Belo Monte “é um
abacaxi político a ser resolvido”
A
Usina Hidrelétrica de Belo Monte, localizada no Rio Xingu, Pará, na Bacia
hidrográfica do Rio Amazonas, inaugurada oficialmente há sete anos e em plena
operação há quatro, ainda não cumpriu todas as condicionantes atreladas à
possibilidade de construção e funcionamento da obra e segue operando, mesmo com
a licença de operação vencida desde 2021.
Segundo
Rodolfo Salm, que vive em Altamira desde 2008 e acompanhou o processo de
instalação da obra e os impactos socioambientais gerados pelo empreendimento,
as condicionantes pendentes dizem respeito à criação do Território Ribeirinho,
que visam à realocação de comunidades no entorno da Volta Grande do Xingu; à
resolução de projeções técnicas que geraram problemas ecológicos, como a falta
de água na Volta Grande, que impede o processo de reprodução dos peixes; e à
desintrusão das terras indígenas que estão ocupadas por invasores. Em resumo,
diz, Belo Monte continua “um abacaxi político a ser resolvido”.
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Confira a entrevista.
• Semana passada, 23-03-2023, foi
realizada uma audiência pública com uma comissão do Senado, em Almaria, sobre a
criação do Território Ribeirinho, que é uma condicionante da construção de Belo
Monte. Em que consiste a proposta de criação do território ribeirinho? Quais os
impasses em torno da discussão?
Rodolfo
Salm – Os ribeirinhos são, provavelmente, o povo mais impactado pela construção
de Belo Monte porque, à época, houve um esforço muito grande para evitar o
alagamento das terras indígenas. Houve muita atenção para que o escândalo do
impacto sobre os indígenas fosse minimizado, porém não houve a mesma
preocupação com os ribeirinhos. Boa parte deles foi desalojada antes do início
da obra, de forma desnecessária, porque o enchimento do lago poderia ter
acontecido sem implicar a remoção deles. O processo de remoção dos ribeirinhos
provavelmente foi associado a questões de especulação imobiliária.
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Território Ribeirinho
A
criação do Território Ribeirinho foi concebida como uma condicionante de Belo
Monte e até hoje não foi cumprida, assim como várias outras. O projeto visa
trazer de volta os ribeirinhos para beira do lago, mas de uma forma unida, para
que não fiquem cercados por fazendeiros. Para eles, é ruim ficar próximo dos
fazendeiros porque o gado das fazendas invade a terra do ribeirinho, assim como
o fogo feito para o manejo do pasto.
Esta
reunião foi organizada pelo senador [José da Cruz] Zequinha Marinho e várias
pessoas da extrema-direita participaram. Ele incentiva o garimpo, o garimpo em
terras indígenas, a grilagem, e é aliado de líderes envolvidos com a política
do setor agrário de Altamira, que é um pessoal radicalizado pela extrema-direita.
São pessoas que estavam organizando ações na frente dos quartéis, pedindo o
golpe, e agora estão organizando eventos contra ações que são obrigações do
governo federal. Depois dos eventos de 8 de janeiro, imaginei que eles
recuariam, mas não estão acuados nem intimidados.
Na
reunião, apresentaram argumentos mentirosos. Os ribeirinhos me disseram que
estão colocando moradores na região prevista para ser o Território Ribeirinho a
fim de forçar uma situação que impeça a formação do próprio território. Ou
seja, estão construindo onde será o território para forçar indenizações mais
altas quando as terras forem desapropriadas. Várias figuras estão envolvidas
neste processo. Uma delas é a Damares [Alves], que distorce tudo o que é dito.
Na reunião, ela disse que ribeirinho é somente quem mora na beira do rio.
Portanto, se um fazendeiro mora na beira do rio, ele é, na concepção dela, um
ribeirinho. Mas não é. Ribeirinho é aquele que tem um modo de vida ribeirinho,
que vive essencialmente da pesca, da agricultura de pequena escala, da
agricultura da floresta, que utiliza os rios e se relaciona com outros
ribeirinhos. O ribeirinho tem um modo de vida tradicional junto com os
indígenas e quilombolas e, nesse sentido, eles são todos povos tradicionais,
com modos de vida tradicionais, e merecem um tratamento diferenciado. Essa é a
concepção por trás da ideia do Território Ribeirinho.
