Chile: por que a
ultradireita venceu
Há
algum tempo, o Chile voltou a ocupar um lugar especial no coração do progressismo
mundial. Em 2019, os protestos sociais contra o neoliberalismo geraram um
processo democrático com objetivo virar a página da Constituição imposta pela
ditadura de Augusto Pinochet em 1980. Em 2021, Gabriel Boric, um ex-líder
estudantil de 36 anos, foi eleito presidente, iniciando o que alguns apontavam
como uma nova onda de governos progressistas na América Latina.
No
entanto, em setembro passado, a população rechaçou maciçamente
nas urnas o texto constitucional que pretendia substituir a antiga
Constituição, obrigando os partidos a iniciar um novo processo – e mais
tutelado que o anterior. E isso seria apenas o prelúdio: nas eleições para o
novo Conselho Constitucional, realizadas neste 7 de maio, a extrema direita,
representada pelo Partido Republicano (PR) de José Antonio Kast, obteve 35,41%
dos votos. Desta forma, ultrapassou a direita tradicional (21,1%) e derrotou o
oficialismo progressista (que concorria em listas separadas, um erro que
demorará muito para ser admitido e reparado). Além disso, o PR conseguiu para
si o poder de veto e, juntamente com a direita tradicional, obteve
representação de dois terços para vetar qualquer modificação que a comissão de
especialistas sugerir ao projeto da nova Constituição.
Tudo
isso dificulta extremamente qualquer acordo entre a esquerda e a direita
tradicional (quem diria que essa possibilidade seria ansiada!). Ainda que os
resultados inevitavelmente dinamitassem a postura negociadora do governo para
levar a cabo um programa já emparedado pela falta de maioria parlamentar, o
certo é que a maioria de extrema direita no Conselho Constitucional não tem um
caminho garantido para vencer nas próximas eleições presidenciais. Na
realidade, os tempos das “identidades negativas” e o rechaço de tudo o que
cheire ao poder vem mostrando justamente o contrário: sem experiência e
disposta a liderar um processo com expectativas que não poderão cumprir, a
extrema direita pode enfrentar um processo de degradação, assim como a esquerda
teve o seu com a primeira Convenção Constitucional.
·
Idas e vindas constituintes
Embora
ainda seja muito cedo para tirar conclusões sobre o comportamento eleitoral, há
várias questões a serem mencionadas. Em primeiro lugar, a introdução do voto
obrigatório desde o ano passado estabilizou uma elevada percentagem de
participação que muda completamente o mapa eleitoral. Se em 2022 a participação
foi de 86%, desta vez foi de quase 85%. Parece que o desinteresse dos cidadãos
pelo atual processo constituinte, ao invés de se transformar em abstenção, tem
se manifestado em votos nulos e branco: estes somaram 21,54% do total. Por
outro lado, os eleitores que não tinham ido às urnas anteriormente (nem no
primeiro processo constituinte nem na eleição do presidente Boric, quando o
voto ainda era facultativo), desta vez, com o voto obrigatório, optaram pela
extrema direita.
Se
isso significará uma expansão da penetração cultural do conservadorismo no
Chile, dependerá se o PR manterá seus bons resultados ao longo do tempo. Mas,
por ora, três aspectos podem ser depreendidos. O primeiro é que a votação pela
rechaço no último plebiscito é semelhante ao percentual de apoio à oposição:
62%. Segundo: o centro político finalmente desmoronou depois que a aliança
entre a Democracia Cristã e o Partido para a Democracia (PPD, do ex-presidente
Ricardo Lagos), batizado Todo por Chile, decidiu abandonar o bloco oficialista
e não obteve nenhuma cadeira. Terceiro, e talvez o mais importante: parece que
a extrema direita está aproveitando temporariamente um voto de repúdio ao establishment
político que não é muito diferente daquele que mobilizou os eleitores
da nova esquerda chilena nos últimos tempos. Como já aconteceu em outros
países, as eleições estão sendo definidas pelas chamadas “identidades
negativas” e quem ganha as eleições vê seu poder diluído em um piscar de olhos.
