“A
inteligência artificial é o espelho do que já fomos. A política é o que ainda
podemos ser”
Ela
poderia ter permanecido no conforto dos teoremas. Mas escolheu a rua. Tatiana
Roque é titular do Instituto de Matemática da UFRJ, doutora com passagem pelo
REHSEIS/CNRS em Paris, ex-diretora de programa no Collège International de
Philosophie, membro dos Archives Poincaré e autora premiada com o Jabuti.
O
currículo acadêmico bastaria para uma carreira serena. Só que ela também foi
secretária municipal de Ciência e Tecnologia do Rio, expandiu as Naves do
Conhecimento de 9 para mais de 40 equipamentos públicos, criou bolsas para
jovens cientistas nas favelas e, em 2024, conquistou uma cadeira na Câmara dos
Vereadores da cidade do Rio de Janeiro. Hoje, pré-candidata a deputada federal,
acumula a cátedra e o território, a epistemologia e a escola pública, a
história da matemática e a urgência das mudanças climáticas.
A
conversa que se lê a seguir não é um exercício de futurologia — é uma
advertência fundamentada. Tatiana Roque explica por que a inteligência
artificial generativa não pensa: ela apenas reproduz, com eficiência
estatística, o que a humanidade já registrou. E aqui reside o perigo. Quanto
mais moldamos o mundo para que as máquinas funcionem sem atrito — cidades
smart, carros smart, televisores smart —, mas corremos o risco de achatar a
subjetividade humana até que ela caiba nos dados de treinamento. “Estamos
construindo ambientes favoráveis à IA, e não o contrário”, resume. O horizonte
não é a máquina consciente, mas o humano que desaprende a fazer perguntas
novas.
Suas
respostas evitam o tecno-otimismo ingênuo e o catastrofismo estéril. Há
política nelas — e essa é a diferença. Enquanto bilionários do Vale do Silício
tentam sequestrar a palavra “singularidade” para anunciar a superação da
espécie, Tatiana Roque devolve o termo ao seu devido lugar: singular é a
capacidade humana de inventar mundos que nenhum algoritmo poderia prever.
É disso
que trata, também, a recente encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, ao
perguntar como a dignidade humana pode sobreviver numa economia automatizada. O
documento papal e esta entrevista não se citam — mas se escutam.
A
entrevista foi obtida por telefone pelo historiador comparativista Thiago Gama,
mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada
(PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em
história da autoridade papal e nos pontificados do último quartel do século XX
ao tempo presente.
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Eis a entrevista.
• Considerando que a democracia exige a
formulação de problemas que não possuem solução por métricas puras de
eficiência, até que ponto a “dissociação” entre sucesso técnico e comportamento
inteligente está convertendo o debate público em um mero exercício de
otimização estatística, onde a discordância política passa a ser tratada como
um ruído ou um erro de processamento algorítmico?
A
palavra “dissociação” é, de fato, decisiva. O que denomino demônio de Turing é
exatamente essa operação: separar o que o comportamento inteligente aparenta
ser da pergunta que jamais deveríamos abandonar — o que é, afinal, a
inteligência? O que significa pensar? Ao colocarmos de lado essa interrogação —
e o próprio Turing, numa passagem que cito no livro, declara que ela “é
insignificante demais para merecer nossa atenção” —, transferimos o peso da
avaliação para a performance.
Os
sistemas de IA são julgados pelo que produzem, não pelo que são. E o que
produzem provém de um treinamento a partir de um corpus imenso de dados: aquilo
que o ser humano registrou na internet — o que é dizer, aquilo que o ser humano
já foi até aqui, e sobretudo o que foi de modo mais frequente.
Essa é
a armadilha estatística central: avaliamos a inteligência com ferramentas que
simulam com eficiência a formulação de textos, mas que refletem o passado e a
média, não o que a humanidade ainda pode vir a ser.
• Se o sucesso da IA depende de um
ambiente “amigável” construído à imagem da máquina, estaríamos presenciando uma
forma de engenharia reversa da subjetividade humana, na qual a plasticidade do
nosso cérebro é sacrificada para garantir a integridade matemática dos modelos
de predição e vigilância social?
