segunda-feira, 1 de junho de 2026

Brinquedos que controlam crianças?

Ninguém nasce consumista. A disposição para consumir, desejar e atribuir valor aos objetos é produzida historicamente nas relações sociais que organizam a vida cotidiana. Desde os primeiros anos de vida, crianças são inseridas em uma cultura marcada pela expansão do mercado sobre diferentes dimensões da existência, inclusive aquelas tradicionalmente associadas ao desenvolvimento humano, à imaginação e ao brincar.

Essa realidade pode ser observada no mercado de brinquedos, um dos segmentos que mais crescem no Brasil. Dados recentes apontam que o setor movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano, impulsionado pela ampliação do comércio eletrônico, pela diversificação de produtos tecnológicos e pelo fortalecimento de estratégias de marketing direcionadas ao público infantil. Em média, cada criança brasileira consome cerca de onze brinquedos por ano, em um contexto no qual a indústria se reinventa continuamente para produzir novas demandas e ampliar mercados consumidores.

À primeira vista, o crescimento do setor pode ser interpretado como sinal de maior acesso das crianças a bens de consumo. Entretanto, essa expansão suscita uma questão mais profunda: qual é a função social dos brinquedos na contemporaneidade? Eles continuam sendo instrumentos de mediação entre a criança e o mundo social ou passaram a desempenhar prioritariamente a função de mercadorias destinadas à realização do lucro?

Essa indagação orienta uma pesquisa desenvolvida no Instituto Federal Goiano (IF Goiano) e na Universidade Federal de Goiás (UFG), dedicada a compreender as transformações históricas do brinquedo e os impactos de sua crescente mercantilização. O estudo demonstra que os brinquedos nem sempre ocuparam o lugar que possuem atualmente. Durante longos períodos históricos, eram produzidos artesanalmente no interior das famílias e comunidades, frequentemente a partir dos materiais disponíveis no cotidiano. Mais do que objetos destinados ao entretenimento, constituíam formas pelas quais as crianças reproduziam, reinterpretavam e compreendiam as práticas sociais observadas no mundo adulto.

Com a consolidação da produção industrial e a expansão das relações capitalistas, os brinquedos passaram a ser incorporados de maneira crescente à lógica mercantil. Produzidos em larga escala, padronizados e distribuídos globalmente, deixam de expressar experiências locais para se converterem em mercadorias cuja existência depende fundamentalmente da circulação e da venda. Nesse processo, o valor de uso associado ao brincar passa a coexistir com uma função econômica cada vez mais central: estimular o consumo contínuo.

A análise dialoga com o conceito marxiano de fetichismo da mercadoria, segundo o qual os produtos do trabalho humano aparecem como objetos dotados de valor próprio, ocultando as relações sociais que os produziram. No caso dos brinquedos, essa dinâmica assume contornos particularmente significativos. O objeto surge para a criança revestido de encantamento, associado a promessas de felicidade, pertencimento e realização pessoal, enquanto permanecem invisíveis os processos produtivos, as estratégias publicitárias e os interesses econômicos envolvidos em sua circulação.

Uma imagem ilustrativa dessa dinâmica pode ser encontrada na história O Aprendiz de Feiticeiro. Na narrativa, as vassouras encantadas escapam ao controle daquele que as colocou em movimento. De forma semelhante, os brinquedos-mercadorias parecem adquirir uma autonomia própria na sociedade contemporânea. Não são mais apenas objetos destinados ao brincar; tornam-se portadores de desejos socialmente produzidos, orientando comportamentos, expectativas e formas de sociabilidade.

Esse processo é intensificado pelas tecnologias digitais. Algoritmos, influenciadores mirins, publicidade personalizada e redes sociais ampliam significativamente a exposição das crianças aos estímulos de consumo. O brincar, atividade historicamente vinculada à imaginação, à experimentação e à criação coletiva, passa a ser atravessado por uma lógica que valoriza a aquisição permanente de novos produtos. O desejo não se dirige prioritariamente à experiência lúdica, mas ao objeto que promete realizá-la.

As consequências ultrapassam o universo do consumo. Manifestam-se na constituição subjetiva das crianças, frequentemente expostas a sentimentos de ansiedade, frustração e insatisfação permanente; nas relações familiares, tensionadas pela associação entre afeto e aquisição de mercadorias; nos espaços escolares, onde diferenças de consumo podem converter-se em mecanismos de distinção social; e também no meio ambiente, marcado pelos impactos da produção em massa e do descarte acelerado de produtos.

A questão central, portanto, não é condenar a existência dos brinquedos industrializados nem idealizar formas passadas de brincar. Trata-se de compreender como a infância tem sido progressivamente incorporada às dinâmicas de acumulação do capital e quais são os efeitos desse movimento sobre a formação humana. Em uma sociedade na qual praticamente todas as esferas da vida tendem a ser mercantilizadas, defender o direito ao brincar significa também defender espaços de experiência que não estejam integralmente subordinados à lógica do consumo.

A pesquisa completa pode ser consultada no capítulo O fetichismo do brinquedo-mercadoria: um rato aprendiz de feiticeiro, objetos que ganham vida própria e controlam seu criador, publicado no livro Educação Infantil: diálogos, pesquisas e práticas, disponível gratuitamente pela Universidade Federal de Goiás.

 

Fonte: Leonardo Andrade, no Le Monde

 

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