A armadilha do
agronegócio
"O
agronegócio no Brasil traz o nosso país de volta para o ciclo das monoculturas
de exportação e dolarizando a nossa produção alimentar, puxando os preços do
mercado interno para se alinharem com as bolsas de commodities. O modelo
produtivo adotado, com alto nível de impactos negativos no meio ambiente, na
saúde pública e na distribuição de renda implica em um grande conflito para ser
corrigido", escreve Jean Marc von der Weid, ex-presidente da UNE (1969-71)
e fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia
(ASTA).
Eis
o artigo.
• O enfrentamento com o agronegócio
Já
mencionei em artigos anteriores desta série, algumas das contradições entre o
agronegócio e o novo governo do presidente Lula. Vou aqui explicitar as causas
deste choque, que vem de longe, mas que tem tudo para se intensificar nesta
gestão.
A
agenda do agronegócio passou e passa pelos seguintes pontos:
Em
primeiro lugar, este setor cobra a manutenção e até ampliação de generosos
benefícios fiscais, tais como a anistia das dívidas com o FUNRURAL, a
manutenção dos baixíssimos índices do ITR, Imposto Territorial Rural, aliás
sonegado de forma generalizada pelas empresas e proprietários rurais, a isenção
de impostos na importação de insumos agrícolas e juros subsidiados nos
créditos. A reforma tributária vai ter que discutir todos estes privilégios e
isto não vai ocorrer sem conflitos.
Em
segundo lugar, o agronegócio cobra a repressão aos movimentos de sem-terra nos
casos de ocupação de terras não cultivadas, de empresas violando as leis
ambientais e daquelas que utilizam trabalho de caráter escravista. Com
Bolsonaro, o agronegócio se armou para enfrentar estas ocupações na bala, e não
deixou de usar seus capangas, não só para expulsar invasores, mas para
assassinar ou tentar assassinar lideranças camponesas, indígenas e defensores
dos direitos dos trabalhadores rurais. Desarmar o agronegócio e aplicar a lei
nos casos de desmatamentos irregulares e uso de trabalho escravo não vai
acontecer sem conflitos com o agronegócio.
Em
terceiro lugar, o agronegócio quer a facilitação ainda maior das liberações de
novos agrotóxicos e transgênicos, afastando a ANVISA da avaliação dos riscos
destes produtos e entregando-a ao MAPA. Isto apesar das regras de avaliação da
ANVISA já terem sido mais que amenizadas no passado. A defesa do meio ambiente
e da saúde pública não vai ser bem aceita pelo agronegócio, é claro.
Em
quarto lugar, e este é um ponto crucial nesta análise, o agronegócio quer
acabar com as reservas naturais, indígenas e quilombolas, defendendo a sua
expansão territorial. Não é preciso dizer que esta agenda está em choque direto
com os direitos de indígenas e quilombolas e com a agenda ambiental do governo,
apoiada pelos governos dos países importadores dos nossos produtos.
Qual
a importância desta fome de terras do agronegócio para o seu sucesso econômico?
Afinal de contas, toda a propaganda da CNA, e outros organismos do agronegócio,
aponta para o grande avanço da produtividade dos seus sistemas produtivos na
expansão da agropecuária brasileira, comparando com uma expansão muito menor na
área de cultivos e pastagens. Se analisarmos os dados comparativos das culturas
e criações brasileiras com a de seus concorrentes internacionais, em particular
com os Estados Unidos, verificamos que os concorrentes tem maior produtividade
no uso da terra, com menores custos no uso da tecnologia e também têm menores
custos na manipulação e transporte dos produtos. Qual a nossa vantagem
comparativa para estarmos entre os maiores exportadores do mundo? As nossas
vantagens estão nos limites dos Estados Unidos (e outros exportadores) para
ampliar a sua oferta, frente a uma expansão da demanda mundial, em particular a
da China. Por outro lado, a legislação ambiental americana, apesar de bastante
laxista, é mais rigorosa que a nossa ou, pelo menos, é aplicada com mais rigor.
Também pesa na balança o valor mais baixo do real frente ao dólar. Este fator
tem um porém, o custo mais alto dos insumos agrícolas (adubos e agrotóxicos), a
maior parte deles importados pelo Brasil. Mas na balança de perdas e ganhos, a
nossa soja leva vantagem nas exportações. Mas, as grandes diferenças entre os
nossos custos de produção e os dos americanos estão no preço da terra e do
trabalho, muito menores aqui.
O
preço baixo da terra no Brasil tem a ver com a existência de amplas áreas não
ocupadas para uso agropecuário. É verdade que estamos chegando a um limite
nesta ampliação do uso do solo para este fim. Os ecossistemas nos quais esta
expansão ainda se dá são, sobretudo, o Cerrado e a Amazônia. É mais do que
sabido que a produtividade natural dos solos nestes biomas é baixa e que a
resposta em termos de produção vai caindo em poucos anos. Isto significa que,
para manter níveis razoáveis de produtividade do solo, o agronegócio tem que
ocupar novas terras de forma contínua. Este processo evoluiu nos últimos 20
anos, levando ao deslocamento da produção pecuária sempre mais para o norte,
enquanto as antigas pastagens no sul e no sudeste foram sendo substituídas por
culturas de soja e de cana de açúcar.
