Henrique
Morrone: Distribuição funcional da renda no Brasil
Chama
atenção, para não dizer algo mais incômodo, a escassez de trabalhos acadêmicos
que investiguem a evolução da distribuição funcional da renda no Brasil
articulada à sua decomposição estrutural. Como se a renda se distribuísse no
vazio, e não no interior de uma estrutura produtiva em constante agitação. Mas
a distribuição não paira no ar. Ela carrega o peso da estrutura que a sustenta.
Talvez
essa ausência não seja apenas um descuido. Talvez diga algo sobre nós – e sobre
a forma como aprendemos a olhar o problema. A distribuição aparece, com
frequência, como resultado: uma variável que sobe ou desce ao sabor de forças
agregadas – tecnologia, globalização, instituições, barganha. Um número que
reage. Raramente um número que se reorganiza.
Mas
reorganiza. E, quando o faz, não é na superfície. Entre 2000 e 2020, o Brasil
ofereceu um experimento silencioso – e, por isso mesmo, revelador. O que se vê,
à distância, é um movimento conhecido: a parcela do trabalho cresce nos anos
2000, perde fôlego e estabiliza em queda na década seguinte.
Um arco
que parece caber nas narrativas usuais. Mas o agregado suaviza o que importa. O
que a decomposição revela é menos uma trajetória e mais um desalinhamento
progressivo. Não há ruptura súbita. Há descoordenações que se acumulam, nem
sempre silenciosamente, entre salários, produtividade, preços e estrutura.
No
início, a engrenagem ainda encontra algum ritmo. Os salários reais avançam. A
produtividade também. Nem sempre juntos, mas ainda em relação. A parcela do
trabalho cresce porque há, ainda que de forma imperfeita, uma correspondência
entre o que se produz e o que se paga. A economia avança – não por
transformação estrutural profunda, mas por um alinhamento provisório.
Era
pouco. Mas era suficiente para sustentar a aparência de continuidade. Essa
aparência não resiste. A partir da década seguinte, o que antes era diferença
se torna distância. A produtividade segue seu curso, ainda que de forma mais
lenta. Os salários perdem impulso. Em alguns momentos, recuam. A parcela do
trabalho não desaba. Ela desacopla. Deixa de acompanhar.
A
distribuição, nesse ponto, não entra em colapso. Ela muda de base. Passa a
depender menos da dinâmica salarial e mais da forma como o trabalho se
distribui entre setores. E é aqui que a estrutura reaparece – não como pano de
fundo, mas como mecanismo.
O
trabalho se move. Setores encolhem, outros se expandem. Nada disso é novo. O
que chama atenção é a direção desse movimento. A mão de obra não migra,
predominantemente, para onde a produtividade cresce. Migra para onde há
absorção. E absorção, aqui, não é sinônimo de dinamismo.
Os
serviços – sobretudo aqueles de baixa produtividade – tornam-se o principal
destino. A economia continua se movendo, mas o faz lateralmente – como um
caranguejo, que se desloca sem avançar. Como um sistema que, sem força para
avançar, redistribui seu peso para não cair.
Essa
redistribuição sustenta, parcialmente, a parcela do trabalho. Setores com maior
intensidade laboral ampliam seu peso. Compensam, até certo ponto, a perda de
tração dos salários. A distribuição se preserva – não porque se fortalece, mas
porque se reacomoda. É uma estabilidade que cobra preço. Por isso, a parcela
salarial não oscila de forma cambaleante. Não despenca, mas reduz o horizonte.
A
produtividade, nesse arranjo, deixa de sustentar a parcela salarial. Passa a
operar, em muitos casos, como um processo paralelo, cujos ganhos não se
transmitem integralmente ao trabalho. O que antes era tensão administrável
torna-se dissociação persistente.
E há
ainda os preços. Setores menos produtivos encarecem relativamente. Não por
eficiência, mas por sua ausência. É o mecanismo descrito por William Baumol:
atividades estagnadas pressionam custos e alteram a estrutura de preços. Mas,
no caso brasileiro, falta a engrenagem que fecharia o circuito.
Os
salários não convergem. Os preços sobem onde a produtividade não avança, mas os
rendimentos não acompanham de forma homogênea. O ajuste não ocorre por
equalização. Ocorre por compressão. A renda real perde densidade, e a
distribuição se reorganiza sem resolver a tensão que a atravessa.
Se
William Baumol aparece como diagnóstico parcial, Arthur Lewis surge invertido.
No modelo clássico, o desenvolvimento desloca trabalho de setores de baixa
produtividade para setores de alta produtividade. Em nosso mundo bizarro
nacional, o deslocamento ocorre sem destino equivalente. A indústria não
absorve na escala necessária. O dinamismo não se generaliza.
O
excedente de trabalho não desaparece. Ele se reorganiza. Espraia-se por
atividades que sustentam ocupação, mas não ampliam a capacidade produtiva do
sistema. Não é a superação do dualismo. É sua reconfiguração. Um Arthur Lewis
ao avesso.
Ao se
olhar no espelho, a parcela salarial vê seu reflexo invertido: a parcela dos
lucros. Esta, no Brasil, constitui um componente central da taxa de lucro –
variável que orienta a acumulação de capital e, em última instância, o próprio
crescimento. Sua outra face, menos visível, é a produtividade do capital.
Quando esta declina, como tem ocorrido de forma persistente, a taxa de lucro
passa a depender cada vez mais da compressão da parcela salarial.
É nesse
ponto que as engrenagens institucionais entram em cena. Muitas das mudanças
institucionais implementadas logo após a crise de 2015 parecem operar
precisamente sobre esse reflexo invertido: não ampliam a produtividade, não
reconstroem a base produtiva, mas tentam sustentar a rentabilidade por meio de
redistribuição regressiva. O resultado é conhecido. A parcela salarial encolhe
para que a dos lucros respire – ainda que por pouco tempo –, alimentando a
dinâmica de uma acumulação que segue dependente e ofegante.
Nesse
contexto, a parcela do trabalho deixa de ser apenas um indicador distributivo.
Torna-se um sintoma estrutural. Ela expressa não apenas quanto o trabalho
recebe, mas onde está inserido – e em que tipo de dinâmica produtiva se ancora.
A
economia brasileira, nesse período, não parou. Mas também não avançou como
poderia. Oscilou dentro de um intervalo estreito. Ajustou-se pelas margens.
Reorganizou suas partes sem alterar, de forma decisiva, o seu núcleo. A
distribuição acompanhou esse movimento. Cresceu quando havia fôlego,
estabilizou quando ele faltou, apoiou-se na estrutura quando os salários já não
sustentavam. O resultado é um equilíbrio instável.
A
parcela salarial não colapsa. Mas tampouco encontra base sólida para crescer.
Sustenta-se por deslocamento, não por expansão. Pela composição, não pelo
dinamismo. E talvez seja justamente por isso que a literatura ainda hesite.
Porque reconhecer esse processo exige abandonar a ideia confortável de que a
distribuição pode ser analisada isoladamente. Exige recolocá-la onde sempre
esteve – no interior de uma estrutura que produz, absorve, desloca e, por
vezes, limita.
A
distribuição não paira no ar. E, quando a estrutura se move sem avançar, ela
também não vai muito longe. Não é de se surpreender com o recorde de
endividamento das famílias num ambiente em que a renda que não avança é
acompanhada da expansão de um crédito caro.
Fonte:
A Terra é Redonda

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