Escravidão
contemporânea: uma nova relação laboral de um capitalismo poderoso e
estruturado
Segundo Martins, tão importante quanto
libertar pessoas em situação de escravidão,
é compreender como muitas vezes estes sujeitos se colocam em tais situações sem
entender que se trata de trabalho
escravo. “A escravidão, atual no Brasil, tem variações significativas de
uma situação para outra. O que as torna convergentes é a vulnerabilidade da
vítima. Não só a pobreza, mas também o engano de supor que o trabalho, que só
se revelará cativo no correr dos fatos, é uma porta de acesso ao mundo novo da
superação da pobreza. A sociedade de consumo é um fantasma
por trás de toda essa situação”, reflete.
Na
concepção do sociólogo, isso tudo requer a superação de uma visão de certezas
por parte da militância, pois eles “tendem a fechar os olhos para tudo que
contrarie a euforia do espetáculo em que se converteu o combate à escravidão e do qual se
tornaram atores. (…) Isso nos põe diante das dificuldades de uma militância em
favor do fim da escravidão que reflete mais a consciência alienada do
militante, geralmente de classe média, do que a consciência que de sua situação
tem o escravo”, tensiona.
<<< Confira a entrevista.
·
Foram resgatadas mais de 200 pessoas que trabalhavam em condições análogas à escravidão em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. O que essa manchete diz ao
senhor em pleno Brasil de 2023?
José de Souza Martins – Essa manchete
não me diz absolutamente nada de novo, que já não se saiba e que já não venha
se repetindo há muitas décadas. Talvez me diga, apenas, que formas degradadas
de relações de trabalho enraizaram-se no Brasil e que, portanto, essas relações no capitalismo
brasileiro são uma mixagem que o diferencia de um capitalismo baseado em relações juridicamente igualitárias e
propriamente salariais, isto é, capitalistas.
Um
problema para caracterizar essas formas de trabalho como escravidão é que nem sempre o
são. No mundo inteiro, a crescente fragilização política dos trabalhadores e a
ilegalidade de sua situação têm facilitado a sobrexploração do trabalho. Isto é, a remuneração de seu trabalho
por menos do que vale e do que carecem para sobreviver e sustentar a família.
Não raro, a taxa de exploração é ampliada, como no caso agora do Sul, e chega-se, então, a níveis que
podem ser definidos como de escravidão.
·
Nesse caso da Serra Gaúcha, há alguns elementos que
chamam atenção. Um deles é ter localizado esses trabalhadores em uma das
regiões tidas como mais prósperas do Brasil e, ainda, o fato de terem sido
recrutados em regiões muito pobres da Bahia. O que podemos inferir a partir
desses marcadores sociais, e até de certos estigmas, acerca desse caso, dessas
duas regiões e populações de um mesmo Brasil?
José de Souza Martins – Historicamente,
a força de trabalho, na sociedade
capitalista, é uma mercadoria e a mercadoria numa sociedade assim vai
para as regiões que carecem de mão de obra, onde há mercado de trabalho.
Na Europa, nas colheitas de
frutas e, também, na colheita de uva, emprega-se mão de obra migrante, porém sob regras legais que não estão sendo
cumpridas aqui. No caso brasileiro, como mostra a ocorrência do Rio Grande do Sul, é o Brasil pobre que sustenta o Brasil rico e
não o contrário.
O
que escandaliza, porém, é que a consciência local e regional dessa injustiça
atribua à própria vítima a culpa por ela, como se viu na manifestação de
uma entidade empresarial e de um vereador de Caxias
do Sul.
O Bolsa Família estaria
desinteressando os pobres do Sul pela
oferta regional de trabalho, o que obriga as empresas que de trabalhadores
carecem para colher a uva a buscá-los na Bahia.
