quarta-feira, 10 de maio de 2023

Eventos climáticos podem levar milhões à pobreza extrema no Brasil

Eventos relacionados ao clima podem levar de 800 mil a 3 milhões de brasileiros à pobreza extrema a partir de 2030. Os dados são do Relatório sobre Clima e Desenvolvimento para o Brasil (CCDR), divulgado nesta quinta-feira (4) pelo Banco Mundial.

Segundo o estudo – que avalia políticas e opções para que o país cumpra seus objetivos climáticos e de desenvolvimento –, secas, enchentes e inundações nas cidades causam perdas de R$ 13 bilhões (0,1% do PIB de 2022) ao ano.

Para Stephane Hallegate, consultor de Mudanças Climáticas do Banco Mundial e co-autor do relatório, o país tem grandes desigualdades e os pobres já estão mais expostos ao risco de desastres e mudanças climáticas. O cenário pode, no entanto, ser revertido com investimento.

O ponto de partida do CCDR são os objetivos estabelecidos pelo próprio país no Acordo de Paris e nas edições da Conferência das Partes (COPs). Para atingir esses objetivos, o relatório recomenda ações em quatro frentes: reformas estruturais e medidas de aumento da produtividade, políticas econômicas abrangentes para o crescimento resiliente e de baixo carbono, políticas setoriais e pacotes de investimentos, além de ações para assegurar o financiamento dos investimentos necessários.

Com isso, acredita-se que o Brasil possa atingir um desenvolvimento verde e acabar com o desmatamento ilegal até 2028, além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 50% até 2030, além de zerar as emissões líquidas até 2050.

·         Pobreza X crescimento inclusivo

Embora o Brasil tenha reduzido drasticamente a parcela de pessoas que viviam em situação de pobreza extrema nas últimas três décadas, o número de indivíduos nessa condição aumentou em 2015 e 2016, chegando a 5,8% da população em 2021.

De acordo com o relatório, o aumento da pobreza extrema pode variar de 0,4% a 1,3% até 2030, dependendo do modelo de desenvolvimento escolhido. Reduções do rendimento agrícola relacionadas ao clima, eventos climáticos extremos, alterações nos preços dos alimentos, impactos na saúde e redução da produtividade do trabalho devido ao calor são alguns dos fatores que podem levar a esse cenário.

O CCDR sugere, no entanto, diversas medidas para que o Brasil possa cumprir o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2028 sem prejudicar o desenvolvimento. Dentre as medidas está o apoio a atividades econômicas sustentáveis baseadas no solo e nas florestas.

Para os autores do estudo, a expansão de áreas protegidas, inclusive de territórios indígenas, melhoraria a governança florestal, criando oportunidades para pagamentos por cuidados com a natureza, tais como ecoturismo, colheita sustentável de produtos florestais não madeireiros e sistemas agroflorestais. A criação de Reservas Florestais Legais (RFLs), conforme exigido pelo Código Florestal, também ofereceria oportunidade de geração de renda e crescimento inclusivo.

·         Competitividade e energia

As mudanças climáticas já estão alterando os padrões de temperatura e o regime pluviométrico no Brasil, resultando em menos disponibilidade de água e secas prolongadas. Segundo o CCDR, esses problemas se agravarão com o tempo e podem gerar consequências graves para a agricultura, o abastecimento de água nas cidades, a infraestrutura de transporte e para a geração de energia hidrelétrica, afetando a competitividade econômica.

O impacto projetado pelo estudo de um possível ponto de inflexão na Amazônia sobre o PIB brasileiro até 2050 seria de aproximadamente R$ 920 bilhões. O ponto de inflexão é uma espécie de colapso e aconteceria quando a quantidade de árvores não for mais suficiente para gerar a umidade necessária à sustentação da floresta.

Embora o Brasil seja um dos dez maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, o perfil das emissões difere do de outros países. Entre 2000 e 2020, a origem de 76% das emissões do país era a mudança no uso do solo, incluindo desmatamento e agricultura, em comparação com 18% para as emissões globais. Por outro lado, quase a metade do suprimento de energia do Brasil, incluindo mais de 80% de sua eletricidade, é proveniente de fontes renováveis, em comparação com as médias mundiais de cerca de 15% a 27%.

Ainda segundo o CCDR, a prevalência de energia renovável e o potencial brasileiro para a produção de bens e serviços ecológicos colocam o país em vantagem competitiva no fornecimento dos produtos necessários para a descarbonização (retirada de dióxido de carbono da atmosfera), incluindo minerais verdes, hidrogênio verde e produtos ecológicos manufaturados. Priorizar esforços para conter o desmatamento permitiria ao Brasil não apenas preservar seus ecossistemas, mas descarbonizar gradualmente outros setores produtivos.

