Bruno
Hendler: Do sionismo liberal ao antissionismo
Na
parte dois dessa série de ensaios apresento a trajetória pessoal em que passei
do sionismo liberal ao antissionismo. Duas fases da minha vida são importantes
aqui: a do sionista liberal não praticante e, depois, a do não sionista e
crítico de Israel. Ainda tenho dificuldade em superar a barreira de me
identificar como antissionista, mas explico isso mais adiante. A fase de
sionista liberal, entre meus 20 e 30 anos, já foi abordada. Israel tornou-se
cada vez menos importante na minha vida, eu já divergia de amigos judeus em
muitos pontos, mas fora desse círculo ainda fazia a linha do “veja bem, Israel
também precisa se defender e está cercado de inimigos”. Ali começou o meu limbo
de identidade: não me encaixava na visão judaica predominante, mas o microcosmo
das Relações Internacionais era mais crítico a Israel do que eu. Ainda ressoava
em mim o mantra de que os críticos de Israel eram, no fundo, antissemitas,
embora eu concordasse com boa parte dos seus argumentos.
Quando
morei no Rio de Janeiro em função do doutorado no PEPI-UFRJ (nos idos de 2015 e
2016) passei a frequentar o Hillel, que é uma espécie de centro cultural para a
juventude judaica com pitadas nada modestas de sionismo. Ainda assim, assisti a
palestras, me conectei com pessoas interessantes e vi que a judaicidade ia
muito além de Israel. Inclusive, aprendi muito sobre a história judaica no Rio,
suas várias sinagogas, a mistura de sefaradim e ashkenazim e descobri
instituições progressistas como a Associação Sholem Aleichem (a ASA). Enfim,
uma variedade cultural e ideológica inédita para quem vinha de Curitiba.
Talvez
a eleição de Bolsonaro em 2018 tenha sido o gatilho para o meu salto
antissionista. Eu estava com 31 anos, recém-empossado como professor de RI na
UFSM e via a maior parte das instituições judaicas do Brasil se dobrarem à
extrema-direita, pois Bolsonaro era “amigo de Israel”, havia vários judeus no
seu governo e ele recebera Netanyahu com altas honrarias diplomáticas. As
barbaridades que Israel aplicava na população civil palestina agora serviam de
inspiração para o novo governo brasileiro: punitivismo, fanatismo religioso,
militarização da sociedade, caça às bruxas ideológica e perseguição a minorias.
Mais do que isso, no Brasil se via vocabulário e ideias nazistas no próprio
slogan do governo: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Era o Deutschland
uber ales dos trópicos. E essas ideias não ficaram apenas no papel. Durante a
pandemia houve o uso de idosos como cobaias para o kit covid (caso da Prevent
Senior) e a negligência dolosa na proteção de povos indígenas que culminou na
acusação de genocídio, além da militarização do governo, da guerra contra as
universidades federais e outras coisas assombrosas.
Eu
ouvia de parentes que haviam perdido entes queridos para a covid o argumento de
que votaram em Bolsonaro não apenas em 2018, mas também em 2022, por conta da
proximidade com Israel. Eu só conseguia pensar: como é possível a pessoa votar
duas vezes em Bolsonaro mesmo depois de perder um ente querido em decorrência
da gestão criminosa da pandemia? Mais do que indignado, fiquei embasbacado ao
ver que nem a morte de um familiar abalava a identidade construída ao longo da
vida. Detalhe: o falecido se recusara a tomar a vacina em função da orientação
do presidente.
O fato
de as instituições judaicas não se oporem a um Bolsonaro amigo de Israel e dos
judeus, mas inimigo de outras minorias, me embrulhou o estômago. Ali ficava
claro que o nunca mais em referência ao Holocausto servia apenas para os
judeus, não era a defesa de um nunca mais para outras minorias. Isso porque, no
Brasil, os judeus foram “embranquecidos” e deixaram de ser alvo preferencial da
perseguição do Estado. Há ilustres e honrosas exceções ao abraço entre a
comunidade judaica e a extrema-direita, principalmente entre intelectuais,
artistas e pessoas progressistas em geral. Mas, grosso modo, a rua judaica via
Bolsonaro como a alternativa menos pior em relação a Lula por conta de sua
política externa supostamente antissemita disfarçada de pró-Palestina.