Ou
seja, nessa mentalidade, são escravos porque são baianos. Se fossem gaúchos não
seriam. Aí aparece um dos aspectos mais cruéis da escravidão moderna entre nós:
preconceito, desconsideração e desrespeito pelos direitos sociais da vítima e
por sua condição humana. Não só por parte de quem se beneficia de seu trabalho,
mas dos que, empresários e políticos, estão moralmente obrigados a zelar para
que valha também para as vítimas o direito que vale para os demais.
·
Na resposta a esse caso, vinícolas de grande nome
diziam não saber dessas condições de trabalho, promovidas por empresas
terceirizadas. Qual a responsabilidade das indústrias e grandes marcas nessa realidade
que se constitui como uma “escravidão com etiqueta”?
José de Souza Martins – A terceirização foi adotada
na década de 1980, quando a ocorrência de trabalho escravo, sobretudo na abertura de novas fazendas na
região amazônica, começou a repercutir internacionalmente como violação de
tratados, dos quais o Brasil é
signatário desde 1926, relativos ao trabalho livre. Foi estimulada para criar
um álibi para as empresas acusadas de praticar escravidão. Com isso, elas se
livraram da repressão e das punições respectivas já contidas na legislação
brasileira.
Diferentemente
do que imaginam os que têm suposições a respeito da escravidão atual, não se trata
sempre de trabalho bruto, como o da derrubada da mata, na Amazônia dos anos 1970, feito por
gente tosca. E que, por isso, não merece que se lhe pague o que vale seu
trabalho, contido no produto final que dele resulta.
A colheita de uva não é feita por
qualquer um em lugar nenhum do mundo. É um trabalho delicado que pede grande
cuidado por parte de quem corta os cachos e os deposita no recipiente para o
seu transporte aos lugares de processamento. Há nisso um saber milenar e um
cuidado de fato artístico, da era em que trabalho e arte não se separavam e em
que o sagrado tampouco estava ausente de um trabalho altamente simbólico como
este. Convém lembrar a função litúrgica do vinho.
Não
por acaso, nos lugares tradicionais da colheita da uva para fabricação do vinho, é ela praticada com
ritos festivos, de que os próprios donos da plantação participam com toda a
solenidade da tradição.
<< Escravidão sem etiqueta
Só
pode ser trabalho “com etiqueta” o trabalho livre. Nunca o trabalho escravo. O trabalho escravo
flagrado no Rio Grande do Sul não
é, pois, propriamente de “escravidão com
etiqueta”,
mas de escravidão sem etiqueta. A etiqueta vencida pelo afã de lucro em conflito com o
que deve ser o trabalho livre.
As
uvas usadas na produção do vinho que
delas resulta estão maculadas pela violação de uma tradição sagrada da vinicultura. Os gaúchos da região sabem disso
perfeitamente bem, mesmo os arrogantes e preconceituosos que põem a “culpa” da
escravidão na vítima, como aconteceu em pronunciamentos descabidos destes dias.
O
caso internacional mais clamoroso de uso da escravidão na produção de artigos de luxo foi, até
recentemente, o dos tapetes finos na Índia, vendidos como joias por altíssimo preço na Europa e nos EUA. Tapetes feitos por crianças escravizadas, frequentemente
vendidas pelos pais aos produtores para pagamento de dívidas que contraíram no
trabalho, dívidas que passam de pai para filhos. Um artesanato de preciosidades
porque só as mãos delicadas de crianças podem tecê-las.
·
Durante muito tempo, a historiografia dizia que não
houve escravização de negros no Rio Grande do Sul. Porém, pesquisas
atuais têm provado que isso é uma grande falácia e que a escravização no Brasil
colonial e imperial foi duríssima no sul do país. O que revela esta ideia de
que não houve escravidão no Sul?