• A região está sendo ocupada apesar de o
território não ter sido criado ainda? O que falta para a criação do território?
Quais são os impasses entre os envolvidos?
Rodolfo
Salm – O território ainda não foi criado; ele é um plano. Para ele ser criado é
necessária a desapropriação daquelas terras, que pertencem a fazendeiros. A
Norte Energia, empresa construtora de Belo Monte, enviou para a Agência
Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, um pedido de Declaração de Utilidade
Pública – DUP, dizendo que aquelas terras devem ser consideradas de utilidade
pública. Isso facilita o processo de desapropriação das terras dos fazendeiros
para fazer a instalação do território. Entretanto, segundo os ribeirinhos me
informaram, para que a ANEEL possa emitir a DUP, ela precisa de informações que
ainda não foram fornecidas pela Norte Energia. Ou seja, a Norte Energia não
está sendo eficiente no envio das informações que são necessárias para compor a
DUP.
Além
disso, existe uma paranoia, que a extrema-direita quer cultivar, no sentido de
dizer que a criação desse território é parte de um plano de ONGs estrangeiras
que têm interesses obscuros na Amazônia. Se tem alguma ONG atuando na região,
elas não são os atores mais relevantes. As forças mais relevantes são as
universidades, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC e o
Ministério Público Federal, que apoiam verdadeiramente os ribeirinhos. As pessoas
ligadas à extrema-direita dizem que as ONGs não querem o nosso bem, mas os
nossos bens. Mas o fato é que a desapropriação dessas terras é fundamental para
que as populações ribeirinhas, que foram arrancadas da beira do rio e jogadas
em áreas minúsculas das cidades, possam reconstituir suas vidas.
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Caderno de preços
Outra
questão importante diz respeito ao “caderno de preços” relativo às terras. A
Norte Energia, que é responsável por esse processo, está usando um caderno de
preços defasado e, portanto, os proprietários das terras vão receber um valor
muito inferior pelas terras se comparado ao atual valor de mercado. Essa é a
grande crítica deles, que querem ser indenizados com valores de mercado. A
questão é que outros argumentam que muitas dessas terras que serão
desapropriadas foram griladas e, portanto, isso significa que os proprietários
não têm direito de indenização da mesma forma que teriam os proprietários de
terras absolutamente documentadas.
Esta
é a polêmica: se devem haver uma preocupação com o caderno de preços ou não. Os
fazendeiros se preocupam com o caderno de preços. Os defensores dos territórios
ribeirinhos dizem que a questão do caderno de preços não é um problema deles,
mas da Norte Energia. Ao mesmo tempo, vários ribeirinhos dizem que não vão
entrar no território antes de os fazendeiros saírem porque têm medo. Não
adianta a Norte Energia, em uma canetada, confiscar todas as terras e
entregá-las para os ribeirinhos, se os fazendeiros continuarem morando nas
proximidades, porque, se eles quiserem se vingar, o ribeirinho pode ser vítima
de um atentado ou de um assassinato. Isso dá uma ideia da complexidade do
problema.
• Quais os próximos passos depois da
realização da audiência pública?
Rodolfo
Salm – A comissão do Senado ficou de avaliar a questão da DUP. Entretanto,
Zequinha Marinho disse que vai propor três encaminhamentos a partir da reunião
realizada no dia 23: tentar paralisar a DUP; fazer um Projeto de Decreto
Legislativo, que cancela as ações do Executivo – o que parece inválido, uma vez
que o Projeto de Decreto Legislativo regula matérias de competência exclusiva
do poder legislativo, que não é o caso na construção de uma hidrelétrica; e
criar a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI das ONGs.
