As protagonistas da
ciência e conservação ambiental no Brasil
De
norte a sul do país, seja debaixo d’água explorando corais e monitorando
peixes-boi no litoral do nordeste, ou na copa de grandes árvores no Pantanal
para acessar ninhos de araras-azuis, bem-sucedidos projetos de conservação de espécies no Brasil
têm algo em comum: são liderados por mulheres. Muitas vezes invisibilizadas,
elas já representam quase metade das mãos que fazem ciência no país e na área da
conservação não é diferente.
Foi
com isso em mente que a jornalista Paulina Chamorro e o documentarista João
Marcos Rosa começaram, em 2019, o projeto multimídia Mulheres na Conservação.
“Temos no país mais biodiverso do mundo, mulheres que estão criando pesquisas
ou linhas de pesquisas inteiras, e nós não tínhamos um projeto de comunicação
que exaltasse a vida e obra dessas mulheres”, afirma Paulina Chamorro em
entrevista ao ((o))eco.
Ao
longo destes anos, Paulina e João percorreram 12 estados brasileiros para
acompanhar as protagonistas reais da preservação ambiental, que aceitaram, mais
do que apresentar seus trabalhos, abrir a vida, o coração, a rotina e contar
suas histórias. O material produzido já foi publicado em reportagens, podcast e
websérie, e agora foi transformado em um
documentário de média-metragem de 48 minutos. Segundo Paulina Chamorro, “o
filme não é para conhecer a história da anta, é a história de amor de uma
pesquisadora que transformou a história da espécie no Brasil. Eu acho que essa
foi a linha que nós fomos”.
Mulheres
na Conservação é realmente um filme potente. Ouvir essas histórias contadas de
“dentro”, com as pesquisadoras em campo, com as botas sujas de barro e os
corpos expostos ao sol, chuva e intempéries naturais, causa empatia direta com
o público. Em algumas cenas podemos ouvir ao fundo a voz e risada da Paulina,
jornalista com experiência única no tema e que conduz magistralmente as
entrevistas. Some-se a isso a deslumbrante fotografia de João Marcos Rosa, um
dos melhores documentaristas da vida natural que temos em atividade no país e
segundo fotógrafo brasileiro a integrar a Liga Internacional dos Fotógrafos
pela Conservação.
Leia
a entrevista completa:
• Para começar queria que você comentasse
sobre as origens do projeto. Como é que vocês começam a enxergar o audiovisual
como uma ferramenta para contar as história das mulheres na conservação, que
culmina no filme?
Paulina
Chamorro: A ideia do projeto surgiu da união justamente do visual, de um
fotógrafo, com uma jornalista de rádio. Quando o João Marcos Rosa entrou em
contato comigo pra desenhar esse projeto, vimos logo de cara que não seria uma
simples reportagem. A primeira coisa que pensamos foi: qual é o impacto que
queremos com esse projeto.
Então
tínhamos a noção, a partir de informações que mapeamos, de que grandes projetos
de conservação no Brasil – ou pelo menos os maiores projetos, os de maior
continuidade – estão nas mãos e são coordenados por mulheres. Só que elas estão
fazendo isso silenciosamente. Nós tínhamos um vácuo em olhar para as nossas
grandes estrelas. Temos pesquisadoras
internacionais renomadas, como a Jane Goodall ou a Sylvia Earle, mas não temos
esse mesmo olhar para as brasileiras, sendo que temos mulheres no país mais
biodiverso do mundo, que estão criando pesquisas do zero ou linhas inteiras de
pesquisa. E nós não tínhamos um material de divulgação, um projeto de
comunicação que exaltasse a vida dessas mulheres.
Quando
pensamos o projeto, estávamos também entrando em um momento super delicado na
conservação brasileira, onde mostrar exemplos de resiliência ia ser muito forte
para que não jogássemos a toalha.
E
foi assim que construímos um projeto de reportagem, mas que fosse multimídia.
