Trump, a justiça e
o antissemitismo eterno
Sim,
é histórico o momento: o primeiro ex-presidente dos EUA indiciado na história
do país. E de fato, para quem é a favor da Democracia, da Justiça Social e dos
Direitos Humanos, ver Trump finalmente pagando pelos seus crimes é um presente
em termos de Justiça. Trump foi o presidente mais nocivo a governar na Casa
Branca – superando consideravelmente Nixon –, tendo causado a maior
desestabilização social já vista em seu país, o que por pouco não culminou na
derradeira disrupção do Estado de Direito do mesmo.
Mas
infelizmente parece muito incerto se tal indiciamento resultará de fato em algo
concreto, como uma possível condenação que, se não levar à prisão, ao menos
leve à inelegibilidade de Trump. E isto provavelmente também não ocorrerá. Há
antes de mais nada a questão da prescrição tanto no caso do “hush money” (o
“dinheiro do silêncio” pago a Stormy Daniels) quanto dos imbróglios relativos
aos pagamentos de impostos tanto pessoais quanto das campanhas eleitorais. E
mesmo com mais de duas dúzias de processos contra o ex-presidente, ainda que
algum escape do período de prescrição, outros truques jurídicos serão
utilizados sem economia por seus experientes advogados.
Uma
vez que todo o processo deverá se arrastar por meses, o que nos cabe agora é
analisar a situação real que temos no momento. E o ponto que trago a este
artigo é justamente a questão do antissemitismo. Para os entendidos do assunto,
que Trump e considerável parte de seus seguidores são antissemitas, não é
surpresa alguma. A base de apoio do ex-presidente é conhecidamente formada por
grupos de Supremacia Branca (mais notadamente os Proud Boys) e
conspiracionistas (sobretudo o QAnon) e a ideologia que fundamentou seu trajeto
político desde 2016 é assinada por um dos maiores representantes da
Extrema-direita do planeta, Steve Bannon.
Assim,
cumprindo a cartilha do discurso de ódio e das teorias conspiratórias, Trump
não hesitou nem por um dia em culpar pelo seu indiciamento aquele que é sempre
invocado pelos antissemitas: George Soros. Soros é um bilionário judeu
conhecido por ter doado ao longo de sua vida altas quantias ao partido
Democrata, consistentemente apoiando causas progressistas, inclusive a questão
da Reforma da Justiça Criminal. Esta causa especificamente é uma das que mais
incomoda os republicanos mais conservadores, afinal ela aborda questões
estruturais visando combater a discriminação racial, a brutalidade policial, o
encarceramento em massa, entre outros.
Desta
forma, os antissemitas, se utilizando dos tropos mais tradicionais do
preconceito contra judeus, elegem Soros como o “puppet master”, o marionetista
que controlaria os políticos do país de acordo com os interesses da comunidade
judaica. Trump, sem o menor pudor, diversas vezes trouxe à tona tal
conspiração. Em recente discurso em 4 de março, ao já temer seu indiciamento,
ele apontava a “máquina de dinheiro de George Soros que gasta muito dinheiro
com promotores”. Outros republicanos dos mais importantes do país fazem coro ao
mesmo discurso, como Kevin McCarthy, presidente da Câmara dos Deputados, que
afirmou em 19 de março que Alvin Bragg, o promotor do condado de Nova Iorque à
frente do caso de Trump, era o “promotor que recebeu mais de um milhão de
dólares de Soros”. No dia seguinte, o governador da Flórida e candidato a
representar os Republicanos na corrida eleitoral do ano que vem, Ron DeSantis,
disse que “americanos comuns em todas essas diferentes jurisdições são
vitimados todos os dias por causa da imprudente agenda que os promotores de
Soros trazem aos seus serviços”. E em 30 de março, Matt Gaetz, deputado federal
da ala mais extremista do partido (e alvo de investigações federais sobre
tráfico sexual), afirmou que o caso “parece deixar a nação no precipício, enquanto
testemunhamos o sufocamento de Soros do sistema de justiça criminal neste
país”.
Cabe
aqui um breve fact-checking: a realidade é que Soros não possui nenhuma ligação
direta com Braggs, não tendo feito doação alguma para sua campanha nas eleições
de 2021 em que se saiu vitorioso. O que ele fez foi doar para o Comitê de Ação
Política ‘Color of Change’, que apoia a Reforma da Justiça Criminal e que, por
sua vez, apoiou Braggs.