Jose de Souza Martins – Essa
suposição é bem estranha. Aliás, as pesquisas que negam semelhante suposição
não são “mais atuais”, isto é, mais recentes. O melhor e mais bem feito estudo
histórico-sociológico sobre a escravidão
negra no Brasil tem como referência justamente o Rio Grande do Sul. Refiro-me a “Capitalismo e escravidão no Brasil meridional”,
de Fernando Henrique Cardoso,
orientando e assistente de Florestan Fernandes, do início dos
anos 1960, baseado em pesquisa histórica feita em Pelotas.
Foi
a primeira vez que se utilizou de maneira correta e muito competente o método
dialético na sociologia brasileira. É um estudo inovador, que abriu importantes
caminhos para a renovação dos estudos sociológicos entre nós com a utilização
desse método.
Presenciei,
num seminário realizado no México,
promovido pela Universidade
Nacional Autônoma do México – UNAM, uma conferência de Cardoso sobre esse livro, a que
esteve presente o grande historiador francês Pierre Vilar, que ficou boquiaberto. E reagiu admirado dizendo que
aquele livro tinha que ser publicado logo. Fernando Henrique explicou-lhe que o livro já estava
publicado há muito. Pelo visto já era um livro desconhecido no próprio Rio Grande do Sul.
·
O recente caso na Serra Gaúcha chama atenção pelo
número de trabalhadores e pelas terríveis condições em que viviam. Mas,
infelizmente, casos como esse não são novidade em trabalhos agrícolas. A
submissão de trabalhadores a situações análogas à escravidão no Brasil rural
ainda é uma realidade?
José de Souza Martins – Não se trata
de “ainda é uma realidade”. Mas de “já e há muito é uma realidade”. A “escravidão contemporânea” vem sendo
ampliada em atividades laborais temporárias, como as de colheita de frutas,
reflorestamento, confecção de roupas. Na verdade, isso já acontece no Brasil há
mais de um século. Antes mesmo que fosse assinada a Lei Áurea, trabalhadores livres e
pobres originários justamente do Nordeste,
em grande quantidade, eram empregados em atividades complementares da escravidão.
Sobretudo em trabalhos pesados e perigosos, nos quais era necessário poupar
o escravo negro, cada vez
mais caro, dados os riscos que o trabalho envolvia.
·
O senhor foi membro da Junta de Curadores do Fundo
Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão. O que, na
época, caracterizava as formas contemporâneas de escravidão e quais são, hoje,
as formas mais comuns?
José de Souza Martins – A situação
internacional do trabalho não mudou. Fui membro da Junta durante 12 anos e acompanhei bem o que em relação a
isso estava acontecendo no mundo. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, há hoje no mundo cerca
de 50 milhões de
pessoas submetidas a alguma forma de escravidão. Desse número, 22%
é de mulheres escravizadas pelo casamento forçado. Na China e no Sri Lanka, os pais vendem as filhas,
já na adolescência, como esposas. Na verdade, como escravas sexuais e, também, como escravas produtivas. A
situação varia muito.
Meu
último ato, em 12 anos na ONU,
foi o de encaminhar e apresentar aos embaixadores na Assembleia de Direitos Humanos o
caso de uma mulher do Niger,
quinta esposa de um muçulmano. No islamismo, o homem pode ter quatro esposas
legítimas. A quinta, se houver, é reconhecida como escrava. Aquela mulher fora
beneficiada por uma decisão da Suprema Corte de seu país que a libertou e lhe
reconheceu o direito a uma indenização em dinheiro. Uma indenização ridícula.
Através de uma ONG, que se
queixou por ela, o caso foi à ONU,
à qual compareceu pessoalmente e foi atendida pela Junta. Pleiteava cinco vacas, com as quais poderia sobreviver, o
que a ONU, através de uma
instituição suíça, providenciou.
As
outras 28% dos 50 milhões são pessoas submetidas a trabalho forçado. Estão concentradas sobretudo na Ásia, empregadas em atividades
produtivas. Não só na agricultura.
