segunda-feira, 1 de junho de 2026

Marcelo Zero: Primeiro Comando da Corja

O que aconteceu é muito sério. Pela primeira vez na história, o Brasil é acusado, de forma mentirosa, de abrigar “organizações terroristas estrangeiras.”

Uma aparente vitória do Primeiro Comando da Corja, organização de “patriotas” dedicada, com afinco, a atacar os interesses e a imagem do Brasil. Um pessoal que detesta soberania e adora a coleira da submissão. Normalmente, seus integrantes andam em 4 patas e não têm raça discernível.

Um tiro que, porém, pode sair pela culatra, pois sabe-se que essa singular e ambivalente organização teria recebido muito dinheiro de Vorcaro, sujeito que, segundo a Polícia Federal, possuía notórias ligações com facções criminosas e organizações agora tachadas de terroristas pelos EUA.

É preciso entender que as leis antiterrorismo dos EUA têm caráter extraterritorial. Isto é, elas permitem que os EUA promovam ações nos territórios de outros países, sem que isso passe, necessariamente, por mecanismos de cooperação.

Os EUA podem decidir fazer isso de forma inteiramente unilateral.

A Executive Order 13.224, publicada logo após o 11 de setembro de 2001, é especialmente rigorosa.

Entre as muitas coisas que os EUA estão facultados a fazer, segundo essas leis, estão o congelamento de ativos de instituições financeiras brasileiras, o congelamento de fundos soberanos, a proibição de operações financeiras, por parte de instituições brasileiras, usando o sistema internacional, novas sanções comerciais e econômicas, deportações, prisões, ações de inteligência no território de outro país, ações operativas clandestinas nos territórios de outros países, operações híbridas para desestabilizar governos que seriam supostamente ”negligentes” com o combate ao terrorismo etc.

Empresas, bancos, indivíduos, ONGs etc. podem entrar na dança macabra. Na Venezuela, até inocentes pescadores artesanais submergiram fatalmente na vala comum do terrorismo. Em Cuba, entraram médicos.

Em última instância, pode-se passar até mesmo o que aconteceu na Venezuela. Uma intervenção militar para sequestrar o Presidente da República e levá-lo a uma corte de justiça dos EUA, sob a alegação, mentirosa, de que tal Chefe de Estado seria um perigoso “narcoterrorista”.

Todo depende do ânimo político de gente extremamente reacionária, como Marco Rubio, por exemplo. Quem sabe uma intervenção na Baía de Guanabara, como sugeriu candidamente Flávio Bolsonaro.

Claro que o Brasil não é a Venezuela. Ademais, o nosso país vem cooperando ativamente, há muito, com os EUA, no combate ao crime organizado. Algo que o governo Lula leva muito a sério.

Mas esse é um argumento um tanto ingênuo.

A classificação de uma organização criminosa comum como “terrorista” obedece, normalmente, apenas a uma necessidade política de possuir instrumentos legais e desculpas jurídicas para fazer intervenções em países ou governos que não se alinham aos interesses da atual administração dos EUA. É simplesmente uma ferramenta geopolítica bastante útil.

Estamos em ano eleitoral. É óbvio que o governo Trump, ou sua parte mais ideológica, tentará favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro e criar, por outro lado, problemas para a candidatura de Lula.

Por isso mesmo, a extrema-direita brasileira, traindo os interesses do Brasil, vem, há tempos, buscando, de maneira desavergonhada, estabelecer uma associação esdrúxula entre o governo Lula e a criminalidade e o “narcoterrorismo”.

A este respeito, destaque-se que os governos do México e da Colômbia, ambos de esquerda, vêm sendo fortemente pressionados pelos EUA para concordarem com intervenções diretas do governo Trump em seus territórios, o que seria algo extremamente embaraçoso e deslegitimaria ambos os governos.

Repito que, se considerar necessário ou conveniente, o governo dos EUA assim o fará.

Ninguém sabe o que poderá acontecer no Brasil, depois dessa decisão.

Um primeiro objetivo, no entanto, foi alcançado: desviou-se, ao menos momentaneamente, a atenção da opinião pública do escândalo “Dark Horse”.

O segundo objetivo a ser alcançado será, paradoxalmente, o de dificultar a cooperação bilateral entre o Brasil e os EUA, na área da segurança pública, já que, agora, tal cooperação enfrentará a burocracia rígida da “segurança nacional”. Dificilmente conseguiremos informações úteis da CIA. Ficaremos mais inseguros.