O
ponto central aqui é que mesmo que Soros tivesse doado diretamente para Braggs
durante toda a sua vida política, não teria feito nada diferente de todos
outros doadores dos EUA, que apoiam seus candidatos preferidos, tanto
democratas quanto republicanos, em todos os possíveis estágios da hierarquia
política. A questão dos acusadores e suas parolas antissemitas não é denunciar
o seríssimo problema do financiamento político nos EUA, mas sim perpetuar a
ideia de que existe um povo específico, liderado por um homem específico, que
controla o cenário político e jurídico do país através de suas “marionetes”
colocadas no poder comprado com o seu dinheiro.
O
falecido professor emérito de Ciências Políticas da State University of New
York, descreveu esta fantasia do controle mundial judaico como “a teoria da
conspiração mais difundida e durável do século XX”. Mas vemos que mesmo no
século XXI, ela permanece mais viva do que nunca. Representantes da nova
Extrema-direita, que em muitos casos se irmana ao Fascismo, carregam fielmente
debaixo do braço a essência ideológica de ‘Os protocolos dos Sábios de Sião’
que, publicado na Rússia czarista, popularizou tal narrativa na virada do
século XIX ao XX; e a sua “versão estadunidense atualizada”, que surgiria em
1920 assinada pelo notório antissemita Henry Ford, sob o título ‘O judeu
internacional’ (e o subtítulo ‘O maior problema do mundo’).
A
realidade é que muito antes do século XX as noções que fundamentam esta ideia,
o “antissemitismo arcaico” ou “ur-antissemitismo”, já existiam. A imagem
medieval do judeu enganador e traidor que envenenava os poços dos gentios,
funciona como elemento cerne para o caráter de um povo que como um câncer se
alastraria pela humanidade buscando dominá-la.
Em
2021 um estudo conduzido pela companhia Morning Consult aponta o fato de que
cerca de metade das pessoas que apoiam o já mencionado grupo Qanon simplesmente
crê que os judeus tramam constantemente para dominar o mundo. Este grupo
oferece apoio incondicional a Donald Trump, “inspirando” dezenas de milhões de
seus seguidores e eleitores.
Umberto
Eco cunhou o termo “Ur-Fascismo” e “Fascismo eterno” em seu histórico ensaio de
1995. Ele traz basicamente dois conceitos relativos ao Fascismo: suas
origens/fundamentos/causas (ur) e sua perenidade/imortalidade (eterno). Em
2023, Trump escancara mais uma vez a realidade do antissemitismo eterno,
apostando neste específico discurso de ódio e de inverdades para exortar seus
fanáticos seguidores, na esperança de ser defendido de sua possível queda da
Casa Branca à prisão, mesmo que isto custe e cause, nas palavras do próprio,
“potencial morte e destruição”.
Ø
Analista
americano: por teoria jurídica fraca, Trump recebe apoio popular e eleva chance
eleitoral
Um
grande júri de Manhattan indiciou Donald Trump, tornando-o o primeiro
ex-presidente a enfrentar acusações criminais. Não ficou imediatamente claro a
que o indiciamento estava relacionado ou a quais acusações Trump enfrentará. A
acusação está sob sigilo.
Entretanto,
sabe-se que está sob investigação do escritório do promotor público de
Manhattan o pagamento de US$ 130 mil (R$ 660 mil) feito a Stormy Daniels, atriz
de filmes pornôs que alegou ter tido um caso com Trump. O presidente nega.
Michael
Cohen, o ex-advogado de Trump que preencheu o cheque para Daniels nos últimos
dias da campanha de 2016, foi preso em parte pelo pagamento, o qual os
promotores federais acreditam ter sido uma doação ilícita de campanha, de
acordo com registros do tribunal.
Além
disso, é acusado de mais de 30 episódios de fraude empresarial.
Na
visão do professor de ciências políticas da Universidade de Iowa, Timothy
Hagle, entrevistado pela Sputnik, as acusações feitas ao ex-presidente não têm
peso necessário para serem levadas no formato jurídico em que estão sendo
levadas, e a ação parece mais um ato político.
"Ainda
não sabemos os detalhes das acusações, mas elas são como parecem ser: baseadas
em vazamentos. Muitos especialistas jurídicos denunciaram a teoria jurídica na
qual as acusações se baseiam. Isso faz com que pareça nada mais que outra
tentativa política de prejudicar Trump. Muitas pessoas, incluindo as que não
são partidárias de Trump, não gostam de como o sistema de Justiça criminal
aparentemente é usado para silenciar ou prejudicar um oponente político",
afirmou.
Para
Hagle, essa interpretação da acusação feita inclusive por quem não é apoiador
de Trump, ajudou para que as pesquisas eleitorais e as arrecadações de fundos
para o ex-presidente crescessem em números: "Isso fez com que muitos que
não gostam particularmente dele, se não vierem exatamente em sua defesa, pelo
menos critiquem o que está acontecendo com ele", acrescentou.
"[...]