“O uso sustentável dos recursos naturais está se tornando um requisito para a competitividade nos mercados internacionais. Primeiro, porque as tecnologias verdes estão ganhando espaço e isso afeta a demanda. Por exemplo, os veículos elétricos estão crescendo rapidamente. O Brasil demonstrou capacidade de inovar e liderar em novas tecnologias e pode se beneficiar” conclui Hallegate.

 

Ø  O mundo à beira de uma catástrofe climática segundo o IPCC. Por José Eustáquio Diniz Alves

 

O mundo está à beira de um aquecimento global catastrófico, em função do aumento das atividades antrópicas que geram danos profundos nos ecossistemas e no clima. O ser humano tem sido egoísta e tem apresentado uma avareza sem limites pelo domínio das riquezas naturais. Com uma soberba sem igual tem desprezado as demais espécies vivas do Planeta e provocado uma degradação em larga escala na biosfera. A civilização está à beira de um abismo climático e ambiental e, como alertou Cartola (1908-1980), é uma situação autoinfringida: “Abismo que cavaste com teus pés”.

O relatório “Synthesis Report (SYR) of the IPCC Sixth Assessment Report (AR6)”, divulgado no dia 20 de março de 2023, pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontou que a comunidade internacional, provavelmente, superará sua meta climática mais ambiciosa de limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais nos próximos anos e consolidar este patamar até o início da década de 2030.

Para desarmar a bomba-relógio climática é preciso reduzir as emissões de gases de efeito estufa e interromper o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, que é a mais alta em pelo menos 2 milhões de anos.

O aquecimento global é um problema que afeta vários aspectos da vida na Terra, incluindo a economia, a saúde, a segurança alimentar, a biodiversidade e o clima. Se as temperaturas globais ultrapassarem o limite de 1,5 graus Celsius em relação ao período pré-industrial, os principais desafios que o mundo pode enfrentar incluem:

  • Aumento do nível do mar: O aumento do nível dos oceanos pode resultar em inundações costeiras, tornando muitas áreas costeiras habitáveis hoje em dia em risco de serem inundadas. Além disso, o aumento do nível do mar também pode levar à erosão costeira, destruindo a infraestrutura urbana e os ecossistemas costeiros, afetando a produção de bens e serviços, a pesca e o turismo.
  • Aumento da intensidade e frequência de eventos climáticos extremos: Os eventos climáticos extremos, como tempestades, furacões, enchentes, secas e ondas de calor, podem se tornar mais frequentes e intensos, levando a perda de vidas, danos a propriedades e infraestruturas, além de impactos negativos na agricultura e segurança alimentar.
  • Declínio da biodiversidade: O aumento da temperatura global pode afetar a biodiversidade, reduzindo o número de polinizadores (como as abelhas) e causando a extinção de várias espécies animais e vegetais. Isso tudo, com a salinização das águas e dos solos, pode desestabilizar ecossistemas inteiros e afetar a segurança alimentar.
  • Escassez de água: A mudança climática pode afetar a disponibilidade de água doce em várias regiões do mundo. A escassez de água pode levar a conflitos e tensões, especialmente em áreas onde a água é uma fonte limitada de recursos.
  • Prejuízos econômicos: Os danos econômicos devido a eventos climáticos extremos podem ser enormes, afetando a vida de toda a população do Planeta, a agricultura, a pesca, o turismo, a infraestrutura, o mercado de trabalho e outros setores da economia.

Em resumo, a ultrapassagem do limite de 1,5 graus Celsius em relação ao período pré-industrial pode levar a uma série de consequências negativas para a sociedade e o meio ambiente. A população mundial já chegou a 8 bilhões de habitantes e deve ultrapassar 10 bilhões de habitantes até o final do século e será difícil alimentar de maneira adequada toda essa massa de pessoas, pois a mudança climática pode interromper a disponibilidade de alimentos, reduzir o acesso aos bens de subsistência e afetar a qualidade da comida. Por exemplo, aumentos projetados nas temperaturas, mudanças nos padrões de precipitação, mudanças em eventos climáticos extremos e reduções na disponibilidade de água podem resultar em produtividade agrícola reduzida e menor oferta de alimentos.

Embora a humanidade esteja vivendo o momento mais crítico de sua história, o relatório do IPCC mostra que o mundo tem todo o conhecimento, as ferramentas e os recursos financeiros necessários para atingir suas metas climáticas, embora, depois de décadas desconsiderando os alertas científicos e atrasando os esforços climáticos, a janela para ação esteja se fechando rapidamente.

Alguns veículos da imprensa buscaram dar um tom otimista ao relatório do IPCC dizendo: “Dá tempo de frear crise climática e tecnologia já existe, diz painel do clima da ONU” (FSP, 20-03). Mas outros preferiram alertar “Mundo está à beira de aquecimento catastrófico, diz relatório sobre mudança do clima da ONU” (Washington Post, 20-03).

