Porque a Caatinga,
único bioma exclusivo do Brasil, não é considerada patrimônio nacional
Crateús
é um município cearense limítrofe com o estado do Piauí. Da área urbana da
cidade até a sede da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Serra das
Almas – a maior do Ceará – é pouco mais de uma hora. Na chegada, o deslumbre.
São mais de 6 mil hectares que há mais de duas décadas resguardam uma Caatinga
ainda preservada – parte dela restaurada –, e que mostram as múltiplas nuances
dessa que é considerada a floresta semiárida mais biodiversa do mundo, a
despeito do estereótipo que vincula o bioma a imagem de um ambiente seco,
inóspito e sem vida.
Nessa
época do ano, a Caatinga atravessa o final da temporada chuvosa. A cor
predominante na mata caatingueira ainda é o verde. Mas em breve essa paisagem
irá se transformar na “mata branca” que dá nome ao bioma – do Tupi, “Caa”
significa mata e “tinga” branca. Com a queda das folhas de grande parte da formação
florestal do bioma, é o branco que tinge a Caatinga durante a seca. Isso porque
os troncos esbranquiçados, então, ficam à mostra. Como se entrassem em um modo
“econômico”, essas árvores despem-se de folhas para reduzir a perda de água
pela transpiração em períodos prolongados seca.
“Faz parte da dinâmica do bioma ter um período
onde ocorre o desfolhamento. Mas não quer dizer que seja uma natureza morta.
Quer dizer que está em um período de hibernação. Logo que há uma chuva tudo
isso se recupera e, rapidamente, as folhas crescem e retomam seu vigor,
mantendo a biodiversidade não só das plantas, mas também dos animais que
compartilham desse ambiente”, explica o geólogo Washington Franca Rocha,
professor do Programa de Pós-Graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do
Ambiente na Universidade Estadual de Feira de Santana (PPGM-Uefs), na
Bahia.
Prova
do funcionamento desse ecossistema é a rica fauna e flora abrigadas por este
semiárido biodiverso onde se insere a Caatinga. De fauna, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
(MMA),
são mais de mil espécies sobre as quais se conhece o estado de conservação,
sendo que destas mais de uma centena estão ameaçadas de extinção. Já de flora,
são quase cinco mil – entre as que se conhece o estado de conservação, 30%
também estão ameaçadas de extinção em algum nível.
Entretanto,
o que se encontra nesse refúgio de fauna e flora, na qual também se transformou
a RPPN Serra das Almas – a reserva
abriga 323 espécies de plantas e 353 de fauna –, é, ao mesmo tempo, um
microcosmo à parte, que contrasta com a realidade que tem transformado – e
ameaçado – a paisagem da Caatinga nos últimos anos.
Entre
todos os biomas do país, por exemplo, foi a Caatinga quem teve o segundo maior
aumento percentual da taxa de desmatamento de 2020 para 2021 – um aumento de
quase 90%. Crateús (CE) mesmo, onde fica a maior parte da RPPN Serra das Almas
– uma pequena porção está inserida em Buriti dos Montes (PI) –, está entre os
cinco municípios que tiveram a maior área desmatada no Ceará em 2021, segundo
levantamento apresentado pelo MapBiomas no Dia Nacional da Caatinga (28 de
abril).
·
De um lado, a falta de reconhecimento
Mas
um outro fator também contribui para a invisibilização e, consequentemente,
desvalorização que esse ecossistema único sofre no País. Este é o fato de que,
pela Constituição Federal, a Caatinga não é
considerada um patrimônio nacional – logo não recebe tratamento especial de
proteção –, mesmo sendo este o único bioma exclusivamente brasileiro.
“Estar
entre os biomas que são patrimônio nacional dá mais visibilidade ao bioma, você
começa a considerá-lo como nacional. Quando as pessoas estudam a Constituição,
elas veem só aqueles biomas que estão ali como patrimônio nacional”, explica a
((o))eco Roberta del Giudice, secretária-executiva do Observatório do Código
Florestal (OCF), durante intercâmbio realizado na RPPN Serra das Almas pelo “No Clima da Caatinga”, um projeto da
Associação Caatinga patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental
(PPSA).