Para
nós, o próximo passo é conversar com os senadores que estão do nosso lado, como
o Randolph [Frederich Rodrigues Alves, filiado à Rede Sustentabilidade, senador
pelo Amapá, e líder do governo Lula no Congresso Nacional]. Os ribeirinhos
estão procurando quem são os senadores da esquerda que podem nos dar um apoio e
um aconselhamento sobre o nível de risco da situação atual. Na sexta-feira,
31-03-2023, vamos realizar outra reunião para tratar do assunto.
• Qual a situação socioambiental de
Altamira hoje, depois do boom em torno da construção de Belo Monte?
Rodolfo
Salm – Altamira passou por um boom de oportunidades de emprego à época da
construção da hidrelétrica e quem ganhou dinheiro com isso foi quem já tinha
muito dinheiro. A maior parte da população não chegou nem a enriquecer nem a
juntar dinheiro porque, se de um lado, as pessoas ganharam um pouco a mais,
tudo ficou mais caro: alimentação, aluguel, táxi.
Hoje,
a cidade está depauperada economicamente. A barragem não emprega mais e algumas
oportunidades de trabalho que havia não existem mais, como o turismo de pesca.
Vários restaurantes e mercados de pequeno e médio porte fecharam com a chegada
dos grandes. O impacto foi enorme. Houve sobretudo um entristecimento da
população. Quando me mudei para cá, em 2008, a cidade era alegre, agitada. No
final de semana, os barcos subiam e desciam o rio, as pessoas acampavam, faziam
churrascos, pescarias. Os finais de semana e feriados eram dias de festa em
Altamira. Agora não é mais assim. Nossa grande oportunidade de lazer era o rio
Xingu, mas hoje ele não é mais um ponto de lazer porque virou um lago
enlameado. Não dá para nadar no rio, não dá para ficar na praia.
Nos
finais de semana, a maior parte das pessoas se diverte em casa, bebendo.
Aumentaram o alcoolismo, a depressão, os casos de suicídios. Altamira é uma
cidade muito violenta, tem um trânsito muito violento. Além disso, tem a
atuação e a presença de facções na cidade, como o Comando Vermelho – CV e o
Primeiro Comando da Capital – PCC. Altamira não é mais aquela cidade que tem o
maior número de assassinatos por habitantes do país, algo que ocorria no
passado. Isso porque, depois da construção da barragem, o movimento caiu e,
consequentemente, a cidade caiu algumas posições nesse ranking, mas ainda é
essencialmente violenta, com poucas oportunidades de trabalho e lazer.
• Recentemente, o senhor disse que “o Lula
tem diante de si uma escolha: cabe a seu governo renovar a licença de operação
da hidrelétrica, vencida desde novembro de 2021”. A hidrelétrica continua
operando com a licença vencida? Qual é a situação em torno dessa licença? Do
que depende a renovação?
Rodolfo
Salm – É curioso que, mesmo com a licença de operação vencida, Belo Monte
continua funcionando. A licença está vencida e quem dará a renovação da licença
é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis –
Ibama. Rodrigo de Agostinho, presidente do Ibama, disse que só concederá a
licença se forem garantidas a sobrevivência da fauna e da flora e respeitados
os seres humanos. É claro que essa é a situação ideal, mas ninguém acredita que
isso vai acontecer dessa forma tão perfeita.
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Pendências
Tem
várias questões pendentes para a concessão da licença de operação. Uma delas
diz respeito ao hidrograma da Volta Grande. Vou explicar rapidamente a estrutura
física de Belo Monte para esclarecer este ponto: Belo Monte foi posicionada em
Altamira porque a cidade está na borda do escudo brasileiro, que é uma formação
geológica que compõe a maior parte do território do país. É uma região em que
se passa do planalto central para a planície amazônica. Essa transição [do
planalto central para a planície amazônica] é feita na Volta Grande do Xingu,
que tem esse nome porque faz uma volta no formato de ferradura. Ao longo da
Volta Grande tem um percurso de cerca de 130 quilômetros, no qual há uma queda
de cem metros, que é adequada, estruturalmente, para a construção de uma
hidrelétrica, que precisa do desnível para que a água, com muita energia
potencial, que é convertida em energia cinética, passe a girar as turbinas e
seja convertida em energia elétrica. Portanto, o barramento seria feito na
própria Volta Grande, mas isso causaria extensos alagamentos em terras
indígenas, o que é politicamente complicado.