Observe-se que tal decisão foi tomada sem justificativa técnica alguma, já que, de acordo com os próprios dados dos EUA, o PCC e o Comando Vermelho exportam drogas (principalmente cocaína) para a Europa e o Oeste da África. Quase nada chega aos EUA. Acusar o Brasil nessa área é, portanto, praticamente a mesma coisa que acusar o Canadá.

Na realidade, quem pode ser acusado de alguma coisa nessa área são os próprios EUA, que não controlam seus produtores de drogas e cujos fabricantes de armas fornecem mais de 75% dos armamentos usados por narcotraficantes latino-americanos.

Uma coisa é certa, porém, o principal prejudicado deverá ser o Brasil e sua economia.

O Primeiro Comando da Corja, corrupto e unido, por suas sabidas liaisons dangereuses, ao crime organizado e, portanto, ao narcoterrorismo, já demonstrou muito bem como gosta de prejudicar o País e o seu povo.

•        Sem desespero nessa hora. Por Ricardo Queiroz Pinheiro

Trump anunciou que vai considerar o Comando Vermelho e o PCC organizações terroristas. O pedido veio de Marco Rubio. O anúncio chegou dias depois de Flávio Bolsonaro ser recebido em Washington com frieza de Protocolo e um certo descaso.

Tem cheiro de jogo jogado, de teatrinho combinado? Terá reflexos na eleição brasileira? Talvez. Mas é bom não esquecer que o próprio Trump tem uma eleição esse ano que não está fácil pra ele.

Em primeiro lugar: é uma interferência pesada na soberania brasileira. Isso precisa ser dito com clareza, e a resposta do governo brasileiro precisa estar à altura. Classificar o crime organizado é uma atribuição do Estado brasileiro, não uma concessão que Washington tem autoridade para fazer. Quando o governo americano decide nomear organizações criminosas de outro país soberano, está exercendo uma prerrogativa que não é sua, e o nome disso, qualquer que seja a embalagem diplomática, é interferência.

E o eleitorado brasileiro sabe disso. A intervenção estrangeira nos assuntos internos do país historicamente produz rejeição, não adesão. Para a plateia da extrema direita, pode funcionar. No geral, Trump não está fazendo um favor ao bolsonarismo. Está provavelmente complicando a vida de quem foi até Washington e voltou de mãos vazias.

O reflexo que temo, ainda assim, é o da esquerda convertendo esse movimento em catástrofe, enterrando a recuperação de Lula nas pesquisas e apagando a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara debaixo de alarmismo e lamúrias nas redes que não ajudam em nada. É uma história que se repete.

Flávio Bolsonaro continua sendo o mesmo pulha, político com processos sérios, que Washington recebeu com distância. Um anúncio de Trump e Rubio não apaga esse dado.

Que a poeira baixe. O Brasil tem institucionalidade, tem diplomacia, tem política interna com lógica própria. E o nosso campo tem uma vitória, parcial, mas concreta na Câmara para defender.

Por favor, não ouçam os cavaleiros do Apocalipse de plantão. Essa notícia tem que gerar indignação, não medo.

Ergam a cabeça.

•        'Estão entregando a eleição de mão beijada'

Em um grupo de WhatsApp monitorado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma advogada de 29 anos de São Paulo diz que não se surpreendeu com o áudio enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Bolsonarista moderada, ela diz que tem a sensação de que todos são "farinha do mesmo saco". "Os apoiadores fiéis vão fingir que nada aconteceu, e por isso ele não deve desistir da candidatura", afirma.

"Essa notícia prejudicou a reputação dele; se alguém estava na dúvida sobre votar nele, acho que se inclina para não votar mais."

A avaliação da advogada resume um movimento identificado pelos pesquisadores após a crise que atingiu a campanha do pré-candidato à Presidência.

No dia 13 de maio, o portal The Intercept Brasil revelou áudios em que Flávio Bolsonaro negocia com Vorcaro investimentos para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo a reportagem, o repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.

Entre setores conservadores menos ideológicos, justamente um dos grupos considerados estratégicos para as eleições de 2026, a revelação provocou um desgaste relevante na imagem de Flávio Bolsonaro, segundo o Monitor do Debate Público (MDP).

O projeto do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ, com o auxílio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/ReDem), mostra que bolsonaristas convictos mantiveram apoio a Flávio e interpretaram o episódio como perseguição política e midiática.