A
falta de conhecimento, diz ela, é um dos principais motivos para o desfecho que
se tem hoje. “A Constituição foi escrita em 1988. A visão que se tinha de
conservação estava relacionada a combater o desmatamento da Amazônia, Mata
Atlântica, o Pantanal também tinha muita visibilidade. Mas não tem nenhuma
razão para a Caatinga não ter entrado nessa lista, a não ser um lapso, uma
visão equivocada do bioma”, comenta.
Para
o coordenador geral da Associação Caatinga, uma organização
da sociedade civil de interesse público (Oscip) que administra a RPPN Serra das
Almas – e que igualmente promove a conservação de terras, florestas e águas na
Caatinga –, a não inclusão do bioma na lista de biomas “patrimônios do Brasil”,
da mesma forma como aconteceu com o Cerrado, pode ter se dado por um equívoco
ou, ainda, de forma deliberada. “É como se esses dois biomas não tivessem uma
certidão de nascimento”, conta a ((o))eco Daniel Fernandes.
·
De outro, a falta de proteção
E
o impacto disso, aponta a secretária-executiva do OCF, está refletido até mesmo
na proteção conferida ao bioma. Atualmente, menos de 9% da Caatinga está
legalmente protegida em algum nível, segundo o MMA. Mas o percentual de
proteção integral é ainda menor: apenas cerca de 2% – estas são mais
restritivas à ação humana.
“Ou
seja, você tem uma parte muito exposta do bioma sem qualquer tipo de proteção e
que, claro, é uma ameaça de fato à preservação da biodiversidade”, complementa
o pesquisador do PPGM-Uefs.
Historicamente,
a região semiárida onde está inserida a Caatinga, explica Rocha, foi por muitas
décadas considerada uma área já degradada, muito por conta da falta de
conhecimento. “A Caatinga em momentos de seca, ou de períodos não chuvosos, é
uma paisagem sem expressão verde, que é o que caracteriza uma área florestada
dentro da percepção de todo mundo”, detalha o geólogo.
Mas
nesse bioma não é assim. “Então quando você vê uma região desfolhada, você não
entende e parte para a percepção de que aquilo é uma área já arrasada, o que
não é verdade”, enfatiza Washington.
Esse
desconhecimento, diz o pesquisador, assola até mesmo aqueles que vivem no
bioma. “Todos os estados do Nordeste mais Minas Gerais tem Caatinga no seu
domínio, mas mesmo assim a Caatinga não tem o seu devido reconhecimento
nacional enquanto bioma”, acrescenta.
Para
o coordenador geral da Associação Caatinga, o não reconhecimento enquanto
patrimônio nacional impacta diretamente na ausência de políticas públicas de
proteção ao bioma e contribui para o seu processo histórico de desvalorização.
“O que consequentemente estimula o uso irracional dos recursos naturais,
desmatamento, queimadas e uma série de outros prejuízos”, alerta
Fernandes.
·
O desmatamento na Caatinga
Em
2021, a Caatinga foi o terceiro bioma mais desmatado do País. Com 116,2 mil
hectares desmatados, ele ficou atrás apenas do Cerrado, que teve uma área de
desmate de 500,5 mil hectares. Em primeiro lugar, figurou a Amazônia, com 977
mil hectares desmatados, ou 59% do total da área desmatada no Brasil. Os dados
são do relatório anual do
desmatamento (Rad) no Brasil, elaborado pelo MapBiomas.
Entretanto,
foi a Caatinga quem teve o segundo maior aumento percentual da taxa de
desmatamento de 2020 para 2021. Saltando de 61,5 mil hectares para 116,2 mil
hectares, o aumento foi de 88,9%, também segundo o Rad – o Pampa figura em
primeiro lugar com um aumento de 92,1%.
“O
desmatamento é um vetor que afeta também os recursos hídricos”, explica o
pesquisador do PPGM-Uefs, que é também quem coordena a equipe Caatinga no
MapBiomas. Sem o que ele chama de “capa de vegetação” é mais difícil para que,
durante períodos chuvosos, a Caatinga consiga reter água. “A característica da
Caatinga, do semiárido, não é que ele não tenha chuva nenhuma, mas sim que a
média de chuva é baixa”, esclarece Rocha.