Essa
formulação ressoa diretamente com o que o filósofo Luciano Floridi descreve ao
observar que estamos construindo ambientes progressivamente favoráveis à
integração da IA ao cotidiano. Televisores se tornam smart, automóveis se
tornam smart, cidades se tornam smart — tudo é reconfigurado para que a
inteligência artificial possa funcionar de modo mais fluido. O risco, nesse
processo, é que a própria subjetividade humana seja moldada em função desses
dispositivos, e não o contrário.
Numa
mesa de debates do Rio Innovation Week com Ivana Bentes, ela formulou de modo
preciso: a IA está inaugurando uma nova fase da subjetividade na era de sua
reprodutibilidade técnica — paráfrase certeira de Benjamin. A reprodutibilidade
da própria subjetividade. Mas a pergunta que persiste é: qual subjetividade? A
que reproduz os dados mais frequentes que o ser humano gerou e preservou, ou
outra que ainda está por ser inventada?
• A senhora menciona a “falta de humildade
epistêmica” como prelúdio de catástrofes; no plano da matemática aplicada ao
social, como o atual entusiasmo mascara o fato de que estamos delegando
decisões críticas a sistemas que possuem alta correlação estatística, mas total
ausência de causalidade lógica e nenhuma sabedoria sobre as consequências
éticas de suas respostas?
Ainda
não estamos delegando de forma sistemática, mas corremos o sério risco de
fazê-lo. Um dos fundadores matematicamente reconhecidos da IA generativa —
Yoshua Bengio, inventor de vários dos conceitos que sustentam os modelos atuais
— alerta de modo insistente para o perigo dos chamados agentes de IA.
Esses
agentes não aguardam comandos nem exigem prompts: resolvem problemas de modo
autônomo. Se você solicita a um agente que organize uma viagem, ele acessa seu
calendário, efetua o pagamento com o seu cartão, envia confirmações aos seus
contatos — tudo sem intervenção humana. É como um agente de viagens que nunca
pergunta nada.
O
perigo que Bengio aponta é esse: sistemas que decidem sozinhos, sem que nenhuma
pessoa tenha assumido explicitamente a responsabilidade por cada escolha. Uma
das formas de enfrentar esse risco é incidir politicamente sobre os rumos da
IA. Os caminhos da tecnologia não são inevitáveis, e não podem ser definidos
por um punhado de bilionários donos das big techs. Será necessária uma política
forte, nacional e internacional, para que a regulação seja efetiva.
• Ao contrapor a resolução de problemas à
invenção de problemas — ofício do matemático humano —, de que maneira a
automação “pelo prazer de automatizar” pode estar gerando um cenário onde a
produtividade econômica aparente oculta um esvaziamento da “agência política”,
dada a incapacidade algorítmica de lidar com o que é radicalmente novo ou fora
da distribuição normal dos dados?
A
consequência mais grave de deixarmos de inventar nossos próprios problemas é
perder a capacidade de projetar um imaginário coletivo radicalmente diferente
do mundo em que vivemos. Marx dizia que a humanidade só se coloca os problemas
que ela é capaz de resolver — mas isso não significa que já tenha a solução
pronta. Significa que a humanidade só formula as questões para as quais tem a
capacidade de criar mundos nos quais elas caibam.
Essa
possibilidade de fazer novas perguntas, de imaginar arranjos radicalmente
distintos do presente, é exatamente o que pode estar sendo diminuído pela forma
de inteligência artificial dominante hoje. Uma IA treinada sobre o que já
existe não tem como gerar o que ainda não existe. E o que ainda não existe é
precisamente o território da política — do conflito real, da invenção e da
transformação.
• Se o “Demônio de Turing” opera pelo
ocultamento do maquinário para simular humanidade, o grande risco civilizatório
não seria o de “vencermos” o jogo da imitação ao nos tornarmos tão previsíveis
quanto os dados que produzimos, renunciando à nossa capacidade única de
desafiar a própria fortuna através da pergunta original e do pensamento
divergente?
O
demônio de Turing não opera pelo ocultamento do maquinário em sentido estrito —
opera pelo ocultamento da pergunta: o que é pensar? É isso que Turing propõe
quando afirma que tal questão não merece nossa atenção.
