Brinquedos
que controlam crianças?
Ninguém
nasce consumista. A disposição para consumir, desejar e atribuir valor aos
objetos é produzida historicamente nas relações sociais que organizam a vida
cotidiana. Desde os primeiros anos de vida, crianças são inseridas em uma
cultura marcada pela expansão do mercado sobre diferentes dimensões da
existência, inclusive aquelas tradicionalmente associadas ao desenvolvimento
humano, à imaginação e ao brincar.
Essa
realidade pode ser observada no mercado de brinquedos, um dos segmentos que
mais crescem no Brasil. Dados recentes apontam que o setor movimenta mais de R$
10 bilhões por ano, impulsionado pela ampliação do comércio eletrônico, pela
diversificação de produtos tecnológicos e pelo fortalecimento de estratégias de
marketing direcionadas ao público infantil. Em média, cada criança brasileira
consome cerca de onze brinquedos por ano, em um contexto no qual a indústria se
reinventa continuamente para produzir novas demandas e ampliar mercados
consumidores.
À
primeira vista, o crescimento do setor pode ser interpretado como sinal de
maior acesso das crianças a bens de consumo. Entretanto, essa expansão suscita
uma questão mais profunda: qual é a função social dos brinquedos na
contemporaneidade? Eles continuam sendo instrumentos de mediação entre a
criança e o mundo social ou passaram a desempenhar prioritariamente a função de
mercadorias destinadas à realização do lucro?
Essa
indagação orienta uma pesquisa desenvolvida no Instituto Federal Goiano (IF
Goiano) e na Universidade Federal de Goiás (UFG), dedicada a compreender as
transformações históricas do brinquedo e os impactos de sua crescente
mercantilização. O estudo demonstra que os brinquedos nem sempre ocuparam o
lugar que possuem atualmente. Durante longos períodos históricos, eram
produzidos artesanalmente no interior das famílias e comunidades,
frequentemente a partir dos materiais disponíveis no cotidiano. Mais do que
objetos destinados ao entretenimento, constituíam formas pelas quais as
crianças reproduziam, reinterpretavam e compreendiam as práticas sociais
observadas no mundo adulto.
Com a
consolidação da produção industrial e a expansão das relações capitalistas, os
brinquedos passaram a ser incorporados de maneira crescente à lógica mercantil.
Produzidos em larga escala, padronizados e distribuídos globalmente, deixam de
expressar experiências locais para se converterem em mercadorias cuja
existência depende fundamentalmente da circulação e da venda. Nesse processo, o
valor de uso associado ao brincar passa a coexistir com uma função econômica
cada vez mais central: estimular o consumo contínuo.
A
análise dialoga com o conceito marxiano de fetichismo da mercadoria, segundo o
qual os produtos do trabalho humano aparecem como objetos dotados de valor
próprio, ocultando as relações sociais que os produziram. No caso dos
brinquedos, essa dinâmica assume contornos particularmente significativos. O
objeto surge para a criança revestido de encantamento, associado a promessas de
felicidade, pertencimento e realização pessoal, enquanto permanecem invisíveis
os processos produtivos, as estratégias publicitárias e os interesses
econômicos envolvidos em sua circulação.
Uma
imagem ilustrativa dessa dinâmica pode ser encontrada na história O Aprendiz de
Feiticeiro. Na narrativa, as vassouras encantadas escapam ao controle daquele
que as colocou em movimento. De forma semelhante, os brinquedos-mercadorias
parecem adquirir uma autonomia própria na sociedade contemporânea. Não são mais
apenas objetos destinados ao brincar; tornam-se portadores de desejos
socialmente produzidos, orientando comportamentos, expectativas e formas de
sociabilidade.
Esse
processo é intensificado pelas tecnologias digitais. Algoritmos,
influenciadores mirins, publicidade personalizada e redes sociais ampliam
significativamente a exposição das crianças aos estímulos de consumo. O
brincar, atividade historicamente vinculada à imaginação, à experimentação e à
criação coletiva, passa a ser atravessado por uma lógica que valoriza a
aquisição permanente de novos produtos. O desejo não se dirige prioritariamente
à experiência lúdica, mas ao objeto que promete realizá-la.
As
consequências ultrapassam o universo do consumo. Manifestam-se na constituição
subjetiva das crianças, frequentemente expostas a sentimentos de ansiedade,
frustração e insatisfação permanente; nas relações familiares, tensionadas pela
associação entre afeto e aquisição de mercadorias; nos espaços escolares, onde
diferenças de consumo podem converter-se em mecanismos de distinção social; e
também no meio ambiente, marcado pelos impactos da produção em massa e do
descarte acelerado de produtos.
A
questão central, portanto, não é condenar a existência dos brinquedos
industrializados nem idealizar formas passadas de brincar. Trata-se de
compreender como a infância tem sido progressivamente incorporada às dinâmicas
de acumulação do capital e quais são os efeitos desse movimento sobre a
formação humana. Em uma sociedade na qual praticamente todas as esferas da vida
tendem a ser mercantilizadas, defender o direito ao brincar significa também
defender espaços de experiência que não estejam integralmente subordinados à
lógica do consumo.
A
pesquisa completa pode ser consultada no capítulo O fetichismo do
brinquedo-mercadoria: um rato aprendiz de feiticeiro, objetos que ganham vida
própria e controlam seu criador, publicado no livro Educação Infantil:
diálogos, pesquisas e práticas, disponível gratuitamente pela Universidade
Federal de Goiás.
Fonte:
Leonardo Andrade, no Le Monde

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