Yanis
Varoufakis: EUA - Os bilionários pedem mais guerra
Quanto
mais tempo a guerra com o Irã se prolonga, mais a economia global entra em
crise. Os iranianos bloquearam o Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do
suprimento energético mundial. 40% do petróleo importado pela China passa pelo
Estreito. O petróleo bruto está agora acima de US$ 100 por barril, um aumento
de 45% desde o início da guerra e continua subindo. Os preços da gasolina nos
EUA subiram mais de 65 centavos de dólar por galão de querosene de aviação, e o
diesel teve um aumento de 25%. Em algumas partes da Ásia, incluindo Tailândia,
Paquistão e Bangladesh, já há escassez e longas filas em postos de gasolina.
Repartições públicas nas Filipinas adotaram a semana de trabalho de quatro
dias. O governo de Mianmar impôs dias alternados para dirigir.
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Eis a entrevista.
·
Quero começar, Yanis, com as consequências da crise
econômica em termos de agitação social e política. Lembro-me da minha cobertura
da guerra na antiga Iugoslávia, precipitada por um colapso econômico e
hiperinflação, o que acredito ter contribuído para o surgimento dessas figuras
semelhantes a Trump, Radovan Karadzic, etc. Mas essa desestruturação econômica
sempre teve, ao longo da história, consequências que vão muito além da
sobressalto econômico. Queria saber se você pode falar sobre isso.
Yanis
Varoufakis: Claro.
Você está se referindo às consequências não intencionais de uma guerra muito
estúpida, na qual Donald Trump foi encurralado por Benjamin Netanyahu. Porque
até agora Trump pensava estar ganhando em tudo. “Eu venci a guerra comercial, a
guerra tarifária, com os europeus”. Ele teve muito sucesso em instrumentalizar
as grandes empresas de tecnologia e as criptomoedas com a Lei Genius. De seu
ponto de vista, ele estava vencendo. E temos agora esta campanha ridícula, na
qual ele foi envolvido por razões só saberemos em alguns anos. Isto terá
efeitos duradouros, consequências a longo prazo. Estava lendo, no Wall
Street Journal e no Financial Times, alguns artigos
otimistas que comparavam o que está acontecendo agora no Irã e o “Dia da
Libertação”, quando Trump anunciou o tarifaço, no ano passado. À época houve um
espasmo nos mercados, que entraram em pânico e ficaram nervosos após o anúncio
das enormes tarifas. Isso suspendeu o comércio mundial por cerca de uma semana.
E então o Financial Times e o Wall Street Journal, com
otimismo, diziam: “Ao final, não foi tão ruim assim”. Em dois ou três meses, os
mercados se recuperaram. A economia livrou-se de todas as preocupações com a
recessão. E talvez possamos proclamar novamente daqui a alguns meses, se a
crise atual terminar logo, que tudo foi uma bobagem: o capitalismo mundial,
sediado nos EUA e dolarizado foi mais uma vez resiliente.
Não
acho que isso seja possível, não só porque esta guerra não vai terminar muito
rapidamente. Ninguém tem uma bola de cristal, mas acho que Donald Trump caiu na
armadilha que Netanyahu preparou para ele. O ponto que quero destacar é que
existe uma enorme diferença entre o que aconteceu no ano passado com as tarifas
e agora.
As
tarifas do “Dia da Libertação” tiveram efeitos transitórios, mas a crise poderá
não ter. No ano passado, quando Trump impôs suas tarifas gigantescas,
especialmente contra os chineses, ficou claro em poucas semanas que a demanda
por exportações estrangeiras nos Estados Unidos era suficientemente elástica
para que grande parte do ônus não recaísse sobre os consumidores
norte-americanos, mas sim sobre os importadores. A segunda e importantíssima
razão pela qual, no fim das contas, Trump não sofreu é que, ao mesmo tempo em
que havia uma onda recessiva, havia outra, na direção oposta: uma gigantesca
onda de investimentos das grandes empresas de tecnologia em IA, o que
impulsionou os mercados de uma forma que satisfez o presidente. Um terceiro
motivo é que as tarifas funcionaram, do ponto de vista de Trump. Elas
conseguiram atrair para os Estados Unidos fluxos substanciais de capital.