Agora,
para entender com mais precisão aquilo que os chilenos agora estão punindo, é
preciso resgatar a série de idas e vindas constituintes das quais deriva o
processo atual. A persistência do problema constitucional chileno reside no
fato de que, apesar das múltiplas reformas que a Constituição de 1980 teve, ela
não se desenvolve como um pacto fundador da comunidade política nem serve de
base para resolver as diferenças entre os cidadãos. Além de sua herança
ditatorial, o texto degradou ainda mais sua legitimidade ao bloquear reformas
que pudessem alterar o caráter subsidiário do Estado.
Após
a eclosão social de outubro de 2019, o mundo acreditou que tudo isso ficaria
para trás com a Convenção Constitucional e suas inovações democráticas sem
precedentes em termos de paridade de gênero e proteção ambiental. No entanto, o
projeto foi fortemente rejeitado por quase 62% dos eleitores em todas as
regiões do país. Embora alguns ainda culpem a campanha de desinformação
conservadora, a verdade é que ela só pôde ter sucesso devido a um erro
estratégico e também ideológico da esquerda: a redação de uma Constituição
confundiu-se com a implantação e materialização de um programa inovador de
governo progressista. O problema estrutural com a ratificação de novas Constituições
por referendo é que quanto mais longo o texto, mais motivos os eleitores têm
para rejeitá-lo. No caso do Chile, por exemplo, grande parte dos novos
eleitores de setores populares interpretou a “plurinacionalidade” como um
ataque à sua identidade patriótica.
Com
o projeto anterior rejeitado, o Congresso Nacional lançou um novo processo
muito mais limitado pelo poder constituído. Embora tenha sido um balde de água
fria para as expectativas da esquerda, qualquer outra coisa teria dado armas à
direita. Assim como na Convenção, o novo órgão estabelecia quóruns de
contramaioria, em particular de três quintos em uma assembleia de 51
representantes eleitos (o acordo original previa 50 cadeiras, às quais seriam
acrescentadas as cotas indígenas caso se obtivesse 1,5% do total de votos do
país em uma votação separada. Este foi o caso de Alihuén Antileo, eleito por
essa cota). E, como aconteceu antes com a direita, a escassa representação da
centro-esquerda no atual processo faz com que os quóruns não cumpram seu
objetivo de fazer avançar os pactos. Além disso, a direita tinha três
reivindicações: 12 bases institucionais intocáveis durante o processo (como a
impossibilidade de eliminar o Senado, e a menção explícita à existência das
Forças Armadas e dos Carabineiros na Constituição, dois pontos polêmicos na
última Convenção), uma comissão de especialistas composta proporcionalmente
pelas forças representadas no Congresso e um comitê de árbitros para garantir a
proteção do poder constituinte. O primeiro paradoxo é que, com resultados
eleitorais favoráveis à extrema direita, na melhor das hipóteses esses
contornos conferem certo grau de influência à esquerda (e não mais aos
conservadores) e, na pior, os tornam irrelevantes. O segundo paradoxo eleitoral
é que um partido como o PR, que defende a continuidade da Constituição de 1980,
ficou encarregado da mudança constitucional.
·
A surpresa da extrema direita
A
mudança na hegemonia da direita chilena é total. A partir de hoje, José Antonio
Kast não é apenas o ex-candidato presidencial da direita que obteve 44% dos
votos no segundo turno de 2021, pois seu partido acaba de somar mais que o
dobro de representantes das forças clássicas da direita, entre elas a Renovação
Nacional (do ex-presidente Sebastián Piñera) e a União Democrática Independente
(UDI, fundada por Jaime Guzmán, um dos ideólogos da ditadura).
A
imprensa internacional catalogou Kast como a simples adaptação chilena de
populistas como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, o que faz sentido considerando
as conexões do PR com as principais organizações de extrema direita do mundo.
No nível discursivo, Kast apela desde 2017 para os perigos vividos quanto aos
valores da família tradicional e a estabilidade econômica. A ameaça? A clássica
rede de conspiração de inimigos coordenados: esquerda, operadores políticos,
“ideologia de gênero” e imigrantes. Nada muito diferente do discurso da alt-right que
está crescendo no resto do mundo.
