quarta-feira, 10 de maio de 2023

Milton Alves: Os limites do ‘frente amplismo’ e o avanço da ultradireita na América do Sul

Além dos efeitos da crise climática e ambiental, algo acontece abaixo da Linha do Equador que eleva também no plano político a temperatura nos países da América do Sul, em particular na sua porção que integra os países do Mercosul. Trata-se da polarização política e social em curso que atravessa de forma visceral o Brasil, a Argentina e o Chile.

 O Uruguai já é governado por um governo neoliberal de direita e no vizinho Paraguai venceu as recentes eleições presidenciais o direitista Santiago Peña, do Partido Colarado. Uma versão local do bolsonarismo, com o belicoso Payo Cubas, atingiu cerca de 23% dos votos.

 Vejamos um rápido panorama do cenário, que é entrecortado por uma série de particularidades e ritmos políticos diferenciados em cada nação, mas que carregam um traço em comum: a adesão do conjunto das classes dominantes locais ao projeto de recolonização neoliberal e ao rentismo, como forma prioritária de acumulação.

 A extrema direita parece avançar sob os escombros de governos frentes amplistas ou que moderam o programa após a vitória nas urnas.

·          Chile

 No Chile, a derrota acachapante de Gabriel Boric, neste domingo (7), para a composição do conselho que redigirá uma nova proposta de Constituição, indica uma tendência preocupante.

 O Partido Republicano (PR), legenda de ultradireita e liderada por António Kast, obteve 35% de apoio e conquistou 22 das 50 vagas no Conselho Constitucional, com isso, assegurando o poder de veto para a ultradireita na redação da nova Carta Constitucional. A coligação de Boric atingiu 28% dos votos e terá 17 assentos no conselho. Por sua vez, a coligação Chile Seguro, que reúne políticos da direita tradicional e velhos pinochetistas da UDI, alcançou 21% dos votos e 11 lugares. Ou seja, os blocos das direitas concentram a maioria dos assentos do conselho constitucional.

 Nos últimos meses, o governo de Boric tem colecionado derrotas. Em setembro do ano passado, uma primeira proposta de revisão da Constituição foi rejeitada em um plebiscito por mais de 60% dos eleitores chilenos. Além disso, o governo adotou uma política de ajuste fiscal, que desagrada amplos setores da população. Vale lembrar que o governo de Boric ainda não completou dois anos de mandato.

·          Argentina

 O presidente Alberto Fernández amarga forte queda de popularidade: inflação galopante, desemprego em alta e a relação submissa com o Fundo Monetário Internacional (FMI) são questões que despertam a ira do povo trabalhador diante da tibieza presidencial. As tentativas de mitigar a execução do projeto neoliberal não agradaram a maioria dos argentinos.

 O quadro fica mais difícil ainda com a divisão política entre as forças peronistas e o avanço da extrema direita liderada por Javier Milei, do partido La Libertad Avanza, com uma pregação ultraliberal, que se autodenomina “anarcocapitalista”, atraindo fortemente o eleitorado mais jovem.

 Javier Milei, que tem uma atuação de tipo populista e histriônica, lembrando o ex-presidente Jair Bolsonaro, atinge em algumas pesquisas para a futura eleição presidencial, marcada para 22 de outubro, cerca de 20% das intenções de votos.

 O cenário vivenciado pelos hermanos é um indicador dos limites e do curto prazo de validade das políticas conciliadoras e de frente ampla com segmentos e frações da burguesia liberal.

 O presidente Alberto Fernández desistiu de disputar a reeleição e a vice-presidente Cristina Kirchner é o alvo de intensa campanha de descrédito conduzida por setores do Poder Judiciário argentino — uma campanha de lawfare com muitas semelhanças ao processo que levou o presidente Lula para a prisão, em 2018.

 O resultado eleitoral do Chile e o esvaziamento do governo argentino são também um sinal de alerta para as forças de esquerda e populares no Brasil, o que aponta para a necessidade da constituição de um polo de esquerda para disputar, com nitidez programática, os rumos do governo da “frente ampla” de Lula/Alckmin.

 Um polo partidário nucleado pela esquerda, em sintonia com as demandas populares, tendo no centro da agenda o combate ao neoliberalismo e a perversa herança da política econômica do governo bolsonarista, com uma agenda política capaz de despertar e mobilizar a esperança de milhões de brasileiros — enfrentando as mazelas do desemprego, o desmonte dos serviços públicos de educação, saúde e da assistência social, o terror da inflação, da fome e do desalento.

 

Ø  Presidente do Chile pede para “aprender com os erros” e pensar no futuro

 

Com linguagem clara e profunda autocrítica, o presidente Gabriel Boric assumiu a derrota obtida nas eleições de 7 de maio, quando os cidadãos elegeram 50 membros do Conselho Constituinte para realizar o processo de renovação da carta fundamental, após a rejeição do processo anterior que tinha 17 representantes dos povos indígenas e que agora está reduzido a apenas um.