Conheço muitas empresas alemãs que se mudaram para os Estados Unidos, como a
BASF e a Mercedes-Benz. O mesmo se deu com empresas japonesas e de Taiwan. E a
quarta razão importante foi que os bancos centrais de todo o mundo, não apenas
o Fed, estavam em processo de corte das taxas de juros, de afrouxamento da
política monetária.
Agora,
compare e contraste com o que está acontecendo agora.
Em
primeiro lugar, a demanda nos Estados Unidos não é elástica em relação aos
aumentos nos preços da gasolina. A grande maioria das pessoas, os trabalhadores
braçais que votaram em Trump, estão sofrendo aumentos exorbitantes em seus
custos de transporte. Não vamos esquecer que o eleitor médio do MAGA viaja 160
quilômetros por dia em SUVs e carros que consomem muito combustível. Isso
impacta diretamente o orçamento familiar. Em segundo lugar, a onda de
investimentos em IA, que testemunhamos nos últimos 12 meses e salvou a pele de
Donald no ano passado, é voraz por eletricidade. Provavelmente vai se esgotar,
porque já havia reclamações sobre a lógica desse investimento. E agora a IA
está se tornando muito cara para treinar e executar, o que vai reduzir substancialmente
os efeitos compensatórios de mais investimentos em IA. Além disso, como os
rendimentos dos títulos de 10 anos estão subindo, os bancos centrais vão
aumentar as taxas de juros ou, em alguns casos, reduzi-las de acordo com o
cronograma que haviam estabelecido e os mercados financeiros já haviam
precificado. E, por último, no ano passado, nesta mesma época, o desemprego não
estava aumentando. Nos últimos dois ou três meses, ele está em ascensão, nos
Estados Unidos, no Reino Unido, e temo muito que também na União Europeia.
Se você
considerar todos esses fatores, entenderá a conclusão de que esta guerra
insensata de Donald Trump, está reverberando dentro dos Estados Unidos. Isso
sem olhar para Bangladesh ou Paquistão, economias que, como você descreveu de
modo muito preciso, estão em situação desesperadora. A economia dos Estados
Unidos (o que realmente importa para Donald Trump) a europeia, a britânica, o
Ocidente em geral, está entrando em um sério vórtice de problemas. Os iranianos
estão bem cientes de sua capacidade de infligir esse tipo de dor. Imaginam que
esse conflito não terminará tão cedo, prolongando-se até que essa dor seja
sentida. É importante notar que perceberam: esta é uma luta existencial. Tanto
em junho passado quanto agora, quando Israel e os Estados Unidos atacaram o
Irã, eles o fizeram em meio a negociações. Os iranianos dificilmente poderão
confiar em outra equipe de negociação. Onde se percebe, conforme as semanas
avançam, que já estamos em crise – especialmente no Sul Global ou em alguns dos
países que mencionei, inclusive o Japão.
·
Quão terrível isso pode se tornar em algumas semanas ou
meses?
É algo
realmente sério porque, como você mencionou, o Japão obtém 90% de seu petróleo
e gás natural, do Catar, da Arábia Saudita e das demais monarquias do Golfo. A
economia japonesa é uma engrenagem significativa na máquina ocidental
internacional. E veja o que está acontecendo, particularmente em Bangladesh,
onde a indústria têxtil já está em ritmo lento simplesmente porque teme que seu
fornecimento de gás seja afetado. A produção de eletricidade deles vai parar
abruptamente, devido à dependência total dos combustíveis no Golfo. O efeito
bola de neve é o que realmente importa — não tanto os efeitos primários, os
secundários e terciários. Esses vão continuar mesmo se o Estreito de Ormuz
abrir amanhã, porque leva muito tempo para essas cadeias de suprimentos serem
reinciadas, como descobrimos durante a pandemia. Se levarmos em consideração
que já estamos em uma trajetória macroeconômica recessiva, em conjunto com o
fato de que os iranianos não estão dispostos a um acordo com Donald Trump,
porque já foram enganados várias vezes. Não é, aliás, algo recente. Vocês devem
se lembrar que em 2015 houve um acordo com a Casa Branca, na época com Barack
Obama. Visitei a Casa Branca em abril de 2015 e tive uma reunião com ele; eu só
estava interessado em falar sobre a Grécia, como vocês podem imaginar, porque
estávamos em uma situação difícil. Ele não queria falar sobre a Grécia. Eu não
falei sobre a Europa. Ele disse que a única coisa sobre a qual queria falar era
o Irã e como ele estava ansioso para ver o país reintegrado aos circuitos
financeiros mundiais. E ele concretizou esse acordo. Os iranianos ficaram muito
felizes. Os europeus ficaram muito felizes.