<< Um “negócio” lucrativo
A escravidão tem se revelado um
empreendimento lucrativo e florescente. Em 2005, a escravidão movimentava 32
bilhões de dólares. Em 2013, os lucros da escravidão haviam
saltado para 150 bilhões de dólares. Em face do crescimento do número de
escravos desde então, pode-se presumir que esses ganhos tiveram um incremento
ainda maior. Escravizar seres humanos, geralmente frágeis e desvalidos, em
situação de gravíssima vulnerabilidade, e traficá-los tornou-se um negócio
altamente lucrativo porque depende de poucos investimentos materiais e porque a
miséria do mundo vem incrementando a oferta de vítimas no mercado da
iniquidade.
Ainda
no período em que me encontrava na ONU,
apareceram dois casos de escravidão na Inglaterra e casos também nos EUA. A Inglaterra foi
o país pioneiro no combate à
escravidão, através da Antislavery
Society, que ainda existe, de que Joaquim Nabuco, nosso embaixador naquele país, foi ativista ainda
durante nossa escravidão.
Os
dois casos ingleses envolviam migrantes
clandestinos chineses e gregos, introduzidos no país por traficantes dessas
nacionalidades. Os chineses eram empregados na coleta de mariscos numa praia propícia,
à noite. Faziam-no durante a maré baixa. A área dessa coleta ficava longe da
margem, onde a maré subia muito rapidamente, dificultando o retorno rápido dos
trabalhadores à terra firme. Foi com o afogamento de vários que o problema
chegou ao conhecimento das autoridades. Eles recebiam em pagamento unicamente
uma garrafa de água, um pão e uma lata de comida para cachorro. O que faltava
era para pagamento do transporte e da introdução clandestina no país.
O
grupo dos gregos trabalhava na Cornualha no
corte e colheita de flores, também para pagamento do ingresso clandestino
na Inglaterra.
·
O senhor tocou brevemente num ponto que gostaria de
recuperar: a terceirização do trabalho pode ser vista como uma porta que se
abre à escravização contemporânea?
José de Souza Martins – A terceirização não é
simplesmente uma porta que se abre à escravização, mas uma porta que a
institucionaliza. Uma solução jurídica que acoberta e protege os beneficiários
da escravidão no
Brasil, como neste caso do Rio
Grande do Sul. A escravidão tornou-se um negócio lucrativo, aparentemente
legal, destinado a racionalizar o recrutamento e o emprego de trabalhadores em
certas atividades.
Uma
das vinícolas que contrataram terceirizadas envolvidas na prática de escravidão
soltou uma nota com a informação de que pagava R$ 6.500,00 mensais, por
trabalhador, à empresa que o recrutara. Esse recurso cria um capitalismo
paralelo ao capitalismo dominante baseado na técnica da redução dos custos com
base na intensificação da exploração do elo frágil da produção, o trabalhador.
Por esse dado, o lucro dessas empresas de tráfico de pessoas é um lucro brutal, imenso. Sendo trabalho
temporário, ilegal e sem estabilidade, fragiliza ainda mais o trabalhador e o
deixa completamente à mercê de um ente invisível que não tem a menor
responsabilidade pela injustiça que sofre.
·
O senhor está trabalhando em um livro sobre o
problema da escravidão atual no Brasil. Que escravidão é essa e qual sua
relação com a escravização que o senhor abordou em trabalhos anteriores?
José de Souza Martins – Trata-se da
mesma escravidão. Não houve nenhuma mudança entre as práticas de escravidão dos
anos 1970 e as de agora. O campo de aplicação se ampliou e se diversificou. Mas
a lógica é a mesma.
Neste
meu novo livro, desenvolvo e proponho uma teoria da escravidão atual, a chamada “escravidão contemporânea”. Nele, sugiro uma
compreensão sociológica revisora, antagônica e crítica em relação às
interpretações difundidas e praticadas pela maioria dos militantes e pelas agências
de combate à escravidão, mesmo as religiosas.
