Tecnologias:
quando a América Latina ousou ser livre
Mesmo
que a historiografia tecnológica convencional costume situar o epicentro da
inovação no Norte, relegando o Sul Global ao papel de mero espectador ou
consumidor, sabe-se que existem vários exemplos alternativos e de resistência
abaixo da linha do Equador.
Um
deles foi o Projeto Cybersyn, uma audaciosa rede de gestão cibernética do Chile
no governo de Salvador Allende. Ainda que tenha sido abortado após o golpe
militar de 11 de setembro de 1973, esse esforço não foi único, nem isolado. Foi
apenas o capítulo mais célebre de uma vasta odisseia na América Latina. Entre
as décadas de 1960 e 1990, o britânico Stafford Beer, pai da cibernética
organizacional, percorreu a América Latina auxiliando empresas e governos a
implementar projetos variados, desde consultorias industriais até iniciativas
para promover a democracia participativa.
Estas
experiências mostram como a região sempre apostou em tecnologias alternativas
com objetivo de emancipação e soberania, ainda que tenha sido constantemente
cercadas pela instabilidade institucional.
José-Carlos
Mariátegui, pesquisador da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma (e homônimo
do grande pensador marxista peruano) aborda um pouco dessa história por meio de
um artigo publicado na revista científica Systemic Practice and Action
Research. O trabalho “Beyond Project Cybersyn” rompe com o reducionismo
histórico e investiga a trajetória dos projetos de Beer no continente
latinoamericano. Mariátegui fundamentou sua pesquisa em documentos inéditos da
Coleção Stafford Beer na Universidade Liverpool John Moores (SBCLJM) e no
Arquivo Darcy e Berta Ribeiro da Universidade de Brasília, além de algumas
entrevistas com figuras-chave e outros arquivos públicos.
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A trajetória de Stafford Beer
Depois
de Beer fundar uma empresa de consultoria, a SIGMA (Science in General
Management Ltd.), ele desembarcou no Chile em 1963 para trabalhar. Foi quando
estabeleceu contato com o jovem engenheiro Fernando Flores, que mais tarde
resultaria no projeto Cybersyn para Allende. Essa experiência foi abordada por
trabalhos de Eden Medina (Cybernetic Revolutionaries: Technology and Politics
in Allende’s Chile, de 2011) e, mais recentemente, pelo podcast de Evgeny
Morozov, The Santiago Boys. O que Mariátegui se propôs foi ir além da
experiência chilena e rastrear os outros passos de Beer no continente
latino-americano.
Muito
conhecido por criar um modelo matemático específico, o Viable System Model
(VSM), Beer continuou ativo em diversos países da América Latina até 1990.
Aplicou os conhecimentos da cibernética, ciência ainda em ascensão, para o
desenvolvimento de organizações, empresas e governos. Como um método, o VSM é
uma espécie de receita teórica com passos e recomendações. Porém, na América
Latina, ele teve a oportunidade de colocar essas ideias em prática e, por isso,
viu sua teoria ser adaptada a diferentes contextos. Com isso, também foi
possível observar seus limites conjunturais.
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Peru: o socialismo cibernético de Darcy Ribeiro
Em
1972, paralelamente à experiência no Chile, foi fundado o Centro de Estudos de
Participação Popular (CENTRO) no Peru. A ideia era criar uma “utopia viável”,
com participação popular direta, sob o governo de Velasco Alvarado. À frente da
iniciativa estavam o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro e o matemático
argentino Oscar Varsavsky.
A
colaboração de Beer e Darcy Ribeiro foi perene, e a troca entre mensagens e
cartas continuou por um longo período, segundo a investigação Mariátegui: “Eles
compartilhavam uma filosofia humanista que transparece nos arquivos em forma de
desenhos e anotações conjuntas, revelando uma profunda conexão pessoal”.
A ideia
do CENTRO não era automatizar o trabalho, mas abolir as estruturas assimétricas
de poder. O computador seria como um motor lógico e não somente um repositório
de dados. A ideia era criar uma “infraestrutura de feedback” que permitisse ao
povo decidir seu futuro de forma soberana, longe dos modos de produção
ocidentais. O projeto foi interrompido pelo golpe peruano de 1975.
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Uruguai Cibernético: URUCIB desafiava a fórmula pronta do Norte
Durante
a presidência de Julio María Sanguinetti (1985-1990), o Uruguai tornou-se palco
do URUCIB (Uruguai Cibernético). O sistema utilizava um software chamado
Cyberfilter para monitorar variáveis microeconômicas e detectar instabilidades
incipientes antes de se tornarem crises.
Beer
colaborou com o projeto mas, assim como em outras situações, duvidava que o
software pudesse ser desenvolvido localmente. Os engenheiros uruguaios,
liderados por Víctor Ganón, não só provaram o contrário como criaram o primeiro
software exportado pelo país. O sistema foi adotado pela Argentina, Nicarágua e
outros países.
No
cenário uruguaio, isso impulsionou a formação tecnológica e o estudo da ciência
da computação. Contudo, o fim do projeto revelou o risco de perda da soberania
tecnológica: com a mudança de governo e a pressão por softwares padronizados de
corporações globais, o sistema local foi abandonado em favor de soluções
genéricas que ignoravam a complexidade única da governança nacional.