No seu discurso à noite, o chefe de Estado recordou aquele processo constitucional anterior, assinalando que “falhou, entre outras coisas, porque não soubemos ouvir entre os que pensam diferente”. Por isso, com grande responsabilidade política, fez então um apelo aos vencedores das eleições de ontem: “Quero convidar o Partido Republicano a não cometer o mesmo erro que nós”. Assim, ele fez uma alusão direta ao sectarismo e radicalismo com que esse processo ocorreu durante o ano passado.

Ao final desta edição, o processo eleitoral não estava totalmente concluído, mas resultados quase definitivos já vinham sendo dados.

O que ficou claro foi que esta eleição facilitou uma grande participação cidadã, chegando a 78% do rol eleitoral.

A própria Conferência Episcopal, para assinalar a importância deste processo, havia indicado na conclusão da sua última assembleia plenária, em abril passado, que "no próximo domingo, 7 de maio, teremos a oportunidade de dar um novo passo no processo constitucional que estamos vivendo como país, elegendo conselheiros constitucionais, que juntamente com um grupo de especialistas, devem apresentar uma nova proposta de Constituição Política da Nação. Além da obrigatoriedade do voto, acreditamos que é uma grande responsabilidade concordamos em votar de forma informada para participar de um processo tão relevante para o nosso país".

A alta votação (27%) alcançada pela ala política de extrema-direita, o Partido Republicano, permitiria que chegasse a 22 das 51 cadeiras em disputa pelo Conselho Constitucional. Esses 22 assentos são suficientes para bloquear qualquer mudança.

O resultado elege 50 vereadores (25 homens e 25 mulheres) mais um representante dos povos originários.

O Partido Republicano, que ainda em sua campanha expressou não querer mudar a atual Constituição, feita por Pinochet, obteve 35,5% dos votos. Esses votos somados ao conglomerado da direita mais democrática, Chile Seguro (21%), controlariam a redação da Constituição. Os partidos que apoiam Boric chegaram a 28,5%, e com isso ele não poderá exercer o direito de veto nas propostas constitucionais.

Refira-se que a Democracia Cristã, partido que nasceu sob a asa da Ação Católica há mais de 65 anos, e depois de ter governado durante mais de 30 anos após a ditadura, nestas eleições obteve apenas 3,7% dos votos nacional.

O Partido Republicano é um partido político criado em 2019 que reúne setores da extrema-direita. Seu fundador é José Antonio Kast, ex-militante da UDI que foi vereador e deputado entre 2002 e 2018, tendo sido candidato à presidência nas eleições de novembro de 2017 e nas eleições de novembro de 2021. O partido é descrito por analistas como de extrema-direita, ultraconservador, populista, pinochetista e autoritário; e promove postulados neoliberais, antifeministas, anticomunistas, nativistas e consequentemente: anti-imigração e antiglobalização.

Mas esta realidade do crescimento dos setores conservadores no Chile não é nova, especialmente quando nos últimos eventos eleitorais o crescimento da direita vem crescendo, especialmente com a aplicação do voto obrigatório que permite que todos os cidadãos se expressem. Isso não acontecia até setembro do ano passado, já que as eleições foram realizadas com apenas 36% do eleitorado possível.

Se realmente queremos aprender com os erros, todos os protagonistas devem chegar a um acordo por meio do diálogo. Pelo menos é o que o país real exige e talvez seja hora de abrir uma nova etapa baseada na colaboração e no melhor entendimento, não só das forças progressistas do espectro político, mas de todo o país.

 

Ø  O efeito Boric. Por Valter Pomar

 

No domingo, 7 de maio, ocorreram eleições no Chile.

A extrema-direita foi a grande vitoriosa.

E quando falamos de extrema-direita, estamos falando de seguidores de Pinochet.

A turma que, no dia 11 de setembro, vai comemorar os 50 anos do golpe de 1973.

A pergunta é: por quê?

Por quê a extrema direita venceu?

E por quê venceu de maneira tão avassaladora?

Fenômenos complexos, causas várias.

Mas entre estas causas, destaca-se o governo Boric.

O que fez e o que deixou de fazer.

E, principalmente, o pressuposto incorreto de que partiu.

O pressuposto segundo o qual a melhor saída está ao centro.

Noutros tempos, este pressuposto poderia mesmo ser o melhor.

Na época em que vivemos, não é.

Por razões também múltiplas - entre as quais destacamos a força da ultradireita, o tamanho da crise nacional e internacional, o grau de polarização geopolítica mundial - o tempo e o espaço disponíveis para manobras é menor hoje, do que no período 1998-2008.

E quando o espaço e tempo são menores, velocidade e precisão são fundamentais.

Boric, para além de inúmeros outros erros, não entendeu isto.

Verdade seja dita, ele não é o único que não entendeu isto.