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Problemas ecológicos
A
solução que os projetistas de Belo Monte encontraram [para não alagar as terras
indígenas] foi construir canais que desviassem a maior parte da água da Volta
Grande e criar um lago no meio, com uma queda no final. Este é o ponto
fundamental porque, ao desviar a água da Volta Grande, criou-se um problema
ecológico seríssimo no próprio local: a falta de água.
A
questão é que sem essa água não acontecem os pulsos de inundação, fundamentais
para a renovação da vida do rio Xingu. Esses pulsos de inundação são
fundamentais para manter a floresta alagada, para ela sobreviver, para a
reprodução dos peixes, que precisam da inundação para poder se reproduzir e
fazer o processo de piracema. Para se reproduzirem, os peixes aproveitam-se da
água forte para subir o rio e entrar em lagos e lagoas laterais que se
estabelecem ao longo do rio. É nesses locais que eles se reproduzem. Para que
isso aconteça, é necessário que exista uma grande quantidade de água passando
pela Volta Grande, o que não é mais uma realidade no momento. A água que passa
é pouca. É 20% do que passava antes e, então, a piracema não acontece mais.
Isso é muito grave porque as populações de peixes não se renovam.
"Belo
Monte acabou com o sossego dos peixes e dos povos", diz antropóloga Thaís
Mantovanelli:
É
necessário que uma quantidade de água suficiente para a reprodução dos peixes
seja acordada. A delimitação dessa quantidade de água é polêmica porque
precisamos de muito mais água do que vem passando agora, mas a Norte Energia
não tem interesse em deixar essa água passar porque, quanto mais água passa
pela Volta Grande, menos água passa pelos canais e, portanto, menos energia
elétrica é gerada. Essa é uma das pendências que devem ser resolvidas para que
seja concedida a licença de renovação de Belo Monte.
Outra
pendência é a questão da criação do Território Ribeirinho. Por isso, estamos
otimistas quanto à criação do território porque ela é uma pendência para a
renovação da licença de operação de Belo Monte. O governo tem interesse em
renovar a licença de operação porque Belo Monte é uma obra dos governos do PT.
Se a licença não é renovada, pega mal para o governo.
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Desintrusão das terras indígenas
Outra
pendência complicada de resolver é a desintrusão das terras indígenas, que
também era uma condicionante de Belo Monte. Há várias terras indígenas na
região, como Cachoeira Seca e Xikrin, que estão com invasores. Pessoas entraram
nas terras e estabeleceram pequenos sítios ou fazendas ali dentro, e elas
precisam ser removidas. É claro que essa é uma condicionante complicada porque
a retirada dos colonos das terras indígenas tem um custo político altíssimo
para o governo: vamos ver imagens de casinhas pobres e humildes sendo
derrubadas por tratores e imagem de crianças chorando enquanto as casas estão
sendo derrubadas. Por outro lado, esses colonos foram induzidos por políticos
inescrupulosos a invadir essas terras quando já estava claro que seriam terras
indígenas. Este é um abacaxi político a ser resolvido.
• Em entrevista concedida em 2012 ao IHU,
o senhor chamou a atenção para a desarticulação, desagregação e divisão das
comunidades indígenas como consequência do projeto de Belo Monte. Como estão as
comunidades hoje? Mais fortalecidas ou divididas depois que a hidrelétrica
passou a funcionar?
Rodolfo
Salm – Ando muito pessimista diante do domínio da Norte Energia sobre os povos
indígenas. Se eu disse, em 2012, que havia uma divisão entre os que eram contra
e a favor de Belo Monte, hoje a sensação que tenho é que existe um domínio
quase absoluto sobre os povos da região de Altamira.
