Quando
a classe trabalhadora volta a mover a história
A
aprovação, pela Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC
221/19) que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de trabalho de 44
para 40 horas representa uma das mais importantes vitórias recentes da classe
trabalhadora brasileira desde a Constituição de 1988. A proposta foi aprovada
em dois turnos, alcançando 461 votos favoráveis e apenas 19 contrários no
segundo turno, o que expressa o impacto da pressão social construída ao longo
dos últimos anos em torno da pauta da redução da jornada de trabalho.
A
conquista ocorre em um período marcado pela ofensiva neoliberal, pela
precarização do trabalho e pelo avanço de políticas antitrabalhistas que, desde
o golpe de 2016, alteraram profundamente as relações entre capital e trabalho
no Brasil. A reforma trabalhista do governo Temer, a ampliação irrestrita da
terceirização, o avanço do trabalho intermitente, a expansão da uberização e a
consolidação de políticas de austeridade aprofundaram a degradação das
condições de vida da classe trabalhadora, ampliando a insegurança social,
enfraquecendo formas coletivas de organização e intensificando a exploração do
trabalho.
Nesse
contexto, a escala 6×1 consolidou-se como uma das expressões mais violentas da
exploração capitalista na atualidade. Mais do que uma forma de administrar a
jornada, ela passou a operar como mecanismo de controle sobre o próprio tempo
de vida da classe trabalhadora.
Desde a
consolidação do capitalismo industrial, a disputa em torno da jornada de
trabalho sempre ocupou posição central na luta de classes. A consolidação do
capitalismo exigiu não apenas a exploração da força de trabalho, mas também a
disciplina do tempo e a reorganização dos ritmos da vida social segundo as
exigências da produção e da acumulação do capital. A escala 6×1 expressa
precisamente essa lógica de dominação capitalista sobre o tempo e a vida da
classe trabalhadora.
Ao
reduzir drasticamente o tempo livre, comprimir os momentos de descanso e
dificultar a convivência familiar, afetiva, comunitária e política, ela
transforma o cotidiano em uma experiência permanente de exaustão. O problema
não se limita ao excesso de trabalho, mas envolve a própria captura do tempo
necessário à reprodução social da vida social e à própria possibilidade de
viver para além do trabalho.
Essa
dinâmica afeta de maneira particularmente intensa mulheres, população negra,
juventude periférica e pessoas LGBTIA+, amplamente concentradas nos setores
mais precarizados do mercado de trabalho brasileiro, especialmente no comércio
e nos serviços. Para as mulheres trabalhadoras, submetidas historicamente à
dupla jornada entre trabalho assalariado e trabalho doméstico e de cuidado não
remunerado, a escala 6×1 aprofunda a sobrecarga física e emocional associada à
reprodução cotidiana da vida social. Já a população negra, majoritariamente
inserida em ocupações de baixa remuneração e elevada rotatividade, experimenta
de forma ainda mais aguda os efeitos da intensificação da exploração e da
redução do tempo disponível para descanso, formação e convivência social.
Ao
mesmo tempo, a compressão permanente do tempo de vida dificulta processos de
organização coletiva, participação política e construção de vínculos
comunitários duradouros. A exaustão converte-se, assim, em mecanismo de
dominação social. Trabalhadores submetidos a jornadas extensas e rotinas
marcadas pelo desgaste contínuo possuem menos condições materiais e subjetivas
de participar de sindicatos, movimentos sociais, organizações populares ou
espaços coletivos de elaboração política.
A luta
contra a escala 6×1 rompeu parcialmente essa dinâmica ao transformar uma
experiência cotidiana de sofrimento individual em uma questão política
coletiva. Nesse sentido, é tarefa da esquerda socialista e do campo popular
demonstrar que o desgaste físico, o adoecimento mental, a falta de tempo para
viver e a impossibilidade de planejar a própria vida não representam fracassos
individuais, mas devem ser reconhecidos como expressão de uma forma social de
exploração capitalista.
Nesse
processo, o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado por Rick Azevedo, e
a iniciativa do Plebiscito Popular em defesa da redução da jornada, do fim da
escala 6×1 e da revisão do Imposto de Renda desempenharam papel importante na
reorganização da mobilização social em torno da pauta trabalhista. A
mobilização recolocou no centro do debate público uma questão historicamente
fundamental para a luta de classes: a disputa pelo tempo.
Mais do
que uma alteração legislativa, a aprovação do fim da escala 6×1 representa uma
ruptura parcial em um longo período de derrotas defensivas acumuladas pela
classe trabalhadora brasileira. Em um cenário marcado pela fragmentação social,
pela precarização da vida e pelo avanço da extrema direita, a conquista
demonstra que a mobilização coletiva continua sendo capaz de alterar a
correlação política de forças e impor limites, ainda que parciais, à ofensiva
do capital.