Nas
regiões, mais adequadas para a agricultura, do sul e do sudeste, o agronegócio
é mais tecnificado e tem até áreas de excelência de alta produtividade, mas o
conjunto é dependente deste movimento de ocupação de novas áreas. Na ocupação
da Amazônia pelo agronegócio, o processo se inicia pelo desmatamento seletivo
para explorar madeira de lei, seguindo-se o corte raso limpando toda a
vegetação nativa para cultivar soja. Quando os índices de produtividade começam
a cair as terras são entregues à criação de gado de forma extensiva até, no
limite, o abandono dos empreendimentos e o surgimento do que se passou a chamar
de áreas degradadas. Este processo também ocorre no Cerrado e no Pantanal, com
variações em função dos ecossistemas. Hoje temos áreas degradadas cujo tamanho
oscila, dependendo da avaliação, entre 80 e 120 milhões de hectares. Nada disso
existe nos Estados Unidos e em outros países exportadores. A nossa vantagem
comparativa econômica se mede em termos de destruição ambiental.
Este
quadro aponta para um conflito estrutural entre a agenda do agronegócio e a
agenda ambiental e faz deste setor um inimigo feroz de um governo que se
declara disposto a zerar os desmatamentos em todos os biomas, cortando o
processo de expansão do uso do solo pelo agronegócio.
O
governo Lula está buscando alianças com setores "mais racionais” ou
"mais modernos” do agronegócio, mas parece ignorar a forte unidade do
setor e de sua expressão parlamentar, a poderosa bancada ruralista. Apela-se
para a ameaça às nossas exportações representada pela legislação restritiva da
União Europeia, visando sustar as importações de quaisquer produtos
agropecuários oriundos, direta ou indiretamente, de áreas desmatadas. Isto é
ignorar o fato de que nossas exportações deste setor estão cada vez mais
centradas no mercado chinês, cuja demanda não para de crescer, apesar de uma
relativa desaceleração. Os chineses não têm restrições ambientais como as da
UE, que também estão crescendo ameaçadoramente para excluir produtos
transgênicos. Todas estas ameaças, entretanto, não estão levando a mudanças nos
procedimentos do agronegócio nacional. Ao contrário, o que o setor pede ao
governo é que pressione os importadores para que elas não sejam aplicadas nos
acordos comerciais em negociação já há muitos anos. Como vai se comportar a
diplomacia brasileira? Vai assumir a defesa do agronegócio?
Há
um outro fator de conflito em perspectiva. Onde ficará a defesa do direito dos
camponeses à terra? O governo vai usar a legislação para desapropriar fazendas
onde existe trabalho escrevo ou onde foi feito desmatamento ilegal? Isto está
previsto na legislação, mas nunca foi aplicado. E já existem projetos de lei
para mudar a legislação e evitar a desapropriação.
O
MST e outras organizações campesinas perderam o poder de ação que tiveram,
sobretudo no governo de FHC, mas não desapareceram, assim como não desapareceu a
demanda de camponeses por mais terra. Onde fazer a reforma agrária? O governo
deu uma dica em uma frase do Lula, mencionando a possibilidade de se promover
um amplo reflorestamento nas áreas degradadas com assentamentos da reforma
agrária. É uma proposta complexa e difícil. Reflorestar não é o mesmo do que
implantar assentamentos de produtores camponeses para cultivar milho, feijão,
mandioca ou o que quer que seja. O custo desta operação não vai ser pequeno. As
áreas degradadas estão localizadas em regiões isoladas e com pouco
infraestrutura social e econômica.
Por
outro lado, qual a renda possível de um assentamento de reflorestamento? Mesmo
se as propriedades forem utilizadas em parte para a produção agropecuária junto
com o investimento em reflorestamento, os assentados terão a responsabilidade
de plantar e manter as áreas reflorestadas. E não se pense que basta deixar a
natureza trabalhar para as matas nativas se recuperem naturalmente. Se assim
fosse estas terras, abandonadas para cultivo ou pasto há anos, já estariam
recuperadas. A degradação pode ter alcançado um tal ponto que só uma
intervenção humana por algum tempo poderá levar a algum nível de recuperação.
Ou seja, os agricultores eventualmente assentados nestas áreas de recuperação
terão que ser remunerados pelos seus serviços de reflorestamento. Serão o que,
na França, se intitulam !jardiniers de la nature” – os jardineiros da natureza.
Acho a ideia excelente, mas a não ser que haja um maciço investimento externo
para este fim não me parece uma empreitada ao alcance do Estado brasileiro nas
condições em que se encontra.
