Governo espera
aprovar reforma tributária neste semestre na Câmara e neste ano no Senado
O
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera aprovar a reforma
tributária na Câmara dos Deputados neste semestre e no Senado ainda neste ano,
disse nesta terça-feira o diretor de Programa da Secretaria Extraordinária da
Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, Rodrigo Orair.
Em
evento promovido pelo Bradesco BBI, Orair também disse que, uma vez aprovada a
proposta de emenda à Constituição (PEC) pelo Congresso neste ano, será
necessário aprovar uma lei complementar que regulamente a reforma no ano que
vem para, em 2025, entrar em vigor o imposto federal.
• Lula tem votos no Congresso para aprovar
arcabouço fiscal, projeta analista
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ter maioria para aprovar o projeto de
lei do arcabouço fiscal no Congresso. Essa é a avaliação do analista político
Neuriberg Dias, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
(DIAP), associação criada e mantida por sindicatos de trabalhadores.
Apresentado
pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o arcabouço fiscal é a regra que vai
substituir o teto de gastos no controle das contas públicas. Pela proposta de
Haddad, o governo vai reduzir o déficit orçamentário neste ano, igualar
receitas e despesas em 2024 e alcançar superávit primário entre 0,25% e 0,75%
do Produto Interno Bruto (PIB) a partir de 2025.
Haddad
declarou nesta segunda-feira, 3, que o projeto de lei com o arcabouço fiscal
será enviado ao Congresso até o dia 15 de abril.
“Hoje,
o governo tem apoio para aprovar o arcabouço fiscal. A proposta já foi
discutida antecipadamente com a base e a oposição. Isso revela que o governo
tem feito o dever de casa”, avalia o analista político Neuriberg Dias, diretor
do DIAP.
O
trabalho do governo foi facilitado pela criação na semana passada do blocão que
une MDB, PSD, Podemos, Republicanos e PSC. É a nova maior bancada da Câmara,
com 142 deputados. Esse novo bloco é também uma fissura na base do presidente
da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), considerado um dos principais riscos
para o governo no Congresso.
“A
criação do bloco consolida o avanço do governo em sua relação com o Congresso”,
avalia Dias.
Haddad diz que governo precisa ampliar
receita em até R$ 150 bilhões para nova regra ficar de pé
O
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira, 3, que
precisa ampliar a receita do governo em R$ 110 bilhões a R$ 150 bilhões para
viabilizar as metas do arcabouço fiscal, a nova regra divulgada na semana
passada em substituição ao teto de gastos. Segundo ele, o projeto pode ser
enviado ao Congresso apenas na próxima semana.
Para
ampliar a arrecadação em mais de R$ 100 bilhões, o governo vai apresentar
inicialmente três medidas para reforçar os cofres: taxação de apostas
eletrônicas, com objetivo de arrecadar de R$ 12 bilhões a R$ 15 bilhões por
ano; taxação de e-commerce que dribla as regras da Receita Federal, não pagando
impostos (o que o ministro chamou de "contrabando", com perdas
estimadas de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões), e não permitir que subvenção a
Estados para investimento seja equiparada a custeio - medida que pode render de
R$ 85 bilhões a R$ 90 bilhões.
"Ente
R$ 110 e 150 bilhões você zera o déficit no ano que vem", afirmou Haddad à
GloboNews. Segundo ele, não é preciso "aumentar e nem criar imposto para
atingir esse objetivo". "Basta cobrar de quem não paga", disse.
A
proposta de arcabouço fiscal apresentada pelo governo prevê zerar o rombo das
contas públicas em 2024 e passar a ter superávits primários (receitas maiores
que despesas, sem contar o pagamento dos juros da dívida) a partir de 2025.
Haddad
afirmou que o governo já sabia desde seu início que teria que enfrentar
"jabutis tributários", que vem trazendo "efeitos
desastrosos" à economia brasileira. Segundo ele, o governo tem sofrido
problemas de natureza tributária, e além das derrotas da Receita no Supremo
Tribunal - a exemplo da exclusão ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins -, há
também normas que geram questionamento antes mesmo do Supremo se manifestar.
O
ministro listou que, dos R$ 100 bilhões perdidos com a exclusão de ICMS da base
de cálculo do PIS/Cofins, R$ 30 bilhões já foram recuperados com medida
provisória publicada pelo governo no início do ano. Haddad afirmou que um
segundo conjunto de medidas será feito e deve recuperar as perdas com Contribuição
Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL).
Outras
medidas para correção de distorções foram elencadas pelo ministro, como a
arrecadação com tributação sobre jogos de apostas, que deve gerar uma receita
de R$ 12 bilhões, ante estimativa preliminar de R$ 6 bilhões. "Não é justo
não tributar atividade que muitas pessoas nem concordam que exista no
Brasil", acrescentou. O combate ao "contrabando oficial" também
foi citado por Haddad, em referência ao "comércio eletrônico que
escamoteia, que se faz passar de remessa de pessoa para pessoa".
O
ministro argumenta que a reforma tributária deve trazer para dentro do sistema
quem hoje consegue sonegar. "O IVA é muito mais à prova de sonegação do
que os impostos de hoje."