Mas, entre grupos de bolsonaristas moderados e, principalmente, entre conservadores indecisos, apareceram críticas às versões apresentadas pelo senador, dúvidas sobre sua credibilidade e sinais de cansaço com a política.

Os pesquisadores da UERJ acompanham, desde 2023, grupos de WhatsApp formados por diferentes perfis de eleitores.

Atualmente, o estudo monitora seis segmentos, identificados pelos pesquisadores como bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas.

Os participantes, que recebem semanalmente perguntas sobre fatos recentes da política brasileira, receberam o áudio de Flávio Bolsonaro e foram estimulados a comentar o episódio e avaliar os impactos eleitorais.

<><> 'A direita deve ficar junta'

A cientista política Carolina de Paula, que coordena o estudo com o pesquisador João Feres Jr., afirma que o episódio foi um dos raros momentos em que surgiram divergências dentro de segmentos conservadores, que costumam estar alinhados.

"O que é interessante é que os bolsonaristas moderados tendem a trabalhar junto com os convictos, de modo geral. Mas houve um certo desgaste no sentido de falar que a credibilidade dele [Flávio Bolsonaro] poderia estar em jogo", disse à BBC News Brasil.

Segundo ela, os bolsonaristas mais fiéis permaneceram alinhados ao pré-candidato do PL, mas com uma diferença importante em relação a crises anteriores.

"Eles não se abalam, zero. Mas aparece uma coisa que a gente ainda não tinha visto muito nesse grupo: uma ideia de que ele precisa provar sua inocência", afirmou a pesquisadora.

Uma administradora de 47 anos da Bahia defendeu essa posição. Mesmo mantendo o apoio ao senador, ela afirmou que ele deveria apresentar mais esclarecimentos.

"Flávio precisa apresentar toda documentação desse patrocínio com a comprovação de origem e destinação de cada centavo se não quiser comprometer sua campanha eleitoral", escreveu.

"Tenho certeza que o capitão teria tomado essa decisão de recusar qualquer quantia", afirma, em referência ao ex-presidente Bolsonaro.

Os participantes desse grupo também interpretaram o caso como uma tentativa de desgaste político articulada pela mídia e adversários. Muitos deslocaram o foco do conteúdo das denúncias para ataques à imprensa.

"Para começo de conversa, o que a gente ouve ali é uma conversa sobre buscar patrocínio privado para um filme", escreveu uma enfermeira de 24 anos, de Goiás, integrante do grupo de bolsonaristas convictos.

"Todos nós sabemos que em período eleitoral, qualquer conversa ou áudio antigo é jogado na imprensa com o único objetivo de desgastar a imagem do candidato", concluiu.

Entre bolsonaristas moderados, predominou um discurso mais ambivalente. Os participantes, por exemplo, criticaram bastante as mudanças de versões de Flávio.

Na semana passada, ao ser abordado por um repórter do The Intercept Brasil, o senador inicialmente negou a informação sobre os repasses ao filme Dark Horse. Horas depois, após a publicação da reportagem, ele admitiu ter negociado recursos privados com Vorcaro para financiar a produção.

Um pensionista de 72 anos, do Rio de Janeiro, afirmou que o senador estava "começando a se enrolar nas próprias alegações". "Isso só vai minando a credibilidade dele e a imagem que ele não tinha envolvimento com Vorcaro", escreveu.

Mas, por outro lado, o grupo demonstrou preocupação com os impactos eleitorais para a direita.

Um eletrotécnico de 53 anos do Rio Grande do Norte disse que a direita estava "entregando de mão beijada a eleição para o atual sistema". "E continuarmos nessa doutrinação maligna, até o Brasil afundar de vez e levar o povo brasileiro junto", disse.

"Mas na atual conjuntura, mesmo errados, a direita deve ficar junta e não partida ao meio. Lá na frente isso só vai lascar o povo brasileiro", ele ponderou.

O grupo dos bolsonaristas moderados mostrou resistência a abandonar a candidatura de Flávio por receio de enfraquecer a direita diante do PT, analisa Carolina de Paula.

"É um grupo muito mais preocupado com a preservação do campo conservador. Tem um antipetismo muito forte nesse segmento. Então, como eles ainda não veem possibilidade de outro nome forte, ainda existe o apoio a Flávio Bolsonaro."

<><> 'Não confio em ninguém dessa família'

Segundo a pesquisadora, o segmento mais sensível ao episódio foi o dos indecisos, grupo visto como estratégico no próximo pleito eleitoral.