E
tem mais. Os camponeses sem terra preferem obtê-la nas suas regiões de origem,
não só por razões culturais, afetivas e familiares, mas porque é onde tem
experiência no saber agrícola. Todos os estudiosos dos processos de migrações
forçadas ou induzidas no tempo da ditadura militar (na realocação dos atingidos
por barragens ou na indução da migração de gaúchos para ocupar a Amazônia)
sabem a enorme quantidade de desastres individuais e coletivos ocorridos nestas
empreitadas. Os gaúchos não sabiam o que, nem como plantar naquele ecossistema
tão diferente dos pampas, não estavam habituados ao clima e faliram e morreram
aos montes.
A
grande pressão pela reforma agrária virá dos filhos de pequenos proprietários
que preferirem não migrar para as cidades ou dos quase 2 milhões de
minifundistas com áreas inferiores a cinco hectares, localizados sobretudo no
nordeste e nos bolsões de pobreza rural no sudeste, sobretudo em Minas Gerais,
e no sul e centro oeste. Reforma agrária não é o mesmo do que uma colonização
da Amazônia ou do Cerrado, a "solução" dos militares nos anos 70.
A
decisão, se for tomada, de promover uma verdadeira reforma agrária vai cobrar a
aplicação da Constituição, que definiu o conceito de uso social da terra. Isto
significa aferir se os grandes proprietários fazem suas terras produzirem
dentro de parâmetros técnicos, segundo índices de produtividade que foram
definidos em 1988 e que estão totalmente defasados. A lei complementar indicou
a necessidade de um permanente reajuste destes índices e o objetivo era
suprimir os grandes latifúndios subutilizados, mas eles nunca foram revistos
nestes 35 anos. Se o governo seguir este caminho pode esperar um brutal
enfrentamento com o agronegócio.
Para
terminar esta análise dos problemas do governo com o agronegócio temos que
olhar para a premente necessidade de se enfrentar a demanda do mercado interno
por alimentos. Já escrevi em outros artigos que o discurso que aponta a
agricultura familiar como aquela capaz de responder a esta demanda não tem base
na realidade. O agronegócio já é responsável pela maior parte da produção
alimentar para o mercado interno, muito embora ele se volte, prioritariamente,
para as exportações. Além disso, esta ênfase nas exportações vem se acelerando
entre os produtores do agronegócio e os próprios agricultores familiares,
sobretudo os mais capitalizados, diminuindo progressivamente a oferta para o
mercado interno.
Para
tornar a produção alimentar mais atraente vai ser preciso taxar as exportações
para tornar o mercado interno mais competitivo. Não é uma operação fácil porque
a concentração das exportações em uns poucos produtos voltados sobretudo para a
ração animal não permitirá o aumento da oferta de alimentos apenas com a
taxação.
Não
estamos no Vietnam onde a grande produção é o arroz, produto de alto consumo
nacional e também o maior produto de exportação. Quando houve a crise alimentar
de 2008/2009 o governo vietnamita segurou as exportações para garantir a oferta
no mercado interno. Segurar as exportações de soja no Brasil não melhoraria o
abastecimento interno de alimentos básicos, a não ser se aumentasse muito o
consumo de tofú, mas pelo menos os preços do óleo de soja não seriam tão
faraônicos.
O
consumo de carnes poderia ser ampliado no Brasil, limitando, em parte, as
exportações. Isto está acontecendo agora devido à retenção das exportações de
carne bovina para a China, devido a problemas sanitários. O preço da carne
bovina caiu significativamente e os frigoríficos estão longe de estar em crise.
Não há muitas outras alternativas de produtos taxáveis a não ser,
eventualmente, o arroz e o milho.
Converter
a produção do agronegócio para o mercado interno de forma maciça vai exigir
políticas mais amplas de preços mínimos garantidos pelo Estado e seus
resultados não serão imediatos. E, certamente, a revolta do agronegócio vai ser
brutal.
No
entanto, é bom olhar para as políticas de abastecimento do mercado interno
adotadas pelos os países da União Europeia e da América do Norte. Em todos eles
a primazia do mercado interno é a regra de ouro e as exportações são
complementares.
Este
conjunto de problemas colocados pelo papel assumido pelo agronegócio no Brasil,
ao trazer o nosso país de volta para o ciclo das monoculturas de exportação e
dolarizando a nossa produção alimentar, puxando os preços do mercado interno
para se alinharem com as bolsas de commodities. O modelo produtivo adotado, com
alto nível de impactos negativos no meio ambiente, na saúde pública e na
distribuição de renda implica em um grande conflito para ser corrigido.
Esta
é a maior armadilha que ameaça o novo governo e este não parece estar
consciente do conflito que tem pela frente, não só pelas razões objetivas acima
apontadas, mas também pela raiz ideológica e política já consolidada, com o
agronegócio implicado tanto no apoio político a Bolsonaro como no apoio às
tentativas de desestabilização da democracia no Brasil.
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em IHU OnLine

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