·
Quem, hoje no Brasil, é escravizado? Quem escraviza?
Por que ainda se sustentam essas relações?
José de Souza Martins – O escravizado
é, hoje, no Brasil geralmente
do sexo masculino e jovem, cuja permanência na casa da família durante a
entressafra agrícola da agricultura
familiar representa um peso porque é período de escassez. Em geral,
o aliciamento ocorre por meio de engodo, de promessas mirabolantes e de
ocultamento dos mecanismos de endividamento.
É
também a pessoa que, na escravidão
temporária, julga que amealhará recursos para um ensaio de ingresso
modesto na sociedade de consumo e de bens supérfluos. É uma forma cruel de
ingressar nas promessas do capitalismo através das armadilhas de uma porta anticapitalista.
Essas
relações anômalas se sustentam porque elas são constitutivas do capitalismo que
temos, um capitalismo baseado em pressupostos de economia neoliberal, que depende da negação da liberdade para se
firmar. Essa é uma contradição fundante de um capitalismo sem futuro. O nosso.
·
No que consiste a peonagem, conceito presente em
seus trabalhos, e como ela se transforma em escravidão por dívida?
José de Souza Martins – A peonagem é palavra que vem da
palavra “peão”, que herdamos da metrópole. Os documentos do século XVII a
mencionam para significar a diferença social e estamental entre os “limpos de
sangue”, a gente de qualidade, os nobres, cavaleiros, que não andavam sobre os
próprios pés, que eram carregados, ou andavam calçados, e os que andavam descalços,
pisando sobre os próprios pés, brancos ou não: os peões.
Peões
eram pessoas ínfimas. Quando se davam esmolas nos séculos XVII e XVIII, o valor
era definido por essa diferença. Com base na documentação em pesquisa que fiz
em arquivos de ordens religiosas, aqui e em Portugal, foi possível constar que havia um valor fixo da
diferença: um nobre pobre valia até 36 vezes um pobre sem qualidade, um peão.
A
apresentação pessoal dizia quanto valia socialmente uma pessoa. Ser um descalço
dizia muito. Definia um destino. A persistência da palavra peão na definição
das vítimas da escravidão por dívida é significativa indicação de que o peão é
menos do que uma pessoa. É alguém cuja designação indica que suas necessidades
não são definidas por aquilo de que carece, mas por um estigma de nascimento.
·
Ainda entre seus projetos de pesquisas atuais, estão
análises nos arquivos de fazendas da Ordem de São Bento na antiga vila e cidade
de São Paulo. O que essas pesquisas nas terras beneditinas têm revelado sobre a
escravização e organização do trabalho?
José de Souza Martins – Minhas
pesquisas nos arquivos beneditinos foram feitas em São Paulo, Bahia, Pernambuco e Portugal. A escravidão, na Ordem de São Bento, distinguia-se
significativamente da escravidão em geral. Os monges eram monges filósofos,
intelectuais. Eles criaram o modelo da abolição progressiva da escravidão no
Brasil. No dia seguinte ao da Lei
do Ventre Livre, em 1871, aboliram a escravidão nos mosteiros e
fazendas, 17 anos antes da Lei
Áurea, sem exigir do governo qualquer compensação pelo enorme prejuízo
que tiveram.
Além
disso, já no correr do século XVIII, há em seus documentos indicações de que
a escravidão, em suas
fazendas, não se fundava no nascimento, não era de fundamento racial, mas na
condição social. Um dos casos que analisei foi o de um índio administrado que
era também feitor dos escravos e arrendatário de um pedaço de terra de uma das
fazendas. Criou com o abade um caso para recebimento do valor de uma partida de
farinha de mandioca que lhe vendera. Isto suscitou um debate no mosteiro a que
estava vinculado para saber se tinha que ser pago ou não.
