terça-feira, 1 de setembro de 2026

Da Austrália à Europa: veja países que restringem acesso de crianças às redes sociais

Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. A medida bloqueia o acesso a plataformas como YouTube, Instagram e Facebook.

A seguir, um resumo das medidas adotadas ou em discussão em diferentes países para regulamentar o acesso às redes sociais, em meio às crescentes preocupações com os impactos dessas plataformas na saúde e na segurança de crianças e adolescentes.

>>> Austrália

Uma lei histórica obrigou as principais plataformas de redes sociais a impedir o acesso de menores de 16 anos a partir de 10 de dezembro de 2025. A medida é considerada uma das regulamentações mais rigorosas do mundo voltadas às grandes empresas de tecnologia.

As empresas que não cumprirem as regras poderão ser multadas em até A$ 49,5 milhões (US$ 34,9 milhões).

>>> Grã-Bretanha

O Reino Unido planeja proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. A medida deverá ser aprovada até o Natal e entrar em vigor por volta da primavera de 2027, segundo o ex-primeiro-ministro Keir Starmer, que fez a declaração em 15 de junho.

As grandes empresas de tecnologia que operam no país também deverão impedir que crianças compartilhem imagens de nudez por meio de seus celulares. Caso contrário, poderão ser obrigadas a cumprir uma legislação específica, disse Starmer em 8 de junho.

Pelos planos, empresas como Apple e Google teriam de desenvolver ou ativar recursos em smartphones e tablets capazes de detectar e bloquear imagens de nudez para crianças. Adultos ainda poderiam tirar, compartilhar ou visualizar esse tipo de conteúdo por meio de um sistema de verificação de idade.

>>> China

O órgão regulador do ciberespaço da China implementou um programa chamado "modo menor", que estabelece restrições nos dispositivos e regras específicas para aplicativos. O objetivo é limitar o tempo de uso de telas de acordo com a idade.

Dinamarca

Em novembro, a Dinamarca anunciou que proibiria o uso de redes sociais por menores de 15 anos. Os pais, no entanto, poderiam autorizar o acesso a determinadas plataformas a partir dos 13 anos.

>>> França

Em 14 de agosto, o Supremo Tribunal da França bloqueou um projeto de lei que proibia o acesso de menores de 15 anos às redes sociais. Segundo a corte, a medida violava a liberdade de expressão.

O Parlamento francês havia aprovado a proibição em julho, em meio a preocupações crescentes com o bullying virtual e os riscos das redes sociais para a saúde mental.

>>> Alemanha

Menores de 13 a 16 anos só podem usar redes sociais com o consentimento dos pais. Defensores da proteção infantil, porém, afirmam que os controles existentes são insuficientes.

>>> Grécia

A Grécia está "muito perto" de anunciar uma proibição do uso de redes sociais por menores de 15 anos, disse uma fonte de alto escalão do governo à Reuters em 3 de fevereiro.

>>> Índia

Em janeiro, o principal conselheiro econômico da Índia defendeu a adoção de limites de idade para o uso de redes sociais. Ele classificou as plataformas como "predatórias" pela forma como mantêm os usuários conectados.

Dois dias antes, o estado turístico de Goa havia anunciado que estudava adotar restrições semelhantes às da Austrália.

>>> Itália

Crianças menores de 14 anos precisam de autorização dos pais para criar contas em redes sociais. A partir dos 14 anos, o consentimento não é mais necessário.

>>> Malásia

A Malásia começou a impedir que menores de 16 anos criem contas em plataformas de redes sociais, informou seu órgão regulador de comunicações em 1º de junho.

>>> Nova Zelândia

O primeiro-ministro da Nova Zelândia, Christopher Luxon, está propondo proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. As plataformas que descumprirem as regras poderão receber multas de até 10% de sua receita global.

O projeto de lei exigiria que as empresas adotassem medidas razoáveis para verificar a idade dos usuários. Entre as possibilidades estão o uso de informações de contas existentes, tecnologia de reconhecimento facial e documentos de identidade digital.

>>> Noruega

Em 2024, o governo norueguês propôs aumentar de 13 para 15 anos a idade mínima para que crianças possam dar consentimento aos termos de uso das redes sociais. Os pais ainda poderiam autorizar o acesso de menores.

O governo também começou a elaborar uma legislação para estabelecer 15 anos como idade mínima absoluta para o uso dessas plataformas.

>>> Polônia

O partido governista da Polônia está preparando uma legislação para proibir o uso de redes sociais por menores de 15 anos e responsabilizar as plataformas pela verificação da idade dos usuários, informou o governo em 27 de fevereiro.

>>> Eslovênia

A Eslovênia está elaborando um projeto de lei que proibiria menores de 15 anos de acessar redes sociais, afirmou o vice-primeiro-ministro Matej Arcon em 6 de fevereiro.

>>> Espanha

A Espanha pretende avançar com novas regras para tornar as redes sociais e a inteligência artificial mais seguras, apesar da forte pressão da indústria de tecnologia, afirmou o ministro da Transformação Digital, Oscar López, à Reuters em maio.

Em fevereiro, o primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou que o país proibiria o acesso às redes sociais por menores de 16 anos e obrigaria as plataformas a adotar sistemas de verificação de idade.

>>> Suécia

Uma comissão nomeada pelo governo sueco recomendou, em 2 de junho, a adoção de 15 anos como idade mínima para o uso de redes sociais.

A proibição poderia ser estruturada de forma que as próprias plataformas fossem responsáveis pela verificação da idade dos usuários, afirmou a investigadora Lisa Englund Krafft em uma coletiva de imprensa ao lado do ministro de Assuntos Sociais e Saúde Pública, Jakob Forssmed.

>>> Turquia

Em 24 de abril, o Parlamento da Turquia aprovou uma lei que proíbe menores de 15 anos de usar redes sociais e estabelece novas regras para plataformas digitais, incluindo empresas de jogos.

>>> Emirados Árabes Unidos

Os Emirados Árabes Unidos aprovaram, em 18 de junho, uma resolução que estabelece 15 anos como idade mínima para o uso de redes sociais, informou o gabinete de imprensa do governo.

O país se tornou o primeiro do mundo árabe a adotar uma medida desse tipo. A resolução proíbe menores de 15 anos de criar ou usar contas pessoais em redes sociais e restringe seu acesso às funcionalidades das plataformas.

>>> Estados Unidos

Um projeto de lei nos Estados Unidos que obriga empresas de redes sociais a adotar mais medidas para proteger crianças e adolescentes superou um importante obstáculo político depois que o senador republicano Ted Cruz afirmou, em 12 de maio, que apoiaria a proposta.

Cruz disse, durante um evento em Washington, que apoiaria o Kids Online Safety Act. O projeto exige que as empresas adotem "cuidados razoáveis" ao desenvolver recursos que possam contribuir para danos a menores.

A proposta é independente da Lei de Proteção da Privacidade Online das Crianças (COPPA), que já está em vigor e impede que empresas coletem dados pessoais de menores de 13 anos sem o consentimento dos pais.

Vários estados americanos aprovaram leis que exigem autorização dos pais para que menores usem redes sociais. Essas medidas, porém, enfrentaram contestações judiciais com base no direito à liberdade de expressão.

<><> Legislação da União Europeia

Em 12 de maio, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a União Europeia buscaria reforçar a proteção de crianças contra recursos considerados prejudiciais nas redes sociais.

Segundo ela, a Comissão Europeia pretende combater "práticas de design viciantes e prejudiciais" por meio da Lei de Equidade Digital, proposta que deverá ser apresentada ainda neste ano. Um painel de especialistas prepara recomendações sobre como a medida deverá ser implementada.