Ao
abandonar essa interrogação, deixamos de reconhecer a singularidade do
pensamento humano e passamos a avaliá-lo pelas ocasiões em que ele se manifesta
de forma mais frequente e previsível — que são, não por acaso, as mesmas
refletidas nos dados de treinamento da IA.
O
resultado é um modelo centrado no ser humano médio, e não no singular. Há um
sintoma relevante nesse processo: a palavra “singularidade” foi capturada pelos
tecno-otimistas para designar o momento em que as máquinas suplantarão os
humanos. Mas qual é, de fato, a singularidade humana? É a capacidade de
inventar novos mundos. Retomando Marx: a humanidade tem a capacidade de criar
mundos nos quais problemas radicalmente novos caibam. É isso que a IA dominante
hoje nos convida, silenciosamente, a abandonar.
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Box de Repertório:
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Demônio de Turing
A
expressão, cunhada por Tatiana Roque, é uma chave de leitura para a entrevista.
Ela critica o deslocamento proposto por Alan Turing: ao substituir a pergunta
“as máquinas podem pensar?” por um jogo de imitação, a verdadeira questão — “o
que é pensar?” — foi arquivada. A armadilha está em valorizar apenas a
performance, esquecendo a essência.
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Yoshua Bengio e os Agentes Autônomos
Um dos
fundadores do aprendizado profundo, o cientista canadense hoje alerta para os
perigos dos agentes de IA. Ao contrário dos chatbots que apenas respondem,
esses sistemas são projetados para agir no mundo — acessar calendários, fazer
pagamentos, tomar decisões — sem supervisão humana a cada passo. A menção na
entrevista ancora o debate técnico em uma voz respeitada da própria comunidade
científica.
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Luciano Floridi e os Ambientes “Smart”
O
filósofo ítalo-britânico observa uma inversão sutil: em vez de humanizar a
tecnologia, estamos adaptando o mundo (cidades, casas, carros) para que as
máquinas funcionem sem atritos. A consequência, ecoada por Roque, é o risco de
moldarmos a subjetividade humana à imagem do que a IA consegue processar com
mais eficiência.
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Ivana Bentes e a “Reprodutibilidade da Subjetividade”
A
professora e ensaísta brasileira atualiza o conceito de Walter Benjamin para a
era digital. Sua tese, debatida com Roque, sugere que a IA generativa não
replica apenas textos ou imagens, mas os padrões médios dos nossos desejos e
pensamentos capturados na internet — uma forma de reprodutibilidade técnica da
própria subjetividade.
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Karl Marx e a Invenção de Problemas
A
conhecida tese marxiana de que “a humanidade só se coloca os problemas que é
capaz de resolver” ganha uma leitura original. Para Roque, isso não significa
ter as soluções prontas, mas sim a capacidade de criar mundos onde novas
perguntas possam existir. É justamente essa potência de invenção que a IA,
treinada em dados do passado, não alcança.
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Singularidade
A
palavra foi capturada pelo otimismo tecnológico para designar um futuro ponto
de ultrapassagem da máquina sobre o humano. A entrevistada a resgata em seu
sentido filosófico original: a verdadeira singularidade é a capacidade humana
de ser imprevisível, de quebrar a estatística e imaginar o que ainda não
existe.
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Magnifica Humanitas
A
encíclica de Leão XIV, publicada em maio de 2026, investiga como preservar a
dignidade humana em uma economia regida por algoritmos. Embora não seja citada
diretamente na conversa, o documento pontifício e a fala de Roque dialogam como
duas vozes que, de margens distintas, se ocupam da mesma pergunta urgente.
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Trajetória Pública e Política da Professora e Vereadora Tatiana Roque
Uma
trajetória que transita entre a universidade e a gestão pública. Primeira
mulher a comandar a Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia do Rio de
Janeiro (2023-2024), expandiu as Naves do Conhecimento de 9 para mais de 40
equipamentos, criou o programa Jovem Cientista Carioca e o Prêmio Elisa Frota
Pessoa. Eleita vereadora em 2024, reassumiu a secretaria em 2025. Hoje, acumula
o mandato legislativo com a condição de pré-candidata a deputada federal pelo
PSB, sinalizando um projeto político que busca levar a pauta da ciência para o
centro do debate nacional.
Fonte:
Entrevista com Tatiana Roque, para IHU

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