Passei
a me posicionar contra Bolsonaro e sua aliança simbólica e material com Israel.
Não fui muito ativo nas redes sociais e este não é meu tema de pesquisa, mas
era nítido que a necropolítica israelense inspirava o governo e a sociedade no
Brasil. De vez em quando eu postava no Instagram uma ou outra crítica a esses
governos, sem muito impacto ou alarde.
Aí veio
o ataque brutal do Hamas em 2023 e o subsequente massacre perpetrado por
Israel. Ao acompanhar as notícias, eu me sentia com lugar de fala para criticar
a destruição de Gaza, já que muitos intelectuais se autocensuravam com medo da
pecha de antissemitas. Meu ativismo limitou-se a stories de Instagram,
discussões com familiares e amigos – pessoalmente e em grupos de whatsapp – e
manifestações de rua. Não embarquei nas flotilhas, não doei dinheiro para
organizações humanitárias, não protestei em frente à embaixada de Israel e não
discursei em eventos políticos. Somente em 2025 postei uma série de vídeos no
Instagram, que duram uns 40 minutos no total, expondo a minha visão sobre o
conflito. Ali coloquei para fora dois anos de densas leituras e centenas de
horas de podcasts ouvidos. Enfim, um ativismo de sofá, eu sei. Mas era o que
cabia dentro da angústia de ver, de longe e impotente, um genocídio ser
perpetrado por um país que falava em nome da minha tribo.
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Ruptura de relações pessoais
O que
mais gerou polêmica e hostilidade contra mim e minha militância de sofá foi uma
foto em que eu segurava a bandeira da Palestina em uma manifestação de rua. No
post eu escrevi algo como “se meus avós sobreviventes do Holocausto estivessem
vivos, teriam orgulho de mim porque eles saberiam reconhecer um genocídio”.
Entendo que essa postagem foi ofensiva para judeus em vários níveis: i) era um
judeu com bandeira da Palestina; ii) que fazia menção ao totem sagrado do
Holocausto, cometendo a blasfêmia de compará-lo a outro genocídio e tirando-o
do pedestal de sua singularidade; e iii) quem está cometendo o genocídio é
ninguém menos do que o país criado por e para sobreviventes da Shoá.
Soube
que essa foto circulou em grupos de whatsapp de conhecidos de Curitiba, de
outros lugares e da minha família. Xingamentos abundaram. Também recebi
ameaças. Discuti em grupo de família, fui excluído por um parente próximo, que
também me bloqueou de seus contatos. Meus pais, temendo por minha segurança, me
aconselharam a não me manifestar, ainda mais agora que eu estava prestes a me
tornar pai. Em suma, a hostilidade a mim não veio da esquerda nem da direita,
mas de membros radicalizados da minha própria tribo. Ou melhor, da minha tribo,
que estava radicalizada.
Ao
longo desses anos vi e ouvi argumentos absurdos para me fazer mudar de ideia.
Um exemplo: fui muito feliz como professor na UFSM, mas eu queria voltar a
morar em uma cidade grande e fiz concursos para outras universidades federais.
Eu era o primeiro da lista de espera em concursos na UFRGS e na UnB, mas a vaga
não abria e o prazo estava se esgotando. Um parente próximo atribuía isso a um
antissemitismo velado, pois as altas cúpulas do poder não queriam me ver em
Brasília ou em Porto Alegre. Você escuta uma coisa dessas e pensa: quão
delirante e paranoico é isso? Quão importante eu ou a minha origem somos a
ponto de haver um complô para me manter em uma cidade distante? No fim das
contas, fui chamado para uma vaga na UFRGS e cá estou, feliz e realizado.
Outro
exemplo: fui visitar um amigo que acabara de ser pai. Visita amena, papo
furado. Até que na despedida ele disse: “acho uma vergonha que você, como
intelectual, não tenha se posicionado a favor de Israel”. Eu disse que estava
lá para conhecer o seu filho e que aquele não era o momento de falar disso. Mas
o tom de traição à tribo foi evidente.