Em novembro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que pede a proibição, em toda a União Europeia, do acesso de menores de 16 anos a plataformas online, sites de compartilhamento de vídeos e assistentes virtuais de inteligência artificial sem o consentimento dos pais. Para menores de 13 anos, a proposta prevê uma proibição total.

<><> Indústria de Tecnologia

Plataformas como TikTok, Facebook e Snapchat afirmam que os usuários precisam ter pelo menos 13 anos para criar uma conta.

Defensores da proteção infantil, porém, consideram os controles insuficientes. Dados oficiais de diversos países europeus mostram que um número significativo de crianças menores de 13 anos possui contas em redes sociais.

 

Fonte: Reuters

 

Do clima à pele: o impacto do aquecimento global na dermatologia

O impacto das mudanças climáticas ultrapassa as estatísticas ambientais e se reflete na saúde do maior órgão do corpo humano: a pele. O aumento acelerado das temperaturas globais, combinado com picos de radiação ultravioleta e poluição atmosférica crescente, está transformando a dermatologia moderna.

Por ser a região mais externa do corpo humano, a pele torna-se a primeira barreira protetora. Além do controle de temperatura, funciona como um bloqueio para a perda excessiva de água e para a entrada de microrganismos. Quando o clima torna-se hostil, toda a estrutura precisa trabalhar muito mais para manter o equilíbrio. Nesse sentido, uma rotina de cuidados deve se adaptar ao clima e às interações com as radiações.

Além do envelhecimento precoce e do aumento nos casos de câncer de pele, doenças inflamatórias, como dermatite atópica, psoríase e acne, evidenciam que os efeitos do aquecimento global já não estão apenas no planeta, mas cravados na pele da população.

A dermatologista Leticia Oba percebe um crescimento expressivo de quadros desencadeados pelas mudanças climáticas. "O calor excessivo combinado ao uso constante de ar-condicionado acelera a desidratação da pele. Isso gera uma onda de quadros de ressecamento extremo e irritações, muitas vezes agravados pelo uso de produtos inadequados na tentativa de 'salvar' a pele em casa."

Nessa ótica, a dermatologia tem se voltado a estudar esse estresse celular que compromete as funções da barreira e, como consequência, aumenta o ressecamento, a sensibilidade, as irritações e a inflamação cutânea. Diferentes particularidades climáticas pedem rotinas de cuidados específicas.

<><> A exposição solar

Popularmente, a doença que causa maior preocupação é o câncer de pele. O dermatologista e CEO da Singular, Wesley Ferreira, explica que esse quadro não está associado somente à exposição direta, como tomar sol na praia, mas também às atividades cotidianas. "A extensão real do dano causado pela radiação solar é diária, silenciosa e cumulativa. A radiação UVA atravessa nuvens e vidros: quem passa uma hora no trânsito ou trabalha ao lado de uma janela está recebendo dose, mesmo sem sentir calor e sem se queimar", alerta. O câncer de pele, segundo o médico, é o desfecho mais grave, e é o tumor mais frequente no Brasil, mas prevenível e, quando diagnosticado precocemente, curável na maioria dos casos."

Wesley expõe que outras doenças também levam os pacientes aos consultórios. E detalha: "Envelhecimento precoce, rugas e linhas finas, flacidez, perda de textura e de qualidade da pele, manchas e a piora do melasma, hoje uma das queixas mais frequentes e que piora não apenas com ultravioleta, mas também com luz visível e calor. Há ainda as ceratoses actínicas, lesões pré-malignas que funcionam como um aviso de que aquela pele já acumulou dano suficiente. Essa queratose está em constante evolução, culminando num câncer de pele potencialmente grave, o carcinoma espinocelular".

Há também uma série de quadros clínicos que não são causados pelo sol, mas agravados ou desencadeados por ele. Lúpus eritematoso, rosácea, as porfirias cutâneas, as fotodermatoses em geral são alguns dos exemplos e, para esses, Wesley reforça a importância da proteção. "Para esses pacientes, a fotoproteção não é estética nem apenas preventiva, é tratamento."

Segundo o dermatologista, é de suma importância sempre lembrar que a fotoproteção não  deve ser um hábito do fim de semana. Ele deve passar a ser rotina, sempre orientada pelo médico. "Nesse sentido, o Consenso Brasileiro de Fotoproteção, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, traz a orientação de reaplicação do filtro solar a cada duas horas de exposição."

Após a exposição, a atenção não pode diminuir. Logo depois o banho — que deve ser com a água em temperatura morna ou fria —, loções com propriedades calmantes compostas por aloe-vera, camomila ou calêndula aliviam o calor e a vermelhidão.

<><> A poluição e fumaça

A radiação é potencialmente perigosa nos períodos de menor umidade, mas quando ela se junta com poluição e focos de incêndio a situação é agravada. Durante o período de seca, o aumento das queimadas irrita a pele e as mucosas e desencadeia crises em pacientes alérgicos.

Nos centros urbanos, a poluição, nem sempre visível, também desencadeia quadros clínicos. "O material particulado fino gera estresse oxidativo, compromete a barreira cutânea e está associado a envelhecimento precoce, hiperpigmentação e agravamento de dermatite atópica", elucida Wesley.  Para evitar mais impactos, uma limpeza deve ser feita diariamente para retirar os resíduos, além do uso de vitamina C ou E para neutralizar os radicais livres.

O tempo seco e a falta de umidade provocam a ruptura da barreira cutânea, causando desidratação, descamação, coceira e maior vulnerabilidade a irritações e infecções. Durante o período de estiagem, a rotina de cuidados deve ser adotada até por aqueles que não gostam de skincare diária.

Letícia dá um guia de como se cuidar. "Os hidrantes, com foco em barreira, como ceramidas, niacinamida e ácido hialurônico, repõem os lipídios naturais que a pele perde com o ar seco e ajudam a reter água nas camadas mais profundas. Além disso, tem os higienizadores suaves, os quais limpam sem agredir ou remover o pouco de oleosidade natural que protege a pele da desidratação." Para os lábios, é recomendado um reparador à base de ceramidas, manteiga de karité e pantenol para evitar as rachaduras e fissuras dolorosas.

Ela reforça que, mesmo com a seca, as peles possuem características particulares, como serem oleosas ou mais ressecadas. Assim, é importante consultar um especialista para que possa haver a avaliação e recomendação que se encaixe em cada caso.

<><> A umidade extrema

Durante períodos mais chuvosos e de extrema umidade, existem consequências dermatológicas também. A dermatologista Letícia reforça que altas temperaturas junto com umidade retida criam o cenário perfeito para que os fungos que habitam a nossa pele ou que estão presentes no ambiente se proliferarem.

"O suor retido e a alta umidade do ar dificultam a evaporação da transpiração natural, criando microambientes fechados — como entre os dedos dos pés, na virilha, axilas e dobras da pele. Além disso, o calor acelera o metabolismo desses microrganismos, fazendo com que uma pequena colônia se multiplique rapidamente e cause infecções superficiais — como a tinea pedis (frieira), a pitiríase versicolor (conhecida como pano branco) e a candidíase de repetição", esclarece.

 

Fonte: Correio Braziliense

 


                                  Povos indígenas e o preço da terra: da vinha de Nabot ao território do povo Mura

A história da humanidade é, em grande parte, a história da disputa pela terra. Mas nem sempre essa disputa se dá no campo de batalha aberto. Frequentemente, ela ocorre nos corredores do poder, nos bastidores da justiça e na manipulação das leis. Para entender a violência que assola comunidades tradicionais na Amazônia contemporânea, não precisamos olhar apenas para os mapas atuais; precisamos voltar três mil anos atrás, para as margens do reino de Israel, onde um rei, uma rainha e uma vinha definiram um arquétipo de injustiça que ecoa até hoje.