Ou
seja, depois de um período de sete a oito meses sem chuva, quando chove é
torrencialmente, mas em um curto período de tempo, que dura cerca de dois a
três meses. “E se a superfície não está retendo essa chuva, ela escorre e vai
para o oceano, e se for colocar isso na escala de médio prazo, você tem uma
tendência de redução da disponibilidade de recursos hídricos”, explica
Washington.
O
fogo também dá seus sinais no bioma. Entre 1985 e 2021, a Caatinga teve 13,7
milhões de hectares queimados, o que representa cerca de 16% da área total do
bioma. “Quando a gente pega o mapa de cicatriz de incêndios no Monitor do Fogo, a gente percebe,
claramente, na borda oeste da Caatinga uma frequência maior de, pelo menos uma
vez, da ocorrência de incêndio”, expõe o geólogo.
Mas
qual a relação do fogo com a expansão de áreas agrícolas? “Muito do manejo para
essa abertura de áreas é feito com queimadas, atingindo essas áreas naturais”,
esclarece Rocha, ao enfatizar que os sistemas têm demonstrado que o principal
vetor de transformação na Caatinga, hoje, é a supressão de áreas naturais para
a implantação de projetos agropecuários.
“Se
a Caatinga não for incluída como um patrimônio nacional, você diminui a
possibilidade de que haja mais investimentos, mais consideração ao bioma. Isso
aumenta a pressão para o desmatamento”, argumenta a secretária executiva do OCF.
·
Uma proposta no meio do caminho
Há
mais de uma década tramitam no Congresso Nacional propostas que tentam
reconhecer a Caatinga, assim como o Cerrado, como patrimônio nacional. Uma
delas é a Proposta de Emenda Constitucional
(PEC) 504/2010,
de autoria do senador Demóstenes Torres (DEM-GO). A PEC foi aprovada no Senado
em 2010, mas ainda aguarda análise na Câmara dos Deputados.
“Sempre
quando entra para a pauta de votação, surge outro tema mais prioritário na
visão deles e a PEC é retirada da pauta”, conta Fernandes. Para ele, o
componente político influencia o andamento da matéria, sobretudo por conta do
lobby do agronegócio dentro do Congresso.
“Não
é interesse da bancada do agronegócio proteger a Caatinga, principalmente o
Cerrado. Talvez até se fossem PECs diferentes, uma para o Cerrado e uma para a
Caatinga, a Caatinga talvez pudesse até já ter sido reconhecida”, hipotetiza o
coordenador geral da Associação Caatinga. “Mas a gente sabe que o interesse do
agronegócio na região do Cerrado é muito forte. Então, há toda uma manobra da
bancada ruralista para tirar de pauta”, comenta.
O
Cerrado, por exemplo, chegou a 2021 com apenas metade de sua área coberta por
vegetação nativa – desde 1985 o bioma perdeu 27,9 milhões de hectares de
vegetação nativa. Os dados também são de levantamento do MapBiomas.
Até aquele ano, pastagens e soja já ocupavam, respectivamente, 24% (um aumento
de 24% em relação a 1985) e 10% (um aumento de mais de mil %) da área total do
Cerrado.
Para
Roberta del Giudice, nesse cenário, se torna imperativa a mobilização de
políticos locais para que a Caatinga seja incluída entre os biomas patrimônios
do Brasil. “É importante que a população local se mobilize, mas o resto do
Brasil também. É um bioma que tem importância para todos os outros. Sem
mobilização social, a gente não consegue seguir adiante com essa PEC”,
defende.
Por
este motivo, esta é uma das pautas a ser trabalhada pelo OCF. “A gente quer
incluir isso entre as nossas ações no Congresso Nacional nesse ano ainda”,
revela Roberta.
·
Uma parte da solução
O
coordenador geral da Associação Caatinga, ao mesmo tempo, esclarece que o
simples fato de tornar a Caatinga um patrimônio nacional não vai resolver todos
os problemas do bioma. “Mas é uma forma de um resgate histórico, de reconhecer
a importância desse bioma, de reconhecer as pessoas que vivem aqui no semiárido
nordestino”, defende.
Sendo
este o único bioma que ocorre exclusivamente no Brasil, “não há motivo para ele
não ser considerado um patrimônio nacional se ele é o mais nacional dos biomas,
digamos assim”, completa Daniel.