Vimos um aumento nas pesquisas para ele nos últimos dias. Também não é
surpreendente que tenha havido um aumento acentuado em sua arrecadação de
fundos. Esses picos geralmente ocorrem quando um político é atacado de alguma
forma. O político geralmente envia comunicados de arrecadação de fundos,
notando que seus oponentes estão de volta e pedindo doações."
Ao
mesmo tempo, o professor é questionado o porquê de Trump ter pedido para ser
algemado ao sair do tribunal, se fosse o caso, e se isso seria um espetáculo.
"Se
ele sugeriu que queria ser algemado, provavelmente seria, como você sugere,
pelo espetáculo disso. Isso permitiria novamente que ele argumentasse que está
sendo perseguido politicamente", diz.
Hagle
também acredita que, se há "algo mais substantivo nas acusações",
Trump "pode usar como outro exemplo de perseguição política pela
esquerda".
"Ele
se encaixa na narrativa e nos exemplos anteriores de como a esquerda tentou
prejudicar Trump de uma forma ou de outra. Por causa de falsas acusações no
passado, tudo o que eles fazem agora suspeitam, o que Trump poderá explorar a
seu favor."
A
entrevista com Hagle foi realizada antes do ex-presidente deixar o tribunal.
Mais tarde, Trump se declarou inocente das 34 acusações contra ele apresentadas
na audiência e deixou o prédio em Mahanttan às 17h28 de Brasília. É esperado um
discurso de Trump ainda hoje na Florida.
Ø
Donald
Trump é o primeiro ex-presidente dos EUA a virar réu
Donald
Trump tornou-se
nesta terça-feira (04/04) o primeiro ex-presidente americano a virar réu num
processo criminal. A um tribunal em Manhattan, Trump declarou-se inocente
das 34 acusações feitas contra ele, entre elas a de fraude empresarial
relacionada ao pagamento,
durante a campanha presidencial de 2016, pelo silêncio de uma atriz pornô com quem
teria tido um caso extraconjugal.
A
alegação de inocência foi feita durante a breve sessão que durou cerca de 40
minutos e na qual os procuradores expuseram a acusação do grande júri visando o
ex-presidente e empresário.
"Donald
J. Trump falsificou repetida e fraudulentamente registros comerciais de Nova
York para esconder crimes, ocultando do público votante durante a
eleição presidencial de 2016 informações prejudiciais [a Trump]",
comunicou o promotor Alvin Bragg.
Após
a audiência, Bragg afirmou que "conduta criminosa grave não pode ser
normalizada" e que "todos são iguais perante a lei".
O
documento de acusação não cita nomes, mas numa declaração, Bragg esclareceu que
houve três pagamentos diferentes e irregulares. O primeiro
foi de 30 mil dólares pagos a um concierge da Trump
Tower que disse conhecer o caso de um filho ilegítimo de Trump.
O
segundo foi o pagamento de 150 mil dólares a "uma mulher que
afirma ter tido relações sexuais com Trump"; e o terceiro de 130
mil "ao advogado de uma atriz pornô", em referência a Stormy
Daniels.
As
acusações são consideradas "violações do artigo 175.10 do Código
Penal" e definidas como "tentativa de fraudar e cometer outro
crime" e ocultá-lo.
As
infrações são crimes graves, de classe E, que segundo as primeiras análises
publicadas em alguns meios de comunicação americanos podem custar ao autor
vários anos de prisão.
·
Texto clichê, diz defesa
Quase
uma hora depois do comparecimento perante o juiz, o tribunal criminal liberou
Trump.
"A
acusação em si é um texto clichê", disse um de seus advogados, Todd
Blanche, acrescentando tratar-se de uma acusação "triste", que
ele promete combater.
De
acordo com a Casa Branca, a presença de Trump no tribunal não é uma
prioridade para seu sucessor, Joe Biden. "Obviamente ele vai
acompanhar algumas das notícias quando tiver um momento para se atualizar, mas
isso não é uma prioridade para ele", disse Karine Jean-Pierre.
Na
tentativa de politizar o caso e motivar seus seguidores, que responderam
enviando a ele mais de 7 milhões de dólares para sua campanha à Casa Branca
desde que o indiciamento foi anunciado na última quinta-feira, o magnata
escreveu na sua rede social, a Truth Social, o que já usa como
lema: "Eles não estão vindo atrás de mim, estão vindo atrás de você. Só
estou no caminho deles".
Segundo
Trump, "é impossível" que ele tenha um julgamento justo em Nova York,
sua cidade natal, atualmente governada pelos democratas.
·
Chegada ao tribunal sob forte escolta
Sob
forte proteção policial, a caravana de oito viaturas transportando Trump e seus
assessores chegou ao tribunal por volta das 13h20 na hora local (4h20 em
Brasília), onde o ex-presidente era esperado por milhares de pessoas, entre
apoiadores, opositores e jornalistas.