E então
Donald Trump é eleito e rasga esse acordo. Os iranianos tiveram uns bons 10, 11
anos para refletir sobre o que poderiam obter de qualquer acordo de paz com os
Estados Unidos. A resposta é: não muito. O Ocidente simplesmente não é
confiável durante negociações. O bombardeio do Irã começou enquanto as
negociações estavam em andamento, com o Omã atuando como intermediário.
Portanto, os iranianos não farão nenhum favor ao Japão, ao Canadá, à Austrália,
à Grã-Bretanha, à Alemanha, à França, e muito menos aos Estados Unidos. São
todas potências que, apesar de declararem querer se tornar autônomas e
soberanas em relação a Washington, disponibilizam suas bases militares para os
bombardeiros americanos, que, de lá, bombardeiam o Irã até destruí-lo
completamente, matando crianças em idade escolar. Vamos nos preparar para um
grande tsunami que vai nos atingir, ou já está nos atingindo, sem nenhum aviso
prévio. É claro que os piores efeitos serão sentidos no Sul Global e em países
como o Japão, que não produzem petróleo. É um enorme benefício para a Rússia,
sem dúvida. Trump não conseguiu suspender as sanções rápido o suficiente, por
todos os problemas que já ocorrem na cadeia de suprimentos na Índia. E a Europa
vai pagar por isso. A tentativa do governo Trump, de fazer com que os aliados
europeus forneçam navios em uma espécie de missão suicida pelo Estreito do
Ormuz, depois de essencialmente descartar e até insultar esses aliados, é
apenas mais um exemplo de como vivemos as ruínas do império americano. Os Estados
Unidos, sendo exportadores de petróleo, provavelmente sofrerão menos danos
diretos no curto prazo. Mas à medida que a economia global se desfaz, haverá
uma espécie de impacto secundário negativo sobre os EUA.
·
Vamos falar sobre os diferentes níveis de países que
serão afetados, começando pelo Sul Global, passando pela Europa e depois talvez
para os Estados Unidos.
Vou
começar pelos Estados Unidos, porque fiquei impressionado com a fala de Trump.
Ele disse, corretamente, que os Estados Unidos são um exportador líquido de
energia após a “revolução” do fracking. E, portanto, continuou, o
preço da energia sobe, o petróleo sobe, o gás sobe – nós, americanos, ganhamos
mais dinheiro.
Isso só
demonstra a completa falta de compreensão que Trump compartilha com a maior
parte da imprensa tradicional. Não existe algo como os Estados Unidos. Há os
americanos da classe trabalhadora, os americanos da classe alta, os
financistas, os corretores de imóveis. Não há dúvida de que, se os Estados
Unidos fossem um país comunista e cada cidadão fosse acionista da USA, o
argumento de Trump se sustentaria, mas não são. São as companhias de petróleo
que estão lucrando. Desde a última vez que verifiquei, elas já lucraram cerca
de 80 bilhões com o aumento do preço do petróleo. Mas se você é um operário
braçal que precisa dirigir até um emprego de merda, num carro que consome
gasolina como água, você está acabado. Você não consegue fechar as contas. Não
é preciso ir a Bangladesh para ver quem vai sofrer. Não vamos esquecer que
essas guerras, sejam comerciais ou reais são guerras de classe, no final das
contas. Não se trata de quem vai se beneficiar, os Estados Unidos, a Alemanha,
o Japão ou a Rússia. As classes trabalhadoras vão perder em todos os lugares. E
talvez a classe trabalhadora no Missouri e no Mississippi perca ainda mais do
que a classe trabalhadora em Bangladesh. Porque não podemos esquecer que países
como Bangladesh têm redes sociais muito fortes. Têm unidades familiares e
unidades comunitárias e cuidam uns dos outros. Há um certo grau de
solidariedade. Não sofreram o deslocamento da classe trabalhadora, da classe
trabalhadora nômade do seu país.