"Há muita desconfiança", resumiu Carolina. "Eles questionam a contradição, veem incoerência e problemas na relação entre política e empresariado. É um público que pode simplesmente se afastar, aumentar a abstenção e o cansaço com a política", afirma.

Entre os conservadores, houve estranhamento e irritação com a ligação do senador com o banqueiro.

Uma maquiadora de 30 anos, do Rio de Janeiro, notou a mudança das versões dadas por Flávio. "Interessante, ele confirma que recebeu o valor, e a produtora do filme nega esse recebimento. Talvez pra não 'sujar' a imagem da empresa estejam negando assim", disse ela, que participa do grupo de indecisos conservadores.

"Não confio em ninguém dessa família."

Já entre os indecisos progressistas, a reação foi diferente. Nesse segmento, o caso não gerou exatamente surpresa, mas funcionou como reforço de percepções negativas já existentes sobre o bolsonarismo.

O grupo também mostrou rejeição ao próprio filme sobre Jair Bolsonaro, interpretado como instrumento de propaganda política.

"O que pega muito para eles é essa ideia de usar um filme para convencer ou enganar", disse Carolina de Paula. "Tudo que eles veem como tentativa de propaganda política gera muita irritação."

<><> Episódio rompe com a polarização?

Para a pesquisadora, o desgaste entre os indecisos não significa necessariamente migração de votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou para a esquerda.

Ela afirma que o episódio pode aumentar o distanciamento em relação à política institucional, estimulando abstenção, voto em branco ou busca por alternativas dentro da própria direita.

Carolina enxerga que o episódio pode abrir espaço para candidaturas que consigam capturar esse eleitorado mais moderado e cansado da polarização.

"A posição do [Romeu] Zema foi acertada para tentar pegar justamente esse público do meio, que fala muito de transparência e coerência", disse a pesquisadora, mencionando as críticas feitas pelo ex-governador de Minas Gerais ao caso.

Zema classificou como "imperdoável" a conversa em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro — manifestação que o tornou alvo de críticas por parte da direita. Dias depois, disse que o assunto era "página virada".

Ainda assim, ela afirma que ainda é cedo para afirmar quem poderia capitalizar eleitoralmente o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro.

Carolina também não enxerga, por enquanto, um rompimento na lógica de polarização.

Até aqui, o cenário de um segundo turno entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para as eleições de 2026.

O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair Bolsonaro e o petista em um eventual segundo turno. Para isso, você tem que ter uma pessoa que arrisque uma outra saída. Mas a gente não tem nenhum nome", disse. "Mesmo quem tenta um discurso outsider, como Renan Santos ou Zema, está muito ligado ao campo do bolsonarismo."

Para que o eleitor saia da polarização, ela afirma, algum candidato teria que tentar ocupar uma posição associada à moderação e à coerência.

Os pesquisadores ressaltam que o monitoramento não tem valor estatístico e não pretende representar numericamente o eleitorado brasileiro. É uma pesquisa qualitativa, usada para captar sentimentos, percepções e dinâmicas discursivas entre perfis específicos de eleitores.

"São pesquisas que não exigem um registro do TSE para serem divulgadas e são usadas para fazer aprofundamento. As campanhas eleitorais usam muito também", afirma.

"A qualitativa funciona muito como um termômetro rápido. Ela permite captar ruídos, emoções e mudanças de clima político antes mesmo de isso aparecer nas pesquisas quantitativas."

A pesquisadora explica que a pesquisa é feita com recorte de um perfil específico, desenhado para entender esse perfil de eleitor. "Ela é uma parte da leitura do cenário", diz. "A partir dessas inferências, podemos acompanhar como isso se reflete em dados quantitativos ou mesmo nas redes sociais."

A percepção da crise para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro apareceu também nos dados quantitativos divulgados nesta terça-feira (19/5) pela AtlasIntel.

Segundo levantamento encomendado pela Bloomberg, Lula abriu sete pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, na primeira pesquisa realizada após a divulgação dos áudios envolvendo Vorcaro.

Flávio caiu seis pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, enquanto sua rejeição subiu para 52%.

A AtlasIntel mostrou ainda que 55% dos entrevistados que tomaram conhecimento dos áudios consideraram as mensagens uma evidência de investigação legítima sobre possíveis irregularidades, enquanto 33% avaliaram tratar-se de uma tentativa de prejudicar o senador.

 

Fonte: Viomundo/Outras Palavras/BBC News Brasil

 

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