Antes
de entrar no prédio, ele não prestou declarações e limitou-se a acenar à
multidão. Minutos antes, ao sair da sua residência na Trump Tower, o
ex-presidente ergueu o punho na direção das câmaras de televisão.
No
tribunal, foram recolhidas suas impressões digitais. Também foi permitido que
ele fosse fotografado, mas um acordo estabeleceu que ele não seria algemado.
Nas
redes sociais, Trump disse que tudo era surreal. "Uau, vão me prender. Não
posso acreditar que isso está acontecendo na América", escreveu Trump.
Ainda
nesta terça-feira, ele deve voltar à sua residência de Mar-a-Lago, onde deve
fazer um pronunciamento.
·
Qual o motivo do indiciamento?
O
caso envolve o pagamento do suborno de 130 mil dólares (cerca de R$ 682
mil) a Stormy Daniels. O pagamento em si não é ilegal. No
entanto, a Organização Trump declarou o reembolso a Michael Cohen como
honorários advocatícios. Se isso for interpretado como falsificação de
registros da empresa, seria uma contravenção punível com até um ano de prisão.
Os
promotores também podem argumentar que a falsificação foi feita para encobrir
outro crime, como financiamento ilegal de campanha, o que
configuraria um crime passível de pena de vários anos de prisão.
O
ex-advogado de Trump Michael Cohen, uma das testemunhas que depôs, diz que
orquestrou pagamentos totalizando 280 mil dólares: 130 mil dólares à
atriz Stormy Daniels e 150 mil dólares para a ex-modelo
da Playboy Karen McDougal. Cohen disse que transferiu as
quantias pouco antes da eleição presidencial em 2016 e foi
posteriormente reembolsado pela Organização Trump.
Os
promotores de Nova York acusaram Cohen em 2018 e afirmaram que os pagamentos
eram contribuições de campanha impróprias porque pretendiam evitar danos a
Trump pouco antes da eleição. O advogado de Trump então declarou-se
culpado e foi preso por violar a lei federal de financiamento de campanha.
·
Quais as chances de uma condenação?
É
provável que Trump apresente uma série de apelações para tentar evitar ou ao
menos protelar um julgamento criminal. Se ele for a julgamento, é impossível
prever neste momento se Trump pode ser considerado culpado e condenado à
prisão.
Muitos
especialistas afirmam que a acusação tem base frágil. Os advogados de Trump poderiam
argumentar, entre outras coisas, que Michael Cohen e não Trump foi o
responsável pelo que aconteceu na época. Eles também há muito questionam a
credibilidade de Cohen, uma testemunha importante para a acusação.
Os
advogados de defesa também argumentam que os registros financeiros da
Organização Trump em questão eram internos e que não são criminalmente
relevantes. Também seria uma tarefa complicada vincular uma suposta
falsificação de registros da empresa a uma possível violação das leis de campanha –
especialmente porque Trump nunca foi processado por violações das leis de
financiamento de campanha.
Finalmente,
outra questão é sobre possíveis prazos de prescrição.
·
O que diz Trump
Trump,
que nega ter mantido encontros sexuais com as mulheres, chamou a acusação de
perseguição política e uma tentativa de interferir em sua campanha
presidencial.
Chamando
a si mesmo de "uma pessoa completamente inocente", ele classificou a
acusação como a mais recente de uma série de ações que ele diz serem projetadas
para destruir seu movimento Make America Great Again,
incluindo seus dois processos de impeachments presidenciais e a busca do FBI em
sua casa que revelou documentos secretos.
·
Quais as outras investigações contra Trump?
O
indiciamento atual ocorre em meio a várias
outras investigações,
acumulando problemas legais para o ex-presidente. Esses casos pendentes,
juntamente com um julgamento civil programado para começar no próximo mês em
Nova York sobre as alegações de uma jornalista de que Trump a
estuprou na década de 1990, somam-se a uma nuvem cada vez maior de escândalos
que o cercam.
No
nível federal, o Departamento de Justiça está investigando a retenção de documentos
ultrassecretos do governo em sua propriedade de Mar-a-Lago, na
Flórida, e os esforços de Trump e seus aliados para mudar os resultados das
eleições de 2020.
Os
esforços de muitos dos mesmos atores neste último caso também foram assunto de
uma investigação especial no estado da Geórgia. O representante do painel disse
que o grande júri especial recomendou várias acusações criminais, deixando para
a procuradora Fani Willis, do condado de Fulton, uma democrata, a decisão sobre
se convocará um grande júri regular, buscando abrir acusações criminais.
Fonte:
Por Jean Goldenbaum, no Brasil 247/Sputnik Brasil/Deutsche Welle

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