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Apenas a luta reorganiza a consciência e a confiança da classe
A luta
contra a escala 6×1 mobilizou milhões de trabalhadores que passaram a
reconhecer que o desgaste permanente, o adoecimento, a ausência de tempo livre
e a impossibilidade de viver para além do trabalho não eram resultado de
fracassos individuais, mas expressões concretas de uma forma social de
exploração organizada em torno da intensificação permanente do trabalho e da
compressão do tempo livre.
Esse
processo possui enorme relevância política em uma conjuntura marcada pela
fragmentação social, pela precarização das relações de trabalho e pela crise
das formas tradicionais de organização coletiva. Durante décadas, o
neoliberalismo operou não apenas como política econômica, mas como forma de
reorganização subjetiva da vida social. A individualização da sobrevivência, a
lógica meritocrática, a concorrência permanente entre trabalhadores e a
responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso social contribuíram para
enfraquecer vínculos coletivos e dificultar a construção de formas duradouras
de solidariedade de classe.
Nesse
contexto, a luta contra a escala 6×1 produziu um deslocamento importante no
imaginário político contemporâneo. Ao nomear a exaustão cotidiana como problema
coletivo e socialmente produzido, a mobilização rompeu parcialmente o
isolamento competitivo que caracteriza o neoliberalismo e recolocou em
circulação experiências compartilhadas de identificação coletiva. A pauta da
redução da jornada permitiu que trabalhadores submetidos a formas fragmentadas
e individualizadas de exploração – no comércio, nos serviços, na logística, nos
aplicativos e em outras atividades precarizadas – passassem a reconhecer
elementos comuns em suas experiências concretas de vida e trabalho.
Mais do
que uma reivindicação econômica, a mobilização recolocou a disputa pelo tempo
como dimensão central da luta de classes contemporânea. A escala 6×1 não
restringe apenas o descanso. Ela limita concretamente as possibilidades de
convivência familiar, participação política, formação, lazer, sociabilidade e
organização coletiva. Em outras palavras, trata-se de uma forma de controle
social do tempo e da vida.
Nesse
sentido, a reivindicação por “vida além do trabalho” adquire profundo
significado político. Parafraseando Lênin1 (no texto “Em memória da Comuna”,
publicado pela Boitempo em Democracia e luta de classes, p. 188), pode-se dizer
que, na sociedade atual, trabalhadoras e trabalhadores, economicamente
escravizados pelo capital, não podem dominar politicamente e viver uma vida
digna se não quebrarem as correntes que os prendem ao capital. A luta pela
redução da jornada aparece, assim, também como uma luta pelas condições
materiais necessárias à organização política da classe trabalhadora.
Esse
elemento ajuda a compreender por que a mobilização em torno da escala 6×1
assumiu dimensão tão ampla. Ela não expressa apenas insatisfação econômica
imediata, mas uma reação social mais profunda contra um modelo de vida baseado
na exaustão permanente, na insegurança e na captura integral do tempo pelo
trabalho. Em um contexto marcado pelo adoecimento psíquico, pelo endividamento
e pela deterioração das condições de reprodução social, a luta pela redução da
jornada tornou-se também uma disputa em torno da própria possibilidade de
viver.
Ao
mesmo tempo, a aprovação da PEC demonstra que mesmo em uma conjuntura
predominantemente defensiva é possível construir contra-ataques parciais
capazes de alterar a correlação política de forças. Esse talvez seja um dos
elementos mais importantes da experiência recente. Após mais de uma década
marcada por derrotas acumuladas, reformas regressivas e retração das lutas
sociais, a vitória contra a escala 6×1 tem condições de recolocar em circulação
a ideia de que a mobilização coletiva ainda pode produzir conquistas concretas.
Trata-se
de um elemento estratégico decisivo. Em períodos de defensiva prolongada, um
dos principais objetivos das classes dominantes consiste justamente em destruir
a confiança política da classe trabalhadora em sua própria capacidade de ação
histórica. A fragmentação do trabalho, o enfraquecimento sindical, a
precarização da vida e a ascensão da extrema direita contribuíram para
aprofundar sentimentos de impotência, medo e resignação social. Nesse cenário,
vitórias parciais adquirem importância que ultrapassa seu conteúdo imediato,
pois reabrem horizontes de possibilidade e ajudam a reconstruir disposições
coletivas de luta.
A
experiência da luta contra a escala 6×1 evidencia, assim, que a disputa
política não ocorre apenas no plano institucional ou econômico, mas também no
terreno do imaginário social e da produção de sentido. A mobilização foi capaz
de romper parcialmente a naturalização da superexploração e de questionar a
ideia de que jornadas exaustivas seriam inevitáveis ou “normais”. Ao fazê-lo,
recolocou em movimento algo fundamental para qualquer projeto de transformação
social: a reconstrução da confiança coletiva na capacidade de luta
transformadora da classe trabalhadora.