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Colômbia: a experiência mais duradoura
A
experiência mais longeva ocorreu na Colômbia (1993-2002), sob a liderança da
engenheira Ângela Espinosa. O modelo organizacional criado por Beer, o Modelo
de Sistema Viável, foi aplicado para redesenhar a Controladoria Geral e o
sistema escolar nacional. O projeto Synergia foi um sucesso que sobreviveu aos
governos de César Gaviria e Ernesto Samper.
Em uma
conferência em Cartagena, Beer proferiu uma frase que se tornou o mantra do
projeto: “A corrupção é um produto do sistema; a corrupção não é uma entidade
em si… Se o sistema é corrupto, é porque foi desenhado para ser corrupto.
Então, vamos redesenhá-lo.”
Ao
contrário dos modelos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a
abordagem colombiana focou na autonomia local e na participação de pais e
alunos, provando que era possível descentralizar o poder em vez de
concentrá-lo. O sistema foi desenhado para que pais e alunos tivessem agência
real, transformando a educação em um processo de participação, e não apenas de
entrega de métricas.
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México e Venezuela: onde não houve sucesso
Nem
toda semente prosperou. No México, entre 1982 e 1983, Beer desenhou um projeto
para alterar a logística de transporte e entrega de alimentos, evitando
desperdícios, mas esbarrou na burocracia estatal e resistências à mudanças.
Na
Venezuela, em 1989, o projeto Cybervenez (Venezuela Cibernética) colapsou
diante da crise institucional no país chamada de Caracazo. A ideia era criar
uma sala municiada com dados em tempo real para tomadas de decisão, parecida
com a Opsroom do Cybersyn e utilizar o software uruguaio Cyberfilter.
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Cibernética e Neoliberalismo
Há um
paradoxo expresso na análise de Mariátegui: as ferramentas de Beer, concebidas
para a autonomia e o feedback democrático, foram por vezes apropriadas pelas
elites neoliberais dos anos 1990.
Houve
uma assimilação perversa: em vez de usar a cibernética para maximizar a
liberdade, tecnocratas a utilizaram para garantir a eficiência do mercado e a
privatização, reduzindo realidades sociais complexas a métricas frias. Onde
Beer via possibilidade de participação, o neoliberalismo possibilitava apenas
otimização de custos.
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Um futurismo latino-americano
A
trajetória de Stafford Beer na América Latina prova que a região foi
protagonista de uma inovação global que desafia a dicotomia centro-periferia. O
modelo criado por ele não era um simples conjunto de diagramas, mas uma
linguagem para imaginar uma sociedade mais equitativa e participativa.
O
legado dessa odisseia reside na visão compartilhada por Beer e Darcy Ribeiro: a
de que a tecnologia digital, longe de ser necessariamente um instrumento de
controle autoritário, pode (e deve) ser o sistema nervoso de uma democracia
vibrante.
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Capitalismo de vigilância no Sul Global
A
reflexão de Mariátegui se enquadra no eixo de pesquisa que OplanoB classifica
como “capitalismo de vigilância a partir Sul Global”. Essa perspectiva
direciona o olhar para as as resistências, as assimetrias de poder e as
iniciativas que surgem no Sul Global para desestabilizar as relações com o
Norte.
Nas
décadas em que Beer percorreu a América Latina, o capitalismo de vigilância
ainda não existia. Entretanto, pode-se pensar como os desenvolvimentos
aplicados dos mesmos princípios da cibernética podem resultados bastante
diferentes.
O
estudo de caso pode ajudar a imaginar o quanto o design dos sistemas que regem
nossa vida atual pode ser utilizado ou para expandir nossa liberdade ou para
nos confinar em uma nova e eficiente forma de controle tecnocrático, seja ele
político ou de mercado.
A
experiência de projetos inspirados nos modelos de Stafford Beer nos é útil para
pensar outros momentos de protagonismo de tecnologias alternativas na AL. É o
caso do uso do software livre entre o final dos anos 1990 e o início deste
século como política pública por governos brasileiros.
Ainda
que de forma incipiente, a adoção de softwares alternativos levou a uma disputa
declarada entre a indústria e setores do mercado em relação aos anseios dos
governos (estaduais e federal) em adotar soluções de código aberto para
modernizar a máquina pública.
Grandes
corporações atuaram publicamente e também no lobby. Houve uma influência em
todo o continente para que as mesmas iniciativas fossem barradas. Em 2002, no
Peru, houve uma proposta de lei para facilitar a adoção de software livre na
administração pública, o que rendeu uma carta aberta da Microsoft ao seu
proponente. No Brasil, foi criado inclusive um conceito de software público, o
“Software Público Brasileiro” que juntava regramentos jurídicos, ajustados à
administração pública, com um software de disponibilização de soluções criadas
pelo governo para adoção por outras instâncias.
Essas
iniciativas tiveram avanços e retrocessos ao longo dos anos, mas marcaram uma
época e uma geração, assim com a geração de Beer for marcada pelos seus
experimentos.
O
trabalho de Mariátegui se encaixa no eixo de pesquisa do OplanoB que é
classificado como “Capitalismo de Vigiância a partir do Sul Global”, que
considera as iniciativas de resistências e as formas alternativas que visam
desestabilizar as relações de poder e colonialidade. É claro que o período em
que se refere a pesquisa não está em jogo um capitalismo de vigilância tal qual
como se apresenta atualmente, entretanto, pode-se considerar que as bases sobre
como a cibernética foi interpretada, tratada e instaurada desde então
influenciaram para o arranjo de poder atual.
Fonte:
Por Fabricio Solagna, no OPlanoB

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