Desde
que Boric foi eleito em 2022, o contexto econômico, a crise migratória e a
crise de segurança (particularmente com o forte crescimento de crimes de
elevada repercussão na sociedade) não só suscitaram uma reação contra o
governo, como revigoraram discursos como o dos Republicanos, que passaram a ser
vistos como forasteiros que vem para usar uma “mão forte”
contra a delinquência. Com efeito, toda a campanha eleitoral para o novo
Conselho Constitucional foi marcada por mensagens sobre a falta de controle em
questões de segurança pública que pouco tinham a ver com a Constituição, mas
foram usadas pelo PR para se antagonizar ao partido no poder.
Ora,
será que José Antonio Kast é mesmo um outsider? Ao contrário de
alguns de seus pares internacionais, Kast é um político de longa data que
ocupou cargos públicos desde 1996 e, até sua primeira campanha presidencial em
2017, sempre concorreu à UDI. Em particular, Kast vem do coração de uma das
culturas políticas mais tradicionais da direita chilena. Quando estudava
direito na Universidade Católica, Jaime Guzmán foi seu tutor e assim se tornou
militante do Movimento Gremial, grupo corporativista e religioso, que mais
tarde se tornaria a semente do partido. Por outro lado, seu irmão, Miguel Kast,
era um garoto de Chicago treinado por Milton Friedman que, mais tarde, se
tornou ministro de Pinochet. Justamente quando Guzmán e Miguel Kast iam fundar
a UDI, este faleceu, de modo que a figura de José Antonio passou a ocupar um
papel simbólico fundacional que se reflete em inúmeros discursos e homenagens.
Tudo
isso é extremamente relevante para intuir a forma como Kast e os Republicanos
tentarão conduzir seu grupo no Conselho Constitucional. Continuarão a
antagonizar o resto dos partidos agora que precisarão liderar? O atual
presidente da UDI, Javier Macaya, mostrou-se confiante de que isso mudaria
quando afirmou que “quase 90% dos
Republicanos eleitos vêm da UDI”. Embora não saibamos qual o papel que Kast
escolherá desempenhar até o fim do processo, ele pode apresentar algumas
diferenças em relação ao roteiro do populismo de direita em outras latitudes.
·
Progressismo chileno: e agora?
O
Chile elegeu o presidente mais esquerdista desde a volta da democracia no país,
mas, ao mesmo tempo, votou em um Congresso majoritariamente de direita. Tal foi
o alvoroço desencadeado pelo primeiro, talvez intensificado pelas expectativas
iniciais do processo constituinte, que a esquerda cometeu um erro estratégico:
esqueceu do segundo ponto. Assim, em vez de tramitar de imediato as principais
reformas do programa de governo, aproveitando a cada vez mais curta lua-de-mel
dos governos, ele decidiu aguardar o resultado do plebiscito de setembro de
2022, pensando que a vitória fortaleceria o poder de negociação do executivo no
Congresso. No entanto, com a proposta rejeitada, o partido no poder ficou com
grande parte do programa de governo foi ladeira abaixo e, após os resultados de
7 de maio, não apenas foi escolhido um corpo político mais direitista em
décadas, mas também a posição de negociação no Congresso piorou novamente.
Num
cenário adverso, o progressismo precisa se livrar rapidamente de sua derrota e
partir para a autocrítica; e, ao invés de continuar em autoflagelação, olhar
adiante: quais elementos do processo constituinte propostos até agora devem ser
recuperados e quais devem ser abandonados? Quais consensos serão necessários
para recuperar a legitimidade de nossa vida comum em um contexto como o
descrito?
Se
há algo claro é que a esquerda não pode ignorar o processo constituinte.
Afinal, foi ela que propôs ao país uma nova Constituição destinada a
possibilitar um período de justiça social. Assim, mesmo que tenha que fazer
múltiplas concessões, seria muito mais prejudicial renunciar a um acordo com a
direita tradicional. Por um lado, isso permitiria chegar a um acordo sobre um
texto com maais chances de ser aprovado em dezembro de 2023 para encerrar este
processo de vez. E, por outro, construiria um precedente para bloquear o avanço
do autoritarismo.