Temos a linguagem do rádio, porque temos o podcast, temos a linguagem formal,
tradicional, porque temos as reportagens que vão com as fotografias do João.
Por fim, temos a websérie, que é produzida para o YouTube, com duração de três
a quatro minutos. Então esse foi o primeiro panorama que fizemos, o que gostaríamos
de mostrar e a linguagem, sempre pensando no público que queremos atingir.
Assista
o trailer do filme Mulheres na Conservação.
E
quando começa o projeto, quando vocês começam viajar e filmar?
Em
agosto de 2019, nós já estávamos no Pantanal filmando. Não tínhamos nem fechado
o apoio formal da Fundação Toyota. Então eu e o João pegamos a grana do nosso
bolso e fomos para o Pantanal.
• Ou seja, vocês começam a filmar no
contexto de um governo anti ambiental e misógino,. Isso fortalece a ideia?
Fortalece
muito. A partir do momento que começam a sair as webséries, que começamos a
distribuir por redes sociais, a gente começa a receber convites de
universidade, convites de escola, convites de tudo quanto é lado pra mostrar o
projeto.
A
reação era sempre a mesma: muito choro, muita emoção, muita gente já muito
desestimulada pensando em jogar a toalha. Foi aí que a gente percebeu a
fragilidade que essas pessoas que trabalham com conservação no Brasil estavam.
Porque nós também, enquanto jornalista, estávamos. Mas quando você exalta o
lado de quem está fazendo, de quem não jogou a toalha, de quem tá lá, ainda
sofrendo as mesmas coisas que nós estávamos sofrendo… ou seja, olhando para o
lado bonito da vida, que é conservar a vida, né? As formas de vida que existem
no Brasil, apesar de tudo que vinha acontecendo, gerou uma catarse. Tiveram
exibições da websérie, discussões em alguns ambientes, que era uma verdadeira
catarse. No meio da pandemia, abríamos a câmera do computador e estava todo
mundo chorando. Então eu acho que mostrar o lado bonito e de gente resiliente,
pode inspirar não só outras mulheres, mas pode inspirar todo mundo a sair desse
buraco onde entramos nos últimos quatro anos.
• Realmente emocionante. Queria que você
contasse um pouco como a websérie se tornou um filme e por quê?
Nós
fomos fazendo o projeto: primeira e segunda temporada… A primeira temporada só
com [projetos de] fauna. Na segunda, já tínhamos ambientes, tínhamos a gestora
de uma área. Temos a Márcia [Chame], que fala de Parasitologia, novas formas de
vida. Já chegamos a dez personagens perfilados e queremos continuar evoluindo
com o projeto dessa maneira.
Entendemos
desde o primeiro momento que esses depoimentos, contar a vida dessas mulheres,
só seria possível se nós respeitássemos o tempo delas e estando em campo com
elas. Passamos uma média de 5 a 10 dias convivendo com essas mulheres, vendo
elas trabalhando em campo, atrapalhando o mínimo possível e só no final
fazíamos uma grande entrevista, depois de ver uma série de subjetividades que
nem elas às vezes enxergavam.
É
por isso que o filme é uma declaração de amor à natureza do Brasil. Eu enxergo
dessa maneira. É por isso que tínhamos, no final do ano passado, um material
tão robusto, tão contundente, porém muito pouco explorado. Materiais que não
tinham entrado no podcast, na websérie, na reportagem.
Aí
conversando com o Sylvio Rocha, um grande amigo meu e que tem uma produtora que
está fazendo muitos filmes e documentários de propósito, eu disse que deveria
ter umas 50 horas de material. Ele pediu para ver, ficou maravilhado e disse
que poderíamos fazer um documentário. Então ele é um documentário feito a
partir de um material que não foi pensado para ser um documentário. Você vê que
existem algumas particularidades, como por exemplo, em alguns momentos entra a
minha voz, uma risada. São coisas espontâneas que aconteceram porque ele
realmente foi um material espontâneo, porque ele não foi pensado em ser feito
um documentário.