Nas
manifestações esporádicas pelo Instagram em favor da Palestina ou contra a ação
de Israel em Gaza eu recebia algumas mensagens de conhecidos judeus. A maior
parte resultou em conversas civilizadas apesar de divergências cruciais que
acentuavam a sensação de solidão. Mas em grupos de whatsapp a coisa era
diferente. Em um com três amigos de infância o tom era de que a guerra é ruim,
mas necessária em face ao ataque do Hamas; e eu era conclamado, a todo momento,
a comentar algum tipo de maldade cometida contra judeus ou contra Israel. O
mantra, repetido por quase todos os judeus que conheço, inclusive ali no grupo,
é que Israel estava em paz e foi atacado primeiro. Também circulava o
famigerado mapa do Oriente Médio dizendo que os palestinos têm dezenas de
países para onde ir e que os judeus só têm Israel – como se o Brasil invadisse
o Uruguai e dissesse que os uruguaios poderiam se mudar para a Argentina porque
falam espanhol e têm fortes laços culturais. O esforço que exauria minhas
energias era o de dizer que isso tudo não começou no sete de outubro e que,
como diz a música do Rappa, paz sem voz não é paz, é medo.
Também
participei de um grupo de whatsapp com judeus ditos progressistas
majoritariamente de Porto Alegre, mas também de outros lugares do país. Pessoas
estudadas que conversavam sobre antissemitismo, antissionismo e a guerra em
Gaza. Até mesmo nessa bolha do sionismo de esquerda, para cada mensagem de
crítica à direita surgiam dez mensagens de crítica à esquerda. Uma pesquisadora
de antissemitismo chegou a atribuir a Lula a pecha de antissemita por
supostamente fazer referência ao libelo de sangue medieval quando disse que
Israel estava matando crianças. Ora, o fato é que Israel estava matando
crianças de forma sistemática, ao vivo e a cores, e denunciar isso não torna
ninguém antissemita. Um comentário (do perfil de Luis Kras, que desconheço) na
página do Coletivo Golem Brasil sobre a preferência do progressismo judaico em
atacar a esquerda merece a seguinte citação direta:
Dos 91
posts do coletivo, 25 são contra a esquerda, destes 15 nominalmente no card de
abertura, outros 12 são contra movimentos “ditatoriais”, 4 são contra a direita
e apenas 2 a favor da esquerda na figura de Vladimir Herzog. Sobre outras
ditaduras apoiadas pelos EUA: zero. Sobre genoc!d!os em curso no mundo: zero.
Sobre casos de Antissemitismo na direita: zero. Sobre células nas!fascistas no
Brasil e no mundo: zero. O estranho mundo do progressismo judaico. De resto,
sim, existe Antissemitismo na esquerda. Assim como na direita e no centro. Mas
não pode ser usado como aríete para defender a máfia que governa Israel.
Continuarei fazendo a estatística da tendenciosa abordagem do coletivo, assim
como várias outras figuras que só cobram coerência e valores da esquerda.
Aguentei
uns três meses no grupo dos ditos progressistas depois de perceber que estava
dando murro em ponta de faca. O peixe fora d´água ali era eu.
Essa
dissonância cognitiva entre valores humanitários e identidade judaica batia
cada vez mais forte em mim. Para um dos entrevistados de Bento (2025, p. 151)
há padrões nesse momento inicial, uma sensação de estar perdido ou de não saber
o que fazer, de achar que tem algo de errado consigo e não entender, de
solidão. Em seguida, a pessoa detalha o doloroso processo de descoberta que
carrega, em si, uma escolha entre investigar o que Israel faz e destruir sua
identidade, ou fingir que isso não está aí e manter-se dentro da sua bolha:
Eu acho
que muita gente faz um momento de escolha, começa a perceber que, se vai
mergulhar nisso, nesse processo de descoberta, vai ruir tudo. Então tem gente
que para ali e faz uma escolha assim: “ou eu mergulho ou não mergulho nisso. Eu
finjo que não vou olhar para isso daí”, que suprime uma consciência que tem ali
alguma coisa que está profundamente deslocada dos próprios valores. Eu nomeei
isso, na minha pesquisa, como uma escolha que a pessoa precisa fazer: ou ela
abandona os valores e se apega à identidade ou ela abandona a identidade e se
apega aos seus valores, porque muitas dessas pessoas vão viver uma dissonância
cognitiva (BENTO, 2025, p. 151).
Existe
um modus operandi da hasbará, o nome da diplomacia pública de Israel que
significa, literalmente, explicação. A sequência é a seguinte: 1. Algum tipo de
violência ou atrocidade é cometido pelo Estado ou por cidadãos de Israel; 2.
Surge uma comoção na opinião pública sobre o fato, culminando em críticas
legítimas; 3. Uma fração ínfima das críticas usa vocabulário antissemita; 4.
Pessoas e instituições judaicas e de Israel usam desta fração para deslegitimar
as críticas e deslocam o eixo do debate para o antissemitismo, ofuscando a
violência inicial ligada a Israel.
Exemplo
disso é o caso dos torcedores do Maccabi Tel-Aviv que viajaram a Amsterdã para
acompanhar um jogo da Liga Europa contra o Ajax em 2024. Na véspera do jogo os
visitantes tocaram o terror na cidade, agrediram pessoas, depredaram
propriedades e entoaram cânticos de morte aos árabes e de celebração da
destruição de Gaza. Após a partida houve respostas violentas com perseguições
aos israelenses e brigas de rua. Dentro dessa retaliação foram vistas
referências antissemitas em cânticos, por exemplo. Em seguida, pessoas e
instituições judaicas passaram a denunciar um suposto antissemitismo na Holanda
como se hooligans israelenses fossem inocentes – deslocando o eixo do debate e
ofuscando o vandalismo inicial dos estrangeiros. Com isso, é ativado o dispositivo
sionista do medo da “ameaça islâmica” que supostamente ronda a Europa e que
torna insegura a vida dos judeus por lá. O terror inicial causado por
torcedores que flertam abertamente com o fascismo se torna um detalhe perto da
ameaçadora conquista da Europa por hordas muçulmanas bárbaras e antissemitas e
Israel surge no horizonte como o destino seguro para judeus europeus.
Foi
nesse contexto que me decepcionei até com os poucos amigos e conhecidos judeus
de esquerda. Em pouquíssimos casos consegui conversar com quem admitia que a
coisa não começou em 2023, nem com as Intifadas de 2000 e de 1987 e nem com a
ocupação de territórios palestinos em 1967. Em geral, eram conversas que
partiam de um denominador comum, mas que divergiam quando um lado via o Hamas
como principal culpado e o outro (eu, no caso) não.
Até o
Museu do Holocausto de Curitiba decepcionou. O trabalho de educação e
conscientização contra preconceito e intolerância feito por sua equipe é
fantástico. Tenho orgulho de saber que os depoimentos dos meus avós estão
expostos lá. Mas em pleno corredor que leva ao museu o visitante se depara com
uma insígnia imensa da IDF. Pode ser mera casualidade? Pode. Mas por que a
instituição permite a instalação de um símbolo das forças armadas de Israel
praticamente no acesso ao museu? E por que a instituição não se manifesta sobre
a questão palestina e os indícios de genocídio, já que seu trabalho, muito bem
feito, diga-se de passagem, promove a educação contra o preconceito e a favor
da tolerância entre os povos? Por que o lema “nunca mais” não é alterado para
“nunca mais para todos os povos”? Em setembro de 2025, o Museu do Holocausto de
Los Angeles gerou essa polêmica ao publicar a frase “nunca mais não pode valer
apenas para os judeus”, mas o post foi deletado logo depois.
É
notável como as instituições judaicas buscam vínculo constante com Israel.
Quando ocorre um ciclo de violência mais agudo, além das violências estrutural
e simbólica cotidianas contra os palestinos, os indicadores de antissemitismo
vão às alturas porque críticas legítimas a Israel são equiparadas, pelas mesmas
instituições, a antissemitismo. A diáspora faz força para ter sua imagem
atrelada a Israel, mas quando a barbárie contra palestinos atinge níveis mais
severos do que o “normal” os argumentos são “a comunidade judaica é plural” ou
“judeus não são responsáveis pelas ações de Israel”. Ora, então vamos repensar
o alinhamento quase automático a tudo que remete a este país?
Por
outro lado, recebi mensagens de parentes, de conhecidos e desconhecidos judeus
elogiando a coragem de me expor, dizendo que não podiam fazer o mesmo por
questões familiares e profissionais. Temiam retaliação, demissão ou perda de
clientes. E isso de fato ocorreu nos EUA com a demissão sumária de professores
judeus acusados de antissemitismo.
Nessa
errância identitária tentei me conectar até com os membros da Stand With Us que
fizeram palestras em Porto Alegre no final de 2025. Para ser sincero, eu
imaginava que não conseguiria me conectar. Ainda assim, fiz questão de
comparecer aos eventos para ouvir e me manifestar. Há algum tempo eles têm
criado novas colunas de formadores de opinião com seus cursos de complementação
acadêmica. Alguns dos argumentos mais tendenciosos que vi nesse evento seguem
abaixo.
Conforme
esperado, o Irã foi retratado como a encarnação pura e perfeita do mal na Terra
sem mencionar que o país se tornou uma força expressiva no Oriente Médio graças
à derrubada do Iraque de Saddam Hussein pelos EUA em 2003. Também se dizia que
o Hamas coopta palestinos que “perderam tudo” sem se dar ao trabalho de dizer
quem tomou tudo deles. Ainda, adotou-se o entendimento da IHRA1 de
antissemitismo, equivalendo-o a antissionismo. Outro palestrante desenterrou a
tese criticada por quase toda a comunidade de relações internacionais sobre o
choque de civilizações de Samuel Huntington para justificar as ações de Israel.
E ainda ouvi o relato de um jornalista judeu gaúcho que visitou o país por um
programa do governo – falando das maravilhas de lá sem esboçar qualquer
reflexão crítica do que viu ou do esforço de diplomacia pública para lavar a
imagem de Israel, que é o mínimo que se espera de um jornalista.
Admito
que fui um espectador incômodo e apontei algumas contradições do que se expunha
ali. Perguntei ao jornalista se ele fora levado a conhecer Sde Teiman. Quando
citei a frase atribuída a Bem-Gurion de que “se ele fosse árabe não faria a paz
com os sionistas” houve um burburinho de raiva e negação no público – porque é
horrível descobrir que nossos ídolos têm pés de barro. Perguntei sobre as 800
mil prisões administrativas feitas por Israel desde 1967 (número divulgado no
jornal Haaretz), sobre os assentamentos ilegais, sobre a caracterização de
genocídio em Gaza feita por ONGs de direitos humanos, juristas renomados e
cortes internacionais, sobre a aproximação das instituições judaicas no Brasil
com a extrema-direita e muito mais. Em um dos eventos fui xingado e hostilizado
por alguém da plateia, em outro gritaram que não era meu momento de dar
palestra. Admito que me empolguei no tempo, gastei alguns minutos questionando
cada fala, mas se fosse em tom de elogio, as hostilidades certamente não
viriam.
Em
suma, o depoimento de outra pessoa entrevistada por Bento (2025) ilustra a dor
e o custo emocional de fazer o rompimento com o sionismo.
(…)
fazer esse rompimento não é só você ver porque, sobretudo, as pessoas de
esquerda veem tudo, têm acesso ao mesmo material que a gente tem ou viaja e vê
as mesmas coisas, mas esse rompimento interno, a maioria tem que romper com a
família porque não tem jeito, a sua família que não quer saber de você de
maneira geral. Ou você tem que romper porque é insuportável as coisas que você
tem que ouvir, você não aguenta. Então é muito difícil, eu acho que precisa de
muita coragem.
Esse
rompimento é muito difícil porque Israel ataca como Estado, mas defende-se como
religião. Um dos argumentos mais usados pelos sionistas é que qualquer país
faria o que Israel faz se estivesse cercado por inimigos e fosse atacado por
grupos paramilitares como o Hamas. Mas acusações de limpeza étnica, apartheid e
genocídio são tratadas como ataques à religião e ao povo judeu. Portanto, não
há alternativa para os críticos. Por um lado, pedidos pela criação de um Estado
único com direitos iguais para todos são vistos como clamores de destruição de
Israel, pois significaria o fim da maioria demográfica judaica. Por outro,
pressões a Israel para conceder soberania plena à Palestina, seja por via
diplomática ou por campanhas de boicote ao país como o BDS, também são vistas
como antissemitas porque discriminariam pessoas e produtos de origem do Estado
judeu. Portanto, não há para onde correr. O funil de críticas a Israel que são
toleradas por seus defensores é cada vez mais estreito e por ali passa apenas a
versão da mídia corporativa convencional, que humaniza apenas o lado israelense
ou, no limite, usa da falsa equivalência de que os dois lados são governados
por radicais que não querem a paz. Em suma, não há para onde correr: se
defender qualquer alternativa que não seja a manutenção do status quo, você
será visto como antissemita, mesmo que seja judeu.
Fonte:
Outras Palavras

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