A narrativa das Vinhas de Nabot, registrada no primeiro livro dos Reis (capítulo 21), da Bíblia, não é apenas um texto teológico. É um estudo de caso sobre a corrupção sistêmica, o abuso de poder estatal e a transformação da terra de “herança sagrada” em “ativo econômico”. Quando colocamos essa parábola antiga em diálogo com os conflitos modernos envolvendo a exploração de potássio na Amazônia e a resistência dos povos Mura, no município de Autazes, no Amazonas, percebemos que a mecânica da opressão permanece inalterada, mudando apenas a tecnologia e a linguagem.

<><> O modelo clássico: a vinha e o palácio

A história começa com uma proposta aparentemente razoável. Acab, rei de Israel, deseja a vinha de Nabot, um cidadão comum de Jezrael. A vinha fica estrategicamente localizada “junto ao palácio”, o que a tornaria ideal para se transformar em uma horta de legumes. Acab oferece uma troca justa: outra vinha melhor ou o valor em dinheiro.

A recusa de Nabot, no entanto, toca em algo que o rei não compreende: a terra não é uma mercadoria. Para Nabot, a vinha é a “herança de meus pais”, um vínculo indissolúvel com a linhagem familiar e a lei divina. “Iahweh (Senhor) me livre de ceder-te a herança de meus pais“, diz ele.

É aqui que a tragédia se desenrola. Acab não usa a força militar para tomar a terra. Ele usa a fraude e a manipulação. Sua esposa, Jezabel, assume o comando da operação. Ela não envia soldados; ela envia cartas seladas com o anel real aos “anciãos e nobres” da cidade. O plano é meticuloso: corromper o sistema judicial local. Eles organizam um falso jejum (dessacralizando um ritual sagrado), convocam falsas testemunhas (“homens inescrupulosos”) e acusam Nabot de blasfêmia contra Deus e contra o rei.

O resultado é o assassinato de Nabot por apedrejamento e a subsequente tomada da vinha por Acab. A lição é clara: quando o poder político se alia a um judiciário omisso ou corrupto, o direito do mais fraco é anulado não pela força bruta, mas pela burocracia da mentira. A terra é tomada, o dono é eliminado, e o crime é legitimado pela lei.

<><> A modernidade da cobiça: o caso potássio

Milhares de anos depois, a geografia mudou, mas a lógica permanece. Na Amazônia brasileira, a busca por recursos estratégicos para o mercado global — especificamente o potássio, mineral essencial para a produção de fertilizantes agrícolas — reacendeu o ciclo de Acab e Jezabel.

O Brasil possui vastas reservas de potássio, e a pressão para sua exploração tem crescido em meio a uma crise alimentar global. Grandes corporações e o interesse estatal têm pressionado por concessões em áreas que, historicamente, foram de uso tradicional de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Assim como Acab queria a vinha “perto do palácio” para facilitar o acesso e o lucro, as mineradoras buscam as terras mais ricas, muitas vezes sobrepostas a territórios protegidos ou de comunidades vulneráveis. A narrativa oficial frequentemente apresenta a mineração como sinônimo de “progresso”, “desenvolvimento” e “soberania nacional”.

No entanto, sob essa retórica, esconde-se a mesma mecânica de Jezabel. A “lei” é manipulada para flexibilizar licenciamentos ambientais, para ignorar a consulta prévia, livre e informada garantida pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e para criminalizar a resistência local. A terra deixa de ser o lar de gerações e passa a ser vista apenas como um ativo financeiro em um balanço patrimonial. O “ancestral” é substituído pelo “acionista”, mas o preço pago pelas comunidades locais é o mesmo: a perda de soberania e a ameaça à existência física.

<><> Os Mura de Autazes: a resistência ancestral

É neste cenário de tensão que se situa a realidade do povo Mura, especificamente na região de Autazes. Os Mura são um povo com uma história milenar de resistência, profundamente conectado à bacia do Rio Madeira, às guerras coloniais, Cabanagem, trincheiras de defesa ao longo dos séculos. Para eles que defendem seu território ancestral, o rio e a terra não são recursos a serem extraídos; são a própria extensão de sua identidade, memória e sobrevivência cultural.

A ameaça que paira sobre Autazes não é hipotética. Projetos de mineração, petróleo, gás, expansão da fronteira agrícola e a construção de infraestrutura hidroviária pressionam constantemente os limites territoriais dos Mura e dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais na Amazônia e em todo planeta terra. A situação reflete diretamente o dilema de Nabot: como manter a integridade de sua “herança” diante de um poder que vê sua terra apenas como um obstáculo ao lucro?

Assim como Nabot foi acusado de blasfêmia para justificar sua morte, os líderes Mura e suas comunidades são frequentemente estigmatizados na esfera pública. São rotulados como “obstáculos ao desenvolvimento”, “contra o progresso” ou “aliados de interesses estrangeiros”.

A violência contra eles raramente é um apedrejamento público; é uma violência estrutural e silenciosa. É a lentidão da justiça que não demarca terras; é a invasão de garimpeiros que contaminam os rios; são búfalos que invadem territórios, plantações e contaminam lagos; é a falta de proteção estatal que permite a grilagem.

A recusa dos Mura em abandonar suas terras ou em aceitar compensações que não respeitem sua cosmovisão é o equivalente moderno ao “O Senhor me livre” de Nabot. É uma afirmação de que há valores que transcendem o mercado.

<><> O julgamento de Elias: quem denuncia a injustiça?

Na narrativa bíblica, após a tomada da vinha, o silêncio é quebrado pelo profeta Elias. Ele não pergunta a Acab sobre o preço da terra ou a eficiência da horta. Ele vai direto ao centro moral: “Mataste e ainda por cima roubas“. A profecia de Elias traz um alerta severo: a injustiça tem consequências. “No mesmo lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabot, os cães lamberão também o teu.”

Hoje, quem são os “Elias” na Amazônia? São os líderes indígenas, quilombolas, ribeirinhos, povos tradicionais, defensores dos direitos humanos, jornalistas investigativos e a sociedade civil que se recusam a aceitar a normalização da violência. Eles são aqueles que apontam o dedo para a corrupção sistêmica, para a conivência do Estado e para a ganância corporativa.

O “julgamento” na era moderna não é necessariamente uma punição divina imediata, mas o colapso ecológico, a destruição de nossa casa comum – a “Mãe terra” como cantava Francisco de Assis há 800 anos e como muitos povos indígenas também a conhecem – a perda irreversível de culturas milenares e a instabilidade social que surge quando a justiça é sistematicamente negada. A história dos Mura de Autazes e dos conflitos pelo potássio nos ensina que a impunidade não é um vácuo; ela cria um terreno fértil para a repetição da violência.

Hoje, ainda, ensina que também nós sociedade civil podemos fazer parte deste ciclo de violência e, se não estamos do lado dos que sofrem, fatalmente estaremos do lado dos que oprimem. Na época de Nabot quantos “cidadãos de bem” ficaram calados, não denunciaram a injustiça ou foram coniventes com o homicídio injusto?

Um exemplo simples atual está em nossos hábitos de consumo diários: fala-se aqui de potássio, mas para que ele serve? Para a produção do NPK essencialmente, fertilizante químico utilizado na maioria da produção do agronegócio brasileiro e mundial, em especial em mega lavouras de soja, milho e cana de açúcar, mas também de frutas, legumes e verduras não orgânicas.