Um
terço da pessoa do índio era livre, igual e pessoa de direito. Fora quem
produzira a farinha e, portanto, devia ser pago: era dono dessa parte de sua
pessoa e era dono de seu trabalho.
·
IHU – Qual foi o papel do colonato, na história
agrária do Brasil, para o rompimento das relações de trabalho escravo? Em que
medida a absorção da pequena propriedade rural pelo latifúndio e as lógicas do
agronegócio contribuem para a “invenção” de novas formas de escravização?
José de Souza Martins – Estudei esse
tema no meu livro O cativeiro
da terra (Contexto, 2010). O Brasil não evoluiu da escravidão para
o trabalho livre e assalariado, mas para uma combinação de relações
laborais. Só a colheita do café, que foi a referência, se fez mediante
pagamento em dinheiro, portanto de modo propriamente salarial. A permissão de
cultivo próprio de alimentos em terras da fazenda configurou uma situação de
arrendamento da terra para pagamento em trabalho, ou seja, de colono inquilino
do fazendeiro, o inverso da situação de um empregado.
No
trato do cafezal, o colono empenhava o trabalho gratuito de sua família. Se houvesse
necessidade de catadores adicionais para a colheita, a responsabilidade pelo
pagamento do salário era do colono, responsabilidade de patrão. O fazendeiro
fazia o pagamento, mas debitava-o da conta do colono. Além disso, havia as
tarefas gratuitas, como a de fazer cercas, apagar incêndios. Uma relação
laboral livre, mas complexa, não reduzida ao propriamente salarial e não raro
confundida com o patronal.
<< Pequena propriedade e latifúndio
A
pequena propriedade não foi absorvida pelo latifúndio. A pequena agricultura, e não
propriedade, que foi incorporada ao latifúndio, como na agricultura canavieira
do Nordeste ou nas
fazendas de café de São Paulo,
não era praticada em terras de propriedade do pequeno agricultor. Só no
Nordeste, já na ditadura militar,
o governo reconheceu o direito de enfiteuse dos moradores das
fazendas de cana da região sobre as terras de sua roça, o chamado sítio. O que
tampouco configura direito de propriedade.
Os
territórios de recrutamento de trabalhadores que eventualmente caem na situação
de escravos são muito distantes dos lugares em que a escravização acontece.
Essa é uma tática para torná-los mais vulneráveis: o desamparo pela distância
em relação à comunidade e à família de origem.
·
Se no campo vemos situação de trabalho análoga à
escravidão, na cidade não é diferente, pois temos notícias de fábricas
clandestinas mantêm pessoas em verdadeiras prisões. O que há de semelhança e de
diferença entre essa escravização rural e a urbana contemporânea, especialmente
na produção de grandes grifes?
José de Souza Martins – A escravidão, atual no Brasil, tem variações significativas
de uma situação para outra. O que as torna convergentes é a vulnerabilidade da
vítima. Não só a pobreza, mas também o engano de supor que o trabalho, que só
se revelará cativo no correr dos fatos, é uma porta de acesso ao mundo novo da
superação da pobreza. A sociedade
de consumo é um fantasma por trás de toda essa situação.
A
semelhança básica dessas situações está na cumplicidade da vítima. Os
aliciadores, traficantes, beneficiários do trabalho escravo usam o desvalimento
decorrente das diferenças culturais entre a vítima e quem o explora, como
instrumento de dominação. Há um biculturalismo que separa as pessoas num país
como o Brasil, que torna
vulneráveis as que vem dos setores atrasados da sociedade, que atribuem às
palavras o sentido que elas não têm.
·
Se há ainda situações análogas à escravidão no campo
e na indústria, há também dentro de casa, pois vemos trabalhadores domésticos
sendo resgatados dessas condições. Como o senhor analisa essa relação entre
escravização e o trabalho doméstico?