Vamos
ao Japão, União Europeia e Sul Global. Existem dois tipos de países do Sul
Global: aqueles que foram abençoados com um grande acordo de investimento da
China e os demais. Estou falando de países como Gana ou Quênia e algumas nações
asiáticas, onde já nos últimos dois ou três anos, painéis solares e baterias
chinesas de altíssima qualidade proporcionaram autonomia em relação à indústria
de combustíveis fósseis. Da mesma forma que nunca desenvolveram suficientemente
sua telefonia fixa, estes países pularam a revolução das comunicações indo
direto para telefones celulares. Há muitos países no sul global que não
precisam mais de combustíveis fósseis porque, nos últimos anos, houve um
aumento substancial em produção e armazenamento autônomos de energia limpa.
Esses
países serão menos afetados e sua dependência da produção chinesa,
particularmente de painéis solares e baterias, aumentará muito. Já outros
países, que não tiveram a vantagem de sistemas de energia autônomos, sofrerão
mais. Quem está numa situação terrível é Europa. Não é simplesmente uma maré
baixa. Examinei os preços da eletricidade hoje na Europa e vi que na Espanha um
quilowatt-hora valia 35 euros, algo como 40 dólares, na Alemanha 98 e no meu
maldito país, a Grécia, 144 euros. As assimetrias se devem ao poder relativo
das oligarquias locais. A razão pela qual um quilowatt-hora na Grécia custa 144
euros, enquanto na Espanha custa apenas 35, é porque temos regimes diferentes.
Na Grécia, temos um regime totalmente oligárquico, que está totalmente nas mãos
de Donald Trump e de Israel.
A
Grécia se tornou um satélite de Israel e da OTAN. Na Espanha, você tem Sánchez,
com quem tenho muitas divergências de opinião. Mas pelo menos quando se trata
da Palestina, dos Estados Unidos, Israel, Gaza, Irã e também da geração e
distribuição de eletricidade, o governo foi contra os interesses dos cartéis,
dos cartéis oligopolistas Depois de 20 anos de austeridade, fomos atingidos por
outra onda recessiva, prejudicial aos interesses da classe trabalhadora, mas
não aos dos cartéis, que lucram enormemente. O que também temos na Europa é a
fragmentação. Antes, era uma divisão norte-sul; agora, também temos uma divisão
leste-oeste. Já se pode ver isso nos governos e nas autoridades dos Estados
bálticos – até mesmo de lugares que costumavam ser civilizados, como a
Finlândia e a Suécia. Estão pressionando muito por mais guerra, por mais gastos
militares, por maior apoio a um conflito na Ucrânia que não está levando a
lugar nenhum para os ucranianos, apenas para criar maiores tensões com a
Rússia. Temos, por outro lado, Espanha, Irlanda e em menor grau Portugal, que
estão caminhando em direção completamente diferente. Portanto, a União
Europeia, fragmentada, tornou-se uma desunião – e é por que
ninguém a leva a sério, muito menos Donald Trump. Essa fragmentação se tornará
ainda pior como resultado da guerra no Irã.
·
E em nível regional? Até que ponto isso abala a hegemonia
dos Estados Unidos, com o Irã atacando Estados do Golfo que possuem bases
norte-americanas, mas na verdade construíram suas economias em torno das
finanças internacionais – lugares como Dubai?
O Golfo
tem desempenhado um papel substancial nos últimos 10 a 15 anos, no apoio ao
setor financeiro, que está ligado ao dólar americano, que por sua vez está
ligado a grandes data centers que proliferaram por toda a
região. O investimento em microchips, como o da Nvidia, rendeu uma fortuna por
lá. E de repente, com o ataque liderado por Israel contra o Irã, no qual Donald
Trump se deixou enredar, este modelo de negócios entrou em colapso total. Olhe
para as melhores companhias aérea do mundo, que estão lá. Qatar Airways,
Emirates, Etihad. Todas estão paradas, esses aviões maravilhosos, novos e
reluzentes estão no chão, acumulando bilhões de dólares em dívidas todos os
dias. Essencialmente, o que estou dizendo é que, com a guerra ridícula em que
Trump se deixou envolver, o circuito financeiro e tecnológico que une a
economia dolarizada ocidental foi sacrificado. Foi para o ralo.
·
A inflação já avança. Qual a probabilidade de
hiperinflação e quais serão as consequências?