Ou seja, cada vez que compramos um alimento que utiliza produtos que são fruto de violência (como o fertilizante químico produzido em tais condições de violação de direitos humanos), estamos fazendo parte desta cadeia de injustiças, saibamos ou não disto. Seja por ações maiores ou menores que contribuem para a perpetuação deste ciclo, seja pela omissão despreocupada do “cada um no seu quadrado”.

Qual seria então a solução? Colocar-se ao lado dos que sofrem, defender seus direitos, denunciar a violência injusta. De outro lado, não fazer parte do ciclo perverso e, neste caso, comprar alimentos para nossa casa ou trabalho em feiras direto do agricultor familiar, de preferência de produção orgânica ou agroecológica. Em cidades como Manaus, tais feiras tendem a se multiplicar. Alguns exemplos são as realizadas semanalmente nas dependências da sede do Incra e no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).

<><> Conclusão: a terra como espelho moral

A similaridade entre as jornadas de Jezrael e de Autazes revela uma verdade incômoda: a história não se repete apenas como farsa, mas como tragédia estrutural. A diferença entre o rei Acab e os modernos “reis” corporativos ou estatais é apenas a tecnologia da opressão, não a essência da ganância.

A vinha de Nabot, as reservas de potássio e as terras dos Mura são espelhos que refletem nossa moralidade coletiva. Elas nos perguntam: até onde estamos dispostos a ir para garantir o lucro? Para garantir bens de consumo? Até que ponto permitimos que a lei seja distorcida para servir aos poderosos?

A resistência dos Mura, assim como a recusa de Nabot, é um lembrete vital de que a terra tem um dono que não é o Estado, nem a empresa, nem o rei. A terra pertence à vida, à história e às gerações que a sustentam. Reconhecer isso é o primeiro passo para romper o ciclo de violência que, há três milênios, tenta transformar lares em commodities.

Enquanto houver quem se recuse a vender sua herança, haverá quem precise ser ouvido. E, como nos ensina a história, o silêncio da justiça é o prelúdio de uma catástrofe que, inevitavelmente, atingirá a todos.

 

Fonte: Por Fernando Merloto Soave da Amazônia Real

Como a China censura imagens da catástrofe no Tibete e Nepal

Quando uma enchente repentina e catastrófica varreu a acidentada fronteira entre a China e o Nepal em 26 de agosto, a devastação física foi imediata.

No Nepal, uma torrente negra de lama e pedras devastou comunidades, deixando centenas de mortos e milhares de desaparecidos ao longo da fronteira. Mas do outro lado, no Tibete, uma região autônoma da China, o desastre físico foi quase instantaneamente espelhado por um digital: o apagamento rápido e sofisticado das evidências visuais da catástrofe.

Enquanto sobreviventes tentavam publicar vídeos brutos do dilúvio, o aparato de controle de informações apoiado pelo Estado chinês entrou em ação, executando uma operação sofisticada e precisa para moldar a narrativa pública e ocultar verdades inconvenientes.

As realidades – uma trágica crise humanitária no Nepal e uma narrativa de resgate triunfante e cuidadosamente higienizada na China – revelam a mecânica em evolução da moderna máquina de censura de Pequim.

Em vez de impor um apagão total e direto, as autoridades implantaram tecnologia avançada de reconhecimento de imagem e táticas de "informação saturada" para abafar o escrutínio interno, ao mesmo tempo que desviavam o atrito diplomático no exterior.

<><> A queda do Portão Nacional

Imediatamente após o deslizamento de terra provocado pela enchente, moradores locais capturaram imagens dramáticas da torrente engolindo o Porto de Gyirong, um importante centro de comércio terrestre entre a China e o Nepal.

Um dos vídeos mais impressionantes mostrava uma parede negra de água e detritos colidindo e destruindo o imponente Portão Nacional na passagem de fronteira.

O blogueiro local Matou Qingnian descreveu a cena caótica em um artigo intitulado "Um deslizamento de terra não registrado atinge o Porto de Gyirong" no WeChat, um aplicativo universal que combina mensagens com opções de pagamento e funções de rede social.

"O momento mais aterrador aconteceu no Porto de Gyirong", escreveu Matou, descrevendo imagens de vídeo de multidões, incluindo crianças, fugindo em pânico antes que uma torrente escura como breu engolisse a visão da câmera.

Em poucas horas, tanto o artigo quanto as imagens brutas do vídeo desapareceram das redes sociais chinesas.

De acordo com o China Digital Times (CDT), um órgão independente de monitoramento da censura na internet chinesa, o vídeo do desabamento do Portão Nacional foi sistematicamente impedido de ser compartilhado no WeChat, até mesmo em mensagens privadas.

"As imagens em si não continham violência explícita, protestos ou slogans políticos", explicou Mira, editora do CDT especializada em monitorar palavras-chave e mídias sensíveis. "O alvo da censura era o próprio símbolo: o Portão Nacional."

Analistas digitais observam que essa censura destaca uma atualização significativa nas ferramentas de policiamento da internet na China. Em vez de simplesmente filtrar palavras-chave baseadas em texto, as plataformas agora dependem fortemente de impressões digitais de vídeo, identificação por hash de imagem e modelos de aprendizado de máquina capazes de reconhecer cenas visuais específicas.

Uma vez que uma sequência visual é incluída na lista negra, ela é interceptada antes mesmo de ser publicada.

<><> A arte da censura "saturada"

A supressão do desastre do Porto de Gyirong reflete uma mudança mais ampla na estratégia de Pequim; da exclusão em massa à "cirurgia de precisão" e à inundação narrativa.

Uma busca por "deslizamento de lama no Tibete" no Xiaohongshu – a popular plataforma chinesa de estilo de vida e buscas – revela a mecânica desse "ambiente de informação saturado".

Em vez de exibir uma página de busca vazia, o algoritmo da plataforma fornece aos usuários um fluxo cuidadosamente selecionado de reportagens da imprensa estatal chinesa, da emissora estatal CCTV e da agência de notícias Xinhua.

A paisagem visual é dominada por gráficos estéreis de alta resolução: comparações de "antes e depois", mapas de colapsos glaciais em grandes altitudes – a causa científica oficial do desastre – e imagens aéreas de drones aprovadas pelo Estado.

Os vídeos brutos e caóticos gravados por testemunhas oculares na fronteira estão completamente ausentes.

Ao preencher o espaço digital com um grande volume de conteúdo oficial "seguro" e visualmente atraente, o Estado satisfaz a curiosidade imediata do público, enquanto sufoca preventivamente o jornalismo independente ou discussões orgânicas, observam os analistas.

Na plataforma Weibo, a gigante chinesa do microblogging, a narrativa foi conduzida de forma semelhante. Embora o "deslizamento de lama no Tibete" tenha sido brevemente um dos assuntos mais comentados em 26 de agosto, os números de vítimas domésticas foram rapidamente congelados na manhã seguinte em três mortos e 558 desaparecidos.

Quase imediatamente, os tópicos mais comentados da plataforma foram redirecionados para a rápida resposta do governo.

Dois relatórios oficiais extensos e amplamente divulgados dominaram o noticiário: o presidente chinês Xi Jinping convocando uma reunião do Politburo Central para coordenar os esforços de resgate e socorro, e o primeiro-ministro Li Qiang chegando a Gyirong para dirigir pessoalmente as operações no local.

Essas manchetes transformaram efetivamente uma grande tragédia humana em uma demonstração altamente orquestrada de competência estatal.

<><> Censura oculta fracassos do governo

Por trás da aparência de esforços eficientes de resgate estatal, esconde-se uma vulnerabilidade sistêmica mais profunda que Pequim estava desesperada para ocultar: um histórico de negligência estrutural.