Recentemente,
estive na posse do novo coordenador da saúde indígena, em Altamira, e vários
indígenas fizeram discursos agradecendo à Norte Energia, construtora de Belo
Monte. Não vi ninguém vaiar nem criticar. O fato é que a Norte Energia está
vencendo. Nesses dez anos, quem era contra a hidrelétrica foi só perdendo,
enquanto quem era a favor foi ganhando importância política porque, bem ou mal,
a Norte Energia dá um dinheiro aqui, outro ali, uma cesta básica, um motor, um
barco, e isso vai desgastando quem fazia oposição e favorecendo aqueles que têm
boas relações com a empresa. Então, posso dizer que os povos da região de
Altamira já estão quase completamente cooptados pela empresa construtora de
Belo Monte. Essa situação é grave porque já sabemos, há muito tempo, que Belo
Monte foi concebida como a primeira de uma série de hidrelétricas que seriam
construídas no rio Xingu.
Na
região há uma forte sazonalidade climática, e isso tem consequências para o rio
Xingu. Em uma época do ano, chove muito, como agora, em que o rio está cheio.
Nesta época, Belo Monte está trabalhando próximo de sua capacidade instalada,
gerando muita energia. Mas isso é porque estamos em março. Em maio e junho,
diminui o fluxo do Xingu. Em julho, agosto, setembro, outubro e parte de
dezembro, o fluxo é baixo. Este é um dos problemas técnicos de Belo Monte: a
hidrelétrica foi feita para gerar energia em uma pequena época do ano. Na maior
parte do ano, as turbinas ficam paradas e a usina ociosa. Como resolver esse
problema? Construindo várias barragens rio acima. Essas barragens rio acima vão
estocar água na época em que há um fluxo maior de água e vão soltando a água ao
longo do ano. Por isso, Belo Monte não foi projetada para funcionar sozinha;
foi projetada para funcionar junto de várias outras barragens rio acima.
Dilma
[Rousseff] assinou um documento dizendo que Belo Monte seria a única barragem
do rio Xingu. É um documento “engana trouxa”, porque é um decreto presidencial
que não foi nem votado no Congresso. Isso significa que, em um governo futuro,
basta um novo decreto presidencial para derrubar aquele e aí serão construídas
barragens rio acima, que serão muito piores que Belo Monte porque produzirão
alagamentos muito mais substanciais do que Belo Monte, invadindo extensas
terras indígenas.
Estou
falando disso agora porque Belo Monte quase quebrou a resistência dos povos
indígenas da região de Altamira. Daqui a pouco vamos ver indígenas pedindo a
construção de novas barragens para que venham mais cestas básicas, mais
caminhonetes, mais placas solares, mais barcos. Belo Monte está vencendo essa
resistência e ninguém garante que, num próximo governo, seja lavado adiante o
plano original de construir uma série de barragens no rio Xingu, que
funcionariam como grandes caixas d’água.
O
problema desse plano é que, ao construir hidrelétricas ao longo do Xingu, são
causadas perturbações ecológicas que vão gerar imensos desmatamentos e
terminarão por diminuir a quantidade de água que passa pelo rio. No final, não
vai ter nem floresta nem rio nem geração de energia.
• Recentemente, o senhor publicou um vídeo
manifestando preocupação com a falta de ações para a retirada de todos os
garimpos das terras indígenas e disse que até agora “não viu nada de
substancial” no governo em relação ao enfrentamento dessa questão, para além do
que foi feito nas terras do povo Yanomami. Qual é a situação dos garimpos nas
terras dos povos Munduruku e Kaiapó, por exemplo?
Rodolfo
Salm – Eu tinha uma expectativa enorme de que a posse do Lula fosse marcar uma
mudança fundamental na lida com os garimpos. O ecologista é um ingênuo, e essa
ingenuidade é necessária. Temos que acreditar que as coisas são possíveis
porque, do contrário, não saímos nem da cama. Se eu for realista mesmo, vou
pensar que a região está fadada à destruição, que, dentro de três ou quatro
décadas, veremos um processo de desertificação avançado na Amazônia, que os
povos indígenas vão deixar de existir, que isso vai virar uma grande desgraça,
com sofrimento humano. Essa é a visão realista, não pessimista. Nós deixamos
essa visão de lado para sempre acreditar que é possível lutar.