Não
estou preocupado com a hiperinflação, nos Estados Unidos ou na Europa – mas com
algo pior: a estagflação. Os bancos centrais do mundo ocidental — o Fed, o
Banco Central Europeu, o Banco do Japão — não são controlados por parlamentos,
nem estão minimamente interessados no bem-estar das pessoas comuns que lutam
para sobreviver, para comprar comida ou o que seja necessário para a
subsistência. Eles não permitirão que a inflação ultrapasse um certo nível,
mesmo que isso signifique aumentar as taxas de juros da mesma forma que Paul
Volcker fez no início dos anos 80 — para 20, 21, 22%. Já que você mencionou a
Iugoslávia e viveu essa experiência, vale lembrar que Paul Volcker, o
secretário do Tesouro dos EUA, foi quem, na verdade, destruiu o país, elevando
as taxas de juros. No início dos anos 70, a economia iugoslava era muito
bem-sucedida, baseando-se em cooperativas. Era um experimento de empresas
socialistas autogeridas. Teve tanto sucesso que os banqueiros americanos
apostaram nele e emprestaram dinheiro a empresas iugoslavas. Elas cometeram um
grande erro ao. Tomaram empréstimos a 3,5%. Quando Paul Volcker elevou as taxas
de juros para 22%, é claro que faliram. O resto é história. Eles farão a mesma
coisa. O Federal Reserve, o BCE, se necessário, para proteger os ativos das
classes dominantes, vão aumentar as taxas de juros, mas isso vai gerar efeitos
deflacionários gigantescos e efeitos que vão dobrar o desemprego. Teremos
inflação, não hiperinflação, combinada com desemprego.
·
Por que isso acontece?
Antes
da década de 1970, os economistas costumavam pensar que havia dois monstros que
deveríamos temer. Mas ao menos não precisamos nos preocupar com os dois ao
mesmo tempo.
Um
monstro era a inflação, ou seja, os preços subindo cada vez mais. O outro era o
desemprego. E a convicção da minha profissão, até a década de 1970, era de que
não se pode ter os dois. Ou os preços disparam porque a economia está
superaquecida, ou, se a economia está em recessão, esfria, há desemprego — mas
não inflação. E eis que na década de 1970 tínhamos ambos. Agora temos mais um
episódio de dois monstros ao mesmo tempo. Na década de 1970, a economia
política global, passou por uma grande transformação. Imediatamente após a
Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram o único país credor, o único
país com exportações líquidas — se excluirmos a Suíça, que é insignificante. O
sistema de Bretton Woods era baseado na noção de que os Estados Unidos manteriam
seus superávits, suas exportações líquidas, dolarizando a Europa e o Japão, que
estavam devastados após a guerra. Os americanos dolarizaram a Europa e o Japão,
enviando dinheiro para que comprassem as exportações norte-americanas. Enquanto
os Estados Unidos tivessem um superávit com a Europa e o Japão, uma parte de
cada avião Boeing ou geladeira Westinghouse vendida aos europeus retornava aos
Estados Unidos. Esse foi o mecanismo de reciclagem no qual se basearam as duas
primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial.
Mas, no
final dos anos 60, os Estados Unidos não tinham mais superávit, tinham déficit.
O sistema não podia funcionar porque injetava mais dólares e os enviava para a
Europa e o Japão, criando lagos de dólares que eventualmente minaram o valor do
dólar. O presidente Nixon implodiu com isso, com o choque 15 de agosto de 1971.
Houve pessoas muito importantes por trás: alguém como Paul Volcker e Henry
Kissinger em sua equipe. A ideia desses homens, que de fato funcionou, foi:
agora que temos um déficit, não vamos seguir o exemplo da Alemanha, apertar os
cintos e impor austeridade a nós mesmos. Isso significaria queda nos
investimentos, fim da hegemonia dos Estados Unidos. O que vamos fazer é
aumentara o déficit e obrigar os capitalistas da Alemanha, França, Itália e
Japão — e mais tarde a China – a pagar por isso.