De
acordo com Haddad, a reforma está prevista para ser votada na Câmara até julho
e no Senado até outubro. O ministro defende que o objetivo do texto é sanear um
sistema tributário altamente desorganizado, no qual a receita vem sofrendo com
reveses multimilionários e não um aumento de alíquota ou criação de novos
tributos.
Segundo
ele, há outras seis medidas saneadoras que podem entrar em discussão após a
reforma. "O arcabouço sugere que dilua um pouco no tempo", disse.
"O mais importante é dar um sinal do rumo do que fazer tudo agora e
descompensar algo na economia. Se o rumo estiver claro e a autoridade monetária
harmonizar com a fiscal, a sociedade brasileira vai crescer mais, pagar menos
juros e o Estado estará menos endividado."
• Carga tributária
Haddad
disse também não ver espaço para o discurso de que será necessário aumentar
brutalmente a carga tributária, em resposta à entrevista do ex-presidente do
Banco Central, Affonso Celso Pastore, ao Estadão. "Ninguém está pensando
nisso, não há espaço nem para discutir isso politicamente", disse.
"Corrigir
distorções do sistema tributário deveria ser saudado por um liberal. Um liberal
deveria aplaudir acabar com o patrimonialismo", afirmou o ministro.
Haddad
ainda citou a MP do Carf. "" Brasil é o único país do mundo em que o
processo administrativo é contra a Receita, isso é um escândalo. Por que os
liberais defendem o que está acontecendo no Carf, no subfaturamento de
exportações e paraísos fiscais dentro e fora do Brasil?"
Arcabouço fiscal: de onde vai sair o
dinheiro para o governo cumprir as metas?
A
caça do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, aos "jabutis"
tributários para aumentar em até R$ 150 bilhões a arrecadação do governo
envolve o fechamento de brechas na legislação usadas pelas empresas e pessoas
físicas para pagar menos imposto e um esforço concentrado na defesa das grandes
causas no Judiciário que podem reforçar o caixa do governo em caso de vitória
da União.
As
primeiras medidas serão anunciadas na semana que vem. Esse aumento de
arrecadação é essencial para dar sustentação ao novo arcabouço fiscal, que tem
como base o aumento das receitas do governo.
Entre
as medidas, o governo considera propor uma mudança na tributação dos fundos
exclusivos usados pelos super-ricos para aplicar o seu dinheiro. Nos governos
passados, já houve três tentativas frustradas de mudar essa tributação. A
Receita Federal é a maior defensora dessa mudança.
Agora,
a equipe econômica avalia que a medida tem ambiente mais favorável para ser
adotada com a defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que é preciso
colocar o pobre no Orçamento, tributando os mais ricos.
O
governo Michel Temer chegou a editar uma Medida Provisória para aumentar em
mais de R$ 10 bilhões a arrecadação com a tributação desse tipo de fundo de
investimento - R$ 6 bilhões para o governo federal e o restante para Estados e
Municípios. Mas a MP perdeu validade, diante da forte resistência dos
parlamentares contrários ao aumento do Imposto de Renda - muitos deles com
recursos aplicados nesses fundos exclusivos.
Fontes
do governo e tributaristas ouvidos pelo Estadão afirmam que a medida tem
potencial de arrecadação muito maior do que o valor previsto na época.
Como
a mudança altera a tributação do Imposto de Renda, a proposta precisa ser
aprovada ainda este ano para entrar em vigor no ano que vem. Isso porque
alterações feitas para elevar o IR só podem entrar em vigor no ano seguinte da
sua aprovação.
No
campo do Judiciário, a principal discussão está no Superior Tribunal de Justiça
(STJ) e trata da controvérsia jurídica se os incentivos fiscais de ICMS
integram a base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da
Contribuição Social Lucro Líquido (CSLL).
Entre
esses incentivos estão a redução da base de cálculo, de alíquota, a isenção, o
diferimento e a aplicação de imunidade tributária do ICMS. O julgamento está
previsto para o dia 26 de abril. No anúncio do novo arcabouço fiscal, o
ministro disse que vai conversar com o judiciário sobre as causas jurídicas de
interesse da União. Se vencer esse julgamento, o potencial de arrecadação é muito
elevado em bilhões de reais. O governo pode optar também em adotar uma Medida
Provisória (MP) para tratar desse assunto.
Ao
longo das últimas semanas o ministro já tinha antecipado que o governo pretende
tributar as apostas eletrônicas online. Em meados de março, Haddad anunciou que
a medida sairia após a volta da viagem do presidente Lula à China, que não
aconteceu.
O
governo também estuda mudanças na tributação de encomendas de importação de
pessoa física, sobretudo de e-commerces chineses, como a Shein, alegando que as
empresas têm driblado a taxação.
Haddad
já está enfrentando resistências em relação ao arcabouço. Nesta sexta-feira,
teve de rebater as críticas de que as medidas a serem anunciadas representam um
aumento da carga tributária.