O
Sylvio convidou uma grande roteirista, a Fernanda Polacow e também uma grande
montadora, que foi a Larissa Figueiredo, e elas construíram essa linguagem
junto comigo e o João. O filme não é para conhecer a história da anta, é a
história de amor de uma pesquisadora que transformou a história da espécie no
Brasil. Essa foi a linha que nós fomos.
Desde
o início da montagem até o final, foram só cinco meses. Foi muito rápido porque
tínhamos objetivo de lançar no Dia Internacional da Mulher para mostrar, ainda
neste primeiro ano fora do governo anterior, que nesse meio tempo tinha gente
ainda trabalhando. É realmente um respiro que estamos oferecendo para o maior
número de pessoas. Eu me emociono toda vez que eu assisto. Eu já assisti umas
dez vezes, mas tem momentos muito bonitos.
• O documentário, além de retratar apenas
mulheres, conta com uma equipe bem feminina também na produção. Isso é
importante para o documentário? De que forma as questões de gênero são
fundamentais na área da conservação?
Falando
sobre essa questão do feminismo e de terem muitas mulheres trabalhando no
documentário, eu não poderia deixar de ressaltar e exaltar o papel de dois
homens cujo o apoio para a luta feminista foram fundamentais no projeto. O João
Marcos Rosa, que teve a iniciativa, teve o olhar e o cuidado de me convidar
falando: “Eu só posso tocar com você esse projeto. Não tem sentido eu fazer
isso sozinho”. E realmente, eu enquanto mulher estando com elas em campo, a
gente conseguiu puxar por uma sensibilidade que normalmente não entraria em
entrevistas mais comuns sobre isso: maternidade, intuição, as dificuldades… a
questão de raça que a Bárbara [Pinheiro, Pesquisadora da Universidade Federal
de Alagoas (PDCTR/UFAL)] nos trouxe.
O
outro cara é o Sylvio, que falou: “Quem vai montar a linguagem toda são vocês,
eu estou fora. Vamos chamar mulheres para o roteiro, edição, você vai ser a
diretora….” . A tônica, a linguagem do documentário foi feita por mulheres, mas
com o respaldo e com a ajuda desses dois caras que eu não poderia deixar de
citar.
Agora
nós entramos num ponto muito importante para a ciência produzida no Brasil. Os
últimos dados mostram que quase metade, entre 43% e 47%, são de mãos femininas.
A Ciência no país é produzida pelas mãos de mulheres, pelo intelecto de
mulheres. Essa questão da representatividade, nós enquanto imprensa ou
comunicadores, não damos [atenção]. Não temos a mínima noção de que temos
mulheres incríveis fazendo linhas de ponta na ciência ou na ciência da
conservação, no caso do filme. Aí entra o papel da comunicação mesmo. Eu acho
que é uma falha também nossa, de atingir a ODS [Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, da ONU] da igualdade de gênero. Como é que nós não fazemos a
igualdade de gênero também na comunicação? Como é que a sociedade brasileira
vai saber se a gente não mostrar que tem mulheres incríveis fazendo isso? E
isso é muito forte, quando nós mostramos esses exemplos de grandes mulheres
para meninos e meninas, a gente já começa a mudar um pouco a cabeça, a
percepção deles, sabe?
Não
é só uma questão da luta feminista, mas é a construção de uma nova sociedade.
Eu não tenho essa pretensão, obviamente, mas eu acho que o documentário pode
sim ter um pouquinho esse papel, sabe? Eu tenho relatos de mães e pais que
assistiram com os filhos ou que me mandam um vídeo das crianças pirando com a mulher
escalando árvores para pegar arara. O que isso pode trazer para uma criança, em
termos de exemplo, eu não sei, mas acho que pode ser algo muito forte. A partir
do exemplo de mulheres incríveis.