Depois
que o governo tomou posse, a revista Sumaúma, editada pela Eliane Brum,
denunciou a situação catastrófica do povo Yanomami. Tem gente que diz que o
governo fez isso [intervenção na área yanomami] estrategicamente; eu acho que
foi malandramente. A estratégia foi focar na desintrusão do território e está
todo mundo fingindo que só tem garimpo na terra – não só o governo, mas também
a imprensa. Ninguém mais fala do garimpo nas terras dos povos Kaiapó e
Munduruku; só se fala no garimpo yanomami, como se não tivesse garimpo em
outros lugares. E, hoje, até parece que o garimpo na terra dos Yanomami está
caindo no esquecimento, sem que a situação fosse resolvida, porque ainda tem
garimpo funcionando lá dentro.
Caminhos
da Reportagem | Yanomami - o direito de existir:
Na
aldeia kaiapó, em Altamira, o garimpo não está com aquela força que estava
antes. Depois da posse do presidente Lula, algumas pessoas saíram
espontaneamente. Mas, na medida em que não acontece nada e tudo segue igual, as
pessoas começam a voltar: os que não saíram ficam feliz em não ter saído, e os
que saíram pensam em voltar. O que vejo é uma paralisação no ataque aos
garimpos. No governo anterior, tinham algumas ações pontuais contra o garimpo
na terra kaiapó e em outras terras. Agora, não estou vendo nada.
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Repercussão
O
pessoal do PT diz que precisamos ter paciência porque o governo estava
desmobilizado, está sem recursos, só tem três meses de governo. A direita não
está nem aí, quer mais que o garimpo destrua tudo. Então, eu fico isolado,
gritando e perguntando sobre o garimpo em outras terras indígenas. Quando posto
uma foto de um indígena no Twitter, ganho 300 seguidores, mas quando falo do
garimpo e do governo Lula, o número de seguidores vai despencando.
• O senhor critica a esquerda, entendida
em sentido amplo e partidário, e valoriza a esquerda local de Altamira, formada
por pequenos grupos. A atuação de ambas é muito dissonante?
Rodolfo
Salm – Com a direita não tem conversa. Ela é fascista, negacionista, quer que o
índio seja incorporado ou desapareça, e quer destruir a floresta. Por isso,
prefiro criticar a esquerda, porque a direita não tem o que criticar; é como
falar de Hitler. Claro que é possível analisar profundamente a direita, mas não
há debate com esse grupo. Agora, na esquerda, entende-se que tem pessoas
decentes. Mas o fato é que muitos, dentro do PT, ainda têm uma resistência à
questão ecológica, tanto é assim que Belo Monte foi possível. Lula não é um ecologista.
Hoje,
está sendo discutida a conversão, em larga escala, de áreas de pastagem em
produção de soja no país. A turma foi para a China na comitiva do Lula – que
não foi porque ficou doente – para negociar como vender o Brasil em forma de
soja para a China. Ninguém está preocupado com o meio ambiente. Eles dizem que
esse processo vai acontecer sem prejuízo para o meio ambiente. Mas como? Vão
parar o desmatamento durante três anos? Se isso acontecer, eu posso acreditar
que alguma coisa vai ser feita sem a destruição de florestas.
Partes
da esquerda têm uma preocupação ecológica e uma parte gigantesca acha que
preocupação ecológica é invenção de ONG do primeiro mundo, que quer paralisar
nosso desenvolvimento e tem interesses obscuros. É um pessoal cínico que não
acredita que na Inglaterra existe alguém que possa estar preocupado,
genuinamente, com a floresta amazônica e com os povos indígenas. Essa parcela
da esquerda acha que é tudo fingimento e que nós somos ingênuos.