Em 27 de agosto, uma hashtag passou brevemente pela censura e se tornou tendência no Weibo: "Porto de Gyirong reaberto há apenas meio ano". Ela acumulou mais de 347 mil visualizações em menos de uma hora antes de ser abruptamente excluída. A hashtag apontava para uma cronologia condenatória de falhas de infraestrutura.

Em julho de 2025, o Porto de Gyirong foi completamente fechado após ser devastado por outra forte enchente repentina. Foram necessários quase seis meses para reconstruir e reabrir o porto em 1º de janeiro de 2026. Oito meses depois, o porto foi novamente destruído.

Como observado no artigo excluído de Matou Qingnian, o Porto de Gyirong sofreu deslizamentos de terra durante as cheias de 2024, 2025 e agora 2026. Em 2025, vários funcionários chineses desapareceram ou foram mortos.

Ao apagar a tendência de "meio ano", os censores bloquearam uma inevitável e perigosa cadeia de investigações públicas.

oderna instalação de fronteira foi destruída duas vezes em 14 meses, isso levanta questões críticas sobre a seleção do local, a construção precária da infraestrutura e o completo fracasso dos sistemas de monitoramento e alerta precoce de lagos glaciais no Tibete.

Essas questões são especialmente sensíveis no Tibete, uma região sob intenso controle político e de segurança desde a década de 1950. Jornalistas estrangeiros são estritamente proibidos de entrar na região, exceto em excursões governamentais altamente coreografadas.

De acordo com grupos de direitos humanos, tibetanos locais que tentam falar com jornalistas estrangeiros ou compartilhar relatos independentes online enfrentam detenção ou prisão imediata.

<><> Atrito diplomático

O firewall de informações não para nas fronteiras da China, criando também uma ruptura diplomática com o Nepal, país vizinho que sofreu o impacto mais severo do desastre em termos de vidas humanas.

Parshuram Kaphle, um proeminente jornalista nepalês especializado em política externa, acusou publicamente Pequim em postagem no X de não compartilhar dados transfronteiriços críticos.

"O Nepal tem atendido às legítimas preocupações de segurança de nossos vizinhos", escreveu Kaphle em uma postagem que foi posteriormente apagada. "No entanto, é preciso dizer com tristeza que nosso vizinho do norte nos prejudicou significativamente. Ao não fornecer um alerta precoce sobre um desastre tão grande, sofremos imensas perdas de vidas humanas."

"Temos enfrentado continuamente crises originadas em seu território, enquanto continuamos a atender a todas as suas preocupações, necessárias ou desnecessárias. Por que o Nepal deve pagar sozinho o preço de um amor unilateral?", questionou.

O governo chinês se recusa a assumir qualquer responsabilidade. Em 27 de agosto, a embaixada da China no Nepal emitiu um comunicado publicado no Facebook, rejeitando as acusações de falha na emissão de alertas ou de ter causado o desastre por meio de rompimentos de barragens rio acima, classificando-as como "notícias falsas".

"Acusações não ajudam em nada", dizia o comunicado da embaixada. "A cooperação salva vidas."

Mas para as famílias que buscam mais de 3 mil entes queridos desaparecidos ao longo das margens lamacentas da fronteira do Himalaia, a cooperação permanece tão obscura quanto a verdade por trás do firewall digital.

Ø  Nepal tem enterros coletivos após enxurrada matar quase mil

Sobrecarregado pela quantidade de mortos e incapaz de manter seus corpos todos refrigerados até que sejam identificados por suas famílias, o Nepal começou no sábado a enterrar em valas comuns as primeiras vítimas das enxurradas devastadoras que deixaram quase mil mortos, além de mais de 4 mil desaparecidos, informou a imprensa local.

A decisão gerou controvérsia no país, de maioria hindu, onde a cremação é a prática tradicional. 

O desastre na região fronteiriça entre a China e o Nepal foi provocado após o colapso de uma geleira desencadear uma gigantesca avalanche, com inundações repentinas que arrasaram regiões inteiras em questão de minutos. 

Nesta segunda-feira (31/08), já são 903 vítimas confirmadas no lado nepalês, e 16 no lado chinês. Enquanto no primeiro país o número de desaparecidos aumentou drasticamente para 4.247 pessoas, 546 pessoas seguem desaparecidas na China. 

Entre os desaparecidos há cidadãos de Índia, Estados Unidos, Ucrânia, China, Malásia, Austrália, Reino Unido, Letônia, Canadá, Coreia do Sul, Singapura, Alemanha e Rússia, dentre outras nacionalidades.

Milhares de equipes de resgate continuam procurando vítimas e recuperando corpos nas áreas afetadas do Nepal e do sudoeste do Tibete, na China. A região dos Himalaias é isolada e muito procurada por turistas de aventura e peregrinos.

Muitos corpos foram encontrados no sul do Nepal, a dezenas de quilômetros das áreas mais atingidas pelas enchentes de quarta-feira, segundo as autoridades nepalesas. 

<><> Resgate e identificação de corpos sob condições adversas

A magnitude do desastre e a rápida decomposição dos corpos impeliu as autoridades a realizar os primeiros enterros antes que fossem identificados, por razões sanitárias, já que não há como manter tantos cadáveres refrigerados.

Amostras de DNA, fotografias e outras informações de identificação estão sendo coletadas antes dos enterros para que os familiares possam identificar seus entes queridos posteriormente.

"Nossa prioridade absoluta é devolver cada vítima às suas famílias", afirmou um porta-voz da polícia, citado pelo jornal Kathmandu Post.

No distrito nepalês de Chitwan, no centro-sul do país, Anil Thapa, policial que coordenava a recolhida de corpos, afirmou que muitos foram resgatados após ficarem submersos na água da enxurrada por cerca de quatro dias, de modo que já estavam em estado avançado de decomposição quando foram encontrados.

Em Chitwan, cerca de 250 corpos ainda aguardavam identificação. Os trabalhos são dificultados pela infraestrutura forense limitada, falta de vagas nos necrotérios e as altas temperaturas e umidade, que aceleram o processo de decomposição de cadáveres.

Especialistas alertam que deixá-los expostos poderia aumentar o risco de doenças.

"As pessoas estão preocupadas de que este possa ser um enterro definitivo, mas trata-se apenas de uma medida temporária", disse Thapa. "Se alguém conseguir confirmar a identidade posteriormente usando as informações disponíveis, poderá recuperar o corpo e realizar os ritos fúnebres apropriados."

Amrit Bahadur Rai, secretário de Relações Exteriores do Nepal, garantiu que as famílias "poderão comparar os registros posteriormente e terão autorização para exumar os restos mortais no futuro para realizar os rituais necessários".

Novos deslizamentos de terra na região no domingo bloquearam a principal rodovia que liga a capital, Katmandu, a Chitwan, apenas um dia após sua reabertura parcial, complicando os esforços para transportar corpos e suprimentos de ajuda humanitária.

Na área atingida pelo desastre na China, as equipes tentam reabrir uma importante estrada de acesso para permitir a entrada de equipamentos pesados. No entanto, o risco de novos deslizamentos de terra e enchentes está dificultando os trabalhos. Mais chuvas estão previstas para a região nos próximos dias.

<><> China nega censurar informações sobre gravidade do desastre

A China, que vem sendo acusada de censurar informações e espalhar desinformação sobre a catástrofe, afirmou nesta segunda-feira que tem agido de forma "aberta, transparente e oportuna".

Pequim atribui a grupos tibetanos no exterior acusações de que o governo chinês estaria subnotificando o número de mortos e desaparecidos.

<><> Quase mil trabalhadores presos em túneis de hidrelétricas

Enquanto isso, as equipes de resgate no Nepal estão concentrando esforços em várias usinas hidrelétricas que sofreram graves danos causados por lama e destroços.

