documentário batizado de “Caso Banco Master" em seis meses, com assinatura do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O que chamou a atenção dos investigadores é que o documento teria sido assinado por Vorcaro em 31 de março deste ano, quando o ex-banqueiro já estava preso na Polícia Federal em Brasília. Os investigadores afirmam ao STF (Supremo Tribunal Federal) que a apreensão do suposto contrato "demanda maior aprofundamento instrutório com vistas à sua adequada compreensão”.

A PF detalha que, em síntese, o documento tinha vigência de seis meses e seria produzido um documentário ou série documental sobre fatos, personagens e acontecimentos relacionados ao tema "Caso Banco Master", com a colaboração proativa de Thiago Miranda e Daniel Vorcaro, que teriam assumido o compromisso de auxiliar a produção compartilhando informações, concedendo entrevistas exclusivas e fornecendo acesso a documentos que contribuam para a elaboração da obra.

O contrato tem firma reconhecida em cartório por Miranda e Vorcaro, dentre outras pessoas, diz a PF.

Para entender como se daria essa produção, e também esclarecer o grande número de garrafas de vinho e espumante que seriam destinadas a Fernando Cavalcanti, alvo da operação Sem Desconto (das fraudes no INSS), a PF diz que é fundamental analisar o celular apreendido com o publicitário.

“A análise dos dados existentes no aparelho celular em posse de Thiago Miranda pode melhor delimitar a extensão das vantagens indevidas transacionadas, seja mediante favores, pagamento de despesas no exterior, transações bancárias ou mesmo eventual entrega de valores em espécie”.

Após a suspensão de seu passaporte, a defesa de Miranda publicou uma nota dizendo que "desde o início das investigações, o Sr. Thiago Miranda adotou postura estritamente colaborativa, pautada pela boa-fé e pela mais absoluta lealdade processual, comparecendo espontaneamente a todos os atos para os quais foi convocado e prestando os esclarecimentos que lhe foram solicitados".

"A defesa nega enfaticamente a prática de qualquer irregularidade por parte de seu constituinte, confiante de que, ao final da regular instrução, restará plenamente demonstrada a improcedência das suspeitas que lhe são atribuídas", acrescenta.

•        Vídeo de Flávio Bolsonaro: influenciador expõe “talaricagem” de ex-aliado para defender o clã

disputa entre diferentes alas do bolsonarismo ganhou um novo capítulo após o influenciador Kim Paim fazer ataques públicos ao escritor Sílvio Grimaldo, ex-diretor do portal Brasil Sem Medo. Em publicação nas redes sociais, Paim afirmou que Grimaldo seria “mestre em pular a cerca quando está em São Paulo” e o acusou de ter se aproximado do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, intensificando o clima de divisão entre antigos aliados.

As declarações foram feitas em meio à repercussão de rumores sobre uma suposta participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em festas promovidas por Vorcaro. O episódio ganhou força depois que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou um vídeo do ex-governador Anthony Garotinho comentando um evento atribuído ao banqueiro, conhecido nas redes sociais como “festa das astronautas”.

Flávio Bolsonaro reagiu publicamente às especulações e afirmou que a informação era falsa. O senador declarou que nunca participou de festas promovidas por Daniel Vorcaro nem utilizou aeronaves ligadas ao empresário. Segundo sua equipe, registros oficiais do Senado mostram que ele estava em Brasília e no Rio de Janeiro nas datas em que o evento teria ocorrido.

<><> Contratos com o Master

Enquanto a discussão sobre o senador dominava as redes sociais, Kim Paim ampliou o foco das críticas e passou a mirar Sílvio Grimaldo. Além da provocação de caráter pessoal, o influenciador afirmou que o ex-aliado teria firmado contratos e recebido recursos do grupo ligado ao Banco Master, usando essas alegações para sustentar que Grimaldo teria abandonado posições defendidas anteriormente dentro do movimento conservador.

As críticas fazem parte de uma ofensiva mais ampla conduzida por influenciadores identificados com a ala mais ideológica do bolsonarismo. Além de Paim, nomes como Paulo Figueiredo também vêm questionando a condução da pré-campanha de Flávio Bolsonaro e criticando integrantes de seu grupo político, apontando um suposto afastamento do que chamam de “bolsonarismo raiz”.

No centro da disputa também aparece o chamado “Projeto DV”, expressão utilizada por críticos de Daniel Vorcaro para se referir a uma suposta estrutura destinada ao gerenciamento de crises de imagem envolvendo o banqueiro. As alegações são feitas por influenciadores e têm sido usadas como argumento nas críticas dirigidas a pessoas que, segundo eles, passaram a defender interesses ligados ao empresário.

As trocas de acusações evidenciam o aprofundamento das divergências dentro da direita, em um momento em que lideranças e influenciadores disputam espaço e protagonismo na construção do projeto político para as eleições presidenciais de 2026.

 

Fonte: Fórum/CNN Brasil

 

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