Há
aqueles que também são muito temerosos em relação a um golpe. Acham que esse
governo tem que fazer de tudo para não cair. Se falo que tem que cuidar do
garimpo nas terras kaiapó, dizem que estou enfraquecendo o governo e
favorecendo um golpe, e a situação vai terminar sendo pior. Tem outros que
acham que o governo está focando primeiro no povo Yanomami para depois atuar em
outras terras. Um amigo tem a tese de que é preciso resolver a situação na
terra yanomami, para saber como resolver, e depois atuar em outras terras. Não
acredito nisso. Não acho que as forças do Estado, aquelas possíveis de serem
utilizadas no combate ao garimpo, estejam todas concentradas em Roraima. No
Pará, vejo a Força Nacional parada. Outra força fundamental é o Exército, que
custa uma fortuna ao país e não está fazendo coisa alguma. O Exército precisa
desmontar esses garimpos não como empresa, como funcionaram no governo
Bolsonaro. Falta firmeza para lidar com a situação.
No
Ministério da Defesa, Lula colocou um ministro que era bolsonarista; isso é
problemático. Silvio Almeida [ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania],
que trabalhou na questão do garimpo, é muito fraco. Disse que tem que ver
alternativas econômicas para que os índios não caiam na mão do garimpeiro. Fica
preocupado com alternativas para os índios, para os garimpeiros. E quanto ao
combate ao garimpo e à retirada daquele pessoal das terras? Você ouviu falar de
algum garimpeiro grande que foi preso? Nenhum. Realmente, a coisa está devagar,
sim.
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Esquerda local
A
esquerda local é maravilhosa, mas é fraquinha e quase inexpressiva. Na época de
protestos contra Belo Monte, participavam seis, oito pessoas. Mas eu sou fã
dessa esquerda. A Antônia Melo [ativista brasileira que luta pelas causas dos
direitos humanos e pela conservação do ambiente, tendo sido fundadora do
Movimento Xingu Vivo para Sempre] é uma das pessoas mais íntegras que conheço.
Não cede por nada. Ela é firme nas convicções. Os movimentos [locais] são quase
exclusivamente de mulheres.
• Como o Ministério dos Povos Indígenas
pode contribuir para o tratamento dessas questões?
Rodolfo
Salm – Gostei da nomeação da Sonia Guajajara. Tenho admiração por ela, como
também pela Juma Xipaia e pela Maial Paiakan. É um pessoal muito bacana, mas
sem experiência. Vão precisar de um tempo para pegar o traquejo e ter uma ação
efetiva. É claro que foi ótimo tirar os militares que estavam no comando da
Fundação Nacional dos Povos Indígenas – Funai, e agora entrou uma turma bonita.
Mas quão eficientes eles serão em implementar uma política eficiente de proteção
às terras indígenas, ainda é uma questão em aberto.
• Como avalia os primeiros meses do
governo Lula à luz das questões climáticas e dos desafios para a Amazônia?
Rodolfo
Salm – A questão amazônica tem uma particularidade que é a sazonalidade. A época
de grandes desmatamento e tragédias é o segundo semestre, não o primeiro.
Então, o grande teste é o que vai acontecer em agosto, setembro, outubro e
novembro. Aí veremos se a Amazônia vai queimar forte novamente – e é provável
que vá – e como será o combate à queimada e ao desmatamento.
Claro
que a substituição de Ricardo Salles, um bandido de colarinho branco, por
Marina Silva, um símbolo da preservação, traz um alívio. Mas o quanto isso vai
se reverter em mudanças nos dados no mundo real, ainda teremos que ver. Os
dados de desmatamento ainda não caíram; seguem altos. Por outro lado, quando
Lula assumiu o primeiro mandato, em 2003, o desmatamento ainda se manteve alto
em 2004 e 2005. Foi somente depois que o desmatamento começou a cair. Então,
demorou um tempo para reverter a situação. Queria que dessa vez fosse mais
rápido porque a situação da Amazônia está muito pior do que naquela época e
muito mais próxima do ponto de não retorno. Por essa razão, a ação deveria ser
mais enfática. Mas aquele caso de sucesso, de redução do desmatamento em 80%,
não aconteceu de uma hora para a outra. É natural que desta vez também demore
um pouco.