Acredita-se que ao menos 933 trabalhadores estejam presos em múltiplos túneis dessas instalações na cordilheira do Himalaia. As operações têm sido dificultadas pela elevação do nível da água e pelas más condições climáticas.

Várias dezenas de militares, policiais e guias nepaleses trabalham dia e noite nesses locais de difícil acesso, auxiliados por especialistas vindos da Índia, China e Coreia do Sul. 

Internado na capital, Katmandu, um funcionário da usina hidrelétrica Upper Trishuli, Shibu Giri, de 44 anos, descreveu como escapou milagrosamente da onda que arrasou tudo em seu caminho. 

"Foi como um tsunami, com um barulho enorme e uma gigantesca nuvem de poeira", relatou à agência de notícias AFP nesta segunda-feira. "Fugindo, subimos para áreas mais altas [...] já não se via mais nada; realmente achei que não sairia vivo."

O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, destacou a injustiça de o país sofrer impactos extremos das mudanças climáticas, apesar de possuir uma das menores emissões de carbono per capita do mundo.

Isso se deve à sua localização no Himalaia, a cadeia de montanhas mais alta do planeta, onde as geleiras estão derretendo em ritmo acelerado à medida que o aquecimento global avança.

 

Fonte: DW Brasil

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

A política do pânico

Uma página do Instagram chamada “Seremos Resistência” publicou uma peça acusatória contra o historiador e político brasileiro, Jones Manoel a propósito de uma “colinha” eleitoral na qual não aparecia o nome de presidente Lula da Silva. O episódio poderia parecer apenas mais uma polêmica fabricada pelas redes sociais, dessas que nascem com a solenidade de uma crise de Estado e morrem antes do fim do dia. Contudo, revela algo politicamente mais profundo e problemático. Começo com uma curta reflexão sobre o nome da referida página e o imaginário político que ela carrega: seremos resistência. A partir de uma conceção político-militar, resistir é indispensável quando os adversários estão a avançar, mas resistir não é vencer, apenas defender-se dos ataques dos inimigos. É neste ponto que a resistência deixa de ser um momento da luta e se converte numa identidade permanente de uma estratégia política, desligada de um horizonte de conquista e transformação, tornando-se num fetiche pela derrota política (mesmo que com vitórias eleitorais), visto que não se pretende conquistar iniciativa, construir força ou transformar a sociedade; pretende-se apenas impedir, pela enésima vez, que tudo se torne ainda pior. A autodesignação da página expressa metaforicamente (ou não) a temporalidade histórico-política do “lulismo tardio” (Paulo Arantes).

<><> O lulismo tardio e a política do pânico

A categoria “lulismo tardio” não designa apenas uma etapa cronológica da história política de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT), mas uma alteração na forma predominante de organizar o consentimento e manter a hegemonia no campo da esquerda e progressista. No seu período ascendente, sustentado pelo crescimento económico, pela expansão do emprego, pela valorização do salário mínimo e pela ampliação das políticas sociais, o progressismo do lulismo apresentava uma promessa positiva, como os pobres poderiam melhorar de vida, os trabalhadores poderiam consumir mais e o capitalismo brasileiro continuaria a lucrar, tudo isto sem rutura com as estruturas fundamentais da ordem. Era o “melhorismo”, isto é, melhorar a vida do povo trabalhador dentro da ordem, administrando e regulando os conflitos a fim de evitar que desembocassem num confronto aberto entre interesses inconciliáveis – isto é, a velha e viva, apesar de negada ou ocultada, luta de classes.

A base material começou a erodir-se com a desaceleração económica no esteio da crise capitalista e a política de austeridade aplicada em 2015 pelo governo Dilma Rousseff (o próprio PT reconhece essa análise); portanto, a crise política aberta em Junho de 2013 foi depois aprofundada pelo golpe do impeachment, lawfare e prisão de Lula, assim como a tutela militar e a emergência do bolsonarismo enquanto campo político hegemónico na direita brasileira, sinalizam para uma crise e os limites do lulismo não-tardio (forma de regulação do conflito social a partir da cadeira presidencial). Nesse processo de crise, a promessa mudou de sinal.

O lulismo progressista já não podia afirmar prioritariamente: “connosco, todos podem melhorar”. Passou a advertir: “sem nós, virá a barbárie”. Noutros termos, o futuro desejável cedeu lugar ao futuro temido. O melhorismo transformou-se em “menorismo”: já não se trata principalmente de melhorar dentro da ordem do capitalismo periférico e dependente brasileiro, mas de impedir que a sociabilidade se torne ainda pior. Uma pergunta parece incontornável: a tática lulista tem conseguido?

Enfatizo sem meias palavras. A ameaça da extrema-direita e do neofascismo é real, o golpe do impeachment de 2016, a operação político-judicial contra Lula da Silva, assim como foi o governo de Jair Bolsonaro, a gestão criminosa da pandemia, a tutela das Forças Armadas e as tentativas golpistas, as ameaças de uma intervenção imperialista dos EUA no país; são questões e riscos que não foram invenções de uma assessoria de comunicação lulista/petista, é algo verdadeiro e realmente temerário. O problema central está no uso político que se faz desses riscos. Explico melhor.

A política do pânico inicia-se quando ameaças autoritárias e fascizantes reais são convertidas numa tecnologia e modo de disciplinamento interno, quer dizer, na gramática predominante do lulismo tardio, o Lula da Silva e o PT são apresentados como as únicas barreiras possíveis contra a catástrofe; particularmente Lula, como a única mediação popular capaz de a impedir. Portanto, qualquer forma de crítica torna-se colaboração “objetiva” com a direita ou o bolsonarismo, uma posição de independência e autonomia política que trisque na hegemonia do lulismo/petismo converte-se em divisionismo; a apresentação de alternativas é denunciada como irresponsabilidade. Por outro lado, as alianças com forças conservadoras surgem como o preço inevitável para impedir algo pior, esquece-se facilmente o que Geraldo Alckmin, entre muitos outros, afirmavam quando Lula estava preso. Nesse contexto, o pequeníssimo campo da esquerda radical, que esteve na frente de várias mobilizações para denunciar a prisão de Lula e reivindicar a sua liberdade é “descartado” porque não legitima todas as táticas do lulismo. Em síntese, o inimigo externo e os riscos passam a regular o campo interno da esquerda (social-liberal e radical/socialista) e a única lealdade política que o lulismo/petismo aparenta ter é com a sua hegemonia.

Medo e pânico, neste sentido, não são a mesma coisa. O medo possui um objeto determinado, que permite produzir prudência, análise, preparação e organização coletiva. Uma esquerda que reconhece o fascismo ou neofascismo como perigo procura compreender as forças sociais que o sustentam, disputa as ruas, organiza os trabalhadores e constrói uma frente tática para o derrotar tendo em vista a sua estratégia e projeto político. Já o pânico produz outro efeito, pois comprime a temporalidade, reduz as alternativas, suspende a deliberação e exige sujeição imediata. O medo diz: há uma ameaça, organizemo-nos para enfrentá-la. O pânico ordena: não há tempo para discutir; existe apenas uma escolha legítima e qualquer divergência poderá provocar um cataclismo. É por isso que sucessivas eleições voltam a ser apresentadas como “as mais importantes das nossas vidas”; curiosamente, a exceção regressa com a pontualidade do calendário eleitoral. Antes da votação, não se pode criticar porque a direita pode vencer; depois dela, não se pode criticar porque é necessário assegurar a posse, estabilizar o governo, formar maioria, tranquilizar os mercados e preparar a eleição seguinte. Ou ainda, se criticar a direita ou extrema direita pode retornar. Um círculo vicioso que o lulismo/petismo procura impor aos setores à sua esquerda. Salvar a restrita democracia política liberal torna-se tão urgente que já não dispõe de tempo para o debate democrático no suposto campo da esquerda. O futuro torna-se adiado por excesso de urgência, ou seja, os inimigos estão sempre a condicionar as nossas iniciativas e agendas políticas.