Não podemos ter ilusões, pois se por um lado existe conhecimento e tecnologia para evitar a crise climática e ambiental, por outro lado foi a própria ciência humana que gerou o crescimento da produção de bens e serviços que está provocando uma grande sobrecarga sobre o Sistema Terrestre. Uma coisa é saber o que fazer e outra coisa é fazer o que é necessário. Controlar o clima não é simples, assim como não é simples fazer o alcoólatra parar de beber ou fazer o obeso emagrecer. Podemos até ter sucessos individuais, mas é dificílimo acabar com o alcoolismo e com a obesidade.

De fato, poucas instituições estão agindo rápido o suficiente. A conferência climática da ONU em novembro no Egito terminou sem uma resolução para reduzir gradualmente o petróleo, o gás e o carvão – um requisito básico para conter as mudanças climáticas. Todavia, a China aprovou sua maior expansão de usinas movidas a carvão desde 2015. Em meio aos lucros crescentes, as principais empresas de petróleo estão diminuindo suas iniciativas de energia limpa e aprofundando os investimentos em combustíveis fósseis. Nos Estados Unidos e no Brasil também existem planos de aumento da extração de petróleo. A transição energética para fontes renováveis avança, mas não no ritmo necessário.

Quanto mais rápido e mais profundas forem as mudanças, menores serão os danos futuros. A figura abaixo, do relatório do IPCC, mostra que o aquecimento global já é uma realidade e pode se agravar no futuro, conforme mostrado nas diferentes faixas de temperatura.

Evidentemente, são as gerações que estão nascendo atualmente que enfrentarão as maiores temperaturas no final do século. Como disse Barack Obama: “Somos a primeira geração que sente as consequências das mudanças climáticas e a última que tem a oportunidade de fazer algo para deter isso”.

Como mostrei no artigo “92% da população mundial de 2100 ainda não nasceu” (Alves, 04-10-2019), a maior parte da presente população mundial não estará viva no final do século e cerca de 90% da população de 2100 ainda não nasceu. Mas são estas pessoas que ainda não nasceram e que, naturalmente, não foram responsáveis pelo aquecimento global, é que vão arcar com as consequências da alta temperatura nas décadas vindouras. Ultrapassar o limite de 1,5º C será doloroso, mas chegar aos 2º C pode ser catastrófico para as futuras gerações.

A humanidade tem ignorado amplamente os alarmes soados pelos cientistas, pois a concentração de CO2 na atmosfera continua aumentando. Mas ninguém pode dizer que não foi avisado. Como disse Greta Thunberg na sede da ONU, em Nova York, em 23-09-2019: “Os olhos de todas as gerações futuras estão sobre vocês. E se vocês optarem pelo fracasso, eu digo que nunca iremos perdoá-los”.

 

Ø  Mudança climática terá mais impacto nas populações mais pobres

 

As mudanças climáticas podem levar a uma redução da mobilidade internacional para as populações com os níveis de renda mais baixos na África Subsaariana, Norte da África e ex-União Soviética em até 10% até 2100. Isso pode aumentar para até 35% em cenários mais pessimistas, de acordo com um estudo de modelagem publicado na Nature Climate Change.

Espera-se que a migração seja usada com mais frequência como estratégia de adaptação às mudanças climáticas. No entanto, as mudanças climáticas provavelmente levarão ao esgotamento dos recursos em algumas das regiões mais carentes, prendendo assim indivíduos que não podem migrar. Pesquisas recentes examinaram os efeitos das futuras mudanças climáticas na migração usando uma variedade de modelos, mas as limitações da mobilidade internacional para populações com recursos restritos ainda são desconhecidas.

Para quantificar o efeito da imobilidade limitada por recursos das mudanças climáticas, Hélène Benveniste e colegas desenvolveram um modelo de migração internacional e remessas (incluindo distribuições de renda) e o incorporou a um modelo de avaliação integrado (um modelo global de clima - economia). Eles então conduziram exercícios de projeção seguindo cinco cenários diferentes de desenvolvimento futuro e mudanças climáticas ao longo do século XXI para ilustrar uma série de possíveis fatores de migração. Em seguida, eles incorporaram os efeitos das mudanças climáticas na privação de recursos e imobilidade subsequente.

Os autores descobriram que a mudança climática leva à diminuição da mobilidade internacional das populações mais pobres em pelo menos algumas regiões do mundo. Em um cenário em que as emissões atingem o pico em 2040 e as tendências econômicas não mudam acentuadamente, a mobilidade internacional pode ser reduzida em mais de 10% para indivíduos com os níveis de renda mais baixos. Isso sugere que a imobilidade com restrição de recursos provavelmente desempenhará um papel considerável no nexo clima-migração.

Esses achados confirmam os efeitos potencialmente devastadores dos impactos das mudanças climáticas nas populações mais pobres, bem como os limites da migração como ferramenta de adaptação, segundo os autores.

 

Fonte: Agencia Brasil/Ecodebate

 

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