"Nós
estamos falando daquilo que, em Brasília, se chama de jabuti, daquelas leis que
foram aprovadas muitas vezes na calada da noite e que muitas vezes abrigam
espaços para abusos de ajustes criados por decisões judiciais e que distorcem a
competitividade da economia brasileira", disse.
Plano Haddad não tem narrativa popular e
ameaça Lula. Por César Fonseca
Ele
joga na defensiva. Não vende confiança; a bolsa subiu na quinta mas na sexta
caiu; o velho truque de fazer dinheiro na especulação não significou nada mais
nada menos que o jogo de esquentar e esfriar preços de papéis para fazer
liquidez rápida e rasteira; dar atenção mais à capacidade de ajuste aos
parâmetros neoliberais do Plano Haddad do que a capacidade dele de promover
desenvolvimento sustentável e combater com energia o desemprego é a manobra da
mídia corporativa para deixar no ar a dúvida de que o governo ainda não é
confiável aos credores o suficiente para diminuir os juros e retomar a produção
e o consumo.
A
economia continuaria asfixiada; o plano Haddad não abre novas expectativas, por
isso não dispõe de uma narrativa simples e compreensível capaz de arregimentar
adeptos; a percepção da sociedade de que as novas regras fiscais não fedem nem
cheiram, ou seja, não mudam o panorama do ponto de vista qualitativo, não criam
otimismo, mas desconfiança quanto à melhoria quantitativa de bem estar da
população dominada por presságios negativos que produzem frustrações.
Trata-se,
portanto, de ceticismo decorrente de um plano que não vende a confiança
necessária que a sociedade requer para apoiá-lo. Não se vendeu que o Plano
Haddad distribui renda, mas, ao contrário, vai contrair a renda global; se a
despesa não pode ultrapassar 70% da receita, haverá contração em cadeia no
contexto do orçamento geral da União(OGU), exceto para pagar juros da dívida
pública remunerada pelos juros Selic de 13,75%, os mais altos do mundo.
A
punição será severa: se a meta dos 70% não for obedecida, será rebaixada para
50%, piorando o cenário. No Congresso, onde os parlamentares já estão de olho
nas eleições municipais de 2024, tenderão a queimar Haddad cujo plano reduz os
orçamentos dos parlamentares para abastecer prefeitos e vereadores e garantir
vitória futura no legislativo; as pressões sobre Haddad podem ser irresistíveis
se o Plano não puxar a produção e o consumo para aumentar arrecadação e
investimentos. E os governadores e prefeitos combaterão reforma tributária se
as transferências de recursos caírem com Plano Haddad.
O
limite para Haddad será dado pelos líderes dos partidos da Frente Ampla; se o
plano ferir interesses políticos de Lula relacionados às eleições municipais e
a sucessão presidencial, pode acontecer com Haddad o que aconteceu com Palloci;
foi descartado pelo nacionalista Guido Mantega, que, por sinal, já faz críticas
ácidas ao arcabouço de perfil neoliberral.
• Política x economia
O
norte será sempre a política; não é à toa que Lula disse que a política mandará
na economia; com o plano Haddad isso não acontece; Haddad vestiu o perfil do
economista, não do político, até o momento; a vitória eleitoral exige não
neoliberalismo mas a social-democracia; sem gerar novas expectativas de
retomada do crescimento, o futuro político de Lula ficará comprometido; por
isso, o produto que lhe interessa agora não é arrocho fiscal, que o Plano
Haddad vende, mas o crescimento econômico. As dúvidas e desconfiança não vendem
a palavra magica crescimento, mas deixam no ar o perigo de recessão, arrocho
salarial etc.
O
plano tem que vender crescimento por uma política de comunicação agressiva.
Esse é que tem de ser popularizado e não ofuscado pelo discurso do medo que
perde substância para a política do ódio; só a volta do crescimento será capaz
de afastar a política do ódio que se alimenta do receio e da desconfiança.
O
gradualismo econômico, que passa a ser a marca registrada do ministro da
Fazenda não dá votos; o limitador de gastos diante das receitas, pode ser
guilhotina eleitoral dos 70%; o centro da discussão política não é o que Lula
sonhou: o debate nacional e intenso de plano robusto de crescimento; está
amarrado por um plano que só tem uma perna, a do ajuste fiscal e monetário,
enquanto a do desenvolvimento econômico com distribuição de renda foi amputada.
Lula
já está buscando alternativa mais confrontacionista do que de acomodação com o
Banco Central ultra-neoliberal, que para o país; ele terminaria seu primeiro
ano com crescimento zero e uma regra restritiva ao desenvolvimento prometido em
campanha eleitoral. Se o Plano Haddad não vende votos, Lula terá que articular
forças no Congresso para vencer os neoliberais; a vantagem lulista é que os
oposicionistas deixam de crer no neoliberalismo que destrói suas bases
políticas regionais e se abrem para maior apoio ao Estado interventor para
salvar a economia do neoliberalismo financeiro.
Ou
seja, o Congresso pode ser maior adversário do plano Haddad.
Favoreceria
ou não os interesses de Lula?
Fonte:
Reuters/Terra/Agencia Estado/Brasil 247

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