O mecanismo interno pode ser analisado e entendido pela categoria sartriana de “fraternidade-terror”. Um perigo exterior reforça a identificação do grupo com a sua liderança; quando aparece uma divergência, o dissidente pode ser convertido num substituto simbólico do inimigo externo.

No lulismo tardio, essa disciplina não assume a forma do terror físico exatamente, mas a do disciplinamento hegemónico-político, afetivo e moral; portanto, quem critica é acusado de enfraquecer; quem constrói uma alternativa, de dividir; quem recusa uma aliança, de favorecer o fascismo. A crítica já não é enfrentada pelo seu conteúdo, mas julgada pelas consequências eleitorais que lhe são previamente imputadas. Aqui está o núcleo central e ideológico da lógica política do pânico do lulismo em crise rastejante. Do ponto de vista dos afetos políticos, a fórmula é simples: medo no presente, culpa no futuro. No presente, exige-se silêncio para não fortalecer a direita; no futuro, caso ela vença, o crítico será responsabilizado por ter falado, dividido ou apoiado outra candidatura. O ónus da justificação é deslocado, em vez de o lulismo e o PT assumirem as suas escolhas, exige-se que o dissidente demonstre que a crítica não produzirá uma catástrofe. Daí nasce a autocensura preventiva, não pela força do convencimento, mas pelo receio moral de ser apontado como responsável pelas futuras vítimas do autoritarismo. Os que fazem tendem a pagar um preço político bastante elevado.

Muitos dos que reproduzem esse dispositivo acreditam sinceramente que estão a defendera a restrita democracia representativa e podem efetivamente desejar derrotar a extrema-direita; não há uma teoria da conspiração, mas sim uma prática política internalizada. Todavia, a questão não é apenas a intenção subjetiva, mas a função política objetiva dessa lógica política e ideológica. Ao identificar a sobrevivência do regime liberal da “Nova República” com a sobrevivência eleitoral do PT, a política do pânico restaura a centralidade lulista, neutraliza a crítica e exerce pressão para subordinar o conjunto da esquerda à temporalidade permanente do mal menor.

O trágico-cómico é que o próprio Lula da Silva afirmou em 2021 que Jair Bolsonaro (o bolsonarismo) seria fruto da despolitização no Brasil nos últimos 20 anos. Resta-me perguntar: quem esteve no governo central na maior parte do tempo dessas duas décadas? Não foi o PT o partido hegemónico na esquerda brasileira nos últimos 30 anos? Ou só querem a parte boa da hegemonia? Posso concluir que o cerne do lulismo enquanto projeto de administração do capitalismo brasileiro é a despolitização? O menorismo é o modo de sobrevivência do lulismo e do PT enquanto força hegemónica? Essa forma de direção política sobre grande parte do chamado campo progressista pode ser definida como hegemonia negativa. Embora o lulismo preserve políticas sociais, promessas materiais e memórias positivas, a unidade já não se organiza em torno de um projeto afirmativo suficientemente definido, mas da rejeição de um inimigo. (o eixo predominante da unidade já não repousa num projeto político de transformação suficientemente definido – tudo depende e se justifica em torno de um “dado geológico” da correlação de forças).

O bolsonarismo fornece o conteúdo negativo; o campo lulista reivindica para si a condição de instrumento eleitoral privilegiado da contenção (um fato incontestável eleitoralmente). De um ponto de vista do imaginário político e da perspetiva de futuro a questão decisiva deixa de ser “que sociedade brasileira queremos construir?” e passa a ser “quem pode impedir a sociedade que tememos?”. Poderia ser uma contradição que se sustentasse na primeira pergunta-imaginação política para agir na segunda, mas para um partido e forma de governar que só tem tática eleitorais, não têm estratégia política de transformação estrutural do Brasil e não apresenta um projeto de futuro que ultrapasse os limites impostos pelas classes dominantes brasileiras, o que resta é a política do pânico. O risco neofascista e trumpista é real, mas essas forças terão um terreno histórico fértil quando a esquerda morta-viva que foi domesticada pelo neoliberalismo e o fim da história se recusa a ser uma força política anticapitalista e verdadeiramente antissistema.

O voto tático no mal menor pode ser racional e necessário, sobretudo numa segunda volta contra um candidato neofascista. O problema começa quando uma decisão excecional se converte numa conceção estratégica permanente, num mandato político em branco e em práticas de deslegitimação das forças que pretendem crescer fora da órbita lulista. Nesse momento, a unidade antifascista deixa de ser tática e torna-se subordinação estratégica. A ameaça já não é apenas aquilo que a esquerda precisa de derrotar; torna-se o instrumento por meio do qual uma parte da esquerda (social-liberal) procura disciplinar todas as outras (socialistas, comunistas, radicais, etc.).

<><> A “colinha” do medo e o caso Jones Manoel

Ao receber a supracitada publicação identifiquei que poderia servir como uma demonstração quase laboratorial desse mecanismo do pânico como afeto político do lulismo tardio. Para efeito de contextualização: a “colinha” publicada mostrava Jones Manoel para deputado federal, Ivan Moraes para governador e Paulo Rubem para uma das vagas ao Senado. Permaneciam vazios os espaços destinados à candidatura presidencial, à segunda vaga ao Senado e a deputado estadual. O “erro” de comunicação, que para mim não foi exatamente um erro, abriu margem para a máquina de pânico do lulismo e de deslegitimação política. A página isolou uma dessas ausências – Lula – e transformou-a imediatamente numa decisão política consciente, que Jones Manoel teria recomendado voto em branco para presidente – dado o histórico de críticas, factuais e verdadeiras, à gestão neoliberal e o centrismo do governo do presidente Lula. O fundamental é que os elementos reproduzidos no post não permitem essa conclusão, exceto para a lógica política do pânico do lulismo.

Objetivamente, a ausência de um nome, voto em branco, voto nulo, neutralidade política e apoio à extrema-direita são coisas radicalmente distintas. A acusação assenta no seguinte silogismo: há apenas duas posições legítimas, Lula ou Flávio Bolsonaro; a arte atribuída à campanha de Jones Manoel não indicava Lula; logo, Jones “acaba servindo como cabo eleitoral da extrema-direita”. A “colinha”, supostamente criada para ajudar o eleitor e agitação política, converte-se num teste de fidelidade. O espaço vazio passa a carregar mais intenção política do que os nomes efetivamente impressos.

A publicação não afirma expressamente que Jones seja bolsonarista ou algo do género, porque seria facilmente desmontado pelo papel que o mesmo tem tido no combate e debates públicos contra a extrema-direita (com milhões de visualizações). A operação é mais eficaz e astuta; a autonomia política de Jones Manoel produziria, independentemente das suas posições, da sua história ou da sua intenção, “objetivamente” o mesmo resultado desejado pelo bolsonarismo. Sem distinguir esta omissão no post (voto em branco, voto nulo e neutralidade política), a peça percorre abusivamente, para dizer o mínimo, a distância entre um campo vazio e a acusação de colaboração indireta com a extrema-direita. Jones Manoel é o objeto direto da acusação; por extensão, o objeto indireto é a esquerda socialista que recusa aceitar o lulismo e o PT como limite irrevogável da política possível no Brasil. Por isso, a linguagem do post abandona rapidamente o terreno da estratégia e entra na moralização política. Detalho. “Ter responsabilidade é para poucos”, afirma a publicação, antes de lhe atribuir a procura de “lacração”. Não se discute se a sua orientação eleitoral estaria certa ou errada, nem se pergunta qual deveria ser a relação entre autonomia socialista e uma suposta unidade antifascista em da volta na frente ampla do lulismo/petismo. Portanto, a divergência política é reduzida a uma questão individual (posição típica dos neoliberais, só que nesse caso, numa versão “progressista”): vaidade, irresponsabilidade, oportunismo digital. Em vez de responder ao programa de Jones Manoel (e da bancada da esquerda radical), o enquadramento funciona como tentativa de impor um dano reputacional à sua candidatura (com fortes chances de ser eleito deputado federal pelo estado de Pernambuco).