José de Souza Martins – A granel,
casos de servidão doméstica estão nos
jornais quase todos os dias. A é vítima tratada como agregada e membro da
família, que trabalha sem salário nem direitos, como se explorá-la fosse um
favor e o trabalho um pagamento justo desse favor, a comida e a moradia embaixo
da escada, como se diz. A justiça, quando acionada, tem agido, processado e
condenado os responsáveis. A diferença, nesses casos, é que as vítimas estão em
cativeiro quase sempre porque foram abandonadas pela própria família de origem.
Como
também acontece na escravidão
rural, a vítima não se reconhece como escrava, sobretudo porque sem
aquele trabalho ela cai no desemparo. É mais comum do que se pensa que o
trabalhador libertado pelos fiscais do trabalho retorne à fazenda de onde saíra
e espontaneamente se submeta ao cativeiro novamente. Ou, no caso das
domésticas, que não sabem o que fazer quando libertadas.
Isso
nos põe diante das dificuldades de uma militância em favor do fim da escravidão que reflete
mais a consciência alienada do militante, geralmente de classe média, do que a
consciência que de sua situação tem o escravo. A consequência pode ser dor,
sofrimento e desamparo. Não tenho visto análises nem debates sobre esse
complicado problema. Os militantes tendem a fechar os olhos para tudo que contrarie
a euforia do espetáculo em que se converteu o combate à escravidão e do qual se tornaram atores.
·
É possível efetivamente erradicar a escravização
hoje sem a superação do capitalismo?
José de Souza Martins – A superação do capitalismo é uma
questão muito complicada. Ela depende do surgimento do que Henri Lefebvre e Ágnes Heller, por vias
separadas, definiram como situações de necessidades radicais. As que só podem
ser superadas em decorrência de transformações sociais revolucionárias, isto é,
profundas.
O
mundo, não só a sociedade capitalista, está cada vez mais distante de condições
que engendrem essas necessidades causadoras de transformações. Ouvi, da
própria Ágnes Heller, numa
conferência na PUC, aqui em
São Paulo, que já não existem necessidades radicais.
Tenho
tratado desse tema em outra e divergente perspectiva e o fiz no meu livro
recente intitulado Sociologia
do desconhecimento: ensaios sobre a incerteza do instante” (Unesp,
2021). No caso brasileiro, a dificuldade é diferente e maior porque nossa
alienação social é peculiar, nossa visão de mundo crônica é do avesso. Esse é
um fato histórico e antropológico.
·
Que caminhos devemos construir para erradicar a
escravização no Brasil de hoje?
José de Souza Martins – O que estamos
chamando de escravidão é
o novo modelo de relacionamento
laboral de um capitalismo poderoso e estruturado, redefinido. Num
mundo em que o trabalho está sendo sistematicamente desvalorizado, econômica,
social e moralmente.
Temos
que compreender o que são hoje as contradições do capital e quais as
possibilidades históricas que delas decorrem. O possível, qual é nosso possível
hoje? Que práxis transformadora temos condições de desenvolver a partir dessas
constatações?
Precisamos
rever criticamente o que achamos que sabemos sobre a sociedade contemporânea e
sobre a sociedade brasileira em particular. Fazer a severa autocrítica que nos
permita ver o que até agora não vimos e nem quisemos ver. Jogar no lixo os
manuais de vulgarização do pensamento de esquerda. Temos que pensar com nossa
própria cabeça, como sujeitos de consciência social compartilhada. É o
que Florestan Fernandes definia
como consciência científica da realidade social.
Ler
cuidadosamente os autores que, cacoete ideológico, satanizamos em nome do nosso
voluntarismo desinformado e de nosso senso comum pobre e intolerante, pequeno
burguês e reacionário. Começar de novo a repensar o capitalismo com instrumentos
novos. Reconhecer os erros e insuficiências que bloqueiam nossa compreensão do
mundo. Se não nos libertarmos, não libertaremos ninguém.
Fonte:
Entrevista com José de Souza Martins, em IHU OnLine

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