Ouro
amazônico é "lavado" com conivência do sistema oficial
Dentro
da Terra Indígena (TI) Kayapó, no estado do Pará, faixas extensas de terra
revirada e lagos artificiais de tom esverdeado indicam que um crime está em
andamento. O cenário é típico do garimpo ilegal de ouro, uma atividade que
deixa pouca chance para a Floresta Amazônica se regenerar.
De
origem ilegal por ser extraído dentro de um território indígena, o metal
proveniente dessas áreas costuma passar por um processo de simulação de rito
legal para poder ser vendido. O roteiro é conhecido há décadas pelas
autoridades, mas segue se repetindo.
A
poucos quilômetros fora do limite da TI, um local autorizado para explorar ouro
comercializa uma quantidade completamente desproporcional.
Considerando
a área em questão, o peso do metal declarado em notas de vendas é dez vezes
maior do que a produção seria capaz de suprir. A suspeita é que parte desse
ouro tenha vindo, na verdade, do garimpo dentro da terra indígena.
Este é
apenas um dos casos de "lavagem de ouro" identificados numa
investigação da ONG Greenpeace. Ao longo de um ano, a organização rastreou a
origem de 26,8 toneladas de ouro declaradas por empresas que exploram o metal e
concluiu que o esquema de irregularidades continua vivo.
"A
culpa não é só do garimpeiro. É do barão que financia o garimpo e de todas as
lacunas e brechas que a legislação deixa para que ele opere", afirma à DW
Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil.
A
denúncia faz parte do relatório Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma
fraude, publicado nesta sexta-feira (29/05). O documento detalha como o sistema
previsto pela lei tem sido usado para "esquentar" o minério extraído
ilegalmente e as falhas na fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM).
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A falha no sistema
A
manipulação começa na Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). Esse tipo de
autorização foi criada em 1989 pelo governo do então presidente José Sarney e
libera extração de minérios – como ouro e diamante – em pequena escala, numa
área de até 0,5 quilômetro quadrado por pessoa física.
Entrar
com um pedido de PLG é relativamente simples e pode ser feito online: o
requerente precisa indicar as coordenadas geográficas da área, fornecer um
plano de aproveitamento e o método de extração e alguns documentos pessoais.
Não é exigida uma pesquisa mineral prévia e, depois de autorizada, cabe à ANM
fiscalizar as atividades.
O
relatório do Greenpeace analisou 187 PLGs ativas entre 2018 e março de 2026.
Segundo a investigação, 98 delas, que representam quase a totalidade do ouro
declarado (97%), apresentaram irregularidades. Elas foram concedidas a pessoas
e cooperativas nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia. No período, esse
grupo declarou ter comercializado 26,8 toneladas de ouro – o que corresponderia
a cerca de R$ 19,5 bilhões.
O
problema já foi denunciado no passado pela sociedade civil, foi alvo de
inquérito da Polícia Federal, movimentou o Supremo Tribunal Federal (STF) e foi
escancarado por auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) e da
Controladoria-Geral da União (CGU).
"Mesmo
com todos esses alertas já dados, a ANM não está fazendo o que cabe a ela, que
é fechar o canal de lavagem de ouro dentro do país", critica Aguiar.
André
Porreca, procurador da República na Amazônia Ocidental, acompanha o debate de
perto. Conhecedor de cada detalhe da trajetória que o ouro faz até chegar às
joalherias, ele afirma que é preciso a fiscalização na origem.
"Na
primeira etapa da produção, a origem do ouro é baseada na autodeclaração. O
garimpeiro extrai o ouro, que vende para a cooperativa, que vende para a
Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM). E essa vai transformar o
metal em artigo financeiro e vai vender o ouro para a refinadora. Mas o
problema está lá no começo", pontua o representante do Ministério Público
Federal.
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Furos rastreáveis
Todos
os dados analisados pelo Greenpeace são públicos. O rastreio é possível por
meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), uma
espécie de imposto pago à União, estados e municípios por quem explora o
minério. O documento registra informações como nome, local de extração e valor
arrecadado.