Por exemplo, a questão do Senado, embora secundária no meu entendimento, certifica a mesma lógica. Em Pernambuco, nas eleições de 2026, cada eleitor dispõe de dois votos para o Senado; por isso, apoiar Paulo Rubem numa das vagas não impedia o eleitor de votar noutro candidato para a segunda. A intenção de voto de 1% atribuída a Paulo Rubem na sondagem citada foi utilizada como sinal da sua alegada inviabilidade e, a partir daí, como argumento para o apresentar como fragmentador. Quando convertido em norma política, o argumento do voto útil pode produzir um circuito autorreprodutivo, porque uma candidatura minoritária recebe menos exposição, surge com baixa intenção de voto, é apresentada como inútil, perde apoios em nome do voto útil e permanece pequena; depois, a sua pequena dimensão é oferecida como prova de que nunca deveria ter tentado crescer. A sondagem eleitoral deixa de apenas descrever a correlação de forças e passa a prescrever quais candidaturas teriam legitimidade para disputar e procurar crescer. Não percebem a importância de ter um campo diverso à esquerda do PT, para alargar e politizar o próprio bloco social e eleitoral – observemos o que a extrema-direita brasileira tem feito, quantos candidatos eles têm? Estão a encurtar ou alargar o seu campo político?

Na lógica particular do post, há uma conceção patrimonial do eleitorado. Os votos da esquerda progressista parecem pertencer antecipadamente ao campo petista; qualquer candidatura socialista autónoma não conquista votos próprios, apenas “retira” votos aos seus legítimos proprietários. Assim, as forças dominantes são declaradas “responsáveis” por já serem grandes, enquanto as restantes são condenadas por permanecerem pequenas e impedidas, ao mesmo tempo, de deixar de o ser. Não se pretende uma disputa pela hegemonia, mas sim decreta-se que ela já tem detentores. Observemos a contradição. Na prática histórica do lulismo, as composições com partidos conservadores, empresários e figuras da direita são justificadas em nome da governabilidade, da maturidade e do realismo – leiam sobre Luciano Bivar. Modera-se o programa já moderado no afamado Congresso de 1991, repartem-se palanques e oferecem-se garantias aos de cima (aos liberais, ao centrão e aos conservadores). Mas quando uma força socialista apresenta candidatura própria, procura construir uma bancada independente ou recusa a subordinação integral ao lulismo, reaparecem subitamente a pureza da unidade e o perigo da divisão.

O principal é: não se trata de equiparar alianças distintas nem de negar as exigências da disputa parlamentar, mas de observar a assimetria dos critérios ético-políticos e morais utilizados. Em síntese: negociação para cima; disciplina para baixo. A direita pode entrar na coligação; a esquerda, quando diverge, passa a “trabalhar para a direita”. Certa vez escrevi uma frase que provocou a ira de muita gente: a política do lulismo é a barca de salvação da direita tradicional e a montanha que não permite nenhuma esquerda antissistema crescer à sua volta. É nesse contexto que a figura política do Jones Manoel se torna um problema político que ultrapassa a “colinha” eleitoral. Como referi, Jones Manoel tem vindo a conquistar visibilidade no debate público brasileiro como uma voz socialista e radical situada fora do campo lulista/petista, com forte circulação digital (na casa de milhões) e capacidade de disputar públicos que não se reconhecem na política do lulismo e do PT.

Todavia, o jovem intelectual negro e nordestino não é apenas um youtuber (como os desafetos políticos procuram nominá-lo a fim de deslegitimar), mas uma liderança política em formação e construção, com uma candidatura que procura vocalizar um projeto coletivo da revolução brasileira e, sobretudo, com a possibilidade de consolidar e liderar um campo político fora do lulismo/petismo. O post busca associá-lo a quatro marcas típica do pânico do lulismo tardio diante de um quadro político que possa triscar minimamente o hegemonismo do PT/lulista, como irresponsabilidade, oportunismo, divisão da esquerda e colaboração objetiva com a extrema-direita. A referida publicação é importante, por esse motivo tomei a decisão de escrever esse texto separado do ensaio alargado acerca da lógica política construída em torno do grupo político liderado por Lula da Silva, porque ela reproduz com nitidez a gramática política do lulismo tardio, ao utilizar um inimigo real para transformar uma liderança concorrente situada à esquerda do PT num inimigo interno a ser derrotado ou domesticado. Isto é, inscreve-se numa lógica que legitima como realistas as alianças lulistas com forças conservadoras e liberais, mas apresenta a autonomia do campo socialista como desvio moral; e transforma a necessidade de derrotar a extrema-direita num dispositivo que produz o efeito de deslegitimar a acumulação de força por uma esquerda que pretenda superar o lulismo/petismo – um processo que implica múltiplas contradições, uma delas é ter que estar num partido que apoia Lula da Silva desde a primeira volta das eleições presidenciais.

O retomo o nome da página como metáfora do lulismo tardio. O problema não está no verbo resistir em si. Mas quando a resistência se torna o horizonte inteiro, contém-se o adversário sem construir força capaz de lhe retirar a iniciativa, a emergência transforma-se em destino e a defesa permanente toma o lugar da vitória política e transformadora. Eis o fetiche da derrota na vitória eleitoral. Explico. Os adversários conservam a iniciativa, a esquerda administra o medo e cada nova ameaça serve para reduzir um pouco mais o horizonte do possível. Desse modo, quando a temporalidade mata as possibilidades de futuros, os neofascistas e sucedâneos estão a vencer, e o que mais me espanta é o marasmo que essa lógica política impõe quando vejo pessoas queridas do meu cotidiano a corroborar acriticamente essa política do pânico permanente.

Estão sempre dececionadas com uma liderança política que cresce fora do lulismo, é crítico contumaz das principais causas dos problemas estruturais do Brasil e enuncia um projeto alternativo ao petismo, mas têm uma benevolência com o governo neoliberal liderado por Lula da Silva e cada vez mais à direita. Combater o fascismo exige resistência e, sobretudo, uma esquerda mais forte, organizada, enraizada e capaz de oferecer um futuro que possa ser construído e não seja sinônimo de tradição, como tem enunciado o filósofo Vladimir Safatle, como uma questão central dos problemas e limites da esquerda social-liberal mundo afora. A extrema direita não pode ser o inimigo invocado para impedir que uma alternativa verdadeira antissistema cresça e não poderá ser derrotada duradouramente sem, entre outras condições, o fortalecimento de uma esquerda autónoma, organizada e capaz de disputar a sociedade. A unidade tática, quando necessária; independência estratégica e programática, continuamente – inclusive dentro das alianças políticas necessárias.

Resistir não é vencer. Uma esquerda que, para impedir o pior, interdita a revisão dos erros do presente e a construção de outro futuro acaba por converter a vitória eleitoral e a derrota política numa mesma identidade contraditória. O pânico e o medo tornam-se, então, o seu programa máximo: o menorismo.

 

Fonte: Por Carlos Hortmann, em A Terra é Redonda