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A classe trabalhadora não desapareceu: o desafio de transformar vitória em
organização
Ao
mesmo tempo, a luta contra a escala 6×1 revelou a atualidade da classe
trabalhadora contemporânea. Ao contrário das formulações que anunciaram seu
desaparecimento político, a mobilização demonstrou que a centralidade do
trabalho permanece estruturando profundamente a vida social brasileira, ainda
que sob formas distintas daquelas associadas ao operariado industrial clássico
– como defende Ricardo Antunes em O privilégio da servidão.
A
classe trabalhadora contemporânea reorganiza-se em meio à expansão do setor de
serviços, da logística, do trabalho terceirizado, das plataformas digitais e
das múltiplas formas de trabalho precarizado que marcam o capitalismo atual.
Trata-se de uma classe heterogênea, atravessada por diferentes formas de
inserção produtiva, mas unificada pela experiência comum da exploração, da
insegurança social e da intensificação do trabalho.
No
Brasil, essa realidade assume características ainda mais profundas em razão da
formação histórica do país. Mulheres, população negra, pessoas LGBTIA+,
trabalhadores periféricos e setores historicamente submetidos à informalidade e
à superexploração ocupam posição central nas atividades mais atingidas pela
lógica da jornada 6×1. A luta pela redução da jornada expressa, portanto, não é
apenas um conflito econômico, mas também uma disputa em torno das formas
concretas de reprodução da vida social em uma sociedade marcada pelo racismo
estrutural, pelas desigualdades de gênero e pela precarização permanente das
condições de existência.
Nesse
sentido, a vitória obtida na Câmara possui um significado que ultrapassa a
própria mudança legislativa. Ela indica a possibilidade de reconstrução parcial
de experiências coletivas em um contexto historicamente marcado pela
fragmentação social. O Movimento VAT, o Plebiscito Popular e as diversas formas
de mobilização que emergiram em torno da pauta demonstraram que ainda existe
enorme potencial de organização entre setores frequentemente considerados
“desorganizados” ou “despolitizados” da classe trabalhadora brasileira.
Entretanto, a própria experiência recente também evidencia os limites de
mobilizações que não conseguem consolidar formas mais permanentes de
organização política. A história das lutas sociais demonstra que conquistas
parciais, embora fundamentais, não se sustentam automaticamente. Sem
continuidade organizativa, formação política e capacidade de articulação
estratégica, mesmo vitórias importantes tendem a ser parcialmente absorvidas,
limitadas ou revertidas pelas classes dominantes.
É
justamente nesse terreno que a questão da organização política volta a adquirir
centralidade estratégica. A luta contra a escala 6×1 demonstrou a capacidade de
mobilização social, mas também revelou a necessidade de construir instrumentos
políticos com condições de garantir a continuidade organizativa, direção
política e horizonte estratégico para as lutas da classe trabalhadora.
Isso
implica reconstruir formas duradouras de enraizamento social – nos locais de
trabalho, nos territórios, nos movimentos populares e nas diversas experiências
concretas de vida da classe trabalhadora contemporânea. Implica também superar
a falsa separação entre luta econômica e luta política, compreendendo que
disputas aparentemente “imediatas”, como a redução da jornada de trabalho,
podem assumir papel estratégico na reconstrução da consciência coletiva e na
reorganização das relações de força entre as classes sociais.
Nesse
processo, o partido reaparece não como aparato burocrático externo às lutas
sociais, mas como forma ampla de organização política capaz de articular
experiências dispersas, acumular forças, elaborar estratégia e construir
unidade entre diferentes setores da classe trabalhadora. Mais do que
instrumento eleitoral, trata-se de uma mediação política fundamental para
transformar mobilizações fragmentadas em projeto histórico organizado, se
acompanharmos reflexões como as de Jodi Dean.
A
principal vitória da luta contra a escala 6×1 talvez não resida apenas na
redução da jornada de trabalho ou na derrota parlamentar imposta ao capital.
Seu significado político mais profundo está exatamente na reconstrução parcial
da ideia de que a ação coletiva ainda pode alterar as relações de força na
sociedade. Em outras palavras, em uma época marcada pela precarização da vida,
pela fragmentação social e pelo avanço da extrema direita, a luta recolocou em
movimento uma ideia simples, mas profundamente subversiva: quando a classe
trabalhadora se organiza, ela continua sendo capaz de mover a história.
O
desafio estratégico que se abre agora para a esquerda socialista e o campo
popular consiste justamente em não apenas responder defensivamente às
determinações político-sociais da atual conjuntura, mas em intervir na
realidade social de modo a produzir deslocamentos concretos na luta de classes,
acumulando forças por meio de vitórias parciais e reorganizando a confiança
coletiva da classe trabalhadora em sua própria capacidade de transformação
histórica.
Fonte:
Por Ederson Duda, no Blog da Boitempo

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