Sobre
os primeiros meses do governo, diria que mudou muita coisa no campo simbólico.
A figura simbólica de Bolsonaro, que nos atormentava diariamente, passou.
Agora, ainda precisamos ver as mudanças no mundo real; estamos aguardando. A
imprensa, por sua vez, já está rápida em fazer ataques e absolver a
extrema-direita. Sérgio Moro está sendo tratado como uma pessoa respeitável, mas
ele, em grande parte, é responsável pela situação das terras indígenas porque
foi ministro da Justiça e disse que não queria saber das terras indígenas;
abriu mão de combater o garimpo.
• Como o senhor tem refletido sobre o
desenvolvimento da Amazônia, considerando o novo regime climático, a
necessidade de valorização da vida dos povos, a discussão sobre a transição
energética, em contraposição a modelos de desenvolvimento que devastam a região
e os povos? A construção de centros tecnológicos de pesquisa, como propõe o
professor Carlos Nobre, é uma alternativa?
Rodolfo
Salm – O desenvolvimento baseado na tecnologia, na pesquisa e na biodiversidade
é fundamental. Carlos Nobre fala da criação de um MIT [Instituto de Tecnologia
de Massachusetts] da Amazônia, mas muitos fazem piada, com certa razão, porque
parece que estão querendo inventar a roda. Querem criar centros de pesquisa
“sudestinos” – termo para se referir a quem vem do Sudeste – na Amazônia, cuja
administração vem de fora, mas, na verdade, a Amazônia já tem muitos centros de
pesquisa. Eu trabalho dentro de uma universidade em Altamira. Tem o Museu
Paraense Emílio Goeldi, a Universidade Federal do Amazonas. São grandes
centros. É claro que eles estão com pouco pessoal, poderiam ser mais
qualificados, ter melhores laboratórios, mais bolsas de pesquisa. É isso que
tem que fazer e não criar novos centros. Que tal investir nas nossas
universidades? Estamos lutando para fazer a universidade funcionar.
Nós
temos o desejo de que a Universidade Federal do Pará – UFPA passe a ser
Universidade Federal do Xingu – UFX. Se criássemos a Universidade do Xingu, se
triplicássemos o número de cursos, se investíssemos na criação de laboratórios,
se abríssemos vagas para concursos nacionais, se atraíssemos professores de qualidade
para laboratórios bem equipados e se oferecêssemos bolsas para os alunos, não
haveria a necessidade de criar outros centros. O que quero dizer é que não é
preciso criar um instituto novo enquanto estamos há décadas lutando nas
instituições que já existem.
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Crise climática e reflorestamento da Amazônia
Sobre
a crise climática, a longo prazo, será um desastre; a Amazônia vai virar um
deserto. Mas recuando o prazo e olhando para o país ao longo deste século, se
quisermos ter uma vida mais ou menos decente no território brasileiro, teremos
que parar imediatamente todo o desmatamento da Amazônia e recuperar tudo o que
foi desmatado. É possível recuperar isso em dez anos.
Se
começarmos a plantar árvores em larga escala na Amazônia hoje, em dez anos a região
vai virar um paraíso verde novamente. É disso que precisamos para poder ter
água no restante do país. Isso pode gerar dinheiro também porque, quando se
planta, é possível ter acesso à madeira, que é algo importante. O inadmissível
é entrar em uma floresta virgem e cortar uma árvore de 300 anos. Mas se plantar
algumas espécies de árvores hoje, em dez anos é possível cortá-las. É preciso
trabalhar na recuperação da floresta. Quando recuperamos a floresta, carbono é
absorvido, o que pode igualmente gerar créditos de carbono e ser uma fonte de
dinheiro importante para o país.
Fonte:
Entrevista Rodolfo Salm, para IHU OnLine

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