Mas
se de um lado não resolve todos os problemas, de outro é fato que o
reconhecimento da Caatinga como um patrimônio nacional obriga — ao menos
em teoria — a garantia de que a sua utilização se dê “dentro de condições que
assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos
naturais”, conforme já dispõe a Constituição Federal sobre a Amazônia, Mata
Atlântica, Serra do Mar, Pantanal e Zona Costeira, atualmente ecossistemas
considerados patrimônios nacionais do Brasil.
“Eu
acredito que, a partir disso, haverá um estímulo para a criação de um arcabouço
jurídico, um conjunto de leis, que venham de alguma forma a proteger mais o
bioma”, defende o coordenador geral da Associação Caatinga ao mencionar que
este status, se conferido, dará ao bioma a prioridade necessária
para a elaboração de políticas públicas.
Ø
Cresce
desmatamento na Caatinga, bioma mais vulnerável às mudanças climáticas
O
bioma Caatinga é um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas no Brasil e o
avanço da degradação desse ecossistema tem preocupado ambientalistas. Para
monitorar o desmatamento de matas secas, o Mapbiomas elaborou um sistema que,
através de imagens de satélite, libera um alerta para cada ação suspeita de
desmatamento encontrada.
É
o que explica Washington Rocha, coordenador do mapeamento Mapbiomas Caatinga.
“O Mapbiomas Alerta é uma plataforma que foi programada para estruturar,
refinar e distribuir dados de desmatamento produzidos por diversas fontes. Para
a Caatinga, o alerta utiliza, além da própria plataforma, o sistema SAD
Caatinga, criado pra Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) visando
reduzir a omissão e obter dados do desmatamento em mata seca que outros
sistemas operando globalmente não conseguiam detectar”, contextualiza o
pesquisador.
O
levantamento derivado do Sistema de Alertas de Desmatamento – SAD Caatinga,
parte integrante do Mapbiomas Alerta, mostra que o desmatamento continua
avançando sobre a caatinga. Em número de alertas, ou seja, de ações de
desmatamento identificadas, houve um salto de 87% entre 2020 e 2021, passando
de 5 para mais de 10 mil.
Segundo
Washington, parte do desmatamento está ligada à instalação de parques eólicos e
estruturas de geração de energia solar. “O desmatamento, tanto em 2021 e 2022,
está relacionado à supressão da vegetação da caatinga para instalação de
atividades agropecuárias, no oeste da Bahia, MATOPIBA, ao longo do Vale do São
Francisco e também área no interior de Pernambuco, do Piauí e do Ceará. Alguns
padrões começam a despontar com menor expressão estão ligados à desmatamento
para implantação de parque eólicos e também de fazendas de geração de energia
solar, ainda há vestígio da extração de madeira para carvoaria, especialmente
no interior da Paraíba”, explica.
O
Brasil de Fato já mostrou a luta de famílias agricultoras contra os impactos
que os parques eólicos causam não só para o meio ambiente, como também na saúde
coletiva.
O
pesquisador do Mapbiobas afirma que é a instalação inadequada desses parques
que traz problemas à biodiversidade da caatinga.
A
preocupação se intensifica porque a Caatinga é um bioma único no mundo. “Ameaça
à integridade da sua biodiversidade, sabendo que se trata de um dos biomas com
maior biodiversidade no mundo com muitas espécies endêmicas, que só ocorrem
nessa região, mas por outro lado um bioma com muita fragilidade no que se
refere a sua recuperação, uma vez ocorrendo o desmatamento muito acentuado”,
ressalta Washington.
Ele
explica que o desmatamento na Caatinga pode gerar um impacto ainda maior em
relação aos recursos hídricos no Semiárido: “Sabe-se que o desmatamento é um
dos fatores que promove a maior escassez dos recursos hídricos, juntamente com
as variáveis climáticas. Considerando um bioma onde a atividade hídrica já é
limitada, o desmatamento acentuado a longo prazo vem causar dano no que se
refere a segurança hídrica e, por sua consequência, a segurança alimentar
dentro do território do bioma”.
Em
contrapartida ao desmatamento, com o apoio do Mapbiomas Alerta, ações de
preservação e recaatingamento são realizadas por institutos como o Instituto
Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), e organizações como a
Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), com o objetivo de salvaguardar o único
bioma exclusivamente brasileiro.
Fonte:
((o))eco/Brasil de Fato

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