O
déficit comercial americano tornou-se o aspirador de pó que sugava as
exportações líquidas da Alemanha, do Japão e, mais tarde, da China. Essas
exportações eram pagas com promissórias chamadas dólares americanos. Oque os
japoneses, alemães e chineses fizeram com os dólares? Enviaram de volta para os
Estados Unidos através de Wall Street. Esse dinheiro comprou títulos da dívida
pública americana. Em outras palavras, o déficit comercial dos Estados Unidos
foi subsidiado pelo governo americano, pelas forças armadas americanas. Outra
parte foi para o mercado imobiliário. É por isso que pessoas como Donald Trump
ficaram ricas. E uma terceira parte foi para a compra de ações na Bolsa de Nova
York. Esse foi o modelo. Para que isso acontecesse, era necessária uma
desvalorização significativa do dólar americano. Nixon desvalorizou o dólar em
30%, o que significou inflação. Também significou reduzir os custos salariais
nos Estados Unidos, suprimir os sindicatos. Ronald Reagan completou isso mais
tarde, suprimindo os salários reais, o que significou uma combinação de queda
na demanda (porque os trabalhadores tinham menos dinheiro para comprar), queda
no investimento, desemprego e inflação juntos.
O preço
que as classes trabalhadoras americana, da Europa e do resto do mundo tiveram
que pagar para que os Estados Unidos se transformassem, pela primeira vez na
história da humanidade, um império deficitário, foi tremendo. Isso nunca havia
acontecido antes. O choque de Nixon significou estagflação. Agora, temos outro
caso semelhante. Começou no ano passado com as tarifas. A equipe de Trump
queria emular o choque de Nixon. Privatizaram o dólar, através da Lei Genius, –
com criptomoedas, ou melhor, stablecoins como o Tether. Estão
usando as grandes empresas de tecnologia e o investimento em inteligência
artificial com o objetivo de atrair para os Estados Unidos os fluxos líquidos
de capital do resto do mundo. O déficit comercial americano não foi reduzido
tanto assim. O aspirador de pó ainda funciona. Seguiram a mesma estratégia de
reduzir o valor do dólar americano em 20 a 30%, como Nixon. Então, tínhamos
todos os elementos do momento de estagflação da década de 1970 retornando.
Agora a guerra no Irã está piorando a situação. Você paga mais pela gasolina
para ir trabalhar, a inflação está presente e, ao mesmo tempo, a demanda por
bens e serviços – e, portanto, por mão de obra – também está caindo.
·
Você acha que o agravamento desta crise, reforça as
tendências autoritárias de governos da Índia à Alemanha e aos Estados Unidos?
Sempre!
O fascismo é o que acontece com o capitalismo quando não consegue lidar com uma
crise que ele mesmo criou. Quando a classe capitalista perde o controle, puxa
as alavancas e elas não funcionam mais, o fascismo é a ideologia e as práticas
que lhes permite permanecer no poder. Os fascistas sempre foram úteis para a
classe dominante, quando ela fez bagunças e não conseguiu conter a crise que
criou.
·
E nós já estamos vendo as liberdades civis sendo
destruídas nos Estados Unidos. O Departamento de Justiça é apenas uma máquina
de vingança para o governo Trump. Ordens judiciais são ignoradas. Foram
emitidas 96 ordens de restrição em Minneapolis, contra o ICE — todas sem efeito
algum.
O que
vocês viram em Minneapolis, o assassinato de cidadãos americanos, o ICE se
transformando nas tropas de choque de Donald Trump – tudo isso aconteceu
enquanto ele estava ganhando. Iimagine o que aconteceria quando perdesse. Vimos
o que aconteceu quando perdeu a eleição e se recusou a reconhecer. Nem quero
começar a imaginar o que vai acontecer nas eleições de meio de mandato em
novembro, quando vir seus números caindo. Haverá eleições? Ele tentará
impedi-las? É bem possível que sim, ou que depois do ocorrido conteste o
resultado.
·
E a esquerda, nós que estamos na esquerda, como reagimos
ao que está acontecendo?
Organizem-se
e se organizem ainda mais! Vejam: não há alternativa senão o árduo trabalho de
organização política para derrubar nossos governos. É a boa e velha política.
Nenhum de nós consegue resolver esses problemas de forma atomística,
individualmente, por meio de discursos inflamados ou artigos maravilhosos. Tudo
isso é importante para organizar as pessoas de forma que possamos, de fato,
assumir o controle do poder. Parece uma tarefa muito difícil. E é mesmo! Mas,
como disse Hannah Arendt, toda revolução parecia impossível antes de acontecer
e inevitável depois de acontecer.
Fonte: Yanis
Varoufakis em entrevista a Chris Hedges, publicada em seu site | Tradução:
Antonio Martins

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