Depois
de analisar imagens de satélite, de radar e realizar diversos sobrevoos para
checar se as informações da CFEM correspondiam com a realidade da área de
extração, o Greenpeace concluiu que a maioria das PLGs declaradas tinham sinais
de fraude. Algumas delas eram, de fato, garimpos fantasmas ou mantinham
operações desproporcionais de escala industrial.
"A
ANM tem capacidade de cruzar dados com a Receita Federal – que são inacessíveis
à sociedade civil – e utilizar o sistema Brasil Mais, que já se provou
eficiente no trabalho da Polícia Federal e Ibama para identificar fraudes. Mas
não o faz", aponta Aguiar.
O
programa Brasil Mais, criado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública,
fornece imagens diárias de satélite em alta resolução e alertas como
desmatamento, garimpo, incêndios e plantio de culturas ilegais com o objetivo
de inibir crimes ambientais.
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O impacto nefasto do garimpo
A TI
Kayapó é a mais afetada pelo garimpo entre os territórios indígenas no Brasil.
O mapeamento detalhado do projeto Amazon Mining Watch, da Amazon Conservation,
Earth Genome e Pulitzer Center, aponta que a área destruída pela atividade
saltou de 4,2 hectares em 2018 para 8 hectares em 2025. A situação também é
crítica nos Yanomami e Munduruku.
"A
atividade garimpeira não é capaz de conviver com a floresta. Se fosse símbolo
de desenvolvimento, Itaituba seria uma Amsterdã", avalia Aguiar,
referindo-se ao município paraense conhecido como "capital do ouro".
No
Índice de Progresso Social (IPS), ferramenta que pontua de 0 a 100 o nível de
bem-estar social e ambiental das cidades, Itaituba é uma das últimas colocadas
no ranking nacional, com nota 51. Quesitos como acesso à água e saneamento e
direitos individuais têm as piores avaliações.
Para os
indígenas, o garimpo provoca destruição e graves problemas de saúde. O mercúrio
usado para separar o ouro é despejado nos rios, acumula-se nos peixes
consumidos e causa danos neurológicos irreversíveis.
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Ouro e fiscalização
Não se
sabe quantos garimpeiros atuam no país. A alta do preço do ouro registrada
desde 2025, motivada pelo cenário geopolítico incerto e a disparada de compras
por bancos centrais, é apontada como um dos gatilhos para a ilegalidade na
Amazônia.
Em
2023, um estudo do Instituto Escolhas calculou que 94% do ouro brasileiro
importado pela Europa vinham de áreas de risco. O material exportado sai
principalmente dos estados do Pará e do Amazonas, dominados por permissões de
lavras garimpeiras. Alemanha e Itália são os maiores compradores europeus do
metal extraído no Brasil.
Questionada
pela DW, a ANM admitiu que o "chamado "esquentamento” de ouro ilegal
constitui um dos principais desafios regulatórios e fiscalizatórios do setor
mineral brasileiro. Afirmou ainda que está fortalecendo mecanismos de controle
documental, geoespacial e operacional voltados especialmente às PLGs.
Em
julho de 2025, uma auditoria do TCU havia determinado que a agência cancelasse
as permissões de lavra garimpeira ilícitas em um prazo de três meses. Em março
de 2026, como o relatório recente apontou, muitas continuavam ativas
Existem
atualmente 17,3 mil requerimentos de PLG em tramitação na ANM, informou a
agência à DW. Em todo país, aproximadamente 3,2 mil permissões foram
outorgadas. O órgão não disse quantas já foram canceladas por irregularidades.
Para
acabar com a fraude, especialistas ouvidos pela DW recomendam a implementação
de um sistema de rastreabilidade e uma fiscalização rígida. Aguiar defende que
o órgão exija pesquisa mineral prévia para outorga de novas PLGs e que
identifique e cancele todas as PLGs fantasmas.
"A
gente já apontou casos demais nesses anos e a ANM continua sem tomar a devida
providência", critica Aguiar.
Fonte:
DW Brasil

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