A direita já venceu no Paraguai e no Chile, ameaça na Argentina.

Os nossos hermanos certamente terão muito o que nos contar, por ocasião da reunião do Foro de São Paulo, em Brasília, no final de junho de 2023.

Espero que, até lá, a esquerda brasileira tenha entendido o recado. 

E mudado de linha, antes que seja tarde. 

Afinal, a melhor saída está na esquerda, mas esta saída não ficará aberta o tempo todo.

ps. estou curioso para saber o que nos dirão os e as compatriotas que foram ao Chile, no dia 9 de abril de 2023, participar da criação da FUTURO – Rede Sul-Americana de Lideranças Políticas. Convenhamos: nunca o futuro chegou tão rápido e atropelou tantas ilusões, fazendo certos futuros virarem pretérito.

 

Ø  Venezuela. “Vivemos em um país subjugado por uma coalizão dominante que teme o pensamento livre e responsável”

 

“Vivemos em um país subjugado por uma coalizão dominante, autocrática com vocação totalitária, que teme o pensamento livre e responsável.”

Essas foram as palavras de Alfredo Infante, provincial da Companhia de Jesus na Venezuela, após receber o prêmio ao valor democrático Francisco José Virtuoso, na categoria Liberdade de Pensamento, em sua edição de 2023.

Esse é um prêmio outorgado pela Universidade Católica Andrés Bello por meio do Centro de Estudos Políticos e de Governo e que pegou o padre jesuíta de surpresa, pois “confesso que, quando fiquei sabendo do nome do prêmio, sorri. Foi curioso para mim que um padre fosse reconhecido na categoria de Liberdade de Pensamento”.

Ele reconheceu que “é um grande compromisso, primeiro porque eu não esperava; segundo, porque não sei se estou à altura dele, mas, se quem me elegeu assim julgou, assumo com agradecimento e responsabilidade em nome daqueles que estão convencidos de que o ato de pensar livre e responsavelmente é um ato humanizador”.

Infante lamentou que “os venezuelanos vivam em um país subjugado por uma coalizão dominante, autocrática com vocação totalitária, que teme o pensamento livre e responsável, porque perturba seus interesses de poder e, por isso, tem procurado por todos os meios restringir o ato de pensar e comunicar”.

·         Efeito cascata

Ele apresentou várias razões: restrições ao acesso à informação pública, que, segundo a ONG Espacio Público, “na Venezuela, restringe-se a informação de alto interesse público. De 172 solicitações de informação feitas entre 2017 e 2020, 89% delas não foram respondidas”.

Além disso, a informação científica e acadêmica é “um insumo importante para pensar e produzir ideias com ética, a partir da perspectiva do bem comum”. Por isso, “hoje em nosso país as universidades e as ONGs de desenvolvimento social e de direitos humanos se veem na enorme tarefa de levantar, sistematizar e produzir informação com método e rigor científico, ainda que seus resultados não possam ser confrontados com as informação produzida pelo Estado”.

Por outro lado, a sistemática violação da “liberdade de expressão por meio do assédio, da perseguição e do fechamento de meios de comunicação impressos, televisivos, radiofônicos e na internet. E a Conatel (entidade fiscalizadora do regime) mantém os meios que estão no ar sob ameaça, com uma ‘faca no pescoço’”.

A esse respeito, explicou o jesuíta, o Espacio Público assinalou que “a política estatal tem como objetivo explícito ou subjacente a construção social do medo de se expressar e, com isso, reduzir a circulação de conteúdos críticos à gestão governamental”.

Como resultado de tudo isso, gera-se um efeito cascata. “A violação do acesso à informação impede o acesso à fonte para fundamentar o pensamento; a violação do direito à liberdade de expressão limita e restringe a circulação e o debate de ideias próprios de uma democracia, mas, pior ainda, a atual derrocada educacional põe em risco de extinção o sujeito pensante”.

·         Medo da palavra

Em suma, para que “haja liberdade de pensamento, devemos reabilitar a educação, porque é a única forma para que haja um sujeito pensante e uma cultura democrática. Essa é a pretensão do poder: aniquilar a fonte, a expressão e o sujeito pensante produtor de ideias. Uma espécie de logofobia a partir do poder”.

O poder pode aniquilar a liberdade de pensamento? O padre responde: “Não. A história nos mostra que, no fundo, essa é uma pretensão vã, e eu a represento simbolicamente com uma cena do Evangelho, a da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém que nos é apresentada por São Lucas, na qual os fariseus se dirigem a Jesus e exigem que ele cale sua discípulos, e a resposta de Jesus é contundente: ‘Se eles se calarem, as pedras falarão’”.

Para Infante, “o poder sempre teme que o verbo, o logos, a luz se faça carne e transforme a história. E aí reside a nossa esperança, o fundamento espiritual da liberdade de pensar responsavelmente”.

 

Fonte: Brasil 247/Religión Digital/Vida Nueva

 

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