A
era das identidades políticas negativas também implica que no Chile poderia
haver espaço para construir uma identidade contra a extrema direita, algo que
em certa medida foi gerado no segundo turno presidencial de 2021 – embora a
questão seja se construir esse antagonismo é suficiente para denunciar que o
Partido Republicano “não é democrático” justamente quando acaba de ganhar as
eleições. Em vez disso, vale a pena voltar à origem: a razão pela qual
iniciamos esse longo caminho de idas e vindas desde a eclosão social foi o desconforto
com a subsidiariedade do Estado consagrada na Constituição de 1980. Se
considerarmos a lógica do plebiscito ratificatório, que não distingue artigo
por artigo, mas submete todo a proposta a uma votação, então o mais importante
para a votação final serão os anticorpos que o novo texto pode induzir. Se a
direita optar por constitucionalizar o sistema de AFP (administradoras de fundo
de previdência privada) ou das Instituições de Seguridade Social (ISAPRE,
sistemas privados de saúde), rechaçado pela população, é muito plausível que o
“não” a um novo texto constitucional vença novamente.
·
O dilema de Kast
Dissemos
acima que o processo constituinte ficou a cargo daqueles que rechaçavam um
processo constituinte. Basta um exemplo para ilustrar isso: Luís Silva, o
candidato mais votado em nível nacional, sinalizou que o PR “não quer uma nova
Constituição“.
Em poucas palavras, pode-se dizer que a proposta constitucional do PR é a
Constituição de 1980, nem mais nem menos. No entanto, apesar das duras derrotas
eleitorais neste ano e no ano passado, o plebiscito constitucional de 2020
aprovou com 78% dos votos a mudança do texto imposto pela ditadura e reformado
em diversas ocasiões. Em outras palavras, este é um capítulo que dificilmente
terminará com mais um rechaço.
Como
se vê, a questão não é tão simples para o PR. Como principal força do Conselho
– com 23 assentos, poder de veto autônomo e apenas 8 votos para atingir três
quintos (quórum para aprovação dos artigos) –, a responsabilidade pelo
andamento do processo agora recai sobre eles na mesma medida que o apoio
recebido na votação. E, embora haja mais de uma tentativa de se desvincular de
sua responsabilidade, a verdade é que as expectativas de encerrar a crise
social e institucional no Chile não desapareceram, apesar de segurança e
imigração terem se tornado temas centrais na agenda cidadã.
Ao
contrário do último referendo, capitalizar um novo rechaço não é mais possível
para a direita. A facilidade com que três quintos e até dois terços podem ser
construídos com o Chile Vamos implica que os custos do processo constituinte
recairão em grande parte sobre a direita. Portanto, é provável que a aposta do
PR seja a realização de uma minuta para ser aprovada em dezembro. Isso depende
da capacidade da direita, mas sobretudo do Partido Republicano, de agir com
moderação. Isso não é impossível se considerarmos que, ao contrário de boa parte
da esquerda independente da Convenção, o PR tem um líder e uma estrutura
partidária muito mais verticalizada.
No
entanto, esta não é a única possibilidade. O PR é um partido novo, com muitos
quadros que não foram forjados na política nem estão habituados a debates
institucionalizados, regulamentos de votação, aparições públicas etc., e podem
cometer os mesmos erros táticos e de comunicação que foram cometidos, em
abundância, na primeira Convenção Constitucional. Não podemos esquecer que na
Câmara dos Deputados, militantes e ex-militantes do PR estiveram envolvidos em
diversas polêmicas.
Em
suma, enquanto o caminho da nova esquerda chilena liderada pelo presidente
Boric enfrenta curvas perigosas, o da extrema direita de José Antonio Kast,
embora pareça claro, enfrenta os riscos do excesso de velocidade. É possível
que ele aposte no marco de uma nova Constituição que deve ser aprovada para
mostrar que ele pode governar e gerar “estabilidade”, mas ele deverá tomar
cuidado para que suas ideias “oitentistas” não apareçam no novo texto. Enquanto
isso, entre curvas perigosas e excesso de velocidade, um verdadeiro abismo
entre a política e a sociedade continua a crescer.
Fonte:
Por Tomás Leighton e José Acevedo, no Nuso | Tradução: Rôney Rodrigues, para
Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário