Como
remédios despejados em rios favorecem superbactérias
Aos 25
anos, Vanessa Carter sofreu um grave acidente de carro em Joanesburgo, na
África do Sul. Todos as ossos do lado direito do seu rosto quebraram, dando
início a anos de cirurgias reconstrutivas.
Seis
anos depois, Carter recebeu um implante protético para reconstruir a maçã do
rosto. Parecia que o pior já tinha passado. Mas, um dia, percebeu pus
escorrendo do rosto. Era uma infecção — que durou quase um ano.
"Eu
estava tomando antibióticos, consultando médicos, mas ninguém conseguia me dar
respostas”, contou à DW. "E, durante todo esse tempo, a infecção
bacteriana estava basicamente destruindo o tecido do meu rosto.”
O
culpado acabou sendo identificado: a MRSA (Staphylococcus aureus resistente à
meticilina) — uma das chamadas superbactérias, contra as quais muitos
antibióticos já não funcionam.
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Crise global pode causar 10 milhões de mortes por ano
A
resistência antimicrobiana — quando bactérias, vírus, fungos e parasitas
evoluem para resistir aos medicamentos — é considerada pelas Nações Unidas um
dos principais desafios globais de saúde.
A
organização estima que, até 2050, a resistência antimicrobiana pode causar 10
milhões de mortes por ano. Se não for controlada, poderá gerar custos anuais de
412 bilhões de dólares e reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em até
3,4 trilhões de dólares por ano na próxima década.
Entre
as causas do problema estão o uso excessivo ou inadequado de antibióticos e a
poluição por medicamentos no meio ambiente.
"Você
pode irrigar uma plantação com água que contém essas bactérias. Depois comemos
esses alimentos ou bebemos essa água”, explica Alistair Boxall, professor de
ciências ambientais da Universidade de York. "Essa resistência acaba
voltando para o nosso corpo".
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Contaminação por todo o planeta
Resíduos
farmacêuticos foram detectados em rios e solos em todo o mundo. Um estudo
recente analisou águas fluviais em mais de 1.000 locais em 104 países.
"Procuramos
61 tipos diferentes de medicamentos e, com poucas exceções, encontramos esses
resíduos em praticamente todos os lugares", disse Boxall.
Os
únicos locais sem vestígios de medicamentos foram a Islândia e uma aldeia
remota na floresta venezuelana, onde os moradores não utilizam a medicina
moderna. Em todos os outros locais, foram encontrados Metformina (para
diabetes), antibióticos, medicamentos para depressão, epilepsia, dores e
alergias. Em 25% dos locais, os níveis eram considerados prejudiciais à vida
selvagem.
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Como os remédios chegam ao ambiente
Quando
tomamos medicamentos, apenas parte deles é absorvida pelo corpo. O restante é
eliminado e vai parar nos sistemas de esgoto.
Além
disso, antibióticos são frequentemente usados em excesso. Humanos consomem mais
de 30 mil toneladas por ano, e cerca de um terço vai parar em rios. Muitas
estações de tratamento não conseguem remover essas substâncias completamente.
Globalmente, pouco mais da metade da água residual é tratada antes de ser
liberada.
Em
países de menor renda, a situação é pior, devido à falta de infraestrutura —
especialmente em partes da África subsaariana, sul da Ásia e América Latina.
Outras
fontes de poluição incluem indústrias farmacêuticas e a agropecuária (uso de
medicamentos em animais). Estimativas indicam que animais recebem pelo menos o
dobro de antibióticos consumidos pelos humanos. Quando o esterco é usado como
fertilizante, rios próximos podem ser contaminados.
Os
efeitos sobre a vida selvagem podem ser severos. Por exemplo, hormônios
artificiais de pílulas anticoncepcionais causaram "feminização” de peixes
machos na América do Norte, levando à queda de populações. Um estudo no Reino
Unido mostrou que o antidepressivo Prozac fez estorninhos, uma espécie de
pássaro, perderem o apetite e a libido
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Quais são as soluções?
Uma das
principais soluções é melhorar o tratamento de águas residuais, com novos
níveis de filtragem e uso de carvão ativado ou produtos químicos.
Mas
isso envolve alto custo, maior consumo de energia e possível geração de novos
compostos tóxicos.
A União
Europeia tem tomado medidas nesse sentido. Novas regras exigirão que estações
de tratamento sejam modernizadas e que indústrias farmacêutica e cosmética
cubram 80% dos custos.
Nos
EUA, a agência ambiental passou a incluir medicamentos na lista de
contaminantes da água potável. Ainda assim, especialistas alertam que o avanço
é lento — e soluções caras são inviáveis para países mais pobres.
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Medicamentos biodegradáveis
O
químico Klaus Kümmerer acredita que o futuro está na criação de medicamentos
que se decomponham totalmente após o uso.
"O
ideal seria que se transformassem completamente em dióxido de carbono e
água", disse.
Sua
equipe já desenvolveu medicamentos anticâncer biodegradáveis e alternativas ao
antibiótico ciprofloxacino. Essas drogas são projetadas para se decompor quando
chegam à bexiga, por meio de mudanças no pH.
No
entanto, elas ainda não chegaram ao mercado. "Somos um grupo universitário
pequeno. Não conseguimos levar isso até a comercialização. Agora, a indústria
precisa assumir", destacou Kümmerer.
Especialistas
destacam que usar menos medicamentos já ajudaria muito. E é bom sempre lembrar:
antibióticos não funcionam contra vírus (como resfriados). Os médicos também
deveriam prescrever remédios apenas quando realmente necessário, mas
infelizmente não é o que ocorre em muitos lugares.
Kümmerer
resume com um ditado popular: "Minha avó dizia: 'um resfriado dura uma
semana com remédio — e sete dias sem'".
Fonte:
DW Brasil

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