• Tem uma fala no filme, se não me engano
da Zelinha [Maurizélia de Brito e Silva, Chefe da Reserva Biológica do Atol das
Rocas/ICMBio/MMA], sobre como aquele lugar e esse trabalho com conservação
mudou ela, mudou a vida dela. Essas pesquisas que elas fazem são projetos de
vida, né? Como é que você vê isso?
Pra
mim foi um choque positivo, um respiro de esperança nesses anos super
delicados. Eu olhava para a história dessas mulheres para me fortalecer, para
também não jogar a toalha. A Zelinha, especificamente, eu gosto de trazer o
exemplo dela porque nós convivemos dez dias dentro do Atol das Rocas. Só eu, o
João, a Zelinha e um ajudante dela. E ali aconteceu algo muito doido, porque eu
comecei a olhar a Zelinha como uma espécie. Tanto que na matéria que eu fiz pra
National Geographic eu descrevo que ela está num processo de simbiose com o
atol. Quando começa a mudar as areias de lugar, porque está mudando a maré, os
polvos estão mudando de lugar, ela muda a personalidade dela. Ela está em
completa simbiose com aquele ambiente.
Foi
uma das coisas mais doidas e ali me deu o estalo de que, quando a gente fala
“Vamos salvar o planeta”, cara, tem gente que de verdade, na vida real, está
salvando o planeta. Muitas delas me
deram essa sensação, sabe? Porque quando você salva um Atol das Rocas, que é um
lugar intocado pela espécie humana, que a gente ainda conseguiu não ferrar com
tudo… quando você salva um paraíso de biodiversidade marinha, você está
salvando o Atlântico Sul, sabe? Você está mostrando que existem possibilidades,
existem caminhos.
Então
eu acho que é isso que elas me mostraram, que dentro do universo delas, elas
podem fazer grandes revoluções, podem salvar o planeta. A Neiva Guedes
[pesquisadora e presidente do Instituto Arara Azul] descobriu, depois de 30
anos pesquisando a arara, que ela não está salvando a arara, ela está salvando
todos nós. Porque para salvar as araras, você está cuidando do Pantanal, que
está cuidando do modo de vida pantaneiro. E essa multiplicidade de ambientes,
de espécies, está tudo conectado uma coisa com a outra.
Eu
comecei a entender como funciona e a importância de cada uma delas e de todas
as pessoas que cuidam de conservação. Quando você está cuidando de uma espécie,
você está cuidando do todo. E eu acho que é isso que eu aprendi muito com elas.
• Como foi o lançamento no Dia
Internacional das Mulheres? Como foi apresentar isso ao público?
Bom,
eu chorei do começo ao fim [risos]… mas foi muito emocionante de ver. Tivemos
que fechar duas salas lotadas, o que foi muito surpreendente, pois tinha caído
um dilúvio em São Paulo, e as pessoas compareceram e a gente preparou uma
surpresa para o final, que foi a presença de quase todas elas, menos a Patrícia
Médici.
Nós
estávamos lá atrás, eu, o João e o Sílvio. E quando começam os créditos, o povo
levanta, começa a bater palma em pé, vão até o final dos créditos em pé,
batendo palmas e a gente começa a descer e eu começo a olhar pra cara das
pessoas e as pessoas estavam chorando. E aí eu peguei o microfone, fizemos os
agradecimentos e eu chamei elas. Quando a plateia vê que elas estão aqui, era
como se eu estivesse vendo a Mulher Maravilha, sabe? [risos]. Cada uma falou um
pouco da sua vida e o que elas tinham achado. Era a primeira vez que elas
estavam vendo o filme, mas a reação das pessoas depois que acabou isso foi de
tirar foto, de pedir autógrafo, de chegar junto, ou seja, realmente entenderam
que estavam frente a heroínas, sabe? Heroínas e resilientes.
Fonte:
((o))eco

Nenhum comentário:
Postar um comentário